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“Sílvio Cássio Bernardo, 54 anos”, informa a placa fixada na porta do quarto do hospital. Lá dentro, sentada na cama de acompanhante, está Márcia, uma das duas irmãs mais velhas do artista. Desabafa: “Ele não se cuida, acha que é forte demais”. Errada, ela não está. Sílvio, um homem gay, negro, vindo da periferia de São Paulo, criou uma personagem maior que a sua vida. Silvetty Montilla é fortíssima.

Silvetty Montilla - Arquivo Pessoal
Silvetty Montilla – Arquivo Pessoal

Em seus 34 anos de carreira, a transformista, como faz questão de ser chamada, já subiu aos palcos mais de 12 mil vezes. “Desde que comecei a me montar, nunca parei de trabalhar”. Nem a Pandemia da Covid-19, que caiu como uma bomba sobre toda a vida noturna, e levou grandes casas de São Paulo – como a The Week e a Cantho – a encerrarem as atividades, conseguiu parar Silvetty. Ela deu um jeito de continuar a produzir entretenimento. Mesmo sem saber cozinhar, criou a “Cozinha com Montilla”, uma hilária websérie de culinária gravada na cozinha de seu apartamento. Aprendeu a usar as mídias sociais, fez lives de “Quanto Vale o Show” em troca de pífias transferências de pix, vendeu rifa, fez publi de sex shop. Com enorme alívio, tomou suas doses de vacina e voltou para noite – belíssima, ocupadíssima. Mas, em abril de 2022, durante uma turnê em Florianópolis, Santa Catarina, sua luz fraquejou. Ao voltar da segunda apresentação da noite, sentiu-se muito mal. “Não mexia as pernas, nem os braços, não conseguia pegar nem meu telefone, que tava do meu lado. E tudo isso durou 10 horas, até que abriram a porta e me encontraram”. Sílvio é diabético e toma insulina diariamente. Essa condição, somada a uma alimentação insuficiente, resulta em hipoglicemia – quando a glicose no sangue cai tanto que pode levar ao coma e, em última instância, à morte. “Eu fiquei consciente essas horas todas”. “Cheguei, sim, a achar que fosse morrer. Passou aquele filme da minha vida na cabeça”, relata.

Silvetty Montilla - Arquivo Pessoal
Silvetty Montilla – Arquivo Pessoal

Esse filme passaria facilmente na Sessão da Tarde, não fosse pela linguagem altamente imprópria. Começaria no início da década de 80, nos bastidores da Val Show, que ficava na Rua Amaral Gurgel. A apresentação daquela noite se chamava “Porque Choras Nordeste?”. Criado, dirigido, roteirizado e protagonizado pelo figurinista e costureiro Di Carlos, o musical contava a saga da cantora Elba Ramalho rumo ao estrelato. O show também trazia em sua trama várias outras divas da música brasileira, como Maria Bethânia, Alcione e Zezé Motta. Todas as cantoras eram representadas por homens fielmente caracterizados, que dançavam coreografias e dublavam as músicas. Sim, jovens, essa cena se passa em São Paulo, Brasil, 1980. Di Carlos interpretava Elba Ramalho e também fazia todos os figurinos. Para isso, tinha um assistente, um rapaz que ele havia conhecido na boate Fabio’s, onde também se apresentava. “O Sílvio ia ver os shows e ficava encantado, então convidei para conhecer os bastidores. Logo veio me ajudar com os figurinos, me ajudava a bordar. Bordava mal, eu dava umas chamadas”, lembra o amigo. Uma noite, a pessoa que interpretava a Zezé Motta faltou. “Disse a ele: Sílvio, vou te ajudar a se maquiar e botar aquele vestido. Eu sei que você conhece todas as letras das músicas. Hoje você será a Zezé”, conta Di Carlos. A música era “Muito Prazer”. Escrita por Rita Lee e Roberto de Carvalho, faz parte do primeiro álbum da cantora. E foi assim, dublando, que Sílvio estreou em um palco. “Ele foi bem, e começou a fazer parte do elenco como bailarino”. A partir desse dia, Sílvio começou a se caracterizar profissionalmente.

Silvetty Montilla - Arquivo Pessoal
Silvetty Montilla – Arquivo Pessoal

Ele já vinha se vestindo de mulher na noite. A primeira vez foi em um Carnaval. Saiu de casa com uma roupa da irmã mais velha. E gostou. Mas a logística da sua troca era complicada. Era tudo escondido da família. “Ele deixava tudo na minha casa, vestidos, sapatos, a maquiagem que conseguia. Não podia levar pra casa dos pais. Então, toda noite, vinha se arrumar no meu apartamento”, relata Di Carlos. Tinha mais um motivo para o cuidado de Sílvio. Nessa época, o Brasil vivia uma Ditadura Militar. E o crossdressing era proibido, dava cadeia. “A polícia baixava nos lugares e saía levando todo mundo, a gente vivia tenso”, conta. “Uma noite eu estava com algumas amigas na rua e chegaram (os policiais), começaram a enfiar todas no camburão. E passaram batido por mim. Daí a pouco volta um, me olha e pergunta: Você é mulher? Eu não consegui mentir”, foi levada para a delegacia. Chegando lá, “a sala, sei lá como chama, tava cheia de transformista, travesti, na chora que entrei uma gritou: Silvetty, querida que bom te ver! Veio e me deu dois beijinhos”. Ele, então, começou a levar uma vida dupla. Era Sílvio, funcionário público durante o dia; e, à noite, Silvetty. Participou de diversos concursos e ganhou: Miss Brasil, Miss Primavera, Melhor Vestido de Gala, entre outros. Certa noite, foi convocada a substituir uma das apresentadoras na Nostromondo. Ajuda a dar contexto saber que a lendária Miss Biá era uma das principais atrações daquela casa. “Eu não sabia nem segurar o microfone direito, tinha uma voz estridente. Começaram a me xingar. Mas aí eu pensei: tá boa que eu vou ficar quieta! E respondi: ‘Suas larga! Eu sou apertada, uso pedra pomes no meu edi!’. E aí, foi”, lembra Silvetty.

Silvetty Montilla - Arquivo Pessoal
Silvetty Montilla – Arquivo Pessoal

Com esse seu jeitinho, imprimiu as três características que formam sua marca registrada: improviso, impropérios e total domínio da plateia. “Silvetty Montilla é uma grande profissional do entretenimento. Com ela não tem viagem perdida, ela sobe um palco e não sai antes de arrancar umas cinco gargalhadas”, diz a atriz e comediante Marisa Orth.

show do gongoMarisa Orth e Silvetty Montilla. Foto: MixBrasil
Marisa Orth e Silvetty Montilla em edição do Show do Gongo. Foto: MixBrasil

E não importa o palco, e nem o público. “Quando comecei a me apresentar nos Jardins, falava as mesmas merdas na casa chique, sim. Aquele povo tudo bem vestido, muito hétero, lá né. Eu ia assim: ‘Tem zum zum zum, tem ti ti ti, tem muito boy que dá o c* pra travesti’”.

Silvetty Montilla - Arquivo Pessoal
Silvetty Montilla – Arquivo Pessoal

Na década de 1990, uma forte cena cultural da noite paulistana acontecia dentro de boates e danceterias. O circuito da noite gay, já grande nas áreas centrais como República e Arouche, contava também com várias casas em bairros nobres, chegado a dominar quadras inteiras nos Jardins. Nessa época, Silvetty Montilla era praticamente onipresente. Chegou a fazer nove apresentações em uma única noite. “Nunca quis ser fixa em nenhuma casa, porque a boate fecha e aí lá se vai a bicha”, relata.

Silvetty Montilla - Arquivo Pessoal
Silvetty Montilla – Arquivo Pessoal

Através dessas andanças, seu magnetismo no palco atingiu criadores como Miguel Fallabella e Grace Gianoukas, possibilitando novas experiências dentro do universo da comédia. “Levei-a para o Terça Insana como convidada e foi muito bom. Ela é ótima animadora de auditório, tem um controle da plateia”, conta Grace. Depois dessa experiência, Silvetty esteve por um ano no elenco fixo do projeto. A convite de Miguel Fallabella, fez uma participação em “Toma Lá Da Cá” e Pé Na Cova”. Mas essas experiências não foram fáceis. “A Silvetty não decora nem duas linhas. Ela é do improviso, então tem que deixar ela ser ela mesma”, relata Vinícius Santos, que foi seu empresário por dois anos e acompanhou sua entrada no mundo do stand up comedy. “O stand up ainda não é do público gay, dá muito hétero. Eu gosto mesmo é de fazer show em boate”, diz Silvetty. Fato é que Sílvio dança ao som de seus próprios tambores. “Ele não teve escola pra fazer o que faz, aprendeu tudo na raça”, conta Claudinei, maquiador e ex-diretor artístico da Blue Space. Claudinei, que também teve seus tempos de montação como Fátima Fast Food, lembra do colega, Sílvio, com carinho e admiração. “Quando ele [Sílvio] começou, não tinha ninguém que fizesse o que a Silvetty faz, e até hoje não tem”.

POEMINHA

Os peidos saem do cu
As pombas dos pombais
As pombas voltam um dia
Os peidos nunca mais

Todos que convivem com Sílvio não cansam de mencionar sua generosidade. “Ele tem um coração enorme, é a pessoa mais generosa que eu conheço”, relata Victor, proprietário da Blue Space, a tradicional Casa Azul, inaugurada em 1993, quando a expressão “drag queen” substituiu de vez a palavra “transformista”. Silvetty esteve presente desde o show de abertura. “É como se fosse a minha casa”, conta a drag queen. Uma casa na qual ela tem uma família, formada não apenas por Brunetti e Viviam Montilla, duas jovens que adotaram seu nome como homenagem, mas por laços de amor e de amizade. “A Silvetty é única. É um exemplo pra todas nós. Ela sempre indica gente talentosa nos lugares, e sempre está disponível para todo mundo, pra uma conversa, uma dica”, relata Alexia Twister, que sempre se apresenta na casa e é uma das maiores artistas da sua geração.

Depois do ocorrido em Florianópolis, Sílvio retornou a São Paulo e precisou ficar cinco dias internado. Pela primeira vez em sua carreira, declinou convites de trabalho.

“Não tem como substituir a Silvetty. Não tem quem faça o que ela faz, não tem. Ela é insubstituível”, desabafa Victor. A comoção foi geral.

Silvetty Montilla - Arquivo Pessoal
Silvetty Montilla – Arquivo Pessoal

Em 2016, o jornalista Ricardo Gamba lançou uma biografia autorizada sobre Silvetty – trazendo sua história, a relação com a família e, claro, seu trabalho. O autor atesta: “Silvetty Montilla é a Ru Paul brasileira”. Traçar um paralelo entre as divas negras, contemporâneas, comediantes e com longas carreiras de sucesso, faz bastante sentido – além de ser um excelente aceno para um público jovem, que cresceu vendo drags na televisão e não nas boates. Mas as duas figuras têm uma diferença crucial. Enquanto Ru Paul Charles é um empresário megalomaníaco, egocêntrico e pragmático – e isso não é gongo, ele tem muito orgulho dessas características – Sílvio Cássio Bernardo é tímido, humilde e intuitivo. “Eu falo pra Dimmy Kieer, pra Salete Campari, que se a gente tivesse começado junto com a internet estaríamos milionárias também”, conta Sílvio. “Tenho a impressão, impressão não, certeza, que ele não sabe direito o valor que a marca Silvetty tem”, relata Vinícius Santos. O ex-empresário tinha um plano de expansão para os negócios da marca. Mas Sílvio nunca teve grandes ambições. “Sou uma pessoa muito família, sabe. Eu coloco minha família na frente de tudo”, relata.

Quando veio a alta do hospital, foi para a casa dos pais que Sílvio retornou. Os pais, retratos de sua geração, demoraram a entender a natureza do filho caçula, já faleceram. A casa agora é administrada pelas irmãs, mas ele nunca saiu de lá definitivamente. Mesmo quando era casado. Nesse momento, o retorno ao lar o deixa feliz de verdade. “Aqui elas me mimam, tenho refeições de quatro em quatro horas, tudo certinho”. Foi com o seu trabalho que Sílvio reformou esse lar, no bairro da Casa Verde, e amparou a todos quando precisaram. Para ele, essa é a maior prova de seu sucesso: estar presente e orgulhar as pessoas que ama. Quem vive da comédia sabe que o riso é um poder e uma armadura. Dentro da couraça inabalável de Silvetty Montilla, vive Sílvio Cássio Bernardo, três nomes de homem para um grande coração.




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Jornalista, diretora, roteirista e escritora. Criadora do #DEUMATCHMTV!