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Heavy Metal Épico Sinfônico com vocal lírico de tenor masculino misturado com videogames e animes para desconstrução da homotransfobia e empoderar as mulheres com um vocalista gay que fica com 1,90 de altura ao utilizar um salto alto. Transita entre o masculino e feminino: “Bichinha? Que nada, sou BICHONA!”. Ainda, some referências de séries famosas do universo geek como “Final Fantasy”, “Dragon Quest”, “Sailor Moon”, “Guerreiras Mágicas de Rayearth”. Misture tudo e temos a banda ítalo-brasileira Ruins of Elysium.

Nascida em 2013, de um desejo do vocalista Drake Chrisdensen, a ideia era formar uma banda de heavy metal que dependesse exclusivamente da voz masculina operística, algo que é feito no cenário muito raramente. Conversamos um pouco com ele para nos explicar sobre seu mais novo álbum, Amphitrite: Ancient Sanctuary In The Sea, e também falar sobre sua banda.

"Bichinha não, sou BICHONA!" conheça a banda de heavy metal épico sinfônico Ruins of Elysium! | ENTREVISTA
Divulgação

1 – Um grande prazer em tê-lo aqui no GAY BLOG BR para falar um pouco sobre sua banda e seu mais novo álbum Amphitrite: Ancient Sanctuary In The Sea. Conta um pouco sobre esse projeto para os nossos leitores?

O prazer é todo meu, agradeço demais pela oportunidade! Sobre o novo álbum, costumamos dizer que ele é uma “volta ao mundo em 12 músicas”. A intenção era fazer um trabalho que “puxasse” para o folk metal e músicas folclóricas, mas não apenas o estilo folk celta que já é conhecido no Metal. Elementos e instrumentos étnicos de todo o mundo estão sendo usados para contemplar várias culturas e folclores. Da Nyckelharpa escandinava ao som único da música oriental e árabe, dos instrumentos tradicionais japoneses aos ritmos brasileiros e africanos que inspiraram o samba e a capoeira. É um trabalho bem ambicioso e diversificado.

2 – Tanto a banda quanto você parecem lutar muito por um espaço que, ainda hoje, aparenta ser desafiador. Quando pensamos em LGBTs, associamos a música pop ou eletrônica, enquanto os metaleiros e amantes do rock durante anos foram conhecidos por posicionamentos que ao mesmo tempo eram transgressores, mas uma parte também era homofóbica e misógina. Já Drake Chrisdensen é gay, usa roupas que a sociedade designa como femininas em vários momentos, transita também com o masculino, ao mesmo tempo tem barba, e é cantor de rock com voz de ópera. Como é ser tão desconstruído em um mundo que ainda precisa de tanta desconstrução, tanto no geral quanto no Heavy Metal? De onde vem tanta coragem?

O rock e o metal são conhecidos por baterem de frente contra dogmas sociais e não aceitarem de forma conformista as imposições do conservadorismo e tradicionalismo. Nesse sentido, é importante mostrar que esse espaço deve questionar também preconceitos de ordem sexual. O cenário foi marcado por Freddie Mercury, Rob Halford, Otep, Cazuza, então é importante mostrar que não há espaço para a intolerância. Creio que essa imagem do metaleiro e rockeiro homofóbico é um equívoco, mesmo que haja homofobia na cena. Na minha opinião, o pop é muito mais homofóbico do que o rock. Não é porque hoje as divas pop descobriram que performar um suposto apoio a nós é lucrativo que isso muda, é puro “pink money”, e o rock já conversava com os LGBTs antes desse conceito existir. Lembremos que o cenário mainstream começou a “tolerar” a existência de um Sam Smith, por exemplo, muito recentemente e o Boy George, na década de 1990, caiu no ostracismo devido às mensagens sexuais de suas músicas e sua revelação como bissexual. Enquanto isso, nenhum metaleiro estava questionando a supremacia do Rob Halford como maior vocalista que o estilo já teve. Eu sinceramente me sentiria mais acuado em utilizar minha arte e voz para militância no meio pop que no Heavy Metal. Percebo que o maior problema do rock não é com a sexualidade, mas com a misoginia. Os casos de homofobia que passei até hoje não foram por ser gay, mas por ser um gay lido como “afeminado”. Creio que o problema seja esse.

3 – O álbum Daphne aborda questões sociais perante as minorias oprimidas do mundo, não só com homens gays, mas também empoderamento feminino. Como você vê essas questões como lugar de fala, e como você acha que outros recortes sociais podem dar sua contribuição para um mundo mais plural e diverso?

Creio ser nossa responsabilidade como artistas a conscientização e utilização de nossas vozes para denunciar problemas e contribuir na construção de uma realidade mais otimista. O discurso de “não misture arte com política”, que vemos repetido à exaustão pelas mídias sociais, não faz o menor sentido. A arte é inerentemente política. Daphne foi um trabalho muito emblemático porque a música homônima é um épico de mais de 10 minutos sobre sexismo e empoderamento. Já o nome é uma metonímia para todas as mulheres: ela foi estuprada e culpabilizada, foi obrigada a se casar contra sua vontade e morreu em um aborto clandestino, vítima de uma sociedade que mantém políticas públicas reféns de dogmas religiosos. “No, You’re Not” foi uma homenagem a João Donatti, vítima de assassinato motivado por homofobia, e foi encontrado um bilhete em sua boca com os dizeres “vamos acabar com essa raça”. O conceito de lugar de fala tem sido muito deturpado pelas mídias sociais, a questão é que todos temos lugar de fala e precisamos usar destes lugares para promovermos discussões acerca das opressões que são tão intrínsecas à realidade a qual estamos inseridos.

4 – A faixa “Prince” deste álbum é baseada na trilha sonora do jogo “Guerreiras Mágicas de Rayearth”. Conte um pouco sobre a participação dela no álbum, até porque a história de Rayearth é uma desconstrução de todos os clichês e estereótipos de “necessitamos salvar a princesa”.

Rayearth é uma das minhas grandes paixões e o jogo de SNES marcou minha infância, enquanto a música Prince é uma declaração de amor de um homem a seu príncipe, logo, já “quebra aí” com uma mensagem heteronormativa. A Ruins Of Elysium nasceu justamente como uma forma de questionar pilares no qual o metal, principalmente a vertente sinfônica, se estruturou por tanto tempo e mostrar que eles não são necessários. Apenas mulheres utilizam a técnica erudita para cantar no cenário metal? Não, temos um Tenor clássico na Ruins of Elysium. O Symphonic Metal somente aceita bandas com “divas” no microfone? Não, na Ruins Of Elysium é um homem e gay, quebrando com o estereotipo do machão que estamos tão acostumados a ver na cena rock. Sinto muito orgulho de poder trazer esses tipos de questionamentos e inovações para um cenário que tanto amo.

O mais novo álbum da banda: Amphitrite

5 – Pegando o gancho “geek”, o álbum Seeds of Chaos and Serenity tem as cinco faixas finais fazendo referência ao anime Sailor Moon, fazendo referência a cada uma das temporadas do anime e também ao remake. Conte sobre este projeto e esta ideia.

Desde criança, sou apaixonado com as sinfonias majestosas de grandes compositores como Mozart e Dvorak e sempre quis escrever a minha própria. Amo músicas longas, épicas e pomposas, e com Seeds Of Chaos And Serenity tive minha oportunidade de mostrar que “menos é mais” é o caramba, mais é mais (risos)! Com quase 40 minutos de duração, Seeds Of Chaos And Serenity é monumental. Tenho muito orgulho desse trabalho! Temos 10 cantores dando suas vozes e interpretações a diversos personagens pertencentes à história de Sailor Moon, que é riquíssima! Toda a mitologia do universo Sailor Moon é, também, monumental e de uma beleza ímpar. É uma história que não dá pra ser contada em poucos minutos. Vamos relançar o álbum Seeds Of Chaos And Serenity esse ano com melhor produção e com diversas seções regravadas, mal posso esperar para dividir com vocês o resultado!

6 – Quanto ao rock e ao heavy metal em geral, o que você acha que mudou nos últimos anos e o quanto você acha que este mundo tem a evoluir perante os LGBTs e outras minorias? Fale sua percepção sobre isso.

Infelizmente eu percebo um retrocesso conservador em um ambiente que, como eu disse antes, já se mostrou muito progressista. Não faz o menor sentido a existência de headbanger conservador que fica repetindo à exaustão a falácia do “não misture arte com política”, mas parece que essas pessoas, completamente ignorantes a respeito do conteúdo das músicas que escutam e da história de repressão da camada elitista e tradicional da sociedade contra o rock e heavy metal, tem se sentido seguras em trazer intolerância e ódio para um cenário que não tolera a intolerância. A eleição de 2018 foi um golpe terrível para nosso cenário underground, já que as bandas começaram a ser silenciadas, ameaçadas e perseguidas. E ainda somos. Temos nos reapropriados destes espaços, mas tem sido um caminho difícil.

7 – Quais são os maiores desafios da banda Ruins of Elysium? Sempre pagamos um preço por sairmos do “mainstream” e sermos tão transgressores e pioneiros, vocês conseguem monetizar a banda? Já sofreram algum preconceito ou discriminação?

Os preconceitos são vários, mas sempre ignorei.  Até hoje, somente um me machucou. Os comentários a respeito da minha sexualidade e por ser um homem “afeminado” nunca me afetaram, afinal, tenho orgulho de ser quem sou e como sou. Vai me chamar de “bichinha?” Por favor, sou “BICHONA!”, porque fico com mais de 1,90m no topo do meu salto alto, que uso para os shows, pra tocar bateria e pra dançar stiletto. O preconceito a respeito da nacionalidade da banda é algo muito presente também, afinal, o Symphonic Metal é tipicamente europeu e existe uma resistência muito grande a bandas do estilo que não sejam europeias. Interessante notar que algumas análises do nosso último álbum se mostraram especialmente incomodados com a mistura de ritmos africanos e latinos com metal, mas nem um comentário negativo em relação aos elementos folclóricos europeus aparece. O preconceito que mais me incomodou veio justamente da própria comunidade LGBT. Lembra que eu disse que o pop é muito mais homofóbico que o rock? Pois bem, já li mais de uma vez que eu (e outros gays headbangers) finjo gostar de rock pra performar uma suposta masculinidade, para ser “aceito”. Porque, claro, pro gay fã de pop, quem não sabe todas as letras da diva pop do momento é um “traidor do movimento” e não está “sendo gay” da forma certa. Isso me afeta porque é uma violência vinda justamente de quem sofre preconceitos de ordem sexual. Em tese, deveria estar denunciando esse tipo de coisa e não perpetuando. É frustrante e decepcionante.

8 – Indo para a parte técnica, os álbuns são muito bem produzidos. Como vocês fazem? Possuem estúdio? Conte um pouco sobre o processo de construções das músicas.

Possuo um homestudio onde gravo todos os meus vocais e produzo todas as orquestrações dos nossos trabalhos. A gravação de guitarra e baixo, bem como a mixagem e masterização, são feitas na Itália, no estúdio do nosso guitarrista e produtor Vincenzo. Cada música surge de uma forma diferente, algumas eu escrevo a letra e a melodia acaba vindo depois, outras eu vou juntando ideias e acaba tomando forma. É algo bem dinâmico.

9 – Tem alguma música ao longo dos EPs que vocês lançaram que tem um significado em especial para você?

Nosso próximo single e video, Belladonna, é uma das minhas músicas favoritas da discografia da Ruins Of Elysium. Mal posso esperar pra mostrar a capa do single, o tracklist, as duas músicas inéditas que virão juntas. Mas todas as músicas, sem exceção, tem significados especiais pra mim porque cada uma delas tem um contexto ou justificativa pra sua criação.

10 – Gostaria de dizer algo que não foi perguntado?

Gostaria de dizer pra Nintendo que eu não aguento mais esperar por Bayonetta 3 e dizer que sou #TeamSonique pro Rupauls Drag Race All Stars 6 (risos). E, claro, não pode faltar: FORA BOLSONARO GENOCIDA!

11 – Deixe um recado final para nós!

Fiquem atentos para novidades da Ruins Of Elysium, mês que vem nosso novo single Belladonna será lançado e, ainda esse ano, lançaremos um remake do álbum Seeds Of Chaos And Serenity.

No começo do ano que vem lançaremos um EP, “Amphitrite Pt.2”, então serão meses bem movimentados! Obrigado por toda força, apoio e por acreditarem no nosso trabalho.

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Jornalista formado pela PUC do Rio de Janeiro, dedicou sua vida a falar sobre cultura nerd/geek. Gay desde que se entende por gente, sempre teve desejo de trabalhar com o público LGBT+ e crê que a informação é a a melhor arma contra qualquer tipo de "fobia"