Luís Miranda possui uma carreira sólida de atuação na TV, teatro e cinema. Mas as habilidades do artista são maiores: Miranda escreve, dirige e já trabalhou como dublador na animação Pets ao lado da amiga Dani Calabresa

Em um bate papo exclusivamente com o GAY BLOG BR, o artista demonstra ter pé no chão e determinação e lamenta a situação precária da cultura no país.

Luís Miranda – Reprodução

Você ganhou muito destaque principalmente através de papéis cômicos. O filme ‘Jean Charles’ (2009) seria, de certa forma, o seu papel mais dramático? Além da trans Dorothy, de Geração Brasil, claro.

Você me perguntou sobre essa coisa da comédia, né? Então, eu queria dizer que não acredito que existe um sem o outro, acho que todo drama precisa de um pouco de comédia e toda comédia precisa ser dramática. Acho que o casamento disso tudo faz um trabalho de excelência. Mas eu sempre fui apaixonado pelo melodrama. Esses trabalhos que você citou têm uma presença muito grande disso, de um personagem com um profundo tom cômico mas também com um profundo tom dramático, porque é preciso muito disso para que haja uma verossimilhança, porque senão você não acredita nele. Há personagens que precisam, de fato, emocionar. No caso do Jean Charles e da Dorothy havia momentos em que as personagens precisavam sair daquele lugar da caricatura e realmente ganhar um lugar de drama. Isso é a grande loucura do ator. Passar de uma coisa para outra.

O filme Jean Charles foi rodado em Londres, uma experiência nova…

Em Londres foi super delicioso de rodar. E difícil, né, porque é uma cidade cheia de restrições, a gente enfrentou um monte de coisas, muitos impedimentos. Mas eles são extremamente organizados, muito mais que o nosso cinema aqui. São muito exigentes. Ah, eu tive um grande prazer de cruzar com o Stephen Frears, que dirigiu A Rainha, um puta diretor, que inclusive é coprodutor do Jean Charles. Ele me teceu uns elogios bacanas quando o filme ficou pronto. Perguntou: “Quem é esse negro ator excelente?”. Foi muito bacana e eu acho que uma das coisas mais legais é a gente fazer troca com outros profissionais de outros lugares. Isso foi um grande crescimento para mim, ter rodado em Londres o Jean Charles.

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Gravação de “Jean Charles” – Reprodução

Está difícil fazer humor nesse cenário de “cultura de cancelamento” ou isso não interferiu no seu trabalho ou processo de criação?

Tá difícil sim, está difícil. Primeiro porque a gente está muito sensibilizado, são 100 mil mortos, está todo o mundo apavorado. Todo o mundo pensando em si, pensando nos seus e, de uma maneira geral, pensando em todo o mundo para poder se cuidar e se proteger. O humor ficou um pouco afastado disso, mas a gente vai tentando levar o humor pra vida. Não tenho produzido muita coisa, quer dizer, eu tenho escrito, mas não tenho produzido muito na internet. Optei por não fazer lives e não assisti nenhuma, não estou com astral e nem em um momento para falar de coisas. Participei de algumas com amigos etc e tal, contribuindo do jeito que eu posso, mas é um momento de observação e um momento de profundo amadurecimento pessoal. Então, nesse momento, tenho buscado coisas internas aqui na minha casa, isolado na Bahia. Tenho buscado coisas internas, buscando coisas para alimentar a alma, o espírito, a fé, a energia, a natureza… Tô por aí. 

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No dia a dia você é uma pessoa bem-humorada?

No dia a dia eu sou uma pessoa muito bem-humorada. Mas tenho meu mau humor sim, eu acordo um pouco mau-humorado e aí vou tentando elevar o dia durante a minha jornada… Pô, você não está todo dia com vontade de fazer graça, né? E nem de brincar, entendeu? Quando você é famoso, às vezes, essa exigência ela é cotidiana. Às vezes, você vai ao mercado, aconteceu alguma coisa, está triste com algum momento da tua vida e aí vem alguém brincando. Às vezes, você está um pouco enfezado e a pessoa diz que você é mau-humorado. Mas eu acho que não é nada disso não, cara, eu acho que a vida tem levado a gente a ser coerente, né? Rir na hora que tem que rir, chorar na hora que tem que chorar, ficar sério na hora que tem que ficar sério. Mas eu geralmente sou uma pessoa que tenta levar a vida com bom humor.

Na Terça Insana você fez personagens hilários como a Dona Edith, Madame Sheila, Vovó Arlinda, Ademar Queixada, MC Dólar. Algum desses personagens foram inspirados em pessoas do seu círculo pessoal, por exemplo, parentes ou amigos?

Claro que todo personagem é inspirado em alguém da sua vida, alguém que você conhece. A dona Edith tem muita inspiração na minha mãe em alguns detalhes, em minhas vizinhas também; o MC Dólar é realmente um personagem mais crítico que eu faço, uma análise muito grande da coisa rap, funk ostentação, dessas coisas que a gente já conhece aí do mercado de luxo, do dinheiro, da música enfim. O Ademar Queixada é um cara que eu conheci que era um pescador meio escultor que eu transformei em um guardador de carros, um cara muito engraçado, muito inspirador que resultou esse personagem muito hilário. E é claro que tudo que eu crio tem um lado muito pessoal meu, que é o meu jeito de escrever, minha assinatura de escrever, fazendo muitas críticas. E eu acho que todos os personagens que eu crio têm sim uma referência em alguém, em coisas que eu leio, em coisas que eu vejo. E é assim que eu me comporto para escrever.

Você fez aproximadamente 21 filmes, alguns deles premiados por sua atuação (Jean Charles), mas qual deles te exigiu mais na preparação de personagem?

Talvez um dos filmes mais difíceis que eu tenha feito e que tenha me exigido mais foi o Quincas Berro d’Água, porque o filme era todo à noite. A gente viveu durante sete semanas uma vida de cão, filmando das 18h até às 7 horas da manhã. Trocar o dia pela noite é muito complicado e foi um filme que tinha muita peripécia. Muitas cenas perigosas, de escalada, com dublê. Tinha cenas de estúdio bem difíceis também; fizemos uma preparação bem árdua com a Fátima Toledo. Foi um filme bem complicado de fazer porque tinha efeitos, os efeitos do naufrágio. Então foi bem difícil, mas também prazeroso, porque eu estava com grandes atores, grandes amigos. Paulo José que é uma pessoa maravilhosa, inspiradora, Sérgio Machado, grande diretor, e os amigos Irandhir Santos, Flávio Bauraqui, Frank Menezes, Marieta Severo, Érico Brás, enfim, um monte de gente bacana, Mariana Ximenes, Vladimir Brichta… foi um elenco maravilhoso.

Como você avalia o atual cenário político em relação à cultura?

Bom… Eu acho que falar da cultura com esse governo é impossível, né? Também acho que, de uma certa maneira, foi um governo que já veio dizendo que não gostava de nada: nem de preto, nem de pobre, nem de cultura e nem de nada. Uma alienação muito grande e com um desprestígio internacional. Enfim… A gente viveu aí dois grandes absurdos: o primeiro Secretário de Cultura completamente voltado ao pensamento nazista e, depois, em seguida, a Regina Duarte, que foi absolutamente uma névoa que passou e que ninguém viu. E assim foi e tem sido, muito desgastante. Acho que a Câmara dos Deputados têm batalhado para conseguir aprovar algumas coisas à revelia do governo, que não tem interesse em promover cultura. E será um governo onde nós vamos ter que militar muito para realizar coisas, vai ser muito difícil para nós artistas. Mas nunca foi fácil para nós; a gente já enfrentou o fascismo em outras ocasiões e estamos aqui com força, garra e dignidade para enfrentar de novo. A cultura é muito difícil de você matar porque ela está muito enraizada no corpo e na cabeça do mundo. Enfim, acho difícil você matar a cultura, mas você pode prejudicar e atrasá-la. Mas a gente vai lutando para que isso não aconteça.

E em relação à comunidade LGBT?

Acho que a comunidade LGBT têm melhorado muito, acho que a vinda das passeatas para o Brasil ajudou muito porque eu acho que a gente. O mundo começou a perceber também essa coisa do pink money, esse dinheiro que vem dos LGBTs. Acho que é um dinheiro que o mundo já aproveita e que, aqui no Brasil, muitos lugares agora têm começado aproveitar, criando turismo, criando rotas, criando festas… A gente já tem cantores e cantoras que lutam bastante por isso. A gente tem um Governo muito homofóbico, mas eu acho que a classe tem se unido muito, principalmente para lutar contra os homicídios LGBT, que são ainda muito grandes. De uma certa maneira, a sociedade tem reagido muito, porque cada vez mais as pessoas começam a compreender as orientações, as preferências, os desejos dos outros… As leis têm sido agraciadas nesta coisa do registro do nome civil, então, de uma maneira ou de outra, os LGBTs continuam caminhando, com dificuldade mas caminhando.

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Como é a sua relação com as redes sociais? É um canal direto com o público…

Eu até queria ser um cara que usasse mais as redes sociais, mas eu não consigo, eu trabalho muito, eu escrevo, eu tô atuando, eu tô ensaiando, eu tô fazendo coisas. Então, realmente, o vício da rede social é muito ruim. Gosto de postar coisas que são importantes e necessárias: uma delícia do seu dia, uma coisa bacana, legal… Mas realmente eu sou um cara que toma muito cuidado com as redes sociais porque a gente sofre muito com ela. Sofre na exposição, sofre, às vezes, nas críticas. A gente apanhou bastante nesse período  eleitoral porque a gente têm opiniões diferentes, porque a gente faz críticas. Então, de uma maneira ou de outra, é muito importante a gente saber usar as redes sociais com responsabilidade, senão isso pode ser bastante perigoso. Procuro fazer isso e procuro colocar na minha rede só aquele conteúdo que eu acho extremamente necessário para não ficar um lugar fútil, um terreno de futilidade.

Você tem mais de 30 anos de carreira, tem algum personagem que ainda não fez mas que gostaria de fazer?

Estou sempre em busca de personagens novos, não existe isso de personagens que eu já fiz, que já conquistei, eu tenho vários sonhos ainda. Quero fazer ainda uma série sobre os Sete Contos, sobre os meus personagens, eu quero fazer muita coisa. Mas a gente tem uma dificuldade muito grande nesse país, as oportunidades para os negros são muito restritas. Estou falando isso porque é difícil conseguir apoio, é difícil conseguir patrocínio, é difícil conseguir que a mídia se abra pra gente. Mas estou na luta aí, sonhos – muitos – sempre.

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Você atuou como dublador na animação ‘Pets – A Vida Secreta dos Bichos‘. É mais difícil é dar emoção a um personagem virtual?

Cara, dublagem é uma coisa deliciosa. O Pets foi realmente uma grande honra fazer, é um personagem delicioso, maravilhoso… É muito cansativo, um personagem muito difícil, porque ele tem uma voz bastante estridente, ele grita muito e tem muito grunhidos. Dublar animal é muito curioso porque também você tem que dar características humanas para ele. Acho que o Bola de Neve foi um personagem que fez muito sucesso, eles curtiram muito lá. Fui muito feliz com a personagem, tive a oportunidade de dublar com a minha grande amiga Dani Calabresa agora, no segundo filme, e é uma coisa que eu gostaria de fazer muito, muito, muito… Gosto muito de brincar com vozes, dublar é um prato cheio para um ator como eu, que gosta de brincar com isso.

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Em 2014, você comentou a respeito da sua orientação sexual em uma entrevista para a revista Contigo! Na sua opinião, mesmo nos dias de hoje, ainda é complicado para um ator deixar de esconder sua orientação sexual por receio de perder trabalhos? 

Olha, várias pessoas resolveram assumir agora nos últimos tempos, atores antigos, atores importantes. Acho importante dar visibilidade a todas as causas e mostrar para a sociedade que isso não é uma anomalia e não é uma doença. A gente tem aí profissionais, gente de várias áreas declaradamente assumidos que merecem respeito. E pra gente aprender a respeitar todo o mundo com igualdade, acho que de uma maneira ou de outra, a visibilidade é um lugar que dá à sociedade uma margem para entender e respeitar seus indivíduos. Acho bobagem a sociedade se preocupar quem as pessoas levam para cama, mas acho que, hoje em dia, as pessoas casando e assumindo sua relação, o amor podendo dizer o seu nome… é uma coisa muito bacana para sociedade. A gente poder ver pessoas casando, podendo assumir sua paternidade ou maternidade mesmo com os preconceitos, acho que isso tudo tem sido cada vez mais possível.

As novelas sempre apresentavam personagens gays como caricatos e clichês. Você acredita que isso tem mudado de uns anos pra cá?

A mudança é uma mudança para cada um que resolve dar um caráter pra aquilo, então, por exemplo, quando eu fui chamado para fazer a Dorothy (risos) eu não queria que ela fosse simplesmente uma transex, uma travesti, eu queria que ela tivesse uma dimensão humana para as pessoas entenderem a sensibilidade que a personagem tinha. Quando eu vou fazer o gay em outros lugares, em outros filmes, novelas, eu procuro emprestar para esse gay a maior informação de verossimilhança de conteúdo de verdade e da busca de verdade, ele pode ser engraçado, ele pode ser estereotipado mas ele tem que ser de verdade, por que a gente vê muitas pessoas na rua, a gente fala assim “eu não acredito em tal pessoa”. Quando a gente vê no palco a gente fala assim “meu Deus será que isso é possível, será que isso existe?”. Mas aí, quando você conhece determinadas pessoas você vê que existe… tem gente que é assim, louca, maluca, deslumbrada, festiva, gritalhona. Então acho que sempre precisa retratar com respeito, porque a luta do homossexual é uma luta muito difícil, e a gente não pode negligenciar isso, então é muito importante que a gente saiba disso quando a gente escolhe fazer um personagem assim. Dignidade e respeito.

Miranda como a personagem Dorothy – Reprodução

Teatro, TV ou cinema onde você se sente mais à vontade para expressar o seu talento como ator?

Eu amo cinema, eu sou um cara apaixonado pelo cinema, eu fiz tantos filmes, amo set, é uma coisa que me apaixona. Mas é óbvio que a paixão do teatro é uma coisa que é contaminante, essa ideia de você fazer o trabalho e ao mesmo tempo está recebendo ali as informações sobre o resultado daquele trabalho, o aplauso, o riso, a crítica, ao desconcerto… Isso é maravilhoso, o ao vivo sempre vai me dar muito prazer.

E você se encontra bem, de modo geral, mesmo na pandemia.

Com o isolamento social eu tô lidando com muita serenidade e cautela mesmo, tô aqui na minha casa na Bahia isolado, tentando ler boas coisas, tentando me informar. Tem informação suficiente para entender o que é isso, me prevenindo, cuidando dos meus a distância, aqui de olho na minha mãe. Acho que a gente precisar ter muita cautela com isso, é uma coisa muito grave, os números têm crescido muito, isso é muito assustador. Acho que dessa maneira não dá para a gente encarar isso como uma gripezinha, como dizem por aí. A gente tem que encarar de uma maneira séria, de uma maneira digna, que a situação merece. Eu tenho procurado fazer as coisas que eu gosto aqui, tô perto da praia, cuidando da natureza, plantando as minhas hortas. Tenho lidado dessa maneira, buscando uma força espiritual para emanar energias positivas para o mundo. Estou aqui em estado de fé permanente e, aquilo que eu te disse, eu não fiz lives porque eu acho que nesse momento eu quero ouvir, tenho acompanhado dos meus amigos e participado de algumas mas eu basicamente não quis fazer muitas não.

O que você faria se soubesse da pandemia três meses antes?

Se eu soubesse três meses atrás desta pandemia, acho que não faria nada. Acho que eu só esperaria e tentaria informar o maior número de pessoas possível que isso ia acontecer, mas eu seria quase que um Nostradamus, né? Mas faria isso, avisar e proteger. 

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