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Em 1994, a novela A Viagem cativou o público brasileiro, se tornando um dos maiores sucessos do horário das 19 horas ao abordar a doutrina espírita. Desde dezembro de 2020, a trama voltou a ser exibida pelo canal Viva, sendo sua quarta reprise (duas vezes no Viva e duas no Vale a Pena Ver de Novo) – sempre com boa audiência. 

Reprodução: Felipe Martins em A Viagem

Vinte e sete anos depois, como está o Otávio Jordão Júnior (Tato)? O GAY BLOG BR conversou por telefone com o veterano ator Felipe Martins, que deu vida ao personagem de Ivani Ribeiro. Vivendo em Teresópolis, região serrana do Rio de Janeiro, o ator também dá aulas de teatro há anos para jovens que pretendem seguir os seus passos.

Há cinco meses, com a ideia de um encontro virtual em tempos de pandemia, Martins hospeda um canal no Youtube, o EssesCarasVelhos (um trocadilho com Escaravelho), onde aborda assuntos diversos junto com Felipe Camargo, Edgard Amorim e outros amigos.

Atualmente deixando a barba e os cabelos longe da tesoura, conforme a foto abaixo, o ator se prepara para um novo trabalho na TV. Para os fãs, Felipe Martins é um nome forte a integrar o elenco do remake da novela Pantanal.

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Acervo pessoal: Felipe Martins

A novela A Viagem está sendo reprisada no canal Viva, você considera este o seu melhor trabalho?

Não sei se é o meu melhor trabalho, mas é um trabalho que eu gostei muito de ter feito, eu amei ter feito a novela. Até porque, pra mim, foi um desafio e uma honra trabalhar com o Fagundes e com os outros atores e atrizes da novela.

Foi uma época a qual você gostaria de voltar?

Eu respeito muito o passado porque é ele quem nos ensina, não sou nostálgico, claro que eu tenho saudades, mas não são saudades doentias, isto é, “ai meu Deus, eu quero voltar naquele tempo”, não… é bola pra frente mas aprendendo com o passado.

A novela foi um grande sucesso na época de sua exibição em 1994, assim como nas reprises, a que você credita o sucesso da obra?

Com certeza a doutrina kardecista, ela realmente faz parte do sucesso da novela. Mas eu não posso deixar de dizer a qualidade do elenco foi fundamental para o sucesso da novela.

E como é a sua relação com o kardecismo? Você tem religião?

Eu acho maravilhoso essa questão do espiritismo que a novela abordou, eu acho realmente uma religião muito inteligente. Eu tenho todas as religiões, eu respeito muito o que as pessoas acreditam e acredito muito em que nós possamos vencer.

Reprodução: Felipe Martins em A Viagem

Você começou a carreira no final dos anos 70, junto com toda uma geração (Alexandre Frota, Maurício Mattar, Roberto Bataglin, Roberto Bomtempo etc) que despontou depois na TV. Você assiste às novelas atuais? Acha que há poucos atores veteranos em papéis de destaque?

Eu tenho visto muito pouco novelas, realmente eu não tenho acompanhado muito não, mas eu já vinha sentindo essa tendência, eu acho que vai sempre ter espaço para pessoas (atores) de todas as idades. Eu acho que isso é cíclico, daqui a pouco nós vamos voltar a dar mais importância e a respeitar mais as pessoas mais velhas. 

Eu acho que a nossa geração, foi uma geração muito legal, muito boa. Não tenho muito o que falar sobre essa nova geração, eu prefiro que essa nova geração chegue no meu tempo, pra eu poder dizer ‘olha agora que passou tanto tempo eu acho X da nova geração’.

Da Globo, você foi para a Record, como foi trabalhar lá? Quanto tempo você ficou por lá?

Eu entrei na Record se não me engano em 2006 e sai em 2015, não me lembro exatamente do último trabalho que eu fiz lá. Mas gostei muito de ter feito “Vidas Opostas”, foi aquela novela dos bandidos, meu primeiro trabalho lá. E a última novela foi “Milagres de Jesus”, que foi muito legal de ter feito.

Foi uma experiência muito boa, gostei de ter trabalhado lá, sempre fui muito bem tratado, com muito respeito, gosto muito de todo mundo que está lá, e desejo sucesso, sucesso sempre, a todas as emissoras que usam o artista brasileiro.

E sobre o canal Viva não pagar os direitos conexos das novelas aos atores, é verdade?

É uma batalha que a gente tá aí correndo atrás e tomara que a gente consiga ganhar essa batalha. 

(Felipe não moveu nenhuma ação judicial, se referindo de modo geral em nome de uma categoria que busca soluções para isso).

Acervo pessoal

Você deu aulas de teatro durante muitos anos. Bate uma frustração quando você nota que um aluno de teatro foca a busca por fama, Globo e dinheiro?

Eu acho que o próprio processo de aula e ensaios das peças que a gente monta acaba separando o joio do trigo, quem quer realmente fazer, vai continuar, quem não quer, foi um momento na vida e depois segue adiante em outra profissão. E que sejam felizes, o que eu espero que as pessoas sejam felizes com as suas escolhas.

Se recorda de alguma história engraçada nos palcos?

Eu me lembro muito bem que em Capitães de Areia (1982) tinha um momento em que eu fazia o Bedel, que batia no personagem do Roberto Bataglin, e eu fui vaiado pelo público. E isso pra mim foi um aplauso, porque realmente deu certo.

Reprodução: Felipe Martins

Como é a sua relação com as redes sociais?

É uma relação sadia, eu acesso na medida do possível, eu vejo meu Facebook, meu Instagram, é uma relação simples, eu procuro acompanhar o avanço da modernidade, isto é, ‘tamo junto’ na modernidade e isso é muito bom agora nesse momento de pandemia, onde as pessoas precisam ter esse contato.

Acervo pessoal

Ultimamente muitos artistas têm saído do armário, algo que não acontecia no passado, como se existisse uma liberdade maior do artista em expor sobre sua vida (em relação a sexualidade). O que acha disso?

Eu acho que é do foro íntimo de cada um, revelar ou não, suas preferências, enfim, isso depende muito da pessoa, vai de cada um.

Acervo Pessoal

Está namorando?

Não estou namorando, estou tranquilo, sem problemas com isso, nenhuma ansiedade e espero que esse período passe logo para que as pessoas possam interagir novamente, porque eu tenho visto muitas pessoas desejando encontrar com as outras e elas não estão conseguindo, espero que isso passe rápido.

Reprodução: Anos Dourados (1986)

Como você analisa a situação da cultura no país atualmente sob o ponto de vista político?

Eu vejo a situação da cultura como caótica, na descendente, assustadoramente desprezada, e a cultura é um dos pilares de uma sociedade. Acho que esse desrespeito à cultura não é uma coisa feita ao léu, não!… É programado, é estudado, porque um povo sem educação e sem cultura é um povo que não reage, é um povo que não pergunta, é um povo que não duvida. Então, mesmo antes da pandemia, a cultura estava numa situação caótica. mas você vê que mesmo assim durante a pandemia, a cultura se mantém forte, sem os apoios, entendeu? Ela continua, nada vai matar a cultura, alguém uma vez disse que o teatro estava morrendo e aí ouviu a resposta: “o teatro está morrendo há mais de dois mil anos”, quer dizer, o que está vivo não morreu, então viva a cultura.

Reprodução

Há 10 anos você vive em Teresópolis, por que você trocou o Rio pela região serrana? Mora sozinho?

Mudei pra Teresópolis pela qualidade de vida e porque eu vinha pra cá muito quando era criança, naquelas férias de verão em que várias famílias alugam uma casa e tal… Enfim, por isso. Eu moro com os meus 2 cachorros, uma é a Rimana, que é cega, porque ela teve Glaucoma, e o outro é o Filipinho, não fui quem deu esse nome não (risos), foi o meu produtor Marcelo Pires.

Há uns anos você teve um problema de saúde, poderia falar a respeito?

Eu tive um problema sim –  diverticulite, que é um problema no intestino, mas que está sob controle atualmente. E também sou sonâmbulo, mas não tenho tido eventos de sonambulismo ultimamente, isso também está sob controle.

O que você tem feito atualmente?

Tenho cuidado dos meus cães, tentando refazer a minha horta, estamos com uma turma (teatro) de 18 alunos somente aos domingos desde outubro e ensaiando para quando for possível apresentar, usamos máscaras e mantemos o distanciamento, tudo com a autorização da prefeitura, é um trabalho diferente mas muito produtivo. Só vamos nos apresentar quando o teatro Higino em Teresópolis reabrir para espetáculos. Antes da pandemia, tínhamos mais de 50 alunos pagantes, agora são 18, mas com valores reduzidos.

A pandemia, no aspecto profissional, me afetou com certeza, realmente prejudicou bastante, mas agora no aspecto pessoal, eu tenho tomado todos os cuidados e exortado as pessoas aqui que tomem os seus cuidados, porque vai passar e nós precisamos estar fortes pra essa passagem.

Você completou 60 anos recentemente, olhando pra trás, como você avalia a sua trajetória… sua carreira, qual reflexão você faz?

Eu faço a reflexão daquela velha frase muito usada “tudo vale a pena quando a alma não é pequena”, eu me sinto bem, eu me sinto produtivo, e eu espero ainda poder contribuir muito para a arte no Brasil.

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Reprodução

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