GAY BLOG BR by SCRUFF

Nesta quarta-feira, 28, o projeto de lei nº 504, que versava sobre proibir peças publicitárias com LGBTs em qualquer veículo de comunicação, voltará às comissões da casa para ser analisado novamente.

Na prática, significa que o projeto de autoria de Marta Costa, do PSD, que é ligada à Assembleia de Deus e é filha do Pastor José Wellington Bezerra da Costa, voltará à estaca zero e sofrerá grandes modificações.

O SCRUFF, que sempre faz questão de se posicionar nas questões humanitárias, convidou o comunicólogo Ad Junior para falar sobre o tema. Ad Junior é palestrante, consultor, apresentador e atualmente atua como Head de Marketing da Trace Brasil. Nos últimos anos, deu consultorias e palestras em empresas como Bosch, Coca-Cola, Facebook, Instagram, McDonalds, L’Oreal.

A entrevista com Ad, feita por live através do Instagram do GAY BLOG BR no último dia 25, foi transcrita e pode ser lida abaixo:

"Quando a religião vira projeto para cercear a vida de outros, é bem perigoso", avalia Ad Junior
“Quando a religião vira projeto para cercear a vida de outros, é bem perigoso”, avalia Ad Junior

Esse projeto de lei é bastante arcaico, já existiram ideias como essa pelo mundo…

Ad Junior: Primeiramente eu queria me apresentar, sou o Ad Júnior e quem fala para vocês é um homem negro, brasileiro, e que se debruça sobre questões de diversidade há muitos anos e que não está falando aqui no lugar de direito; está falando aqui como comunicólogo ou apresentador.

A primeira pergunta que precisamos saber, enquanto nós pessoas gays na nossa sociedade, é o seguinte: de quem nós estamos falando? O projeto de lei número 504/2020 foi apresentado por uma pessoa, e quem é essa pessoa? Essa pessoa é a Marta Costa. “Mas gente, a deputada Marta Costa, eu nunca ouvi falar nessa deputada Marta Costa”… e eu vou te dizer o seguinte: a deputada Marta Costa é uma deputada filiada ao PSD, que é o Partido Social Democrático, e ela representa o que podemos chamar de “bancada evangélica” dentro da Assembleia Legislativa de São Paulo – e o que ela representa também. Uma coisa que você pode não saber, que precisamos saber muito e entender de quem estamos falando, a Marta Costa é filha do José Wellington Bezerra da Costa. Que anjos é esse tal de José Wellington Bezerra da Costa? Foi um grande e poderoso, o grande todo poderoso das igrejas Assembleia de Deus do Brasil. O presidente da maior denominação evangélica do nosso país. Então você precisa entender de onde está vindo essa ideia. E essa ideia não é uma novidade, porque se você entende de quem está falando e de onde estão trazendo essa ideia, você vai começar a entender para onde se encaminha esse tipo de narrativa.

Durante todo século 20, os gays foram perseguidos também nessa associação da imagem, principalmente pelos conservadores, no nosso caso, que moramos no ocidente e no Brasil ou nos EUA, nas Américas. A gente vai falar da influência da igreja católica e evangélica durante todo o início quando a gente fala sobre sonho e imagem e como esse país é representado primeiramente.

Os primeiros filmes que vão ter é uma pessoa gay, já lá no início de 1900. Vai ter o filme “The Soilers”, que vai ter um personagem sissy que vai entrar e fazer umas gesticulações, criando então a imagem de pessoas gays. Esteve desde o início da filmografia na sociedade ocidental, a qual vivemos agora. Então, o reflexo disso vai acontecer já naquela época. Havia alguns movimentos conservadores católicos e evangélicos que tentaram proibir a imagem de pessoas gays dentro de filmes. Isso desde o início do século vinte, então não é uma coisa nova. Os conservadores evangélicos e católicos sempre quiseram cercear e controlar o que é essa imagem do homossexual: lésbicas, gays, LGBTQIA+. Sempre quiseram nos controlar. Aqui vamos falar de lésbicas, gays e transsexuais, porque no início do século 20 era assim. Então, historicamente, eles sempre tentaram cercear ou sempre tentaram criar uma forma de impedir que a imagem de pessoas gays fossem colocadas com o mesmo discurso. A gente vai ter um Código Hays, que é um código de conduta em Hollywood para filmes, que dura de 1934 até 1968, de como eles iam fazer uma leitura de pessoas homossexuais.

Em filmes, o que acontecia, geralmente um homossexual morria ou era do mal. Ou era bêbado e sempre era doente ou alguma coisa associada ao ruim. Então, durante muito tempo, tivemos um código lá nos EUA. E até teve outro movimento nos EUA, que foi o Movimento da Temperança. O Movimento da Temperança nos EUA conseguiu uma façanha, conseguiu uma façanha de fazer com o que uma parte da lei norte-americana mudasse para transformar a ideia de que o uso de bebida alcoólica era algo associado ao mal. E aí é  onde vem a Prohibition nos EUA (Lei Seca), que proibiram a venda de bebidas alcoólicas nos EUA.

E o que eu quero dizer é o seguinte: a bancada evangélica, a bancada conservadora católica, sempre existiu e sempre teve esse target; ela sempre olhou para esse grupo de pessoas lésbicas, gays, bissexuais, transexuais. Então, é importante a gente entender, nós enquanto gays, que historicamente sempre aconteceu e, no caso do Brasil, é um projeto muito mais amplo do que apenas proibir propagandas. Eles estão dizendo ali que é para “proteger nossas crianças”. O projeto de lei 504 é equivocado até a forma que a pessoa escreve: “preferências sexuais”. Ou seja, você pode dizer: “Mas está dizendo que é para proteger as crianças da pedofilia” – e isso é verdade, precisamos mesmo proteger, indubitavelmente, deve ser combatido.

Mas o que está dizendo no PL é o seguinte: uma propaganda, por exemplo, que há um pai, um pai e uma criança. Uma família. Para eles, isso não é uma família. E a justificativa é que a Constituição Federal, em seu artigo 24-7, determina a competência concorrente da União, Estados e Municípios para legislar sobre a responsabilidade por “danos ao consumidor”. O objetivo do projeto de lei é proibir a publicidade através de qualquer veículo em mídia e material que contenha alusão às “preferências sexuais” e movimentos sobre a diversidade sexual relacionada a criança no estado de São Paulo, considerando que o uso indiscriminado desse tipo de divulgação traria real ao desconforto emocional a inúmeras famílias além de estabelecer prática não adequada às crianças que ainda sequer possuem em razão de aprimoramento de leitura (5-10 anos), capacidade de discernimento de tais questões.

Há de se ressaltar, ainda, que em vários países a divulgação de qualquer material no sentido que estabelece esse projeto de lei, vem sofrendo várias “adequadas” restrições a fim de impedir os desconfortos sociais e atribulações de inúmeras famílias em situações evitando tanto a possibilidade quanto a inadequada influência na formação de jovens e crianças.

Eu não sou uma pessoa inadequada, o meu amor não pode ser considerado inadequado; inclusive desde 1990, gays, lésbicas, pessoas trans não são considerados doentes ou representam algum perigo à sociedade pela Organização Mundial da Saúde. Nós já fomos considerados como pessoas doentes, pessoas que representavam algum tipo de perigo ou pessoas que precisavam de algum tipo de tratamento ou cura. E é muito importante entender que nós não somos um perigo à sociedade e jamais, o que nós somos, é inadequado. Então, o amor que uma pessoa tem por outra não pode ser considerado algo inadequado.

E é muito interesante quando o PL fala assim: “Há vários países em que a censura desse material acontece”. Sabe quais países? Rússia, Uganda, Ucrânia, Chechênia… e aí eu fico. E na Rússia, por exemplo, há uma grande campanha do governo do Vladimir Putin em relação a propaganda gay, para que as pessoas não façam propaganda gay. Uganda quis, inclusive, na segunda metade aqui dos anos de 2010, entrar com um projeto pra voltar com a pena de morte para pessoas homossexuais. Se quiserem saber mais, tem um documentário chamado “Deus ama a Uganda” (God loves Uganda), que conta um pouco da influência do movimento conservador evangélico na política para influenciar e fazer lobby com leis no Estado de Uganda para voltar com a pena para homossexuais. E, para isso, a gente vai para a Chechênia, onde eles voltaram com alguns campos de concentração para homossexuais – isso aproximadamente há dois anos. A Ucrânia e outros países desse hall de raízes que estamos entendendo aí, onde a percepção dos Direitos Humanos são bastante colocados para defender ou justificar o que está sendo feito aqui com o PL 504. Defende-se que há vários países, mas não diz quais. Mas se pesquisar, vai saber quais países são esses.

O projeto de lei 504, cita que os comerciais com LGBTs trazen “práticas não adequadas às crianças”. O que você entende com isso?

O que podemos entender de “prática não adequada”, para eles, são cenas com dois pais gays, duas mães gays, um homem beijando outro homem, duas pessoas trans se beijando. Para eles, “prática não adequada” é tudo aquilo que não cabe dentro do enredo, da religião ou da ideia e da filosofia que eles acreditam.

O que é uma coisa muito importante de entender dessas pessoas é: existe canal evangélico de televisão? Existe rádio evangélica? Existe revista? Então está resolvido o problema, a partir de agora, os evangélicos só assistam a TV que eles têm concessão, leiam só suas revistas e só escutem as rádios que tem concessão. Termina o problema deles. O ponto deles é querer tutelar a vida de um país inteiro por conta do que acreditam. Se você está com um problema com pessoas homossexuais, não assistam os canais que não são sectares. É muito fácil para eles. Mas a ideia do poder é transformar – e é muito interessante orque a gente está falando de uma ideia de poder e nós enquanto pessoas homossexuais.

Eu sempre dizia para as pessoas que é muito legal a festa, mas isso tudo é terrivelmente perigoso. Grupos dos negros e pessoas de vários segmentos começaram a fazer outras análises, e é um momento para nós, que durante todo esse processo da pandemia também acabou a festa. Não tem festa, gente, é necessário começar a olhar como as políticas públicas têm sido influenciadas por um grupo sectarista, um grupo proselitista que deseja cercear a lei de pessoas ou de grupos. E o único lugar que eles ainda não conseguiram fazer muita coisa foi nos direitos de pessoas negras no Brasil, que eles também não falam nada.

Durante o movimento Black Lives Matters eles não falaram nada. Muitas dessas religiões dos protestantes e evangélicos ainda acreditam que os negros sejam descendentes de um grupo amaldiçoado lá da África. Mas em relação ao grupo de pessoas homossexuais, eles acreditam que, de fato, nós possamos trazer algum dano à educação ou à orientação. Mesmo porque eles não são muito do negócio da Ciência, então, para eles, uma pessoa pode “se tornar” homossexual, algo que eu nunca vi. 

E chega a ser inconstitucional o Projeto de Lei? O Mário D’Andrea, da Abap (Associação Brasileira de Agências), fala que o PL afronta o direito à liberdade e igualdade. Daniel Queiroz, que é presidente da Federação Nacional das Agências de Propaganda, também afirma se trata de uma tentativa de impor discriminações.

Exatamente. E teve um movimento, inclusive, do Propmark, que um veículo do segmento publicitário, dizendo exatamente isso, que a Associação Brasileira de Agências de Publicidade classificou como o PL como inconstitucional. Trouxe também a fala da Fenapro e a ABA. Então, é muito importante a gente entender até onde estende toda essa questão. Quem cria a propaganda são as agências de publicidade que vão entregar para as empresas esse produto para que possa ir pro mercado.

As propagandas nos EUA também tiveram um tipo de backlash, ou seja, houve em algum momento, nos EUA, algum tipo de rechaço nas propagandas (protagonizadas por LGBTs).

Fazendo uma linha do tempo, se no início do século a gente ainda era caricado, no século 20, no meio do século a gente também vai entrar nos campos de concentração e vamos ser mortos. Segundo alguns números aqui na Alemanha, aproximadamente 50 mil pessoas homossexuais foram presas e algumas delas sumiram durante algum processo do Holocausto. E é muito importante lembrar disso, é uma parte quase esquecida em alguns lugares, há lugares que nem citam que homossexuais foram assassinados. Mas lá em Berlim, bem no centrinho de Berlim, tem alí uma homenagem aos homoessexuais mortos e desaparecidos durante a Segunda Guerra Mundial. 

E aí vamos ter outro momento que vai ser lá para frente, em momentos de mais liberdade no pós-Segunda Guerra. Um pouquinho de mais liberdade, mas a gente vai chegar na década de 70 a 80. Na década de 80, começa aquilo que eles vão chamar de “câncer gay”, que ninguém sabe o que era. E a gente vai ver, durante metade da década de 80, uma discussão, principalmente do governo americano, se de fato havia uma pandemia acontecendo com os homossexuais nos EUA; ou seja, a gente vai encarar pela primeira vez a pandemia da AIDS. 

Até aquele momento, qual era a imagem que nós tínhamos de homossexuais? E ela foi criada no imaginário das pessoas: o que era ser homossexual. E isso é muito importante a gente entender que é uma construção histórica, que é uma construção histórica da imagem, o poder da imagem de pessoas homossexuais na sociedade e como a gente vai representar. A gente só vai descobrir o negócio do “pink money” lá na virada dos anos 90 – e aí é que as empresas vão começar a se colocar nisso.

Vale a pena a gente lembrar a propaganda, por exemplo, da Subaru nos EUA. O carro que era entre uma categoria e outra, colocaram o slogan “Eu nasci dessa forma”. Nos anos 90, em 1994, a Ikea, que é uma loja de móveis, também teve uma propaganda. E recentemente, por exemplo, lá nos EUA, o Hallmark, que é um canal a cabo conservador nos EUA, tirou uma propaganda do ar, não lembro de qual empresa, pois são tantas coisas que tirou uma propaganda por conta do canal ser um pouco mais outservice.

Então, eu acho muito importante a gente entender que o Brasil não está inventando a roda nesse lugar na perseguição aos homossexuais e que a projeção positiva na imagética de pessoas gays na sociedade seja uma propaganda, seja em um filme ou seja em uma novela. A gente está tendo backslash muito grande de grupos conservadores que desejam tutelar a vida de outras pessoas. Se os evangélicos não concordam com propagandas voltadas a famílias diversas, desliguem suas tvs dos canais tradicionais e vão para os canais evangélicos que é muito ruim, ninguém gosta de assistir, são péssimos mesmo. Lá não vai ter propaganda. Vai ouvir sua rádio. Porque eu não consigo entender uma pessoa que fique 24 horas assistindo pregação em um canal de televisão. Então vai para um canal, criem suas redes de TV, seus próprios jornais e façam lá as propagandas que quiserem. Agora, em um mundo onde existem 7 bilhões de pessoas, cerca de um bilhão e alguma coisa são cristãos e, desse um bilhão de alguma coisa cristãos, neopentecostais no mundo nós temos aproximadamente, ou pentecostais, cerca de 300 milhões de pessoas. Ou seja, esse grupo não representa nem 10 por cento da sociedade sociedade mundial. Me desculpem, mas a sua verdade absoluta não pode se aplicar a 90 por cento da sociedade e, se você deseja se converter a Jesus, viver uma vida com cristo em seu coração, que incrível, que legal. Saiu das drogas e recuperou sua família? São histórias muito bonitas, mas não se converta a Jesus para poder tutelar o direito do outro de estar em outros lugares na sociedade. Se converta por amor e não pelo rancor, se converta para poder ajudar outras pessoas e para trazer a luz às pessoas que você acredita, mas não para poder transformar a vida de pessoas homossexuais em um lugar de trevas – e é exatamente isso que a gente está vivendo, um momento de trevas. Se a gente não prestar atenção, isso é só o primeiro passo de muita coisa que eles podem fazer porque se a propaganda não vai poder mais, imagine que a parada gay, onde vai parar. É um retrocesso muito grande. É daí para pior.

Eu sempre tenho essa questão, religião é importante para muitas pessoas, eu acho que é muito incrível que as pessoas tenham oportunidade de conhecer o deus que elas querem, no coração delas, e eu acho que é legítimo. É legítimo encontrar o amor através da religião, mas quando esse projeto de religião se transforma em projeto de poder para poder cercear a vida de outros indivíduos, aí a gente entra em um campo bem perigoso que a gente já viveu em séculos passados, em momentos mais passados e até neste século mesmo, em outros lugares.

E como o mundo anda enxergando o Brasil com essas questões, uma chacota?

É muito interessante esse movimento, que tem sido observado por fora por vários jornalistas internacionais que são correspondentes para o Brasil. Uns anos atrás eu falei sobre o Brasil tentar virar uma Teocracia novamente. Falei: “Olha, a gente precisa tomar um pouquinho de cuidado para que a gente não vire novamente uma teocracia ou que caminhe para o lugar de uma teocracia, né? Deus acima de tudo”…

Parece slogan de algum lugar, né? Nada é original…

Inclusive, “Brasil acima de tudo e Deus acima de todos”, sabe que slogan é esse, né? Já teve aqui na Alemanha na década de 30, “Deutschland über alles” (em tradução livre: ″Alemanha acima de tudo″)… Era esse o discurso de um certo senhor macabro que teve aqui.

Então, durante algum tempo, jornalistas internacionais faziam algumas críticas em relação a  esse movimento de religião e política. Estavam analisando isso já, conversando sobre isso, porque a gente não prestou a atenção nesses movimentos e, se hoje estamos aqui, falando sobre a PL 504, a gente está falando do que é a chegada dos evangélicos na política. E a chegada deles principalmente na década de 90, que eles vão entrando devagarzinho e chegando até onde chegaram. Essa pessoa, essa deputada do PL 504, foi candidata a vice-prefeita de São Paulo com Andrea Matarazzo.

Então, nós, que somos gays, lésbicas, trans, bis, queers, todos, precisamos estar alertas porque no mundo inteiro o nosso povo se uniu porque teve um momento que a gente falou “Ihh, acabou a festa”. E agora, no Brasil, é mais do que nunca esse momento de fazer reflexões. O que a gente sabe é que o povo do armário vai continuar no armário… Mas a gente, que dá a cara a tapa, precisa ser um pouco mais consciente e entender que nem a diva pop mais está fazendo show… a diva está tentando levantar dinheiro para se sustentar ou trazer grana pra galera. Então, é a nossa hora de começar a instruir sobre os nossos direitos e sobre quem são aqueles que têm o desejo de nos aniquilar da face da terra, porque, para eles, seria muito mais fácil aniquilar todos os gays, lésbicas e começar tudo denovo.

Fora do Brasil, as pessoas têm, de fato, observado isso, tem várias matérias falando sobre o conservadorismo brasileiro, sobre como esse grupos proselitistas conseguiram criar uma câmara no Brasil. Por exemplo, você vai falar de câmara evangélica no mundo… em poucos países você vai ver. Por exemplo, países com ideias teocráticas como, por exemplo, o Irã, que tem um grupo religioso que comanda algumas partes. E então é muito importante a gente falar sobre isso e de que lado a gente vai se posicionar. E para onde a gente vai querer caminhar pelos próximos anos, porque aqui fora todo mundo já observou isso e está muito mais evidente a gente precisa tomar uma posição mais dura em relação a essas pessoas.

E do lado do mercado do marketing, muitas agências se posicionaram… Quer dizer, as maiores agências do Brasil se posicionaram: África, CP+B, DPZ&T, Publicis, AlmapBBDO, Ogilvy, Leo Burnett, Wunderman, WMcCann… Não é necessariamente um interesse que é só econômico, é um movimento de agências comprando a causa. Internamente, nas agências, é difícil colocar uma campanha LGBT+ na rua: é preciso defender a ideia para o cliente, depois semanas com um tempestade de muitas ideias, depois uma equipe inteira de criação pernoitando… Pra depois pegar dez mil aprovações. Aí, depois, muita gente da própria comunidade vai nas redes sociais comentar: “Ai, a empresa x quer pink money”. Mas não é bem assim a realidade. É uma militância até da agência para convencer ao cliente “sair do armário”. Como você enxerga o mercado em relação a isso?

É “pink money” assim como existe “black money”, assim como existe todo. Todo mercado é segmentado em algum momento. Ou em todo lugar, em todo momento. O mercado vai se segmentar em algum momento. Existe um grupo de pessoas no nosso país, de jovens,  que tem a mania de reclamar de tudo “ah, porque pink money”, “ah porque não sei o quê”. Gente, estão acontecendo alguns avanços na sociedade. É importante reclamar quando tá acontecendo um monte de atrocidade na sociedade? É! Mas é importante lembrar em qual momento da história nós estamos. Eu tenho certeza que muitas pessoas gays que viveram na década de 50 e 60, vendo alguns movimentos de avanço de representatividade negra, se sentiriam muito felizes de ter pelo menos uma propaganda com pessoas gays. É claro que não utilizar isso de forma sem ter propriedade, sem ter lugar de escuta e de fala sobre o assunto, mas eu chamo atenção para as pessoas e digo: “Cara, moça, pessoa, para de reclamar um pouquinho e olha o que que a gente conseguiu fazer nos últimos anos.” Quando você não entende a sua história, você só consegue reclamar. E nós gays precisamos entender a história da representatividade de pessoas gays no mercado, de como não haviam produtos pra gente, de como a gente era segregado, de como comprar coisas pra gente era só naquela loja no escurinho e ninguém colocava nada pra gente. Está havendo uma mudança estrutural nas empresas. Você tem grandes CEO de grandes empresas que são homossexuais, eu acho o Tim Cook, presidente da Apple, que é homossexual. Nós temos pessoas gays em vários lugares de destaque na sociedade, a gente tem gays trabalhando na área da moda, a gente tem gays trabalhando em empresas de tecnologias, a gente tem pessoas gays em empresas com departamentos de diversidade, conversando sobre diversidades. Então, eu to no mercado, eu vejo muita, muita, muita coisa acontecendo de bacana e eu vejo um grupo de pessoas que só reclamam. Eu falo: “Poxa, mas a gente tá avançando de alguma forma, né?”. Mas não, não é o paraíso, mas, presta atenção, está avançando tanto que tem um grupo que quer cercear o direito de continuar. Então, pras agências isso é péssimo, porque as agências perdem o poder de criatividade, começam a ser censuradas… Porque isso é censura.

A gente teve um caso desses aí na propaganda do Banco do Brasil, que tinham pessoas gays e foi vetado. Essa ideia de censurar pessoas gays, de vilanizar pessoas gays, né? Porque, a partir do momento que você censura, você censura porque você acredita que aquilo é ruim. Então, a gente já entra em um outro lugar, no lugar de vilipendiação de corpos da diversidade, de vilipendiação de pessoas LGBTQIA+. Então uma coisa gera outra, que vai criar uma cadeia de sucessivos microssistemas de micro-opressões, que no final vira uma grande bola de neve.

Não estou dizendo que isso o PL504 é uma microagressão, é uma “big” agressão. Mas a gente precisa entender que a sociedade está vendo, se você é gay e não tá vendo nenhum tipo de avanço, tem um grupo de conservadores que está e já não quer que continue do jeito que está. O pouco que você tá reclamando, ele já quer que não tenha, porque já é muito.

O Brasil sempre foi reconhecido por várias questões e uma das coisas que o Brasil não proibia, até pouco tempo atrás, era falar sobre diversidade no caso LGBTQIA +. Apesar de ainda ser um país muito homofóbico, quando a gente fala, a gente tem que falar de onde fala. Eu nasci na cidade de Juiz de Fora, Minas Gerais, uma cidade que até pouco tempo era conhecida como uma cidade incrivelmente tolerante, onde tem a Lei Rosa, a primeira lei de criminalização de homofobia na cidade, uma lei municipal. A lei que proíbe a discriminação de pessoas gays em estabelecimentos comerciais. Eu tinha 10 anos quando essa lei foi aprovada na minha cidade. E é a cidade onde sempre teve o concurso do Miss Gay, o Miss Gay Juiz de Fora. Então, é importante falar também quem fala e de onde fala. Eu falo de Juiz de Fora, Minas Gerais, depois fui morar fora, Rio, São Paulo, grandes cidades; mas no geral, o Brasil ainda é um país incrivelmente homofóbico. A gente precisa começar a entender que o nosso país é o país que mais mata pessoas LGBTQIA +, principalmente trans. Pessoas trans tem uma expectativa de vida de 35 anos. Eu tenho 35 anos agora, se eu fosse trans estaria nessa linha dos 35 anos. Então o Brasil precisa ainda mudar muito e a gente precisa entender que a festa não vai durar pra sempre, vai ter um momento que a gente vai ter que fazer um Stonewall, vai ter um momento que a gente vai ter que ir às ruas protestar, vai ter um momento que a gente vai ter que parar um pouquinho com a ideia do fechamento, a gente vai ter que se posicionar.

Acha que tá prestes a acontecer um Stonewall aqui?

Sabe que eu não posso responder? Eu não consigo responder uma pergunta que é tão complicada, porque o Stonewall aconteceu por uma série de questões que aconteceram. Os LGBTQIA+, principalmente gays e travestis, porque ali eram travestis, a gente não está falando nem de transsexual ali, a gente nem falava nessa forma, né? A gente falava travesti, gays e travestis. Eles eram vistos como grupos que eram presos, tinham aqueles “raids”, “bashing”.

Eu não acredito que isso vá acontecer no Brasil, porque pra isso você tem que ter uma tomada de consciência geral de que há necessidade de ir às ruas para poder combater isso. E hoje, pra você combater o que a gente tá vendo, você teria que combater o conservadorismo implementado principalmente pelas igrejas evangélicas na cabeça de milhares de pessoas e que se transforma em algo durante as eleições, que vão ser os candidatos evangélicos que vão fazer coisas como essa senhora Marta Costa, repito, filha, filha do pastor mais poderoso do Brasil durante muitos anos, que é o pastor José Wellington Bezerra, que foi o pastor máximo das Assembleias de Deus. E aí a minha pergunta é: o pessoal vai começar a ir às ruas para protestar contra quem? É uma guerra ideológica, porque ali eles não estão vivendo na ciência, na razão, números e fatos.

Eu não sou advogado, não posso responder da forma da lei, mas a justificativa do PL 504 fala de “dano ao consumidor sobre o desconforto emocional à famílias pela prática inadequada” e o objetivo é proibir a publicidade porque tem países que já fizeram isso. Se você for olhar os países que já fizeram isso, está mais do que provado que não é normal, né?

Eu acho que é importante que todas as pessoas possam se manifestar sobre isso, mas acima de tudo, eu acho que as pessoas precisam entender o contexto histórico. De onde a nossa representatividade, enquanto LGBTQIA+? Vem na imagética da filmografia, da propaganda, do seriado… Como é que a gente sempre foi visto, como a gente passou a ser visto nos últimos anos e pra onde a gente está caminhando? São as três perguntas básicas da filosofia: De onde eu vim? Onde estou? Pra onde vou? Isso é muito importante para pessoas homossexuais, lésbicas, gays, nós precisamos entender de onde vem esse discurso. E que faz pouco tempo que a gente começou a ser tratado como gente na sociedade, faz pouquíssimo tempo. Então, você que está nos assistindo aí agora, você que é jovem, você que é velho também, você que é de meia idade, você que é muito velho, você que é muito jovem, eu to falando com você, você pessoa LGBTQIA +. Informem-se! Assim como uma pessoa que quer morar em outro país ela tem que aprender outra língua, a construção da gramática, como é que funciona pra poder falar aquela língua. Aprenda a linguagem do que é ser homossexual, o que é ser lésbica, na imagem, na publicidade, na tv. Aprenda a história dos nossos iguais que morreram nos campos de concentração, que foram perseguidos e que são perseguidos no mundo. Sai um pouquinho da bolha, sai um pouquinho da série Pose, da série babadeira, vem estudar um pouquinho a história do que você é. Eu acho que isso é muito importante pra gente poder fazer análises mais profundas sobre a nossa própria condição enquanto pessoas LGBTQIA + na sociedade.

Qual a articulação você entende que a Alemanha teve, que os Estados Unidos teve, que a gente precisa ter pra dar uma freada nisso?

Acho que a coisa mais importante a se fazer de início é que primeiramente a gente precisa entender. A gente tem que olhar para as outras associações que tão aí há muitos anos lutando pela nossa liberdade. Começar a procurar essas associações. Eu vou falar uma coisa que eu acho que é muito interessante: os evangélicos, eles vão à igreja todos os domingos, eles pagam dízimo, eles vão lá, eles participam, lê uma coisa, fala outra e às vezes a gente não faz isso, né? Qual é a associação LGBTQIA + perto da sua casa? Quem são essas pessoas? Então, se informando com essas pessoas quais são as ações que a gente faz pra poder mudar. A vida está em curso, a vida tá acontecendo e se a gente não se engajar, se a gente não se colocar no lugar também de “eu quero ser um instrumento para participar e apoiar a nossa luta” não adianta de nada você ir na festa da The Week no final de semana, porque não vai ajudar.

Ou seja, ser gay é uma luta é coletiva. A gente não chegou onde a gente chegou com uma luta pessoal, falando na primeira pessoa. “O presidente do movimento LGBTQIA+” Conhece? Eu não conheço. É porque é um coletivo de pessoas conversando de vários lugares: gay rico, gay pobre, negro, gordo, magro, trans, transman. A gente precisa entender que a gente precisa fazer uma caminhada mais segura. Inclusive, ninguém entra na guerra sem olhar o mapa do lugar que tá entrando, né? Tem que olhar o mapa pra onde eu estou indo. Eu acho que é isso.

Você acha que a comunidade está bastante segmentada e está cada um por si?

Eu não consigo falar por todos, então é muito importante sempre situar de onde eu to falando, aqui agora responde uma pessoa falando na primeira pessoa. O que eu enxergo? O que eu enxergo é que falta articulação, que as pessoas não estão articuladas o suficiente, que a nova geração de LGBTQIA+ estão um pouco menos interessados na causa. É muito legal hoje que hoje você consegue fazer um Twitter e ficar postando só o nude, ou fazer uma conta lá e ficar só na pegação. Então fica só nesse lugar, nessa área cinza, que eu posso pegar o que eu quero. Vou na geladeira e pego o que eu quero, mas a geladeira não é minha. Eu acredito que isso tudo aqui é um grupo muito segmentado em que os transexuais são mal vistos pelo grupo de gays brancos malhadinhos, sabe? E os negros que são colocados no lugar de fetichização, que os gays asiáticos em um outro lugar, que as pessoas bisexuais nem são gays né, LGBTQIA+, que a gente exclui em alguns momentos. A gente não entende o que são assexuais, a gente não entende o que é o conceito queer. É muita divisão. É importante ter essa divisão? É importante a gente entender quais são os segmentos. É importante ter os segmentos.

Eu vou usar sempre a lógica aqui para os evangélicos. Existe Assembleia Batista, Metodista, Presbiteriana, Quadrangular, todas elas. Mas na hora deles fazerem uma lei pra poder jogar a gente pra esse lugar, todos eles se apoiam. E é isso que falta. Eles podem não concordar entre si, em pontos específicos sobre hermenêutica, sobre teologia, sobre as ideias do que é o Cristo que eles acreditam, mas na hora de entender quem é o inimigo deles, eles entendem. Eles entendem qual grupo oprimir com a ideia de evangelizar. E nós, infelizmente, não entendemos qual grupo nós precisamos ficar atentos. Nós não entendemos que na hora do vamos ver a gente tá junto, mas não é tá junto somente pra Parada LGBT de São Paulo que tem 3 milhões de pessoas na rua. Aquilo ali não é o movimento em si, aquilo ali é a concretização de um evento que mostra o quão diversa é a nossa sociedade. “Nossa, olha que grande o movimento LGBTQIA+ no Brasil, a Parada Gay de São Paulo….” Não, aquilo ali é o final, né? Aquilo é um final de uma luta, aquilo ali é uma forma de mostrar que nós existimos, mas nós existimos no dia a dia. Então eu acho que falta um pouco mais de engajamento. Não precisa ficar todo dia indo lá, mas um pouquinho mais de consciência sobre o que é, um pouquinho mais de ideia sobre o que se deseja ser, para onde se deseja projetar. Acho que isso é muito importante pra gente.

Para acompanhar Ad Junior: @adjunior_real

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