A beleza de Gabrielle Gambine é digna de editoriais de moda. Assim como sua tia Roberta Close, Gabrielle se transforma em múltiplas figuras femininas em seu trabalho, podendo ser Glenn Close em Atração Fatal (1987) a Chloe Sevigny em Kids (1995). 

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Aos 22 anos, nascida e criada no Rio de Janeiro, Gambine é multiartista: além da moda, ela é estudante de Artes Visuais na Escola de Belas Artes da UFRJ, aprendiz em um estúdio de tatuagem e atua também com serigrafia em um coletivo LGBTQPI+ (a letra P, ela ressalta é de pansexual), onde faz uso de multilinguagens para abordar o universo da representatividade.

Articulada, Gambine fala sobre qualquer assunto com propriedade e maturidade. Com pouca idade, já vivenciou experiências difíceis envolvendo preconceito, sobretudo nos tempos de escola. Mas ela sabe como se defender, seja com argumentos ou até mesmo fisicamente, afinal, quando era criança, praticou jiu-jitsu, tendo sido campeã brasileira e vice-campeã estadual no Iate Clube do Rio.

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Em entrevista exclusiva para o GAY BLOG BR, Gambine fala sobre transfobia, os recentes casos envolvendo violência contra mulheres trans, sobre a tia famosa que foi um símbolo sexual nos anos oitenta e diversos outros assuntos.

Quando você percebeu que era uma alma feminina presa em um corpo masculino?

Desde sempre eu soube. Conforme fui construindo minha identidade, eu me via, me percebia como mulher e, muito nova, eu soube que não me encaixava e nem me sentia contemplada pelas expectativas que eram criadas em cima do padrão que é imposto para o gênero masculino. Havia sempre um incômodo e recusa em relação a isso da minha parte e, com o passar do tempo, fui me autoconhecendo até começar a flertar com a não-binariedade, buscando me entender e guiar meus sonhos, desejos e vivência. Conforme fui compreendendo e tendo contato com o que era a transexualidade e identidade de gênero, as coisas foram se conectando e comecei a constituir força para enfrentar o preconceito, a ignorância e guiar minha trajetória. O quanto mais eu analisava e investigava meu coração, mais simples era. Fui muito privilegiada e tive sorte de ter a Roberta, que é tão maravilhosa, como uma referência dentre as mulheres da minha família, isso fez eu me familiarizar em vários âmbitos e, consecutivamente, enxergar a travestilidade, transexualidade como uma possibilidade na construção da minha identidade para me assumir e começar minha transição de gênero.

E isso, na época, trouxe muitos conflitos consigo mesma? E na escola como era?

Não diria conflito, foi um descobrimento, aconteceu de forma natural. Na escola sempre foi difícil, a psicóloga chamava meus pais para conversar por causa da maneira que eu me comportava. Eu sempre fui fascinada pelo universo da feminilidade, mesmo antes de entender o que era gênero. Troquei muitas vezes de turma e instituição, sentia que não me encaixava, os colegas de classe implicavam muito comigo por ser feminina, sofria muito bullying. As aulas de educação física e o banheiro [separado por gênero] sempre me geraram desconforto. Com isso, comecei a desenhar, porque era uma maneira de me comunicar, me sentia acolhida pela comunidade artística, comunidade gamer e pessoas LGBTQPI+. E isso facilitou e foi um dos motivos por eu escolher a Escola de Belas Artes da UFRJ para minha graduação e para os avanços dos meus projetos. E, a partir disso, comecei a me interessar por fotografia e moda também.

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Você é sobrinha da Roberta Close, a primeira transexual nacionalmente conhecida, um ícone de beleza nos anos 80/90. Certamente é uma inspiração e tanto para você. Como é a sua relação com ela?

Nossa, com certeza a Roberta é uma inspiração para mim, não só como ícone de beleza, mas por ter sido voz de muitas na busca de direitos da comunidade trans e travesti. É por causa da luta dela e de muitas e muitos outros que finalmente posso exercer o meu papel enquanto cidadã reivindicando meu nome; sendo, portanto, restituída de meu direito de ser tratada como quem eu sou. Minha tia foi pioneira, é referência, fundamento e, sem dúvida, tenho muito orgulho dela. Nossa relação é boa, embora ela viva em Zurique na Suíça. Eventualmente ela vem ao Brasil e visita nossa família. Muitas vezes, a mídia acabava sendo muito invasiva, querendo gerar notícias sem respeitar a nossa individualidade e dignidade, acho que isso fez a Roberta se afastar dessa indústria e público, de certa forma. Eu mesma já me deparei com essa indelicadeza da mídia em alguns momentos.

Roberta Close e Gabrielle Gambine – Reprodução

Você é uma trans passável, que na maioria da vezes é tida pela sociedade como cis, mas isso não impediu que você sofresse transfobia em algumas ocasiões…

Então, a passabilidade veio com o tempo de transição, conquistei ela, mas nem sempre foi assim. Eu tenho esse privilégio até certo ponto, mas isso não me isenta de sofrer preconceitos. A partir do momento que se descobre que eu sou uma pessoa trans, tudo isso cai por terra e a sociedade continua a tentar me colocar à prova todos os dias. Em alguns casos a transfobia vem explícita, em outros vem velada. No início da minha transição, já fui alvo de risadas, olhares, já me gritaram na rua, já sofri discriminação em clínicas de depilação, banheiros e até por médicos. Preconceitos e humilhações que muitos de nós enfrentamos diariamente, mas prefiro ser positiva e não dar trela a essa energia e a pessoas tão pequenas. Hoje em dia eu sei que sempre vou ser julgada, mas sou muito mais madura para lidar e enfrentar isso. O mundo mudou, estamos vivendo um momento de TRANSformação, a cisgeneridade precisa se informar e evoluir para estar de acordo com ele. Nunca se foi tão falado sobre identidade de gênero e sexualidade como tem sido falado agora. Temos demandas específicas e, mais do que nunca, nossas vivências estão sendo pautadas, estamos TRANSformando o mundo e cada vez criando mais narrativas sobre o que é ser homem, mulher, trans, não binária e ocupando mais espaços. Bola pra frente, sigo mais forte, de cabeça erguida, vamos falar de coisas boas, muitas delas estão vindo por aí também.

Você é modelo, o mundo da moda está mais aberto para as modelos trans em se tratando de obter trabalhos ou ainda falta muito para isso mudar/evoluir? Sua tia fez inúmeros trabalhos em décadas anteriores.

Sim, a Roberta foi uma das precursoras de trabalhos muito pontuais há décadas atrás. Acho que, no geral, está ocorrendo uma mudança sim, cada vez mais o mercado de moda e beleza está buscando se atualizar, romper com o padrão, considerando e fortalecendo novas narrativas e visualidades. É um caminho lento eu diria, ainda existem muitos modelos de beleza e comportamentais então, talvez ainda leve um tempo para a moda brasileira evoluir e entender o que é diversidade e pluralidade, mas já conseguimos ver marcas e meios de comunicação dando voz a minorias. Me realiza ver pessoas LGBTs ocupando os mais diversos espaços no mercado de trabalho, saber que existe mais representatividade para as novas gerações; é estimulante, espero no futuro ver cada vez mais pessoas trans e travestis ocupando esses espaços, não dá para ser uma só, tem que ser várias atuando nos mais diversos âmbitos para que de fato aconteça uma aceitação mais ampla para toda a comunidade. Luto para que eu possa usar meu alcance para fazer a diferença e abrir portas para outras trans. 

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Recentemente, houve um caso chocante de transfobia, quando a trans (Alice Felis) foi agredida brutalmente em casa por um homem que conheceu na rua. Você se sente insegura/com medo sendo trans e vivendo no Brasil, mesmo em uma grande metrópole como o Rio?

Sim, eu me sinto insegura e tenho medo. Acompanhei o caso da Alice e fiquei péssima, eu mesma já sofri violência física na rua e perseguição de stalkers, não nessa proporção, mas foi traumatizante. O Brasil é o país que mais mata pessoas trans e travestis no mundo e é sim um receio exercer o direito de ir e vir, só quem vive sabe. Me pergunto “Até quando?” Quantas mais terão que ser assassinadas ou violentadas? Para a Alice Felis eu desejo muita força, todo meu carinho e apoio. Quero que ela saiba que não está sozinha e foi muito importante a comoção da internet para que ela fosse acompanhada e tomassem as devidas medidas. Porém, ainda existe um descaso muito grande em delegacias e espaços de denúncia dessas violência mesmo em uma metrópole como o Rio ou São Paulo, já que muitas de nós somos estigmatizadas, invisibilizadas e ainda vivemos nessas posições de marginalização, vulnerabilidade social, política e econômica. É urgente, precisamos da ajuda de vocês na nossa luta para denunciar esses crimes. Espero que o culpado seja devidamente punido pelos seus atos.

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Outro caso que chamou atenção na mídia foi a história da trans Juju Oliveira, cujo o silicone industrial aplicado deformou drasticamente a face dela. Você já se sentiu cobrada por essa busca incessante pela vaidade, pela possível perfeição estética?

Se sentir bem com nossa auto imagem é um processo pessoal e diário. Já me senti muito cobrada sim e isso fez com que eu me cobrasse em relação a minha aparência. Nós, pessoas trans, somos bombardeadas com a ditadura do que é masculino e feminino. Essa imposição da perfeição estética pode ser tóxica a ponto de nos fazer desenvolver conflitos com a própria imagem. Infelizmente, a sociedade costuma nos avaliar pelo quão estamos nesses parâmetros da cisgeneridade e isso pode estar atrelado ao número de procedimentos que a gente faz e o quanto temos acesso a isso. Mas muitas de nós não têm ou não são tratadas com respeito e dignidade nesses espaços. Por incrível que pareça, muitos profissionais não têm interesse nem vontade de disponibilizar suas ferramentas para nos ajudar e isso impacta em nossas vidas, fazendo com que algumas pessoas trans optem por métodos mais acessíveis, mesmo que com riscos, como o silicone industrial. E isso é um recorte de privilégio e de possibilidade também. É de urgência que se tenha mais debates sobre a saúde pública e as necessidades da nossa comunidade.

Você já alterou o nome em seus documentos, foi difícil?

Não foi tão difícil, dei entrada nesse processo através do Programa “Justiça Itinerante”, que é fruto da parceria estabelecida entre a Fundação Oswaldo Cruz e o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro com isso. Pude alterar meu nome de registro na certidão de nascimento, gerar a nova via da identidade e alterar os outros documentos. Isso foi um divisor de águas para que eu fosse tratada enquanto Gabrielle full timeA Oswaldo Cruz tem pessoas trans na equipe trabalhando lá, projetos e pesquisas que nos incluem e há todo um preparo para nos receber. Então, me senti cuidada e respeitada nesse processo. Uma curiosidade legal é que o decreto que dispõe o nome social e reconhecimento da identidade de gênero foi publicado no dia do meu aniversário, em 28 de abril.

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Em diversas fotos suas você lembra a atriz Glenn Close em Atração Fatal (com os cabelos cacheados) e, em outras, a atriz Chloe Sevigny. Essa semelhança é algo intencional ou mera coincidência? Você é fã delas?

Recebo muitas mensagens de seguidores que comentam comigo essas semelhanças e me enviam fotos de atrizes, modelos e designers de moda como a Glenn, Monroe e até mesmo divas atuais como Christina aguilera, Chloe, Gaga, Lili reinhart, Bella Hadid, entre muitas outras. E posso dizer que sou fã sim, todas elas são muito talentosas e me inspiram de alguma maneira.

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Você vive um relacionamento inter-racial, inclusive ele é modelo também. Você já foi alvo de preconceito por causa disso? 

Sim, ambos já fomos alvos de preconceitos e julgamentos nas redes sociais. Ele já presenciou a transfobia de perto e eu o racismo, mas temos um ao outro pra nos apoiar e passar por cima desses obstáculos. Além disso, o feedback positivo que recebemos sobrepõe essas mensagens negativas. A gente lê recados de outros casais e meu namorado recebe mensagens de pessoas que admiram a coragem dele e se apropriam disso como exemplo para se encorajarem e assumirem as pessoas trans que amam. Afetividade, pra mim, enquanto mulher trans, foi uma questão durante algum tempo, muitos objetificam nossos corpos e meu namorado nunca fez eu me sentir assim. É muito interessante ver que podemos inspirar outras pessoas e as fazer entender que beleza é diversidade e o amor é sobre aceitação e cuidado. Quando formamos famílias ou relacionamentos em quaisquer formato estamos quebrando o patriarcado e o CIStema.

Gabrielle com o namorado (reprodução)

Assim como a sua tia, você pretende viver no exterior definitivamente um dia?

Sim, pretendo. Já viajei para Nova York e adoraria morar durante um período. Outro lugar onde tenho algumas amigas e sonho em conhecer é Paris, quem sabe daqui algum tempo eu não faça essa ponte para continuar meus estudos e trabalhos.

Você cogita fazer a cirurgia de redesignação sexual de gênero um dia?

Então, essa pergunta é bem pessoal (risos), as pessoas focam tanto na cirurgia que às vezes chega a ser desconfortável. Existem muitas possibilidades, muitas formas de ser mulher e eu me sinto mulher. Nesse momento eu não cogito, mas penso que não vai ser uma cirurgia ou genital que vai definir ou validar minha identidade. Se eu optar pela redesignação no futuro, quero que seja uma realização minha com um acompanhamento de excelência e não para agradar terceiros, agora eu tenho outras prioridades.

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Para acompanhar Gabrielle Gambine nas redes sociais:

@gabriellegambinee, @fudidasilk, @vicenta_perrotta, @_inserto, @estileras, @membranv

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