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Atual senador da República, Fabiano Contarato foi o primeiro homem gay declarado a ocupar esse cargo no Senado Federal. Professor de Direito e delegado da polícia, agora ele tenta um passo maior em sua carreira política e, atualmente, está pré-candidato ao governo do Espírito Santo (ES).

Senador Fabiano Contarato (Foto: Reprodução)

Em 2018, Contarato foi eleito senador pelo partido Rede Sustentabilidade (REDE) em sua primeira disputa eleitoral. Contrariando as pesquisas de opinião, ele recebeu um total 1.117.036 votos. Em 2021, anunciou a sua saída do REDE e filiou-se ao Partido dos Trabalhadores (PT), a convite do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Em entrevista ao GAY BLOG BR, Contarato falou sobre o atual cenário político brasileiro e o que a população LGBTQIA+ pode esperar caso ele seja eleito governador do ES. “Pode esperar de mim total apoio e comprometimento com o avanço e a consolidação dos direitos da população LGBTQIA+, muitos deles já alcançados por via judicial”, pontuou o senador.

Fabiano Contarato
Fabiano Contarato – Reprodução

Contarato ainda comentou sobre o governo Jair Bolsonaro e classificou a gestão como uma “tragédia”. “Ele trabalha diariamente para acabar com todos os avanços sociais, legais, ambientais, de direitos humanos e de liberdade que o Brasil construiu a duras penas. Ele tem que pagar pelos crimes que cometeu”, disse ele.

Além disso, o vencedor do troféu “Poc Awards” na categoria “Militante do Ano“, falou sobre sua família e como foi o processo de descoberta da sua homossexualidade: “Muito solitário e dolorido”.

Fabiano Contarato foi eleito “Militante do Ano” pelo voto do júri (Foto: Reprodução)

GAY BLOG BR:  Antes de ser político, você foi professor de direito e delegado da Polícia Civil e de Delitos de Trânsito. Como foi trabalhar em espaços majoritariamente heteronormativos sendo um homem gay? Enfrentou preconceito?

Fabiano Contarato: A carga de preconceito que sofri foi muito menor do que grande parte das pessoas LGBTQIA+. Sou um homem branco, cis, servidor público num ambiente de classe média. Infelizmente, parte da polícia em todo o país alimenta uma herança cultural perversa de violências institucionalizadas contra o que chamamos de maiorias minorizadas, e é para vencer esses preconceitos que trabalhamos no Senado Federal. Vivemos em uma sociedade marcada pelo preconceito sistêmico não só contra LGBTQIA+, mas também contra mulheres, negros, idosos, indígenas, pessoas com deficiência…

É necessário que o poder público invista no treinamento e na conscientização dos agentes de segurança pública para o combate à homofobia e à transfobia, bem como para o tratamento das vítimas desses crimes quando elas buscam as autoridades. Muitas pessoas têm medo de recorrer às autoridades para denunciar crimes e violências sofridas, o que perpetua os altos níveis de violência contra a comunidade LGBTQIA+ no Brasil. Cabe também ao Ministério Público e ao Judiciário combater a impunidade neste tipo de criminalidade.

No Senado, aprovamos um projeto (PL 5231/2020), do qual fui relator, determinando a inclusão de conteúdos referentes a Direitos Humanos e ao combate à discriminação nos cursos de capacitação e aperfeiçoamento de agentes públicos e privados de segurança.

GB: Eduardo Leite foi o primeiro governador a declarar publicamente sua homossexualidade e você foi o primeiro senador abertamente gay a ser eleito. Para você, qual a importância disso para a população LGBTQIA+ brasileira?

Fabiano Contarato: Acredito que possamos contribuir com o combate à LGBTQIA+fobia, porque damos o testemunho de que todos somos iguais perante a lei e temos vez e voz nos governos e no Parlamento. Também podemos encorajar as pessoas LGBTQIA+ a militarem no processo político, por meio de partidos e movimentos sociais, para os quais sempre teremos as portas abertas no mandato. Conto ainda com apoio institucional do Senado Federal e do partido a que pertenço, o PT, para lutar pela comunidade LGBTQIA+.

(Foto: Reprodução)

GB: Para você, por quais razões o Espírito Santo foi o primeiro estado a eleger um senador abertamente gay?

Fabiano Contarato: Apesar de inúmeros retrocessos que o país tem vivido nos últimos anos, creio que grande parte da sociedade está madura, atenta e disposta a acolher a diversidade e a escolher seus representantes de forma livre de preconceitos. Orientação sexual, cor de pele, crença, classe social não definem caráter.

GB: No final de 2021, você anunciou a ida para o PT e atualmente está pré-candidato a governador do Espírito Santo pelo partido. O que a população LGBTQIA+ do Estado pode esperar caso concorra ao cargo e seja eleito?

Fabiano Contarato: Pode esperar de mim total apoio e comprometimento com o avanço e a consolidação dos direitos da população LGBTQIA+, muitos deles já alcançados por via judicial, como o casamento e a adoção. Fui um dos autores do pedido de projeção, no Congresso Nacional, da bandeira do movimento LGBTQIA+ e da iluminação com as cores da nossa bandeira, no dia 28 de junho, marcando as lutas do Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+I. Sou autor de sete projetos de lei em favor da população LGBTQIA+, sempre em contato e parceria com as organizações de base. As propostas visam a combater a homofobia e a transfobia, que são crimes no Brasil, e dar garantias de cidadania e respeito para pessoas que, historicamente, são vítimas de preconceito e violência.

Uma das iniciativas reforça a vedação à discriminação com base na orientação sexual de doadores de sangue que sejam homens que mantém relações sexuais com outros homens. Outro projeto de lei inclui perguntas sobre orientação sexual e identidade de gênero nos questionários aplicados à população no censo demográfico. Sugeri alterar o Código Penal Militar para remover termos e expressões discriminatórios, como “pederastia”. Além disso, pretende-se incluir entre as circunstâncias que agravam as penas previstas no Código a motivação de discriminação ou preconceito por orientação sexual ou identidade de gênero no âmbito das próprias Forças Armadas.

Uma outra proposta muda o Estatuto de Defesa do Torcedor para vedar e punir condutas homofóbicas e transfóbicas em eventos esportivos, como mensagens ofensivas e cânticos discriminatórios. Também apresentei projeto que garante, de forma gratuita, a pessoas transgêneros o direito à retificação de seu prenome e gênero nos assentos de nascimento e casamento, a ser realizada no Registro Civil, a partir unicamente da declaração de vontade da parte requerente.

Contarato se filiou ao PT em dezembro de 2021 (Foto: Reprodução)

GB: Pensa ou deseja concorrer à presidência e, talvez, ser o primeiro presidente gay do Brasil?

Fabiano Contarato: Sempre digo que sou um bom soldado das causas que defendo.

GB: Tanto nas eleições de 2018 e 2020, tivemos um número recorde de pessoas LGBTQIA+ eleitas. Em 2022, você acredita que esse número pode ser ainda maior?

Fabiano Contarato: Com certeza. O autoritarismo cresce no Brasil, mas as vozes plurais da liberdade e da diversidade não se calam e não vão se calar! É cada vez mais forte e organizado o movimento de empoderamento e participação política do movimento LGBTQIA+. É dever dos agentes públicos e da sociedade como um todo combater as desigualdades e o preconceito. Eu sempre digo a todos: filiem-se a um partido político, construam um projeto para sua cidade, seu Estado, seu país, a partir de pequenas vitórias cotidianas. É preciso participar da política, em vez de criminalizá-la.

GB: Vivemos um dos governos mais LGBTQIA+fóbicos que o Brasil já teve, que se opõe a toda e qualquer pauta da comunidade. Enquanto alguém que também faz parte da população LGBTQIA+, qual a sua avaliação do governo Bolsonaro?

Fabiano Contarato: O governo Bolsonaro é uma tragédia. Ele trabalha diariamente para acabar com todos os avanços sociais, legais, ambientais, de direitos humanos e de liberdade que o Brasil construiu a duras penas. Ele tem que pagar pelos crimes que cometeu. Ocupando o cargo mais alto da República, suas condutas encorajam os piores sentimentos e ações e agravam um quadro gravíssimo: o Brasil é o país que mais mata LGBTQIA+, mesmo com altos índices de subnotificação de crimes motivados pela homofobia e pela transfobia.

Sou contra a política armamentista do governo federal, porque, como delegado de polícia, sei que arma não acaba com a violência. Luto, também, pela instituição de imposto para grandes fortunas. Entrei com 94 medidas judiciais em temas como meio ambiente, direitos humanos, transparência, corrupção, saúde, trabalho, democracia e combate a preconceito e a discriminação, com êxitos significativos em prol da coletividade.

(Foto: Reprodução)

GB: Você já disse que só teve a primeira relação homoafetiva aos 27 anos. Antes disso, você já se entendia como um homem gay? Como foi o processo até esse momento?

Fabiano Contarato: Muito solitário e dolorido. Eu me ajoelhava e pedia a Deus para tirar aquilo de dentro de mim, não sabia lidar, não tinha uma rede de apoio. Acredito que até hoje muitos de nós passam por isso, mas agora podemos ajudar uns aos outros de maneira mais próxima e afetuosa.

GB: Como você e o seu esposo, Rodrigo Groberio, decidiram que queriam ter filhos?

Fabiano Contarato: A gente construiu esse sonho no dia a dia. Nossa família é meu maior tesouro. Gabriel e Mariana enchem nossa casa de alegria e amor. Nós tentamos dar o melhor para eles em valores, em afeto, em oportunidades.

GB: Nas redes sociais, você compartilha várias fotos de seus filhos, o Gabriel e a Mariana. Como é a relação com eles? Eles entendem qual o seu trabalho?

Fabiano Contarato: Eu gostaria até de poder ficar mais tempo com eles, mas a rotina do Senado é bem intensa. É uma festa estar com os dois: a gente brinca, ri, cuida, ama, sente de forma plena a vida.

Fabiano Contarato e sua família (Foto: Reprodução)



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Jornalista gaúcho formado na Universidade Franciscana (UFN) e Especialista em Estudos de Gênero pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM)