Linn da Quebrada não vai participar da Parada LGBT+ de João Pessoa

A justificativa do veto, segundo sua assessoria, se deu pelo posicionamento que Linn da Quebrada tem como artista

Nesta sexta-feira, a produção de Linn Da Quebrada publicou uma nota oficial afirmando que a  Funjope (Fundação Cultural de João Pessoa) vetou o show da cantora na Parada LGBT, programada para 29 de setembro, por considerarem o discurso da artista, nas palavras da FUNJOPE, “muito pejorativo”.

Segundo a nota, a equipe estava desde julho em negociação com a Frankla (co-organizadora do evento) e cumpriu com todos os processos burocráticos para a realização do show. Porém, após uma reunião da organização da Parada, juntamente com a FUNJOPE, a equipe de Linn recebeu a informação de que o show não aconteceria. A justificativa do veto, segundo sua assessoria, se deu pelo posicionamento que Linn da Quebrada tem como artista, consequentemente seu trabalho, e o que a mesma representa como corpo político.

“Devido a esse posicionamento da FUNJOPE, Frankla, que até então fazia parte da organização e estava em contato direto com nossa equipe, comunicou do ocorrido e se afastou de suas funções, justamente por ver nesse trâmite um processo de censura do nosso trabalho, que não deixa também de expressar um cunho transfóbico nas dinâmicas orquestradas por essas organizações. Ao recebermos o e-mail do setor de ‘ação cultural’ da Parada cancelando o show, questionamos se havia algum problema em nossa documentação ou outro motivo que justificasse o ocorrido e recebemos a seguinte resposta: ‘não foi documentação (…) foi só orientação mesmo’.”

Com muita indignação, a #EquipeDaQuebrada cobra um posicionamento oficial dos envolvidos no caso e na sequência manifesta sua opinião de acordo com a fala da própria artista censurada, Linn da Quebrada:

“Se me calam, é porque de alguma forma minha voz assusta. Talvez porque eu seja eco, porque soul uma legião. Uma legião dissonante & desbocada, que não dissimula suas verdades. mas penso principalmente que quando me calam & nos censuram, é porque têm medo do que nossa voz pode causar. Que vidas nosso canto suscita, que movimentos dispara & que corpos liberta? Ainda mais em tempos como esse de crise & retrocesso político tão grande.

Frankla (citada no texto) também deixa abaixo seu posicionamento diante do ocorrido:

“A justificativa do cancelamento da Linn se deu claramente pelo discurso político que a mesma carrega, por defender uma pauta que até dentro do próprio movimento é marginalizada, a de corpos dissidentes [trans]. Essa é mais uma das artimanhas para nos manterem dentro de nossas caixinhas – por trás da “boa ação” de ajudar a parada, ou seja, promover o discurso da diversidade, eles nos pedem que essa diversidade seja colocada em termos específicos e bastante higienizados. Não interessa a quem está no poder a ascensão de corpas trans pretas e é justamente por isso que não podemos nos calar. Movimento que não incomoda apenas serve de base para colonização.”

[ATUALIZAÇÃO 06 DE AGOSTO – 10h16] 

Nota de Esclarecimento da Parada LGBT+ de João Pessoa

A organização da Parada LGBT+ de João Pessoa divulgou nota de esclarecimento sobre a contratação de artistas para o evento. Na nota, os organizadores isentam a Fundação Cultural de João Pessoa (Funjope) de censura na contratação de atrações para o evento.

A Funjope reitera o apoiou a toda e qualquer manifestação popular que tenha o combate ao preconceito e a luta pela igualdade social como meta.

Confira abaixo, na integra, as notas do organização da Parada LGBT+ de João Pessoa e da Funjope:

XVIII PARADA LGBT+ de João Pessoa 2019

A Organização da XVIII Parada LGBT+ de João Pessoa, constituída pelas entidades LGBT+: Grupo de Mulheres Lésbicas e Bissexuais Maria Quitéria; Movimento Espírito Lilás (MEL); Movimento de Bissexuais (MovBi); Associação de Travestis e Transsexuais da Paraíba (Astrapa) e o Coletivo de Homens Trans da Paraíba, Petris, em face da publicação de uma nota da produção da artista Linn da Quebrada – com afirmações graves e equivocadas – vem a publico, por meio desta nota, esclarecer os últimos acontecimentos relacionados à Parada desse ano.

Em primeiro lugar, a Organização do evento é constituída pelas entidades históricas do movimento LGBT de João Pessoa, acima citadas, exclusivas responsáveis legais, e às quais se somam colaboradores, com o objetivo de garantir sua viabilidade de produção, por meio do estabelecimento de parcerias com instituições públicas e privadas. Nesse âmbito, uma das parcerias históricas e mais destacadas, tem sido a da Funjope – Fundação Cultural de João Pessoa, responsável pela contratação de artistas. Nessa parceria, firmada à quase uma década e atravessando diferentes administrações, de um lado, cabe à Organização da Parada fazer a indicação de mais de um nome para contratação, respeitado o orçamento previsto na rubrica da Fundação. E, de outro lado, cabe à Funjope a prerrogativa de definição de contratação dentre os nomes indicados. Portanto, no atual processo de contratação não ocorreu qualquer desrespeito aos termos do acordo histórico dessa parceria.

Nesse sentido, a narrativa elaborada na nota da Produção de Linn da Quebrada, se baseia num equívoco de inversão da ordem das ocorrências: o e-mail da Funjope, encerrando as negociações com a produção da artista, foi enviado antes da reunião da Organização da Parada com a instituição. A reunião foi marcada para que a decisão da Funjope fosse comunicada oficialmente à Organização do evento. E, nessa reunião, em nenhum momento, durante as negociações com a Funjope, a artista foi categorizada como portadora de ‘discurso pejorativo’ ou algo do gênero. Nesse contexto, cabe explicitar que, a relação da produção da artista com a organização do evento, deu-se por meio de uma colaboradora do evento, citada na nota como ‘co-organizadora’, mas que, no entanto, não é integrante de nenhum das entidades responsáveis institucionais do evento, as quais não tiveram nenhum contato direto com a Produção da artista.

Portanto, foi com imensa surpresa que a Organização da Parada, deparou-se com a conclusão acusatória de transfobia na nota da produção da artista. Antes de tudo, para bem da verdade dos fatos, a indicação de Linn da Quebrada como um dos nomes, para a Parada desse ano, se deu, exatamente, por ser ela, hoje, uma das principais expressões artísticas e de engajamento na causa trans, em nosso país, e a quem dedicamos imenso respeito e admiração pelo trabalho e pela representatividade de nossa pauta.

Lamentamos profundamente todos os mal-entendidos ocorridos, especialmente em tempos sombrios, em que nossa pauta está sendo atacada e que precisamos de diálogo e ação conjunta de todos os defensores da causa LGBT+. 

Nosso respeito e nossas saudações a Linn de Quebrada e a todos os defensores dos direitos da população LGBT+.

Nota da Funjope

A Fundação Cultural de João Pessoa (Funjope) refuta categoricamente toda e qualquer acusação de censura aos contratados para eventos na Capital e esclarece que apoia a Parada do Orgulho LGBT, mas não é a responsável pela escolha dos artistas que vão se apresentar na Parada, apenas contrata os artistas apontados pelo movimento.

Nesse caso específico, os organizadores da Parada do Orgulho LGBT indicaram duas atrações e a Funjope fez a opção pela mais viável para o processo de contratação. A Funjope deixa claro ainda que sempre apoiou e sempre vai apoiar toda e qualquer manifestação popular que tenha o combate ao preconceito e a luta pela igualdade social como meta.