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Considerada uma das pioneiras do movimento drag queen no Brasil nos anos 1990, Paulette Pink é dona de múltiplos talentos. Pink foi figurinista em vários musicais, desfilou para marcas conhecidas e emprestou o rosto para algumas campanhas publicitárias A semelhança física com a diva Cher abriu caminhos para se tornar cover oficial da cantora e até gerou a oportunidade de conhecê-la pessoalmente em São Paulo.

Paulette Pink
Paulette Pink – Crédito: Intagram

Na televisão, participou de vários quadros de forma fixa e em quase todas as emissoras brasileiras. Destacam-se: quandro “S.O.S” no programa “Jogo da Vida” (Band); assistente de palco do programa “Beija Sapo” (MTV); “Bofe de Elite”, do programa “Show do Tom” (Record); “Programa do Gugu” e outros. Em entrevista ao GAY BLOG BRASIL, a “trans drag”, como se autointitula, comentou os mais diversos assuntos, inclusive sobre plágios. Confira:

GAY BLOG BR: Você é uma das percursoras do movimento drag no Brasil nos anos 90. Se considera valorizada por isso? A comunidade LGBTQIA+ tem memória em relação a quem fez história?

Paulette Pink: Até o dia 16 de março, no lançamento do reality da HBO ‘Queens Stars’, eu achava que não e que nossa memória tivesse sido apagada e o que me restava era apenas lutar para coexistir animando festas e casamentos. Nesse evento do dia 16, na estreia do programa, fiquei emocionada e não pude conter minhas lágrimas ao ser aclamada por Pabllo Vittar, Tiago Abravanel e outras dezenas de drags, pois achava que elas não se lembravam mais de mim, apesar de estar na ativa trabalhando com outras bifurcações do meu trabalho como cinema, propagandas e fazendo stand-up comedy. Isso realmente me deixou muito emocionada e muito feliz.

GB: Em função do seu pioneirismo, você acha que foi muito plagiada por outras drag queens brasileiras no passado?

Paulette Pink: Percebo que esses figurinos e criações (minhas) vieram de um momento onde éramos criadoras e ambicionávamos inovações. Posso falar por mim que, por exemplo, venho das artes plásticas e do teatro, onde sou desafiada diariamente a criar e fazer arte como forma de subsistência. Sim, para ser o que eu sou depende da arte que em mim habita. Hoje vejo legiões de drags tentando ser alguém que não é. Elas assistem realities com formatos que vem do exterior e que, na verdade, não tem identidade brasileira.

Vejo diariamente dezenas de drags queens que se inspiram em mim, isso me deixa muito feliz, muitas delas acreditam que usando uma identidade visual que deu certo, vai dar certo para elas também, mas essa mágica não acontece assim. Sou de uma época que dar vida a uma personagem exigia criação artística determinante para o desejo de criar algo que fosse original. Venho dessa escola. Mas me sinto lisonjeada, de qualquer forma, quando vejo drag queens usando a minha identidade visual, mas, ao mesmo tempo, sinto um pouco daquele carinho ético em ouvir de onde veio aquela inspiração. Afinal à César o que é de César, um pouco de crédito não faz mal a ninguém.

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Paulette Pink – Crédito: Instagram

GB: A noite LGBTQIA+ de modo geral entrou em profunda decadência nos últimos anos, a que se deve isso na sua opinião?

Paulette Pink: Muitas vezes não sinto que o atual movimento das ‘Queens’ provem da alma ou do coração, pois para mim arte e coração sempre andaram juntas e não de ditames de programas enfaixados que ditam regras que nada tem a ver com nossa cultura. Ou seja, sinto que as pessoas estão cansadas de ver as mesmas coisas que já foram vistas e quando vão para as boates aqui, observam as mesmas coisas isso cansa qualquer cidadão. Ao mesmo tempo, sinto que o público LGBT é muito exigente e gosta de inovações.

Paulette Pink
Paulette Pink – Crédito: Instagram

GB: São mais de três décadas de carreira, qual a sua avaliação a respeito do movimento LGBTQIA+, principalmente em relação à comunidade trans? Avançamos ou regredimos?

Paulette Pink: Venho de uma época em que havia um grande preconceito contra travestis e transexuais. E travestis não eram incluídas nos círculos de amizades. Me lembro que quando ainda não tinha transicionado, fazia muito sucesso e era rodeada de amigos, mas a partir do momento que fui me reconhecendo como uma mulher transexual, os trabalhos foram cessando na comunidade LGBT. Fato que não aconteceu na comunidade heterossexual, que nunca fez questão de saber se eu era travesti ou não, o que realmente importava para eles era o efeito cênico que eu causava, ou seja, se eu cumpria minhas obrigações artísticas, o que importava era o meu show e não meu gênero.

Graças a essa minha personalidade forte e artisticamente exigente, consegui seguir por outros ramos artísticos da arte para que eu pudesse me auto recriar e trabalhar, pois, se eu dependesse só de uma coisa, estaria em maus lençóis. Então, busquei outros caminhos como figurinista, maquiadora e visagista (o que me rendeu o prêmio ‘Bibi Ferreira’, sendo a primeira transexual a subir no palco para ganhar um troféu com a criação do visagismo do musical ‘Forever Young’). Também rendeu polêmica, pois o prêmio não seria dado a mim se eu não tivesse ido lá em busca dos meus direitos. É claro que a transexualidade trouxe as dores e as delícias de ser o que se é, mais dores do que amores, é claro, pois, ninguém quer ser afastada de sua arte por causa do seu gênero. Hoje me auto denomino ‘Trans Drag’, pois nunca perdi a essência Queen espalhafatosa com a qual sempre me identifiquei.

No passado ninguém queria ser travesti, pois sabia que isso seria uma decisão quase mortal, mas com a quebra de tabus feita por nós mesmas, mostrando quem somos, houve uma abertura e maior valorização da nossa arte e também como pessoas e com isso uma proliferação do uso da palavra trans, que é usada inapropriadamente para usufruir do que lutamos tanto para construir. Daí toda aquela história do Trans Fake a qual já conhecemos.

GB: Quando o apresentador João Kleber estreou na Rede TV, ele tinha uma personagem inspirada em você. O que achou da performance dele? Foi autorizado ou plágio?

Paulette Pink: Nunca foi autorizado, a proposta era que eu fizesse o quadro o que repercutiu nacionalmente de forma negativa para ele, trazendo grande repercussão na mídia, onde ele fazia piadas de baixo calão desmerecendo todo o trabalho que demorei anos para construir. Afinal, ninguém gosta de ser desconstruído. Segundo João Kleber, ele se inspirava numa drag queen americana chamada RuPaul, que usava na época peruca branca, e não em mim Paulette Pink, que tinha um visual totalmente cor de rosa da cabeça aos pés. Fato este que me trouxe muitos problemas, pois a identidade dele era idêntica à minha. E foi aí que ele se deu mal, pois não conseguiu convencer a grande mídia que, na época, ficou do meu lado, sendo detonado por todos. Inclusive a Marília Gabriela botou ele na parede, na época. em rede nacional em uma entrevista no seu programa.

Também houve outro fato como este no Big Brother onde me inscrevi, mas o personagem foi usado para outra pessoa. Enfim, foram inúmeros plágios sem minha permissão. Falo sobre permissão quando me refiro a identidade visual, pois no ano de 1989 eu registrei a personagem Paulette Pink, inclusive com alguns desenhos dela na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, prevendo algo do tipo. Mas no Brasil sinto que nunca tive respaldo jurídico para que essa reparação fosse feita. Percebi que o meio gay tem memória curta, porque se fôssemos mais unidos isso não aconteceria.

GB: Você também é cover da Cher. Quantos procedimentos estéticos/plásticas você fez para ficar tão semelhante a ela? E quais foram eles?

Paulette Pink: Comecei fazendo laser na barba e no corpo, foram 30 sessões na época. Daí fiz o nariz pela primeira vez que ficou torto e, logo depois, fiz mais duas vezes para ficar do jeito que ficou. Daí fiz os preenchimentos no rosto, bochecha e mandíbula. E no final fiz feminização facial com raspagem e diminuição da testa e implante capilar, para disfarçar as cicatrizes. Coloquei os seios… os atuais já estão na terceira fase, ou seja, troquei os peitos três vezes. Há pouco tempo deu rejeição num dos lados, e estou só com uma prótese esperando o retorno do médico e o tempo necessário para que eu possa recolocar a prótese rejeitada.

Paulette Pink
Paulette Pink  e Cher – Crédito: acervo pessoal

GB: Você tomou drinks com a Cher, é verdade? Como foi esse encontro?

Paulette Pink: Não cheguei a tomar drinks com ela, apenas foi um encontro de almas aqui no Brasil, na época que ela veio para cá para participar da AMFAR (Fundação Americana para a Pesquisa da AIDS), para ajudar arrecadar fundos para o evento que busca a cura do HIV. E o TV fama lançou um desafio que se eu conseguisse entrar nesta festa, como se fosse a Cher, enganando a todos, eu receberia um cachê. Dito e feito, foi montado uma estratégia onde eu chegaria de limousine e tudo aconteceu conforme o combinado. Chegamos de limousine, eu estava montada de Cher, num dos meus melhores figurinos e ao chegar abriu-se o tapete vermelho e todos os fotógrafos gritavam: ‘Cher! Cher’, e foi assim que eu consegui adentrar no evento, atingindo assim o meu objetivo de ganhar aquele cachê. Mas logo em seguida, a verdadeira artista chegou e eu fui expulsa imediatamente. No dia seguinte, recebi um convite para conhece-la no hotel e foi lá que tivemos uma rápida conversa, pois havia muitos fãs querendo tirar foto com a artista que me recebeu carinhosamente. E, a partir daí, começou a curtir meus tweets.

GB: Você teve participações fixas/quadros em diversos programas de TV no passado, mas em algum momento surgiu a oportunidade de apresentar um programa na televisão? Houve preconceito quanto a isso?

Paulette Pink: Não sinto que houve preconceito, mas sinto que me foram negadas oportunidades que foram dadas para outras pessoas oportunistas, que se apoderaram do meu personagem para se promover com a minha identidade visual.

GB: A Lady Gaga já foi acusada de copiar artistas como Grace Jones (que se recusou a fazer um trabalho com a cantora), e baseado em fotos alguns figurinos dela são parecidos com os seus no passado. Vocês já trocaram mensagens? E você se sentiu homenageada ou plagiada?

Paulette Pink: Recentemente pude observar que a Lady Gaga curtiu meu Twitter e, ao observar mais a fundo, notei a grande semelhança em cinco figurinos cor-de-rosa criados, costurados e usados por mim, inclusive um bem particular que fiz há muitos anos em látex, onde eu cortava os bicos dos seios e dentro havia uma camisinha com groselha. Não acredito que nada cai do céu como num passe de mágica na mente de uma artista. Eu vejo da seguinte forma: creditar um artista nunca faz mal a ninguém, mas talvez ela não tenha culpa, pois deve ter muitos estilistas e produtores que podem me conhecer e, talvez, a culpa em não me creditar seja deles. Falta de ética existe em todos os lugares.

(Foto: Reprodução)

GB: Como você avalia o cenário político atual no país, inclusive a cultura?

Paulette Pink: Agradeço todos os dias pelo talento que tenho, e por ser brasileira, pois o brasileiro tem a incrível capacidade de se recriar e sobreviver num país muito difícil onde a arte é o último plano. Acho que as oportunidades pra mim, sempre foram cavadas profundamente com muita dificuldade e muita garra. Me lembro que eu já era travesti e perdia todos os papéis de drag queens em propagandas por ser travesti. Até que um dia criei o Paulão. Fui a um brechó e comprei roupas masculinas, me disfarçando de homem para ir aos testes onde eu me travestia de drag queen e comecei a pegar papéis de drags fingindo ser homem.

Há muitos anos tento uma chance, um lugar ao sol e finalmente graças a alguns amigos consegui alavancar um projeto no ProAc (Programa de Ação Cultural). O projeto que desenvolvo há muitos anos chamado Lesgirlsomusical, é protagonizado por cantoras trans com suas histórias difíceis e suas superações em busca de uma diva que existe dentro de cada um de nós, no fundo é a minha história. Sou uma artista que luta pelo seu reconhecimento simplesmente para poder viver da sua própria arte incentivando pessoas e levando felicidade. Mas de maneira geral sempre foi muito difícil.




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