Há dois meses, o publicitário pernambucano Maurício Carvalho fez uma postagem comovente em seu Twitter sobre um morador de seu prédio, o Roberto (nome fictício). No post, Maurício contou que Roberto era seu vizinho desde os anos 80 e era conhecido como “o morador gay do prédio”. Segundo conta o publicitário, os condôminos não gostavam muito de Roberto: “Eu nem sabia o que era homofobia ainda e encarava tudo como má vontade do povo, sei lá. Nas reuniões de condomínio (eu gostava das treta), ele sempre era o ‘do contra'”, lembra Maurício.

No ano passado, depois de muito tempo, Maurício avistou Roberto já velhinho, sentado numa cadeira e olhando para um ponto fixo em direção à rua. Quieto. Ao lado dele, uma moça de branco, uma cuidadora. Ele havia perdido a visão dos dois olhos por conta de uma cirurgia de glaucoma que não deu certo.

Mesmo cego, Roberto saía de seu apartamento para dar voltas pelo condomínio, mas vez ou outra parava no andar errado e tentava abrir a porta que não era a dele. “Ele não bate muito bem da cabeça depois que ficou cego. Ele não tem ninguém. Não casou, não teve filho e a cuidadora morreu de câncer faz três meses. Tem dois irmãos de Campina Grande que não gostam muito dele. Ninguém cuida dele. Ninguém. Os porteiros ficam atentos quando ele desce e o síndico vai lá uma vez ao dia. Tem um morador faz café, almoço e jantar e leva para ele. Outro dia, o ventilador dele queimou e o cheiro subiu, fui correndo lá”, contou o porteiro ao Maurício. O funcionário falou também que Roberto não aceitava ajuda de ninguém, exceto do morador que levava a comida porque o conhecia “desde sempre” no prédio.

Morador do 4º andar, Roberto interfonava pra saber da hora; se era manhã ou tarde, noite ou madrugada. Entre outras coisas, a cegueira fez Roberto perder a noção do tempo e, talvez, tenha criado medos. O porteiro dizia que ele temia que alguém o seguisse e adentrasse seu apto, por exemplo.

No final de julho, Roberto havia se perdido nas escadas do prédio e foi encontrado por uma moradora. Eram 07 da manhã e ele queria alguém para conversar. Foi levado de volta ao apartamento, que estava todo arrumado. Dinheiro não era problema pra Roberto.

A morada que o encontrou quis fazer uma denúncia de abandono para a Promotoria. Foi filmado, para servir como prova da situação. E foi combinado entre os vizinhos que a situação de Roberto iria ser formalizada no Ministério Público.

Idoso gay que ficou cego e se matou alerta sobre abandono e vulnerabilidade na velhice LGBT
“Roberto” – Acervo pessoal

Passaram-se quatro dias e, na madrugada de uma segunda-feira, os moradores acordaram com um barulho alto, que parecia ser a queda de um grande vaso de plantas. Roberto havia se lançado da janela. “Meu quarto, no sétimo andar, fica virado para outro lado. Só soube pela manhã, quando o porteiro do turno me disse à queima roupa. Eu fiquei tão sem ação que só olhava pra o lugar que o porteiro apontava. Já não havia mais nada, tudo limpo, silencioso, apagado. Um choque. Pouca gente do prédio soube, na verdade, porque de manhã cedo o IML veio e levou tudo. O porteiro que havia trabalhado de madrugada precisou ser atendido, tamanho o horror: ele estava a dois metros cochilando, mas alerta; e agora toma remédio pra dormir. Não fala sobre o assunto”, conta Maurício.

Dias se passaram, a notícia foi se espalhando pelo prédio e muita gente perguntando quem havia se suicidado. A cada encontro no elevador, a resposta sempre era algo como “o morador que vivia sozinho no 406” ou “aquele senhor solteiro do 4º andar”. Roberto morou quase 40 anos sozinho em seu apto. Durante anos, aos fins de semana podia-se ouvir os discos dele (Madonna era uma de suas cantoras prediletas).

“Ele pôs fim a um sofrimento que não me atrevo a medir nem julgar – pois de julgamento já basta os que teve em vida. Vai, Roberto, ficam-se os discos, mas leve os afetos todos”, escreveu Maurício em seu Twitter. “Toda a preocupação com a situação dele reflete entre nós, LGBTs, pela questão da velhice – o medo de ficar sozinho, desamparado de alguma forma. É real e bem cruel. E acho que particularmente, para nós, é um sentimento que vai rondando toda a vida”, lamenta Carvalho.

Google Notícias