Coletivo LGBT+ e Eduardo Suplicy articularão o futuro do Largo do Arouche em prol da diversidade

O Coletivo Arouchianos toma frente contra a gentrificação do Largo do Arouche e região

No próximo domingo, 22 de setembro, a partir das 16h, o Coletivo Arouchianos provocará uma audiência pública com chamamento de Eduardo Suplicy no Largo do Arouche, no centro de São Paulo.

Com o tema “Como consolidar o Largo do Arouche como território LGBT”, a audiência questiona um projeto de 2016 de João Doria Jr, que, segundo o Coletivo, é financiado por empresas privadas e pretende apagar a memória de um dos primeiros territórios LGBT+ da cidade, tirando a visibilidade e segurança das minorias na praça do Arouche e região.

Aud. Pública: Como consolidar o Arouche como território LGBT+

Como resistência, já foi criada a Frente de Proteção da Diversidade e Pela Reforma do Arouche (FPDAR) com um manifesto a favor de um projeto que contemple a memória e o uso LGBT+, especialmente da população mais vulnerável, como trans e travestis negras, pobres e periféricas que encontram ali um local de identidade, segurança e alegria.

Atualmente, dois anos após o início das obras (ainda embargadas por, entre outros motivos, parece contradizer o parecer técnico do CONDEPHAAT), o Coletivo Arouchianos, com o apoio do Instituto Pólis e REPEP (Rede Paulista de Educação Patrimonial), volta a articular sobre os futuros do Largo do Arouche. O interesse é ponderar um projeto popular e participativo para impor contra o processo de gentrificação que ocorre frequentemente no centro de São Paulo.

AROUCHE, PATRIMÔNIO LGBT

A região do Largo do Arouche (zona que fica dentro das Avenidas Duque de Caxias, São João, Ipiranga e Ruas da Consolação e Amaral Gurgel, no centro de São Paulo) é ocupada há pelo menos 50 anos pela comunidade LGBT+.

Os registros oficiais que levam a identificar esta ocupação são por parte das forças de segurança do Estado que, historicamente, reprimiam (e ainda reprimem) a comunidade. O jornal O Lampião também deixou registrado na história as perseguições por parte do Estado contra a comunidade LGBT+ durante os anos de 1970 e 1980.

Segundo conta o livro Ditadura e Homossexualidades, organizado por James N. Green e Renan Quinalha, no início dos anos de 1970 a polícia civil passou a fazer rondas para reprimir a ‘criminalidade’ nas grandes cidades por meio de blitz. Assim, apreendiam LGBT+ nas ruas sob a justificativa de averiguação (naquela época, havia uma lei contra a “vadiagem”, que era usada como motivação para deter quem não era heterossexual).

A partir de 1976, a polícia civil de São Paulo passou perseguir travestis. Segundo o Coletivo Arouchianos, o delegado Guido Fonseca, responsável por uma pesquisa em criminologia envolvendo pessoas que ele considerava “pervertidas”, determinou, então, que toda travesti devia ser levada à delegacia para que fosse fichada e tivesse registro em foto “para que os juízes pudessem avaliar seu grau de periculosidade”.

Além da repressão oficial, as décadas de 1970 e 1980 testemunharam uma onda de assassinatos brutais de LGBT+, algumas delas bastante conhecidas, como o diretor de teatro Luíz Antônio Martinez Corrêa, irmão de Zé Celso. Na praça da República, aconteceram ataques homofóbicos em que um deles a artista e ativista LGBT+ Renata Perón, perdeu um dos rins por conta das agressões físicas sofridas.

Em 1987, a polícia deu início à “Operação Tarântula”, cujo objetivo principal era prender travestis que se prostituíam na região. Apesar de a operação ter sido suspensa pouco tempo depois, travestis passaram a ser assassinadas misteriosamente, a tiros.

Além da suspeita, que recaiu sobre policiais, houve desconfiança da ação de grupos homotransfóbicos que se manifestavam abertamente e, não raro, a própria população era favorável à matança como uma forma de “higienização” das ruas da cidade. Declarações mostradas no documentário Temporada de Caça, dirigido e produzido por Rita Moreira, dão a dimensão de como o ódio generalizado predominava na sociedade e, de certa forma, sancionava uma verdadeira caçada às minorias sexuais.

Conhecer esse período tenebroso da história brasileira é importante para se analisar novas movimentações semelhantes de ataques à comunidade LGBTs – que podem começar como uma simples defesa à liberdade de expressão e ao direito de “não gostar de homossexuais”. A linha entre a livre manifestação de um ponto de vista preconceituoso e a ação pode ser mais tênue do que se imagina.

SERVIÇO
“Como consolidar o Largo do Arouche como território LGBT”
Data: 22 de setembro de 2019 (domingo).
Horário: das 16h às 22h
Local: Largo do Arouche, Centro de São Paulo – SP
Evento no Facebook: https://www.facebook.com/events/1353985321423046

Coletivo Arouchianos Arouche
Coletivo Arouchianos. Foto: Pedro Lopes

COLETIVO AROUCHIANOS

Em contato com o contexto histórico, com a rica ocupação LGBT+ na região do Arouche e percebendo a ocupação do largo por LGBT+ paulistas, migrantes, imigrantes, pretas, indígenas, brancas, trabalhadoras de baixa renda, trabalhadoras do sexo – e também LGBT+ em situação de vulnerabilidade social/calçada na região, o militante em Direitos Humanos Helcio Beuclair idealizou. em conjunto ao Rodrigo Costa e Lucas Kiler,  o Coletivo Arouchianos em 03 de Abril de 2016.

O Coletivo tem três objetivos centrais: garantir a visibilidade e a ocupação histórica LGBT+ na região; garantir a visibilidade do que foi, é e será produzido de arte/cultura LGBT+ no Arouche; articular, fomentar e liderar estudos sobre a ocupação LGBT+ com objetivo de provocar aos órgão de patrimônio histórico para que haja o tombamento do Largo do Arouche como patrimônio histórico imaterial LGBT+.

De abril de 2016 até os dias atuais, o Coletivo Arouchianos criou projetos (como o Arouchianos Humanitários, que tem como objetivo social de zelar e proteger LGBT+ em situação de vulnerabilidade/calçada), executou mais de 150 Assembleias Abertas (nas quartas-feiras entre 19h e 21h30min) e 150 atos-eventos (aos domingos, entre 18h e 22h).