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sexta-feira, 30 outubro 2020
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Afronte (2017)

Ficção e documentário se cruzam para mostrar o processo de transformação e empoderamento de Victor Hugo, um jovem negro e gay, morador da periferia do Distrito Federal. Seu relato se mistura aos depoimentos de outros jovens, cujas histórias revelam diferentes formas de resistência, encontradas em discursos de valorização do negro gay.

Com cerca de R$ 8 mil arrecadados em uma campanha de financiamento coletivo, os estudantes de audiovisual da Universidade de Brasília (UnB) Bruno Victor e Marcus Azevedo dirigiram o filme brasiliense mais instigante de 2017. “Afronte”, com duração que não chega a 16 minutos, é uma produção sobre o cotidiano de negros gays na capital.

“Pensando em termos de Brasil, há poucas referências de cinema negro gay, como ‘Madame Satã’ (2002). Fora tem um pouco mais do que aqui”, informa Azevedo, carioca de 35 anos que mora há seis em Brasília. “Academicamente, quase não existe referência. A gente acha recortes, citações pontuais. Mas nada aprofundado”, continua Victor, 26, nascido em Anápolis (GO) e radicado na capital também há seis temporadas.

“Afronte”, portanto, é um filme que respira um certo ar de ineditismo, sobretudo em Brasília. Fornece sons e imagens para jovens gays brasilienses que buscam reafirmar sua identidade racial, sexual e cultural. No centro e na periferia, como Gama, São Sebastião e Taguatinga, locações contempladas na narrativa.

De TCC aos festivais

Planejado como trabalho de conclusão de curso, o curta-metragem tem feito sucesso em festivais pelo Brasil. Em setembro, passou na Mostra Brasília do histórico 50º Festival de Brasília. Saiu com prêmio de montagem. Na última semana, “Afronte” recebeu talvez seu reconhecimento mais importante até agora: o prêmio de melhor curta no 25º Festival Mix Brasil, a mais importante plataforma de cinema LGBT do Brasil.

“Afronte” também tem se espalhado por outras telas: Colors: Cinema + Diversidade e Festival de Cinema da Bienal de Curitiba, ambos no Paraná, Festival Curta Cerrado (Uberlândia) e Serile Filmului Gay International Film Festival, na Romênia.

“Afronte” nasceu já na reta final da graduação quando Azevedo, hoje já formado, e Victor, com matérias ainda a concluir, conheceram o Afrobixas. “Você precisa estar dentro de um grupo para se reconhecer no outro”, reflete o carioca. O coletivo articula encontros, debates e fortalece laços entre jovens negros gays da UnB e de outras faculdades.

“Fomos apresentados ao Afrobixas numa aula da Dione (Oliveira Moura), uma das poucas professoras negras da UnB. Não é só a entrada que tem ser garantida para os negros na universidade. Mas também uma política de permanência em um espaço basicamente branco”, reflete Victor.

Misturando documentário e ficção, “Afronte” acompanha personagens que transitam por diferentes espaços. Entre depoimentos e passagens encenadas, o filme se desenvolve no contato dos diretores com atores e entrevistados. “Foi uma construção coletiva”, define Victor. “As histórias reais servem para ilustrar a experiência de personagens tanto ficcionais quanto não ficcionais”, reflete Azevedo.

“Afronte” deve participar de cineclubes e finalmente ganhar exposição na íntegra via internet depois de concluir sua carreira em festivais. Os cineastas pensam em transformar o curta em uma série para aproveitar personagens que não entraram no corte final. “Muita gente nem chegou a dar entrevista”, lembra o goiano.

O passo adiante é trabalhar em um novo curta-metragem. Desta vez mais extenso, com cerca de 25 minutos. “Agora estamos terminando o roteiro. Como recebemos incentivos no prêmio do Mix Brasil, já podemos começar a pensar em como iremos produzir esse novo filme”, comemora Azevedo.