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Em março de 1970, Chico Buarque retornou ao Brasil após um autoexílio de mais de um ano na Itália. Seu retorno fora influenciado por André Midani, o então diretor de sua gravadora, a Philips, o qual lhe assegurou “estar melhorando a situação no Brasil”.

No entanto, a realidade encontrada pelo Chico era bem diferente daquela que fora descrita nas cartas de Midani: a tortura e o desaparecimento de pessoas contrárias ao regime eram frequentes, assim como o ufanismo presente em adesivos de carros (como “Brasil, ame-o ou deixe-o” e “Ninguém segura esse país”) e em algumas canções populares (como “Pra Frente, Brasil” e “Eu Te Amo, Meu Brasil”), o que só foi agravado pela conquista do tricampeonato da Seleção Brasileira de Futebol na Copa do Mundo de 1970.

O cantor externou seu desapontamento na canção “Apesar de Você”, onde a crítica à ditadura era disfarçada como uma briga entre namorados. Ao enviar a canção para o departamento de censura, Chico imaginou que a letra da canção seria vetada, mas, para a surpresa do cantor, acabou sendo liberada.

UM ANO PARA CAIR A FICHA DOS CENSORES

Em fevereiro de 1971, o jornalista Sebastião Nery, do Tribuna da Imprensa, publicou uma nota em sua coluna dizendo que seu filho e os colegas dele cantavam “Apesar de Você” como se estivessem cantando o Hino Nacional. Como resultado, Nery foi chamado para depor na polícia. Semanas depois, a execução pública da canção foi vetada pelo Governo Federal, pois este finalmente compreendeu sua mensagem. Os oficiais do regime invadiram a sede da Philips e destruíram as cópias restantes do disco. O censor que aprovou a canção também foi punido. Os oficiais do governo, no entanto, não destruíram a matriz, o que possibilitou a reedição da gravação original da canção. Num interrogatório, Buarque foi indagado sobre quem era o “você” da letra da canção. “É uma mulher muito mandona, muito autoritária”, teria respondido o cantor.

A censura de “Apesar de Você” teve um impacto negativo no relacionamento entre Chico e os censores, que duraria até o final da ditadura. Chico seria implacavelmente marcado pelos censores, sofrendo suas letras as mais absurdas rejeições. A situação chegou ao ponto em que ele teve que se disfarçar sob os pseudônimos de Julinho da Adelaide e Leonel Paiva para aprovar três composições, uma das quais, “Acorda Amor”, foi incluída no LP Sinal Fechado de 1974. Descoberta a farsa, a censura criou novas exigências: toda letra apresentada teria que ser acompanhada de cópias da carteira de identidade e do CPF do compositor.

Apesar da censura, “Apesar de você” foi liberada oito anos mais tarde, durante o final do governo do general Ernesto Geisel, sendo incluída num álbum do cantor em 1978. Clara Nunes (sem saber o contexto, achando que se tratava de briga de namorados), Maria Bethânia, Benito Di Paula, Beth Carvalho e, agora, Daniela Mercury fizeram releituras.

Daniela também fez um videoprotesto com participação de Elza Soares, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Adriana Calcanhotto, Geraldo Azevedo, Deborah Colker, Zélia Duncan, Dona Onete, Céu, Vik Muniz, Margareth Menezes, Vânia Abreu, Teresa Cristina, Gabriela Prioli, Ailton Krenak, Vovô do Ilê, Antonio Nobrega, Silva, Elisa Lucinda, Assussena (As Baías), Raquel Virginia (As Baías), Rafa (As Baías), Jessé de Souza, Sergio Besserman, Casagrande, Preta Ferreira, Anielle Franco.

Na descrição, Daniela traz o seguinte texto:

“MANIFESTO

Há cinquenta anos, Apesar de Você, de Chico Buarque de Holanda, foi um manifesto musical eloquente contra o autoritarismo e contra a censura que inibiam as liberdades humanas e os direitos fundamentais na ditadura. Hoje, no Dia Internacional dos Direitos Humanos, estamos lançando um manifesto audiovisual contra a violação de direitos humanos, pela liberdade de expressão e pela democracia. Nosso propósito é o de pedir à sociedade civil que identifique as forças antidemocráticas e reflita sobre os riscos que a perda de liberdades gera para a democracia. Ao reunir matérias de imprensa sobre violações graves aos direitos humanos, sobre os ataques à democracia, sobre o enfraquecimento das instituições, sobre a destruição da natureza, sobre a redução dos espaços de participação social e do acesso à informação pública, dentre outras gravíssimas violações constitucionais, buscamos mostrar a crescente escalada do autoritarismo, dos discursos de ódio e das perdas de liberdades no Brasil. É imprescindível e urgente combater com veemência a censura às liberdades artística e cultural; à liberdade de cátedra; à liberdade de imprensa e à ciência; bem como o uso de fake news e os ataques aos artistas, aos jornalistas, às mulheres, aos povos indígenas, aos povos tradicionais, aos quilombolas, à comunidade LGBTQIA+, aos ciganos, aos moradores de comunidades e de periferias e à população negra, enfim, a todas as minorias. Também é urgente e imprescindível fazer cessar a destruição da Amazônia, do Pantanal, do Cerrado, da Caatinga e da Mata Atlântica, porque é um direito humano o acesso à água limpa, ao ar puro, ao saneamento básico e a um ambiente equilibrado. Este manifesto é uma forma de resistência democrática e de fortalecimento da sociedade civil. s direitos humanos estão feridos. É preciso deixar claro que não há democracia sem direitos humanos. Precisamos garantir todas as liberdades, a começar pela liberdade de expressão. Amanhã vai ser outro dia!”

Assista:

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