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Único homem gay da coligação PT – PSB a disputar uma vaga de deputado federal por São Paulo, William Callegaro (PSB) tem 31 anos e é advogado. Novo nome na política pela luta dos direitos da comunidade LGBTQIA+, ele é um dos entrevistados da semana, no especial “Eleições 2022” do Gay Blog BR.

Como homem gay, reprimiu sua sexualidade durante muito tempo, por receio do que as pessoas pensariam. Após se libertar dessa opressão, Callegaro transformou suas dores em força para lutar por um país com menos preconceito. No PSB da capital paulista, criou o segmento LGBTQIA+ e, desde então, assumiu o papel de atuar em favor dessa comunidade.

“[…] Uma vez que, como homem gay e advogado, tenho o dever ético e moral de trabalhar pela criação de leis de abrangência nacional para essa população. Afinal, só estou aqui hoje em razão da luta e morte de muitos outros LGBTs”, declara o candidato.

De acordo com Callegaro, além da comunidade LGBTQIA+, suas pautas também “estão focadas nos principais anseios das gerações Z e Y: diversidade nos espaços de poder, um país mais sustentável, que respeite e proteja o meio ambiente e as nossas florestas, e o fomento à empregabilidade e empreendedorismo para para a juventude”.

“Sempre fui apaixonado por política, mas via como algo inalcançável para mim. Não sabia como iniciar essa jornada, pois não conhecia nenhum político e não tinha parentes na política. Hoje, estar onde estou já é uma grande vitória, estou muito feliz”, pontua Callegaro.

O candidato ainda reconhece enfrentar dificuldades na captação de recursos para sua campanha. Infelizmente as candidaturas LGBTQI+ não são levadas a sério no Brasil e isso é comprovado por dados e evidências, basta pesquisar os valores que essas candidaturas recebem dos partidos e de doações privadas para suas campanhas nas últimas eleições. Sem dinheiro, infelizmente, não conseguimos fazer nossos nomes chegarem aos eleitores”, afirma.

William Callegaro foto Fabio Audi
William Callegaro. Foto: Fabio Audi

GAY BLOG BR: Qual a sua formação e trajetória profissional?

William: Me formei em Direito em 2014 e comecei a advogar no mesmo ano. Sempre de forma autônoma. Também fiz especialização em Direito do Consumidor e Direitos Fundamentais. Mas o passo mais importante da minha vida veio cinco anos depois, quando tive a coragem de entrar para a política. Eu sempre tive medo do que as pessoas ao meu redor iriam pensar, por isso demorei muito para seguir o meu sonho. Mas ver a realidade e os problemas do nosso país me mobilizou para querer construir algo diferente. Tanto que em 2021 fiquei entre os 150 aprovados da maior escola de formação política do país depois de um processo seletivo de sete meses, sete etapas e com mais de 12 mil inscritos. No mesmo ano, criei o segmento LGBT Socialista na capital paulista. Em 2022, assumi a coordenação jurídica da Aliança Nacional LGBTI+ no estado de São Paulo. Hoje, estou como candidato a Deputado Federal pelo PSB e, infelizmente, o único homem gay da coligação PT – PSB a disputar uma cadeira no Congresso Nacional por São Paulo.

GB: O que motivou a se candidatar?

William: Como disse, sempre fui apaixonado por política, mas via como algo inalcançável para mim. Não sabia como iniciar essa jornada, pois não conhecia nenhum político e não tinha parentes na política. Hoje, estar onde estou já é uma grande vitória, estou muito feliz.

E eu tenho um desejo: ser instrumento para que todos entendam que o parlamento não é meu. O parlamento pertence e é de direito do povo brasileiro. Todos devem ter acesso, podem se candidatar e o ideal é que lá tenha todos os tipos de pessoas. Minha luta começa de um incômodo. Eu sempre busquei uma pessoa que me representasse no Congresso e tive muitas dificuldades de encontrar uma pessoa que olhasse para o que vivi, como um homem gay, que se reprimiu por não se sentir seguro. Eu sempre sonhei viver em um país onde a minha sexualidade não fosse um limitador. Afinal, quem somos? O que define um brasileiro? E todos os políticos que apareciam em minha vida não conectavam com as minhas ideias. Eu não sentia que havia comunicação.

GB: Quais os desafios enfrentados ao ser um candidato abertamente LGBTQ+?

William: Infelizmente as candidaturas LGBTQI+ não são levadas a sério no Brasil e isso é comprovado por dados e evidências, basta pesquisar os valores que essas candidaturas recebem dos partidos e de doações privadas para suas campanhas nas últimas eleições. Sem dinheiro, infelizmente, não conseguimos fazer nossos nomes chegarem aos eleitores. Isso não é diferente comigo, está sendo muito difícil captar recursos para a campanha. Fora isso, alguns casos bem chatos de assédio que nunca antes havia passado em minha vida.

GB: Quais são as suas principais propostas? Há pautas exclusivamente para LGBTQ+?

William: As minhas bandeiras estão focadas nos principais anseios das gerações Z e Y: diversidade nos espaços de poder, um país mais sustentável, que respeite e proteja o meio ambiente e as nossas florestas, e o fomento à empregabilidade e empreendedorismo para para a juventude. A pauta LGBT+ não tem como não ser a principal luta da minha campanha, uma vez que, como homem gay e advogado, tenho o dever ético e moral de trabalhar pela criação de leis de abrangência nacional para essa população. Afinal, só estou aqui hoje em razão da luta e morte de muitos outros LGBTs. Preciso honrar esse compromisso com aqueles que me permitem existir hoje. Lutarei para transformar em lei todos os entendimentos do STF que deram direitos às pessoas LGBTs.

GB: Quais medidas você acredita serem necessárias para combater a LGBTfobia?

William: Não podemos mais trabalhar apenas com medidas repressivas, precisamos mudar a nossa sociedade. É urgente que lideranças LGBTs ocupem os espaços políticos de poder. Isso, por si só, gera reflexos inimagináveis, pois a sociedade começa a ver que existimos e somos iguais. Porém, precisamos que esses representantes LGBTs também lutem pela pauta, uma vez que até hoje não possuímos nenhuma lei de abrangência nacional para o segmento no Congresso Nacional. Somos mais de 10% da população brasileira e representamos um percentual inferior a 1% no parlamento brasileiro. Precisamos de união do segmento em prol das candidaturas que querem lutar por nossas vidas e nossos direitos, pois essas pessoas serão as nossas vozes nesses espaços. Hoje, coloquei meu nome à disposição de um projeto, para ser a voz de todas e todos que confiarem em mim.

GB: O que você pensa sobre o uso de PrEP?

William: Penso que é um método de prevenção ao HIV que deve ser combinado com o preservativo, não substituindo a utilização deste, afinal, temos diversas outras ISTs. Precisamos nos preocupar com todas as infecções transmitidas por contato e relações sexuais, não só o HIV. Ademais, é um medicamento bastante importante para a segurança de casais soropositivo e soronegativo.

GB: Como você avalia o governo de Bolsonaro?

William: Péssimo, principalmente para as minorias. Ele endossa tudo de pior nas pessoas. Tudo que nosso país não precisa é esse discurso da família tradicional, baseado em um sistema patriarcal, que é racista, machista, misógino e LGBTfóbico. Aliás, esse governo não é muito chegado a nenhum tipo de diversidade, seja social ou ambiental. Vemos isso com o desgoverno em relação a nossa floresta, com os altos índices de desmatamento e o desmonte da FUNAI. Nosso país é plural e diverso, por isso precisamos cuidar e zelar por ela. É necessário também de parlamentares que entendam, fomentem e legislem em prol dessa tão rica diversidade.

GB: Você acha que a comunidade LGBTQIA+ é unida?

William: Infelizmente temos uma comunidade desunida. Vejamos: representamos mais de 10% da população (só no estado de São Paulo esse número representa mais de 3,5 milhões de eleitores assumidamente LGBTs) e, hoje, não possuímos nenhum deputado federal que lute pela causa no Congresso. Isso é muito grave! O reflexo disso tá aí, nenhuma lei para o segmento aprovada no Congresso até hoje, no país que mais mata a população LGBT+. Ademais, conseguimos juntar quase 4 milhões de pessoas na Avenida Paulista todos os anos, um número de pessoas maior que alguns estados inteiros, mas não conseguimos eleger sequer um LGBT para representar São Paulo no Congresso. A população LGBT paulista teria capacidade de eleger mais de um representante por cada letra da sigla, bastaria ser menos desunida e mais organizada. Às vezes a própria comunidade LGBT faz o papel dos conservadores e eles sequer precisam agir para nos prejudicar. O segmento dá um tiro no próprio pé e isso custa muitas vidas. A falta de direitos e o preconceito atinge a todos nós. É urgente a união da comunidade LGBT para apoiar as suas candidaturas.

Confira a lista de candidaturas LGBTQIA+ de 2022 neste link.

Lista de candidatos LGBTQ+ nas eleições 2022 | Deputados, Senadores, Governadores




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Jornalista gaúcho formado na Universidade Franciscana (UFN) e Especialista em Estudos de Gênero pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM)