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Não são apenas mulheres que são vítimas de violência sexual e, por essa razão, foi criado o projeto Memórias Masculinas, em novembro de 2020, que visa atender e apoiar homens que sofreram abuso. O GAY BLOG BR conversou com responsável pela organização, o psicólogo e mestre em Psicologia Social, Denis Gonçalves Ferreira, a respeito dessa iniciativa.

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Denis G. Ferreira – crédito: acervo pessoal

Como surgiu a ideia de criar o projeto Memórias Masculinas?

Por trabalhar com pesquisas há muitos anos, principalmente com temas relacionados à violência sexual, e por ter atendido vários homens que relataram ter sofrido abusos, me dei conta que não existia nenhuma organização especializada neste tipo de apoio psicológico destinado ao público masculino. Se um homem quisesse suporte, ele precisaria arcar financeiramente e sabemos que o Brasil é um país desigual e poucos têm condições de arcar com os custos de um psicólogo. A partir dessa constatação, convidei um grupo de amigos que trabalhavam este tema e começamos a desenhar nosso modelo de funcionamento. Hoje, já estamos formalmente registrados e ofertamos atendimento psicológico com plantão.

O Memórias Masculinas atende todos os homens independentemente da idade, orientação sexual e identidade de gênero. Quais tipos de homens que vocês mais atendem? 

Surpreendentemente, a maioria dos homens que nos procuraram são homens cisgênero heterossexuais. A média de idade dos homens que nós atendemos, até agora, é de 38 anos.

É mais difícil para um homem admitir ter sido vítima de abuso sexual? Existe essa relutância deles em tocar no assunto?

A violência sexual costuma ser mais difícil de reportar quando comparada as outras por questões culturais, e isso é ainda mais evidente com os homens pelos valores sociais. Nós educamos os homens para serem fortes e não demonstrarem sinais de fraqueza. Ser vítima demonstra o oposto disto, já que a pessoa fica fragilizada, além de que a violência sexual contra os homens é majoritariamente cometida por outros homens, caracterizando um ato homossexual, dificultando ainda mais os rapazes a falarem o que aconteceu pelo medo e o estigma. Some isso ao receio de falarem sobre o que aconteceu e serem identificados como potenciais agressores sexuais na idade adulta, algo que não é verdade, mas infelizmente é um medo que ronda o imaginário das vítimas. Todos esses pontos contribuem para que as pessoas mantenham o silêncio.

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Reprodução

O atendimento é feito online ou presencial? É gratuito?

Os atendimentos são feitos apenas virtualmente devido à pandemia, o que permite também que conseguimos atender homens de todo o Brasil.  É importante ressaltar que atendemos homens que viveram situações de violência no passado e não que estão em situação de violência, considerando que estes precisam procurar um atendimento presencial com urgência em unidades de saúde e denunciarem o crime em uma delegacia. Por sermos uma organização sem fins lucrativos, o atendimento é gratuito. Ele é realizado por psicólogos/as voluntários da organização que recebem treinamento exclusivo.

Ainda há uma crença de que um menino que tenha sofrido abuso sexual na infância se tornará gay na vida adulta. Como desmistificar isso?

Não há evidência científica alguma que indique que a violência sexual produz a homossexualidade. Reduzir as atrações afetivo-sexuais de uma pessoa a uma experiência traumática na infância ou adolescência é desconsiderar as potências humanas. A homossexualidade, por exemplo, é identificada em diversas espécies de animais sem que haja a presença de violência sexual. Nesse sentido, é importante dizer que é errado afirmar que um menino que foi violado sexualmente por um homem será homossexual por causa da violência sofrida. Apesar disso, os meninos homossexuais mais afeminados tendem a ser vítimas mais procuradas pelos agressores. Acredita-se que os agressores imaginam que as vítimas podem gostar da situação ou podem estar em tanto conflito com a sua orientação sexual, que não darão conta de lidar com dois grandes conflitos: a homossexualidade dentro de uma sociedade homofóbica e a violência sexual. O exercício para desmistificar isso é trabalhar com a realidade. Não existe correlação entre as atrações afetivo-sexuais e à violência sexual.

Muitos serial killers quando são presos afirmam ter sofrido abuso sexual na infância. Isso pode afetar a saúde psíquica do homem a ponto de motivá-lo a cometer crimes?

A violência sexual está associada a uma série de consequências para as vítimas, mas não é correto dizer que a violência sexual produz criminosos. Em toda minha trajetória como psicólogo e pesquisador, eu nunca atendi uma pessoa que foi vítima de violência sexual e queria se vingar cometendo atos violentos. Acredito que pensar que criminosos tem mais chances de terem histórico de serem agressores de violência sexual é mais produtivo do que pensar que violência sexual produz criminosos. Se pensarmos deste modo podemos nos engajar na prevenção e atendimento de homens vítimas de violência sexual para que eles não reproduzam comportamentos violentos.

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Denis G. Ferreira – crédito: acervo pessoal

Na série americana Oz, que se passa em um presídio, havia uma terapia em grupo para os presos que foram estuprados no local. A terapia de grupo é válida ou só funciona na ficção?

Geralmente as produções americanas e até brasileiras tratam a violência sexual contra homens como forma de castigo, punição ou piada, o que é péssimo para as vítimas, pois dificulta ainda mais que elas falem sobre o assunto. No entanto, a terapia em grupo é produtiva para lidar com diversos tipos de situações traumáticas. Se identificar com a história de outras pessoas, não se sentir sozinho e receber acolhimento são fundamentais para um processo de ressignificação da violência sexual. No Memórias Masculinas ainda não temos grupos, mas é um projeto para um futuro próximo.

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Reprodução

As pessoas que desejam receber ajuda do MM como devem proceder? 

Para receber ajuda conosco, é necessário preencher um cadastro breve no nosso site dentro da aba “QUERO AJUDA”. A pessoa será direcionada para o WhatsApp e falará com um atendente que marcará a consulta com um dos nossos voluntários disponíveis para o dia e horário que ele pode ser atendido de forma sigilosa. Já realizamos mais de 50 atendimentos e todos os homens que responderam a nossa pesquisa de satisfação disseram que ficaram satisfeitos com o atendimento e que indicariam para outras pessoas. Isso é um motivo de muito orgulho, pois estamos fazendo o nosso melhor para ajudar homens que estão em silêncio por muitos anos.

Mais informações: memoriasmasculinas.org

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