Após a grande repercussão da matéria do Fantástico em ter mostrado a vida de mulheres trans nas cadeias, os internautas foram ao Twitter para mobilizar pessoas a enviarem cartas de apoio a uma delas: Suzy de Oliveira Santos, que não recebe visita no presídio há oito anos.

A matéria sobre as transexuais presas, que dura cerca de quinze minutos, comoveu a internet. A estimativa é que, somente nos presídios de São Paulo, há cerca de 700 mulheres trans, e estas estão sujeitas a sofrerem preconceito, abandono e violência de forma muito mais severa quando comparados aos presos comuns.

– “Que solidão, não é minha filha?” – diz Dr. Dráuzio Varella

– “Bastante…bastante…” – responde Suzy, visivelmente emocionada, antes dos dois se abraçarem.

Até o Twitter oficial da Secretaria da Administração Penitenciária do Estado de São Paulo entrou na mobilização e passou o endereço de correspondência:

CARTAS PARA SUZY: tendo em vista a repercussão de reportagem exibida no Fantástico com a presa trans Suzy Oliveira, que está na Penitenciária I “José Parada Neto”, a SAP recebeu pedidos interessadas em enviar cartas à reeducanda, que há 8 anos sem receber visitas. há 8 anos. O endereço para correspondência é o da unidade: Rua Benedito Climérico de Santana, 600, Várzea do Palácio, CEP 07034-080, Guarulhos/SP. Favor colocar o nome da reeducanda no envelopeA Pasta esclarece que os presos recebem corriqueiramente material de higiene da unidade prisional, e, no caso da presa Suzy, ela recebe mensalmente 75% do salário mínimo pelo trabalho da empresa que presta serviços, recurso que pode usar para complementar suas despesas pessoais.

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Foto: Reprodução

Segundo Suzy, no início é simplesmente “impossível” sobreviver na cadeia sem entrar na prostituição.

“A partir do momento que você assume que tem problemas de saúde, o preconceito aumenta ainda mais. Eu sou soro positivo, já tive tuberculose…”

A reportagem explica que a maioria das mulheres trans que estão na cadeia estão com idade entre 30 e 45 anos. O crime mais comum é o roubo, seguido de tráfico, furto, homicídio e associação ao tráfico.

Programa “Beleza no Cárcere”

Durante quatro meses, reeducandos LGBTQI+ da Penitenciária José Parada Neto, de Guarulhos, participaram do Beleza no Cárcere. A iniciativa, da Coordenadoria de Reintegração Social, contou com maquiadores profissionais teve como objetivo dar a oportunidade de profissionalização para que esses profissionais tenham autonomia financeira após o cumprimento da pena.

Coordenadoria de Reintegração Social de Guarulhos certifica reeducandos no programa Beleza no Cárcere
Foto: divulgação

Ao longo das semanas, que totalizaram 60 horas-aula, diferentes voluntários estiveram à frente da arrecadação dos produtos e materiais necessários para o curso e prepararam uma turma que, ao final, formou sete alunos. A ação contou com a elaboração de uma apostila com abordagens práticas e teóricas, incluindo os conteúdos passados em aula.

Representando a direção geral da Penitenciária José Parada Neto, Maria Isabel Hamud, diretora de Reintegração Social do estabelecimento penal, agradeceu a iniciativa dos voluntários de se aproximarem do cárcere.

“Somos gratos à sociedade civil pela iniciativa de trazer não só um curso, mas também cor e esperança para a unidade prisional. Por meio dessa ação, tivemos a oportunidade de ter uma vivência completa de humanidade”, comenta Maria Isabel.

A realidade das pessoas trans no Brasil

90% das trans recorrem a prostituição para sobreviver (Foto: Reprodução)
90% das trans recorrem a prostituição para sobreviver (Foto: Reprodução)

Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA) divulgou no dia 29 de janeiro, Dia da Visibilidade Trans, o Dossiê dos Assassinatos e da Violência Contra Pessoas Trans Brasileiras.

Os dados mostram as mortes referentes ao ano de 2019, chamando a atenção que o Brasil continua sendo o país que mais mata trans e travestis no mundo. A ONG Transgender Europe também aponta o Brasil sendo o mais violento para trans, seguido do México, que apresenta a equivalência de 1/3 das mortes do Brasil.

O levantamento da ANTRA aponta assassinato de 466 pessoas trans registradas entre os anos de 2017 a 2019, sendo 124 apenas em 2019. No ranking por estado em números absolutos, São Paulo fica em primeiro lugar com 51 mortes, e em 2º está a Bahia e o Ceará, com 40 casos. Rio de Janeiro aparece logo em seguida, com 37; Minas Gerais, com 34 e em 5º, Pernambuco, com 28.

No entanto, considerando a taxa de proporcionalidade, a estimativa é que o estado de Roraima seja o mais violento perante este grupo, como mostra a tabela abaixo.

Foto: Reprodução

Mapa dos Assassinatos 2019 aponta que 59,2% das vítimas tinham entre 15 e 29 anos; 22,4% entre 30 e 29; 13,2% entre 40 e 49; 3,9% entre 50 e 59 anos; e 1,3% entre 60 e 69 anos.

O dossiê aponta que a morte de uma adolescente com 15 anos “ratifica o fato de que a juventude trans está diretamente exposta à violência que enfrenta no dia-a-dia”. 

Considerando todos os dados, a idade média das vítimas de assassinatos é de 29,7 anos. “Quanto mais jovem, mais exposta e propensa ao assassinato as pessoas trans estão”, afirma o relatório.

Os dados atualizados apontam que 90% das travestis e transexuais recorrem a prostituição como meio de sobrevivência, enquanto 6% recorrem ao trabalho informal e apenas 4% conseguem um emprego formal.

Além disso, o estudo estima que as Travestis e Transexuais são expulsas de casa pelos pais aos 13 anos, e apenas 0,02% delas conseguem chegar a universidade, 72% não possuem ensino médio e 56% não concluíram o ensino fundamental.

“Essa situação se deve muito ao processo de exclusão escolar, gerando maior dificuldade de inserção no mercado formal de trabalho e deficiência na qualificação profissional causada pela exclusão social”.  

Vale dizer que o preconceito e a discriminação também são fortes fatores de inibição da autoconfiança das pessoas trans no mercado de trabalho.

Jornalista formado pela PUC do Rio de Janeiro, dedicou sua vida a falar sobre cultura nerd/geek. Gay desde que se entende por gente, sempre teve um desejo de trabalhar com o público LGBT+ e crê que a informação é a melhor arma contra qualquer tipo de "fobia".