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As eleições de 2022 se aproximam e alguns nomes começam a ser especulados para a disputa política. Campeã de votos nas eleições 2020, Erika Hilton é a primeira vereadora negra e transvestigênere a ocupar uma cadeira na Câmara Municipal de São Paulo. Aos 28 anos, ela já afirmou que pretende ser a primeira travesti no Senado Federal, mas a ativista ainda não tem idade suficiente para o cargo.

O seu nome, inclusive, já foi sondado para se lançar candidata a vice-governadora de São Paulo, mas até outubro de 2022, ela ainda não terá a idade mínima de 30 anos. Mas será que teremos Erika na disputa por algum cargo político nestas eleições? Em conversa com o GAY BLOG BR, ela revelou quais suas pretensões e o que podemos esperar de mais uma disputa eleitoral.

Além disso, Erika também falou sobre suas perspectivas com as candidaturas trans nessas eleições, já que, em 2020, o Brasil bateu recorde e 30 pessoas trans foram eleitas, de acordo com levantamento da Antra. “Nós teremos um processo eleitoral muito difícil , muito duro, muito violento e é preciso cuidar, acolher e estar do lado dessas candidaturas dissidentes, digamos assim, porque será difícil pros grandões, quem dirá pra quem está disputando esse lugar agora, diante de tanto ódio”, pontua a vereadora do PSOL.

No ano passado, Erika Hilton venceu o troféu Poc Awards 2021 na categoria “Militante do Ano“, com 31% dos votos do público. Em 2020, a vereadora de São Paulo também ganhou a premiação na mesma categoria, com o voto do júri.

Entrevista Erika Hilton
Erika Hilton – Foto: Jorge Luiz Garcia / Reprodução

GAY BLOG BR: Este ano teremos Erika Hilton disputando as eleições a algum cargo político?

Erika Hilton: Eu amo como começa já a primeira pergunta que… Ah, eu acho [que tenho] uma resposta, mas que ainda não é uma resposta definitiva. Eu tenho recebido pressões dos mais diversos lugares – e não me refiro a pressão como algo negativo, acho que é muito positiva toda essa pressão que é partidária, que é popular, que é do meu eleitorado, que é da nossa comunidade – para que me lance sim a um cargo federal. Não tenho idade ainda ao Senado, mas acredito que talvez saia como deputada federal. Não bati esse martelo, porque eu trabalho aqui na Câmara Municipal… É um trabalho extremamente importante, eu tenho aprendido e realizado coisas muito importantes. Então, ainda tenho um ressentimento de partir. Mas eu acho que a minha política, a minha plataforma e a necessidade da nossa população, ela precisa ser debatida a âmbito nacional, de forma mais abrangente e acredito que ocupar aquele espaço se faça urgente e necessário. Então, talvez, haja sim Erika Hilton como candidata a deputada federal.

GB: Qual a sua expectativa para as eleições de 2022? Acredita que teremos mais homens trans, mulheres trans e travestis eleitas?

Erika: Eu torço muito e espero que o que ocorreu em 2020, possa ter sido a abertura de uma fenda irreversível. Que a cada eleição haja mais travestis, homens trans, mulheres transexuais, a nossa população transvistigênere, entre outros grupos sociais precarizados, vulneráveis ocupando e chegando a este espaço, pra que haja uma real transformação, uma real revolução e a real ocupação que precisamos fazer nesse ambiente tão cis, tão branco, tão masculino, tão tóxico. Eu acredito que haveremos [de obter resultados] sim, porque demos um avanço, demos um passo. Claro, tem toda a onda conservadora, reacionária, a violência que nos assola e luta contra o nosso corpo, mas eu espero que o que nós vivemos na última eleição, possa se replicar numa maior escala  e possamos chegar cada vez mais de bonde, nesses espaços de tomada de decisão, para ressignificar e transformar esses lugares. Agora, com relação às eleições, eu preciso dizer que nós teremos um processo eleitoral muito difícil, muito duro, muito violento e é preciso cuidar, acolher e estar do lado dessas candidaturas dissidentes, digamos assim, porque será difícil pros grandões, quem dirá pra quem está disputando esse lugar agora, diante de tanto ódio.

GB: Assim como o seu nome já foi rumorado para disputar as eleições de 2022 como candidata a vice-governadora de São Paulo, Duda Salabert (PDT-MG) é outro nome cogitado para disputar um cargo no governo, só que no estado de Minas Gerais. Você acredita que no país que mais mata mulheres trans e travestis no mundo, é possível a população eleger uma mulher trans ou travesti para governadora/presidenta em um futuro próximo?

Erika: Eu acredito que a utopia, ela é uma mola que nos impulsiona, né?! Eu olho pra história do movimento negro, pra própria história do movimento LGBTQIA+ e eu percebo que sonhar, ser utópico, fez com que nós continuássemos batalhando, lutando, nos organizando, insistindo, persistindo pra que hoje pudéssemos – ainda que poucos -, estar colhendo os louros dessa utopia. E quando eu olho pra essa possibilidade, eu acredito que sim, nós temos muito que avançar na organização do movimento, das bases, na reeducação da sociedade, na conscientização da sociedade, na valorização da contribuição que a nossa comunidade oferta para sociedade, de um modo geral, e não só pros nossos grupos. Mas eu acredito que quando nós falamos de futuro, eu prefiro olhar pro futuro como um futuro possível. Me dói e me desgasta lutar, ser uma ativista, uma militante, estar vereadora agora e não acreditar que é possível ressignificar a sociedade, que é possível mudar os valores. As culturas estão aí pra serem mudadas, para serem transformadas, e é preciso que haja essa transformação. É difícil olhar e acreditar nisso, quando nós temos essa realidade que estamos inseridos. Mas eu acho que com vontade, com luta, com organização, com politização, com consciência, é possível sonhar, e não só sonhar – porque esse sonhar é um sonhado esperançado, realizado, construído – fazer que haja sim um futuro onde nós tenhamos uma governadora travesti. E esse futuro não precisa ser daqui dois anos, um ano, este ano, mas um futuro que se constrói para que um dia se concretize.

GB: No ano em que Bolsonaro foi eleito, tivemos um número recorde de pessoas trans eleitas para cargos políticos no Brasil. Já no primeiro ano de governo dele, o STF decidiu que declarações LGBTfóbicas podem ser enquadradas no crime de racismo no país. Como você enxerga esses dois marcos durante a gestão de Bolsonaro, um dos governos mais LGBTfóbicos que o Brasil já teve?

Erika: O governo Bolsonaro é um governo explicitamente [LGBTfóbico], é uma governo que deixa marcas LGBTfóbicas, que demonstra que tem um compromisso com a LGBTfobia, que pactua com a violência, com a revogação de direitos, com a precariedade da vida, deste grupo social. Agora, a questão é que, ao mesmo tempo em que o conservadorismo acorda, se levanta, se reorganiza, para combater os avanços que os movimentos sociais estavam conquistando, nós também nos organizamos para combater o retrocesso e a violência representada na política, como essa de Jair Bolsonaro. Então, eu acho que esse paradoxo, ele é explicado pela necessidade de contrapor a todo esse ódio. Bolsonaro se levanta, exatamente, porque haviam pequenos avanços dos mais diversos grupos sociais, que esta casta não concorda, que esta casta não gosta e se levanta exatamente pra dizer: ‘Aqui não! Aqui vai ter um basta! Aqui vocês não terão acessos, não terão direitos, não terão oportunidades’. Do outro lado, nós, mediante ao medo, a pressão, a violência… Nós também dizemos: ‘É preciso nos organizar! É preciso erguer as nossas vozes! É preciso nos colocar neste lugar, para fazer frente e enfrentar tudo isso que está representado nestas figuras’… E aí, eu acho que é isso que explica.

GB: É possível sonharmos com um país onde mulheres trans e travestis possam circular sem medo e tenham seus direitos garantidos?

Erika: É preciso chamar toda a sociedade e toda a comunidade LGBTQIA+, para que se comprometa com a vida desta população que – sem sombra de dúvida – é a mais precária, é a mais vulnerável. É preciso reconstruir os referenciais, é preciso nos recolocar em outros lugares na sociedade, porque precisamos viver, precisamos existir com liberdade, com tranquilidade. E isso é possível se todos nos comprometermos, se todos nos aprofundarmos nas raízes da transfobia para destruí-las, pra mina-las, pra entender que essa população é humana e digna de direito e cidadania e que essa cidadania e esses direitos só virá se todes – sem exceção – se comprometerem com a luta  e com a construção de um país menos genocida da para essa população.

GB: Você é a primeira vereadora travesti a ocupar uma cadeira na Câmara Municipal de São Paulo. Qual recado você deixa para as próximas a virem ocupar esse cargo?

Erika: O recado que eu deixo as próximas é que, assim como eu, possa dar continuidade ao trabalho que estou deixando como a primeira, mas que também sigo, não as outras travestis, mas as outras mulheres negras que ocuparam, e outras travestis que ocuparam, não a Câmara de São Paulo, mas outros espaços políticos… Que nós possamos sempre levar adiante os legados, os ensinamentos. Que elas persistam, insistam, tenham força, se mantenham de pé, não se deixem absorver pela atmosfera negativa que paira sobre esse lugar e que possa ser sempre mais, sempre um ponto, e fazer aquilo que talvez eu não tenha conseguido fazer. Que possa concretizar aquilo que talvez eu tenha tido vontade, mas por uma questão de conjuntura tenha sido difícil ou até mesmo impossível. Que possa dar continuidade sempre.

Erika venceu na categoria "Militante do Ano", pelo voto popular, no Poc Awards 2021
Erika venceu na categoria “Militante do Ano”, pelo voto popular, no Poc Awards 2021



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Jornalista gaúcho formado na Universidade Franciscana (UFN) e Especialista em Estudos de Gênero pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM)