Há algo na experiência humana que insiste em escapar à convivência. Não é falta de técnica, nem atraso moral. É uma inclinação persistente à destruição – do outro, do vínculo, da diferença. Uma tendência que nem sempre se apresenta como violência aberta, mas como satisfação obtida por vias autorizadas, culturalmente aceitas, quase sempre em nome do bem.
Vivemos cercados por dispositivos que encurtaram o espaço e dilataram o alcance. Falamos com quem está longe, vemos o que antes não veríamos, tocamos o distante com um gesto mínimo. Isso produz ganhos inegáveis. Ouvir a voz de um filho que vive a milhares de quilômetros é um deles. Mas talvez o problema não esteja na distância abolida – e sim na proximidade excessiva.
O mundo ficou pequeno demais? Ficamos próximos demais? Talvez seja isso que torne tão difícil suportar o que o outro tem, o que o outro deseja, o que o outro é. Talvez isso explique a ânsia por conquistar novos territórios, novos planetas, novas cores, novos mundos – como se a existência do outro fosse sempre uma provocação intolerável.
O outro, aqui, não é apenas o semelhante. Não é apenas alguém como eu. É aquele que encarna uma diferença que me atravessa. Um outro linguageiro, constituinte do sujeito, diante do qual o desejo se desorganiza. É aí que a agressividade aparece – não como exceção, mas como efeito de estrutura.
A agressividade, por si só, não é o problema. Ela faz parte do jogo. O problema começa quando o simbólico falha. Quando não há palavras, mediação, tradução possível. Quando algo do outro não se deixa simbolizar, o que retorna não é o conflito, mas a agressão. Não a diferença, mas a tentativa de apagá-la.
Quando isso acontece, não é apenas o laço que se desorganiza. É desejo que perde lugar.
Não se sabe mais onde colocá-lo. E, quando isso acontece, ele se cola a objetos quaisquer: ideias, imagens, líderes. O objeto é sempre variável. O efeito é constante: alguém passa a concentrar aquilo que falta.
Surge, então, o feitiço.
O líder, o ideal, o objeto fetichizado não são poderosos por si. Tornam-se poderosos porque recebem um brilho especial. Um brilho que dispensa crítica, silencia o julgamento, suspende o ideal de eu. Tudo o que esse objeto faz parece justo. Tudo o que pede parece necessário. Ama-se sem remorso. Obedece-se sem perceber.
Não é que o sujeito não saiba. Ele sabe. Mas sabe de um jeito peculiar: sabe sem que isso produza deslocamento. Sabe e, ainda assim, acredita. O fetiche não apaga a realidade – ele a desmente.
O feitiço funciona porque o feiticeiro acredita nele.
E o líder, muitas vezes, funciona como fetiche da massa.
Não se trata de loucura, nem de erro moral. Trata-se de uma solução precária para um impossível que não se quer assumir. A massa encontra no líder a imagem que promete fechar o que falta. E o líder se sustenta porque essa promessa funciona.
Funciona enquanto a crítica silencia.
Funciona enquanto o brilho dura.
Funciona enquanto o impossível permanece recoberto.
Não é o feitiço que engana.
É a crença de que ele poderia resolver.
E, então, o fetiche se fez.











