“O amódio que organiza”, por Diogo de Castro Gomes

À luz de Freud, o psicanalista Diogo de Castro Gomes analisa a agressividade que habita nos vínculos de amizade

COLUNISTA

Diogo de Castro Gomes
Psicanalista, Doutorando em Psicanálise pela UERJ e Formação Psicanalítica pela ELF (CRP 05/31652)📍Contato para atendimento online ou presencial: diogo@gay.blog.br

Todo mundo gosta de falar de amizade como se ela fosse o contrário do conflito. Como se fosse o lugar da confiança, da lealdade, da escolha livre – um território onde a agressividade não entra.

Talvez seja justamente o avesso.

Não porque a amizade seja falsa, mas porque ela é mais complexa do que gostaríamos de admitir.

Freud já havia indicado algo incômodo: nas relações mais íntimas, há sempre um resto de hostilidade que não desaparece. Ele não está fora do laço. Ele o atravessa.

Quanto mais próximo o outro, mais ele importa.
E quanto mais ele importa, mais ele pode ferir.

A amizade não elimina a agressividade.

Ela muda de forma.

Às vezes aparece no humor.
Às vezes na ironia.
Às vezes naquele silêncio que ninguém comenta.

É assim que o laço se sustenta.

Não porque a agressividade tenha sido superada,
mas porque encontrou uma forma de circular sem destruir.

O problema começa quando isso deixa de acontecer.

Não quando há conflito – mas quando ele já não pode ser elaborado.

Quando a palavra não sustenta.
Quando o gesto excede.
Quando algo insiste sem mediação.

Nesse ponto, o que antes circulava passa a fixar.

A agressividade deixa de se deslocar.
Encontra um alvo.

A amizade não se rompe por um excesso de intensidade.

Ela se rompe quando já não há forma de trabalhar o que nela insiste.

Não é o conflito que destrói o laço.

É a impossibilidade de sustentá-lo.

Talvez por isso algumas amizades terminem sem escândalo.
Sem ruptura dramática.

Apenas deixam de operar.




Diogo de Castro Gomes
Diogo de Castro Gomes
Psicanalista, Doutorando em Psicanálise pela UERJ e Formação Psicanalítica pela ELF (CRP 05/31652)📍Contato para atendimento online ou presencial: diogo@gay.blog.br

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