‘O corpo na rua’ – Diogo de Castro Gomes

Em novo ensaio, o psicanalista Diogo de Castro Gomes reflete sobre o Carnaval como interrupção política do cotidiano

COLUNISTA

Diogo de Castro Gomes
Psicanalista, Doutorando em Psicanálise pela UERJ e Formação Psicanalítica pela ELF (CRP 05/31652)📍Contato para atendimento online ou presencial: diogo@gay.blog.br

Um belo dia escutei que arte não tem nada a ver com política. A frase soou confortável demais. Se a arte não tiver nada a ver com política, ela pode continuar servindo. Pode ilustrar o mundo sem tocá-lo. Pode enfeitar a ordem sem interrompê-la.

Arte que não rompe talvez seja apenas publicidade.

O carnaval é arte porque interrompe.

Interrompe o relógio.

Interrompe o rendimento.

Interrompe a compostura.

Durante alguns dias, não é a utilidade que organiza o tempo. É a descarga.

Não é a produtividade que regula o gesto, mas o corpo.

O trabalhador dança. O uniforme desaparece. O nome próprio cede lugar à máscara.

Não é excesso. É deslocamento.

O corpo na rua não é espetáculo. É presença.

Presença não se adapta.

Ocupa espaço.

Atrapalha o cálculo.

Suspende a fluidez do circuito.

Povo na rua é política antes da forma jurídica. É democracia antes da ata.

Não como ideal, mas como cena.

Corpos que aparecem sem autorização.

Que se mostram sem pedir licença para existir.

Isso é ato.

O ato não é programa.

Não é proposta.

Não é gestão.

É corte.

Carnaval é ruptura.

É disputa. Disputa de quem pode ocupar a rua, de quem pode aparecer, de quem pode cantar. Não por acaso, o carnaval é preto. Preto na batida, no corpo, na invenção. Preto como aquilo que nunca foi absorvido.

Terminado o desfile, a cidade tenta se organizar.

O trânsito volta, o expediente recomeça, o silêncio retorna.

Mas o sistema foi atravessado.




Diogo de Castro Gomes
Diogo de Castro Gomes
Psicanalista, Doutorando em Psicanálise pela UERJ e Formação Psicanalítica pela ELF (CRP 05/31652)📍Contato para atendimento online ou presencial: diogo@gay.blog.br

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