Um belo dia escutei que arte não tem nada a ver com política. A frase soou confortável demais. Se a arte não tiver nada a ver com política, ela pode continuar servindo. Pode ilustrar o mundo sem tocá-lo. Pode enfeitar a ordem sem interrompê-la.
Arte que não rompe talvez seja apenas publicidade.
O carnaval é arte porque interrompe.
Interrompe o relógio.
Interrompe o rendimento.
Interrompe a compostura.
Durante alguns dias, não é a utilidade que organiza o tempo. É a descarga.
Não é a produtividade que regula o gesto, mas o corpo.
O trabalhador dança. O uniforme desaparece. O nome próprio cede lugar à máscara.
Não é excesso. É deslocamento.
O corpo na rua não é espetáculo. É presença.
Presença não se adapta.
Ocupa espaço.
Atrapalha o cálculo.
Suspende a fluidez do circuito.
Povo na rua é política antes da forma jurídica. É democracia antes da ata.
Não como ideal, mas como cena.
Corpos que aparecem sem autorização.
Que se mostram sem pedir licença para existir.
Isso é ato.
O ato não é programa.
Não é proposta.
Não é gestão.
É corte.
Carnaval é ruptura.
É disputa. Disputa de quem pode ocupar a rua, de quem pode aparecer, de quem pode cantar. Não por acaso, o carnaval é preto. Preto na batida, no corpo, na invenção. Preto como aquilo que nunca foi absorvido.
Terminado o desfile, a cidade tenta se organizar.
O trânsito volta, o expediente recomeça, o silêncio retorna.
Mas o sistema foi atravessado.











