O Dia Internacional das Mulheres não nasceu como celebração delicada, muito menos como ocasião para vitrines cor-de-rosa. Ele surge da organização política das mulheres trabalhadoras. Em 1910, na II Conferência Internacional da Mulher Socialista em Copenhague, Clara Zetkin propôs que se estabelecesse uma data comum para a luta por direitos e para a solidariedade internacional entre mulheres. Não se tratava de celebrar uma suposta “essência” feminina, mas de afirmar uma posição política.
Essa posição nunca foi confortável. Ela nasce da fricção entre o que se espera que uma mulher seja e aquilo que as mulheres se tornam quando entram na história.
Por isso seja curioso quando alguém decide explicar publicamente o que é uma mulher.
Recentemente, um apresentador de televisão afirmou que uma deputada não era mulher porque ela é trans. A frase parece simples, quase biológica. Mas ela recoloca uma pergunta antiga: quem pode dizer o que é uma mulher?
Freud já havia deslocado essa questão. Em uma de suas últimas conferências, ele observa que a psicanálise não tenta descrever o que é a mulher – tarefa provavelmente impossível –, mas investigar como se forma uma mulher. Simone de Beauvoir transformaria esse deslocamento numa fórmula que atravessou o século: não se nasce mulher; torna-se. Nesse sentido, Beauvoir formula filosoficamente aquilo que a clínica freudiana já havia encontrado.
Essa passagem do “ser” ao “tornar-se” não é apenas psicanalítica ou feminista. Ela ecoa um indício materialista mais antigo. Na sexta tese sobre Feuerbach, Marx já afirmava que aquilo que chamamos de essência humana não é algo dado, mas o resultado de relações históricas.
Entre essas formulações se abre um conflito.
De um lado, a vontade de definir.
De outro, a experiência que insiste em escapar.
Zetkin mostrou que a luta das mulheres não era um capítulo menor na história, mas parte da própria luta de classes. Lélia Gonzalez revelou o quanto aquilo que se chama “mulher” nunca foi neutro: é atravessado por raça, por colonialidade, por história. Erika Hilton, hoje, recoloca a questão em cena ao ocupar um lugar que muitos juravam impossível.
Curiosamente, é sempre nesse momento que aparece alguém disposto a resolver o problema de uma vez por todas.
Alguém que se levanta e explica, com segurança, o que é uma mulher. Como se a questão pudesse ser resolvida com uma definição. Como se bastasse apontar para o corpo e declarar: é isto.
A cena é quase pedagógica. De um lado, mais de um século de lutas, teorias e experiências que mostram como o feminino se forma na história, na linguagem e no desejo. Do outro, um homem de televisão disposto a restabelecer a ordem com uma frase.
Talvez seja essa a ironia da história.
Sempre que alguém afirma saber exatamente o que é uma mulher, o feminino já escapou.
E sempre que alguém afirma o que é ser uma mulher, algo do feminino não se totaliza.











