A frase pode soar rasa à primeira escuta. Curta demais, direta demais, quase uma provocação adolescente. Mas o que ela carrega não está no impacto imediato — está no peso do mas. Um mas que não nega a origem, não pede desculpa, não ensaia redenção. Um mas que não resolve nada. Apenas corta.
Dizer “sou burguês” é reconhecer a posição sem ornamento. Dizer “mas sou poeta” não é reivindicar um título — é introduzir um obstáculo. Porque o poeta, aqui, não aparece como consciência crítica da classe, nem como sua má consciência ilustrada. Ele aparece como corpo estranho. Como aquilo que não se encaixa, não se corrige, não se transforma em valor estável.
A burguesia tolera artistas. Sempre tolerou. Desde que eles cumpram uma função: embelezar o mundo, tensionar limites sem rompê-los, oferecer transgressões que possam ser consumidas, arquivadas, celebradas depois. A arte é bem-vinda quando vira estilo. O excesso, quando vira marca. A crítica, quando vira produto.
O problema começa quando o artista não se deixa administrar.
O poeta burguês que incomoda não é o que denuncia a burguesia de fora. É o que permanece dentro sem confirmar seus ideais mais íntimos: utilidade, compostura, herança, futuro. É aquele que não promete amadurecimento, nem cura, nem reconciliação. Aquele que insiste no desperdício onde tudo precisa render.
Nesse ponto, o corpo se torna político. Não como bandeira, mas como limite. Um corpo que não se ajusta, não se poupa, não se higieniza. Um corpo atravessado por desejo, por excesso, por exposição. Um corpo que não aprende a morrer direito, nem a viver de forma exemplar. Um corpo que não vira lição.
É aí que o escândalo acontece.
Porque a burguesia sabe conviver com a crítica. O que ela não suporta é o fracasso que não pede desculpa. A vida que não se converte em mérito. O sujeito que não transforma sua própria destruição em pedagogia. O poeta, nesse ponto, não é modelo — é ruído. Ele não aponta um caminho. Ele atrapalha o fluxo.
“Sou burguês, mas sou poeta” não significa: apesar de tudo, consegui ser poeta. Significa algo mais incômodo: mesmo com tudo, não abdiquei do que não serve. Não me tornei exemplo. Não converti o excesso em virtude. Não fiz do desejo um investimento.
O poeta não sai da classe. Ele não foge. Ele não se absolve. Ele fica — e, ficando, trava.
Trava a lógica da herança.
Trava a moral do desempenho.
Trava a fantasia de futuro limpo.
Não como gesto destrutivo, mas como recusa.
Recusa de colaborar com o que exige ordem, progresso e utilidade a qualquer custo.
Por isso essa frase ainda pesa. Porque ela não oferece saída fácil. Não há pureza do lado de fora, nem conforto do lado de dentro. Há apenas a escolha — sempre incômoda — de não se tornar funcional demais para continuar desejando.
Ser poeta, aqui, não é profissão.
É posição impossível.
E talvez seja isso que a burguesia nunca perdoe:
não o ataque frontal, mas a presença de quem, estando dentro, não serve pra nada.











