Na graphic novel “Achados & Perdidos”, lançada pela Skript Editora, o roteirista Mario Oshiro e a ilustradora Dominic Amaral constroem uma narrativa que mobiliza elementos de tragicomédia, ficção especulativa e romance para discutir a invisibilização de corpos e afetos LGBTQIA+ e racializados em uma São Paulo distópica. Trata-se da primeira incursão de Oshiro no universo dos quadrinhos, após 15 anos de carreira no audiovisual, em uma transição que, segundo o próprio autor, ocorreu a partir da inviabilidade de se produzir a história como longa-metragem. Com 160 páginas e contemplada pelo ProAC/SP, a obra propõe uma metáfora contundente sobre identidade, saúde mental e pertencimento.

A trama gira em torno de Kenzo, jovem que desperta sem qualquer lembrança em uma estação de metrô na capital paulista. Ao ser recolhido por agentes de um departamento público fictício, passa a ser tratado como um objeto extraviado, catalogado como “B124” e diagnosticado com a Síndrome dos Achados e Perdidos (SAP). A condição, ainda que fictícia, serve como dispositivo narrativo para discutir o apagamento subjetivo provocado por um sistema que classifica e controla pessoas como itens sem valor. O departamento, por sua vez, é um ambiente onde humanos são alocados em prateleiras e fichários, reforçando uma crítica à desumanização institucionalizada.
No decorrer da história, Kenzo conhece Pedro, outro “perdido” que subverte a apatia do sistema com irreverência e inquietação. A relação entre os dois se transforma gradualmente em um vínculo afetivo mais profundo, que desafia as normas daquela sociedade automatizada e sem rosto. O romance entre os personagens é construído com camadas de humor, desconforto e descoberta, refletindo a vivência de indivíduos cujos desejos e identidades são constantemente marginalizados.
Descendente de japoneses, Mario Oshiro, que se declara gay, insere na obra elementos de sua própria trajetória para abordar questões como solidão, autoconceito e expectativas sociais. “São reflexões que dialogam com a complexidade de se encontrar em um ambiente que constantemente tenta definir quem você deve ser”, afirma. O autor também considera que o núcleo da história não está restrito à sexualidade dos personagens, mas à universalidade da experiência de sentir-se perdido: “Perder-se pode ser doloroso, mas também é um processo necessário para se redescobrir. Afinal, não dá pra se encontrar se você nunca se perder.”

As ilustrações de Dominic Amaral conferem à narrativa um caráter visual intimista, com destaque para a expressividade facial dos personagens e a ambientação urbana que, segundo a artista, funciona quase como um personagem. Inspirada por nomes como Kii Kanna, Vitor Cafaggi e Leonardo Romero, Dominic evita idealizações visuais e opta por retratar corpos diversos e espaços realistas, criando um contraste entre a estética suave e o conteúdo socialmente carregado da HQ.
Formada em Design pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com complementação em Artes Visuais, a artista mineira — hoje residente em Cabo Frio (RJ) — começou sua trajetória vendendo ilustrações online. Desde então, participou de projetos como as edições da Revista Recreio e agora marca presença em seu primeiro trabalho de longa extensão com “Achados & Perdidos”. “Vivemos em um mundo muito fácil de se perder entre objetos, padrões de corpos, consumo, estilo de vida e até de amores já pensados para nós”, comenta. “A história de Kenzo e Pedro é um lembrete de que somos humanos e únicos.”
A decisão de ambientar a história em São Paulo também não é acidental. A cidade aparece como espaço de anonimato, fluxo e exclusão, representando o emaranhado social que tensiona identidade e invisibilidade. A linguagem adotada por Oshiro flerta com o audiovisual — diálogos rápidos, montagem fluida, estrutura episódica — evidenciando sua origem como roteiro cinematográfico. Entre as referências, o autor cita obras como Heartstopper, Fleabag, Looking, Medianeras e Encontros e Desencontros.

Serviço
Livro: “Achados & Perdidos”
Autores: Mario Oshiro (roteiro) e Dominic Amaral (ilustrações)
Editora: Skript
Páginas: 158
ISBN: 978-65-984880-0-0
Ano de lançamento: 2024
Gênero: Graphic novel / Ficção distópica / Romance LGBTQIA+
Disponível em: Amazon
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