Em “Tenente Seblon”, Francis Mayer retoma o universo de Jean Genet para construir uma narrativa que se organiza menos pela ação externa e mais pelo atrito entre o que se mostra e o que precisa permanecer oculto. Livremente inspirado em “Querelle”, o espetáculo acompanha um oficial da Marinha durante o período em que seu navio permanece ancorado em Toulon, no sul da França, deslocando o foco para uma zona onde disciplina e desejo passam a operar em tensão constante.

O protagonista, vivido por Vinícius Moizés, exerce autoridade sobre a tripulação, mas sua conduta escapa de qualquer previsibilidade rígida. Há uma delicadeza que atravessa sua relação com os subordinados e que encontra ponto de inflexão no vínculo com o marinheiro Michel, interpretado por Rafael Braga.
É fora do convívio coletivo que o personagem se permite alguma elaboração. Sozinho, recorre a um gravador para registrar pensamentos que não cabem no espaço público. Nesse dispositivo, que funciona como extensão de sua intimidade, ele tenta organizar impulsos, nomear ambiguidades e sustentar uma imagem coerente de si. Ao mesmo tempo, essas gravações deixam escapar uma feminilidade que não encontra lugar no ambiente que o cerca, tensionando ainda mais a forma como ele se percebe.

A engrenagem dramática se altera quando esse material íntimo deixa de ser privado. O roubo do gravador introduz um elemento de exposição que rompe qualquer possibilidade de controle. Nas mãos do estivador César, papel de Moisés Ribeiro, o conteúdo passa a operar como instrumento de chantagem, deslocando a narrativa para um território onde desejo, poder e vulnerabilidade se entrelaçam de maneira mais explícita.
A relação entre os três personagens se reorganiza a partir desse ponto, configurando um triângulo em que afeto, interesse e coerção se sobrepõem. Não há estabilidade possível nesse arranjo, e o que se estabelece é um campo de forças em constante negociação. O que estava restrito ao plano íntimo passa a produzir consequências concretas, afetando não apenas o protagonista, mas a dinâmica ao redor.

Em paralelo, a trama incorpora elementos que ampliam a sensação de instabilidade. A morte de um legionário na cidade e uma invasão seguida de roubo a bordo do navio deslocam a narrativa para um registro que tangencia o suspense, sem abandonar o eixo central ligado à subjetividade do tenente. Esses acontecimentos funcionam como ruído externo, reforçando a ideia de que o controle, já frágil, pode se romper a qualquer momento.
Completam o elenco Izzac Henrique, como Hans Kaufmann, e Pedro Lessa, no papel de Max. A cenografia e iluminação são assinadas por Riiko Coutinho, enquanto figurinos e trilha sonora ficam sob responsabilidade do próprio Francis Mayer, que organiza a encenação em torno de atmosferas que alternam contenção e exposição.
Serviço
Espetáculo: “Tenente Seblon”
Temporada: de 4 a 26 de abril de 2026
Dias e horários: sábados, às 21h, e domingos, às 17h
Local: Teatro Manás Laboratório
Endereço: Rua Treze de Maio, 222, Bela Vista
Ingressos: R$ 100 (inteira) e R$ 50 (meia-entrada)
Duração: 75 minutos
Classificação indicativa: 18 anos
Junte-se à nossa comunidade
Mais de 20 milhões de homens gays e bissexuais no mundo inteiro usam o aplicativo SCRUFF para fazer amizades e marcar encontros. Saiba quais são melhores festas, festivais, eventos e paradas LGBTQIA+ na aba "Explorar" do app. Seja um embaixador do SCRUFF Venture e ajude com dicas os visitantes da sua cidade. E sim, desfrute de mais de 30 recursos extras com o SCRUFF Pro. Faça download gratuito do SCRUFF aqui.














