GAY BLOG BR by SCRUFF

Entre códigos civis e códigos de conduta das redes sociais, Felipe Arthur (30) construiu um personagem que transita por fronteiras pouco exploradas, abrindo espaço para a penetração do humor em um campo historicamente rígido. Advogado e ator, o carioca se tornou um fenômeno nas redes sociais ao interpretar o Doutor Felipe Arthur, figura que simula atendimentos jurídicos para responder tanto a dúvidas legais quanto a dilemas da vida contemporânea, sempre com sarcasmo calculado, precisão técnica e uma condução que raramente se limita à teoria.

Conhecido pelo público como “Advogado das Passivas”, título que surgiu organicamente entre seguidores, ele opera em uma zona em que a linguagem jurídica ganha novas aplicações, muitas vezes exigindo mais do que leitura de códigos, mas também domínio de execução, interpretação e, sobretudo, sustentação.

A base dessa construção não tem origem no exercício do Direito, mas no palco. Com cerca de 15 anos de trajetória nas artes cênicas, entre teatro, canto e dança, Felipe desenvolveu repertório expressivo antes mesmo de obter registro na Ordem dos Advogados do Brasil, em 2021. É dessa sobreposição de linguagens que surge o personagem: a técnica de atuação sustenta a cena, enquanto o conhecimento jurídico organiza o raciocínio e legitima cada argumento apresentado.

Nos vídeos virais, o cenário das suas produções remete a um escritório tradicional. É ali que o influenciador, que reúne cerca de 300 mil seguidores só no Instagram, examina conflitos afetivos sob a lógica de uma petição, ainda que o objeto em análise se aproxime mais de um desabafo do que de um processo judicial. O resultado é uma linguagem híbrida, em que termos técnicos convivem com referências da cultura LGBTQIA+. Ao mesmo tempo em que atrai milhões de visualizações, o conteúdo também provoca reações dentro da própria categoria profissional, especialmente diante das discussões sobre os limites éticos da atuação de advogados nas redes.

Em entrevista exclusiva ao Gay Blog BR, Felipe Arthur aborda a origem do personagem, a relação com o público LGBTQIA+ e as críticas institucionais; confira abaixo:

Doutor Felipe Arthur - Divulgação
Doutor Felipe Arthur – Divulgação

– Você já era ator muito antes de ser advogado e construiu uma base sólida nas artes cênicas. O que te motivou a cursar Direito?

“A motivação foi afetiva e familiar. Eu tinha um avô materno que estava num estágio terminal de câncer e ele sonhava em ter um advogado na família. E ele me fez esse pedido antes de morrer. E eu acatei. As artes cênicas e o direito têm um traço em comum, que é a comunicação. Então eu imaginei que não seria tanto esforço me dedicar um pouco ao Direito”.

– O Direito abriu seus horizontes, você disse anteriormente. De que forma a técnica jurídica ajudou a estruturar o seu pensamento artístico?

“No teatro se lê muito. No Direito também. Mas no Direito eu tive a oportunidade de ter acesso a algumas leituras que eu jamais teria somente no teatro. O Direito me ensinou uma responsabilidade. O Direito me deu um ar de intelectualidade, um pensamento crítico, político e social da vida. O Direito me fez sair daquela bolha que eu estava antes. E isso, somado ao que eu já tinha aprendido no teatro, foi muito benéfico para mim e para minha carreira”.

 – Como foi o “funeral” do Felipe Arthur advogado discreto para o nascimento do Dr. Felipe Arthur influenciador?

“Foi uma maravilha. Foi um movimento libertador, porque enquanto eu estava só no Direito, eu estava cumprindo um papel que não era meu. Estava cumprindo um papel de um sonho alheio, um sonho de um ente querido. Quando o Filipe Artur, advogado, morreu e nasceu o Dr. Filipe Artur, influenciador, foi um renascimento como uma fênix”.

– O público LGBTQIA+ é ainda enfrenta baixa representação no Direito. Você sente que seu humor traz uma sensação de “justiça” para esse grupo minorizado?

“Eu não sei se eu posso receber esse título de paladino da justiça gay como alguns querem me colocar. Eu acredito que tem um advogados mais capacitados para esse título. O que eu faço é um trabalho ordinário, não extraordinário. Eu faço o que é obrigatório, eu faço o que todos os influenciadores deveriam fazer antes de me comunicar com o público LGBTQ+. Eu falava sobre sexualidade. A única coisa que eu fiz foi não excluir. Foi falar de sexualidade com todos, inclusive com a comunidade LGBTQ+”.

– O apelido de “Advogado das Passivas” foi criado por você ou surgiu organicamente nos comentários? Como é possuir esse almejado título?

“O título surgiu organicamente nos comentários e eu gostei muito quando eu vi vários comentários repetidos com o mesmo título, eu achei um apelido carinhoso e desde então eu tenho muito orgulho de usá-lo. É uma forma que a comunidade teve de se identificar com o meu personagem e eu fico muito feliz com esse carinho e sou muito grato à comunidade, porque antes desse título eu era de um nicho que era um nicho jurídico. A comunidade pegou o meu conteúdo e replicou para o Brasil inteiro. Isso foi maravilhoso para mim. Eu tenho muito orgulho desse título e espero não abandoná-lo nunca”.

– Qual foi a pergunta mais absurda ou real que você recebeu e que te fez pensar que realmente daria um processo real?

“Eu recebo muitas perguntas absurdas, muitas delas eu preciso apagar porque eu não quero ler novamente. Muitas pessoas utilizam as perguntas para confessar crimes horrorosos ou apenas para destilar ódio e preconceito camuflados de humor. Nunca foi meu objetivo como humorista. Eu não acredito que o humor deve ser uma arma para pregar ódio. Algumas pessoas que acompanham meus conteúdos não sabem que eu tenho esse título de advogado das passivas e não sabem essa abertura que eu tenho com a comunidade LGBTQIA+. E para elas, algumas piadas podem parecer inofensivas, mas para mim não são”.

Doutor Felipe Arthur - Divulgação
Doutor Felipe Arthur – Divulgação

– Você relatou que a OAB-SP está perseguindo um artista, não um advogado. Por que você acha que eles escolheram você como alvo agora?

“Porque eu criei algo novo. Já tínhamos personagens advogados antes, mas nenhum deles utilizava de uma técnica jurídica para explicar os casos. Eu utilizei o humor, mas a técnica jurídica e, logicamente, quando esse tipo de conteúdo alcançou milhões de pessoas, muitas se interessaram para saber como que era e alguns até invejaram. Acho que esse é o verdadeiro motivo da perseguição”.

– Se a OAB exigisse que você apagasse seus vídeos para manter sua carteira, o que você faria?

“Eu não apagaria, pois OAB não tem competência em dramaturgia. A OAB não tem competência artística. A OAB pode fiscalizar o trabalho de advogado, jamais o trabalho do artista”.

– Como você responde à crítica de que seu conteúdo desmoraliza a profissão de advogado?

“Para mim, o que desmoraliza a profissão de advogado é roubar. Para mim, o que desmoraliza a profissão de advogado é se envolver em esquemas de corrupção e utilizar, às vezes, a própria entidade para praticar crimes. Isso sim, desmoraliza a arte. Jamais desmoralizar uma profissão. O humor não pode ser visto como algo de pouco valor. O humor é maravilhoso e o humor tem a sua função social e ela deve ser respeitada por qualquer entidade”.

– Você ainda tem algum cliente da vida real ou o entretenimento é sua única fonte de renda?

“O entretenimento hoje é a minha única fonte de renda. Todo o meu dinheiro hoje vem através do entretenimento. Porém, eu ainda possuo pouquíssimos processos ativos de clientes que eu fiz antes da fama. Eu nunca fui um advogado muito conhecido na época que eu advogado. Eu nunca tive muitos clientes, muitos processos. Eu advoguei para poucas pessoas e assim que eu comecei a ficar conhecido, eu expliquei para esses clientes antigos essa nova fase da minha carreira e perguntei se eles gostariam de substituir o advogado, já que eu não receberia novos clientes. É que eu estava fazendo uma transição de carreira. Eles quiseram continuar comigo e eu precisei ficar no processo até o final, até arquivar, pois demora muitos anos para um processo ser arquivado. E eu já tinha recebido honorários desses clientes antes mesmo de produzir conteúdo”.

– Qual o próximo passo para o Dr. Felipe Arthur?

“Eu tenho muita vontade de voltar para os palcos e por isso estou escrevendo o roteiro para fazer esse retorno. Quanto a uma série de TV, infelizmente ainda não recebi nenhum convite. Mas tenho certeza que quando eu receber, ficarei muito animado. A minha ideia é agora trabalhar como ator, mas eu não queria abandonar 100% o Direito. Não voltarei a advogar, mas eu quero dar aula. Eu quero ser professor, ator e professor. Ator no palco, professor na sala de aula”.

‘Fiz a chuca e o boy sumiu. Cabe processo?’ – Dr. Felipe Arthur responde




Junte-se à nossa comunidade

Mais de 20 milhões de homens gays e bissexuais no mundo inteiro usam o aplicativo SCRUFF para fazer amizades e marcar encontros. Saiba quais são melhores festas, festivais, eventos e paradas LGBTQIA+ na aba "Explorar" do app. Seja um embaixador do SCRUFF Venture e ajude com dicas os visitantes da sua cidade. E sim, desfrute de mais de 30 recursos extras com o SCRUFF Pro. Faça download gratuito do SCRUFF aqui.

Comente