Com data de estreia de sua mais recente produção marcada para a próxima quinta-feira (13), o cineasta Daniel Ribeiro foi o convidado do décimo episódio do podcast do Gay Blog Br. Em uma conversa permeada por uma série de aspectos sociais, Daniel contou detalhes sobre suas produções, incluindo o longa “13 Sentimentos”, que chega aos cinemas de todo o país nesta semana.
Formado em Audiovisual pela Escola de Comunicação e Artes Visuais da Universidade de São Paulo (ECA-USP), Daniel Ribeiro lançou sua primeira produção, o curta-metragem “Café com Leite”, em 2007. Inspirado, segundo o próprio Ribeiro, por nomes como Wong Kar-Wai, “Happy Together” (1998), e John Cameron Mitchell, “Hedwig and the Angry Inch” (2001), o cineasta se dedica a produções que, apesar de terem sua base nas questões enfrentadas pela comunidade LGBTQIA+, abordam assuntos comuns a todos nós, como a descoberta do primeiro amor.

Ao longo da conversa, conduzida pelo gestor cultural Maurício Kino, Daniel Ribeiro deu detalhes a respeito de como foram os processos de idealização e produção de seus trabalhos, além de discutir como eles espelham questões vividas cotidianamente por pessoas que se identificam como parte da comunidade LGBTQIA+ e a importância de se trazer esses temas para as produções audiovisuais.
Além de falar sobre os trabalhos que desenvolveu, o cineasta também destacou a maravilhosidade de as novas tecnologias permitirem a experimentação audiovisual a todas as pessoas, e como isso é essencial para que novos talentos e novas histórias, vindos das mais diversas realidades, cheguem ao mercado cinematográfico.
Já no encerramento da entrevista, Daniel Ribeiro falou sobre o que os espectadores podem esperar de “13 Sentimentos”, sua nova “dramédia” romântica gay que, segundo o próprio diretor, contém cenas que podem causar polêmicas.
Sobre “Amanda e Caio”, próximo filme assinado pelo cineasta e que ainda está em fase de produção, Daniel Ribeiro relembrou como foi o processo de criação do roteiro, feito em parceria com a multiartista Alice Marconi, que também irá atuar no filme. “Amanda e Caio” ainda não tem data de lançamento prevista.
Confira trechos da entrevista:
Todos os seus filmes, como você comentou, tem temática LGBTQIA+. Fazer cinema é fazer política?
- Eu acho que sim. Acho que eu fui fazer cinema por isso. Acho que eu sou muito mais militante do que cineasta, e eu falo isso porque acredito que seja uma forma de traduzir certas questões. Às vezes a gente fica no debate, tendo que explicar que ser gay é natural. Nos filmes, você retratar os personagens em situações que são super universais, faz essa comunicação com o público, que não necessariamente é LGBT, [ajudando o público a] compreender melhor e ver que somos todos iguais, e que a homossexualidade é só um dos aspectos da nossa vida. Mas, por conta de tudo que a gente vive, por todo preconceito, todos os desafios, as lutas que a gente tem que ter, acaba tendo um protagonismo muito grande. Espero que, daqui a alguns anos, algumas décadas – e já sinto que isso hoje acontece um pouco – que as próximas gerações não vejam a questão da sexualidade e da identidade de gênero [como] uma luta, [espero] que seja algo que você nasce e as pessoas [vejam como] uma das características suas como ser humano, que é tão natural e que ninguém nunca precise “sair do armário”.
Você acha que, desde “Café com Leite”, muita coisa mudou na nossa sociedade?
- Muita coisa mudou e para muito melhor. Antes a gente “saía do armário”, [e agora] tem a sensação de que a sociedade “saiu do armário”, que a comunidade inteira “saiu do armário”. Antes, as histórias eram “um saiu do armário” e algumas pessoas ficavam sabendo e você vivia nesses mini núcleos de fora do armário, em que nem todo mundo sabia sobre você. Hoje, a sociedade [mudou] e acho que o audiovisual tem uma responsabilidade enorme nisso, além das lutas e da militância. O audiovisual pega as ideias que a militância desenvolve, transforma e empacota de um jeito que consegue [entregar] para sociedade [compreender]. O papel das novelas, por exemplo, é gigantesco. Ter personagens gays nas novelas leva [as ideias da militância] para um público gigantesco, e tem muito a ver com visibilidade. Porque o preconceito tem muito a ver com a invisibilidade, pela própria palavra. Você não conhece, então você cria um pré-conceito sobre o que são os gays, o que é a comunidade LGBT. Quando você começa a assistir histórias e você vê que aquelas pessoas são iguais a você, que não tem diferença, isso quebra e o preconceito é meio destruído, de alguma forma, sobrando só quem é muito preconceituoso mesmo. Aí tem outros aspectos que podem ser religiosos ou culturais, e também é muito difícil para gerações antigas, que tem o preconceito enraizado, conseguir virar a chavinha. Mas eu acho que, para uma geração nova, que cresce com essas referências, cresce com essa visibilidade, sabendo que as pessoas gays existem, que as pessoas trans existem… É uma criança que sabe que isso existe, não tem porque, em algum momento, você sentir que aquilo é errado. [É] falar “cresci com essas pessoas”. Eu estava vendo um vídeo essa semana que era de uma mulher falando com os filhos, e ela explicando que os gays antes “saíam do armário”, e as crianças não entendiam, “mas por que precisa sair do armário?” É uma loucura, [apesar de ser] um conceito que a gente naturaliza também. A gente vai naturalizando essas questões que são problemáticas, e quando você vê uma nova geração falando sobre isso, e fala “nossa, sair do armário é uma coisa doida mesmo”.
O seu curta “Eu Não Quero Voltar Sozinho” faz 14 anos e naquela época pouco se falava sobre sexualidade, pessoas com deficiência e, principalmente, homoafetividade. De onde surgiu a ideia de contar essa história do personagem Leonardo há 14 anos atrás?
- Quando pensei nesse personagem, tinha a ver com uma forma de falar sobre nós, gays, e explicar para as outras pessoas como aquilo era natural. Esse personagem, uma pessoa que nasceu cega, nunca tinha visto um homem ou uma mulher, e ainda assim se descobria gay. Era uma forma de falar: “Olha como a nossa sexualidade vem de dentro da gente, não vem do que estamos olhando ou vendo. Ela não vem de fora, vem de dentro, está dentro da gente e ninguém te ensina. É uma coisa que está dentro de você”. Esse personagem sintetizava isso, daí veio essa ideia. E funciona muito. Óbvio que é uma forma de contar essa história, porque a nossa sexualidade também tem a ver com outros sentidos. Esse personagem trazia essa questão e, por ser uma pessoa PCD, acho que as pessoas tinham um carinho maior por aquele personagem. Eles veem aquela pessoa e acolhem aquele personagem. Ao longo do filme, ele vai se apaixonando pelo colega de classe. Também é uma forma de trazer o público para aquilo, porque é um personagem que eles gostam, e quando ele se apaixona, você está do lado dele. Isso era muito importante também, essa construção que coloca o público do lado do personagem antes dele se descobrir. Acho que ele nem mesmo se descobre gay, acho que não é o caso, mas antes de ele se apaixonar. Quando ele está apaixonado, você já está com ele, quer que ele seja feliz com aquela paixão. Se você é preconceituoso em 2010, você já estava com ele. É engraçado que são dois caminhos opostos, do “Café com Leite” com o “Eu Não Quero Voltar Sozinho” nesse sentido. O “Café com Leite” começa com os dois caras na cama, eu lembro que o filme estreou em Brasília e o silêncio na sala quando começou foi chocante. Fiquei chocado, pois não achava que as pessoas se chocariam com aquilo. O filme vai indo e as pessoas dando risada, [mas] um riso nervoso. O filme tem uns momentos engraçados, lembro que virei para Diana na hora que e falei: “A gente fez uma comédia e não sabe”. As pessoas estavam tão tensas que, em qualquer “ceninha” que abria para o humor, elas riam, porque era uma forma de extravasar. O filme começava com esse choque e terminava [com o personagem] indo embora. O “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho” faz o caminho oposto. Apresenta um personagem que a gente não sabe que ele é gay, a gente vai se apaixonando, acolhendo, vai gostando dele, e quando [percebe], ele [personagem] está apaixonado, você também está. [O filme estreou] no Festival de Paulínia na época, que tem um público um pouco mais conservado. Quando chega no final e eles se beijam, é um choque, as pessoas ficam empolgadas e meio chocadas, porque eles estão torcendo para ele, mas ao mesmo tempo, estão torcendo para esse casal gay. Então gerava essa confusão no sentimento do espectador.
Falando sobre os dez anos de “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho”, um dos filmes brasileiros mais vistos em todo o mundo, mais de 20 ou 30 países em que o filme foi lançado. A que você atribui esse sucesso nesses países, não só no Brasil? Você acha que é uma comprovação que ser jovem gay é universal?
- Sim. Tem uma questão universal no filme, claramente, e que descobrimos no curta também, o que foi muito bom. Quando o curta começou a bombar, a gente falou: “É isso, a gente acertou na história que estamos contando”, e isso deu uma segurança para a gente fazer o longa e apostar nessa ideia. Isso foi muito bom, o público gay, que se identificava muito com o filme, que se via naquela história, se via representado muito claramente, principalmente na ideia de “olha a sexualidade, eu não escolho, ela vem dentro de mim”, então o filme também servia como uma forma de contar para as pessoas sobre elas. Muitas pessoas escrevem para gente falando “eu usei o filme para falar com os meus pais” ou o oposto. O filme servia como essa conexão entre você poder falar e sentir o terreno do outro. A gente sentiu isso, nesse aspecto da sexualidade, mas tinha uma coisa universal, que era a descoberta do primeiro amor. E isso foi o que tocou as pessoas de todas as idades do mundo inteiro, porque a gente ouve: “Foi para o Japão e pessoas mais velhas também viram e gostaram do filme”. Uma outra sociedade, outra cultura, e se identificava. No mundo inteiro, nos Estados Unidos era a mesma coisa. Cada público reagiu um pouquinho diferente, mas no geral era isso, porque é um sentimento universal, que não era nem a descoberta da sexualidade, é a descoberta do primeiro amor. Eu não imaginava que isso era onde ia conectar com o público geral.
E qual a importância de se retratar e falar sobre as pautas LGBTQIA+ e as interseccionalidades, considerando que vivemos numa sociedade tão diversa, mas extremamente desigual?
- A gente está falando muito mais sobre isso hoje em dia. Por exemplo, o “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho” tem um ator que não é cego fazendo o personagem [que é cego]. Hoje talvez essa seria uma outra questão, acho que teria um outro olhar, uma outra busca por isso, porque naquela época não se estava falando disso. Tem isso, essa transformação que aconteceu pegando esse exemplo específico. As histórias são universais, no fim das contas. Não é sobre um adolescente cego, apesar de ser. Não é sobre aquela pessoa específica, que está vivendo aquela história porque ela é deficiente visual. Não! A história conta o que todo mundo tem em comum. É esse lugar que eu gosto, da gente pegar o que é universal e colocar personagens que não são a maioria, trazer histórias que todo mundo se identifica. Isso que eu gosto de fazer.
Você vem de uma geração analógica que pegou a transição para o digital. Qual sua visão sobre essa nova geração, que já cresce aprendendo a roteirizar suas histórias? Hoje, as crianças e adolescentes já nascem produzindo conteúdo audiovisual. Qual sua visão sobre esse contexto?
- Acho maravilhoso. Acho que a gente já está vendo e, daqui a pouco, vamos ver um pulo gigantesco na evolução de como a gente conta as histórias, porque [antes do digital] era só quem tinha acesso à câmera que conseguia. Então tínhamos um número limitado de histórias sendo contadas, e era um recorte de classe, porque quem tinha acesso a isso, geralmente, eram os homens brancos, héteros. Então tinha esse lugar e as histórias eram contadas desse lugar, e hoje isso acabou. [Hoje, quem conta essas histórias é] quem tem talento, porque [agora] é igual a caneta. Todo mundo tem acesso a caneta, mas quem sabe escrever? Quem consegue escrever um livro? Quem consegue ter criatividade para escrever uma poesia? É isso. E a gente está nesse lugar. Você descobre talentos novos que, no passado, não seriam descobertos, não estariam fazendo cinema, não estariam contando suas histórias. A gente vê, já nos últimos anos, essa transformação desses olhares novos, de pessoas que não tinham a oportunidade de contar suas histórias, contando suas histórias, e só vai crescer isso, porque agora as pessoas já crescem com o celular, [então] você aprende a editar. Saber isso, conhecer a linguagem cinematográfica com três ou quatro anos de idade, é ter isso. Imagina o pulo que é isso na cinematografia, na qualidade das coisas, na experimentação. [A minha geração] vai começar a experimentar, a fazer filmes, quando tinha 18, 19 anos. [Hoje] com quatro anos, você está experimentando, já está testando coisas. Imagina o que você vai fazer quando tiver 20, o quanto você já sabe, o quanto você entende. A possibilidade de experimentar enriquece muito.
O que esperar de “13 Sentimentos”, que é o seu próximo filme a ser lançado agora em junho. Uma produção sua, com a Diana Almeida e o Fernando Sappelli, que é também a sua volta após os anos mais sombrios que vivemos politicamente. O que podemos esperar de “13 Sentimentos”?
- É uma comédia, uma dramédia, a gente não sabe definir exatamente, mas está nesse universo da comédia/dramédia romântica. Tem elementos desse gênero, só que gay, então, não é tão típico, a gente não vê tantas histórias, tantas comédias românticas gays. Essa é a graça do filme, é ter isso. A gente tinha muita dúvida se ia conseguir fazer esse filme, porque eu fiz dois filmes, o “Amanda e Caio” e o “13 Sentimentos”, em um ano. No ano passado filmamos “13 Sentimentos”, e a gente acabou de filmar “Amanda e Caio” em março, e eram dois filmes que estavam com financiamento travado. A gente tinha dinheiro desde 2016, e eles estavam totalmente travados. E chegou o momento em 2021, 2022, que o dinheiro começou a ser destravado, e falamos: “Vamos fazer o filme”. Começou a ter dinheiro para fazer o filme, mas eu tinha dúvida. Falava que “se o Bolsonaro continuar presidente, eu não sei se eu quero fazer esse filme no Brasil”, porque eu não sei o que vai acontecer depois. Era um sentimento de opressão mesmo. Tinha umas questões específicas, não de censura necessariamente, mas de tentativa de censura, que às vezes não é nem oficial, mas o sentimento que eu tinha é de não ter liberdade. [Era] medo de fazer um filme desses aqui, em um país que está virando autoritário nesse nível. Tinha [essa sensação] que vai te oprimindo, não objetivamente, mas subjetivamente, [te deixando] com medo e pensando “faço ou não faço o filme?”. [Mas] quando começamos a ver que talvez ia dar certo, a gente falou: “Vamos tocar em frente”. O filme também tem esse respiro, esse alívio, essa [sensação de]: “Nossa Senhora, a gente pode viver, pode viver uma comédia romântica”. Como eu ia criar uma história romântica, uma comédia romântica em um país autoritário? Não tem espaço. A gente estava nesse lugar do medo, da opressão e o filme pareceria bizarro nesse país. Foi quando ganhamos tem essa liberdade de “a gente pode voltar a respirar”, e “esse filme cabe nesse lugar”. Para mim também é um filme leve, que traz uma esperança de poder falar desses temas sem ter medo, que foi o que eu sempre quis fazer, desde 2007, onde poderia ter mais medo, não no nível que a gente teve nos últimos anos, mas do preconceito, de ter que enfrentar certas questões, deu essa liberdade de novo, de falar: “Não, a gente pode contar essas histórias. Esse país é de todo mundo”. É deles (opositores) também, porque quando a gente ganha, não estamos oprimindo ninguém. Eles podem continuar existindo, vivendo, amando, ninguém tá oprimindo o outro lado, só que a gente também pode. É um país, de fato, de 100% dos brasileiros. Todo mundo pode ser feliz nesse país, por isso que a gente briga. Não é para oprimir o outro, é para a liberdade de todo mundo. Não a liberdade que eles adoram falar que querem, mas que é só para eles, não é para todo mundo.
Sobre “Amanda e Caio”, você comentou que acha que traz sempre novas novidades, novos elementos e sempre está ali, na frente das outras produções. “Amanda e Caio” é um filme que conta com um elenco 100% de pessoas trans. Quais foram os desafios e a importância de fazer um filme como “Amanda e Caio” quando foi concebido [durante] um governo problemático?
- Ele foi concebido antes de tudo isso. Ele tinha um roteiro e a gente ia filmar “Amanda e Caio” em 2017, e teve problema de financiamento. [Foi um] edital que deu errado, a gente perdeu o edital, foi uma coisa meio burocrática, e aí falamos: “Bom, então vamos inscrever no próximo edital”, que era 2016, e foi quando começou tudo a desandar. A gente chegou a fazer o teste de elenco, lá [eu conheci] o Gabriel Lodi e a Alice Marconi, e a gente fechou o elenco. Tanto que eu falo da trilogia, que a gente vai falar depois, mas na trilogia, “Amanda e Caio” vem antes. Narrativamente, na trilogia “Amanda e Caio” está no meio, o “13 Sentimentos” vem depois. Então, o roteiro era daquela época, é pré todo o caos que a gente viveu. Só que era um roteiro muito preso nas questões trans. Tinha uma questão de nome social, de algumas pessoas não saberem que os personagens eram trans, uma transfobia da mãe do Caio, tinha todas as questões que, ali, faziam mais sentido, porque eram questões que a gente estava discutindo. Nesses últimos oito anos, desde que tudo aconteceu e que o roteiro existia, a questão trans foi a que mais mudou dentro do universo LGBT. [Foi a] que mais teve uma evolução da temática e até das questões sociais. O nome social foi resolvido. As pessoas vão lá e pronto, não é mais uma questão, uma dificuldade ou uma burocracia. Tem uma ou outra, sim, mas é muito mais fácil. E no filme, tinha uma questão do nome social que não estava resolvida. Então tivemos que lidar com essa questão, de trazer um tema que evoluiu muito. E quando a gente resolveu filmar agora, eu sentei com a Alice e falei: “Vamos reescrever o roteiro inteiro, porque não é mais aquela história, não dá para ser mais aquela história”. O Gabriel também falava: “Gente, não dá mais para ser isso, não tem como”. E Alice, eu conheci ela no teste de elenco do “Amanda e Caio”, e logo depois eu fui fazer a série “Todos Nós” na HBO. Foi quando começou a dar errado o “Amanda e Caio”. Então eu comecei a fazer a série também naquela época, até por conta de ter dado errado “Amanda e Caio”, e conseguia fazer “Todos Nós”. Eu chamei ela para ajudar a escrever o roteiro [de “Todos Nós”], porque tinha essa temática de pessoas não binárias na série, tinha a questão trans também, e ela veio, colaborou um pouco e virou roteirista de muitas outras séries. Então, quando chegou esse momento de repensar o roteiro [de “Amanda e Caio”], foi muito legal. A gente sentou e ficou repensando tudo, e o filme virou outra coisa. Agora que a gente conseguiu fazer, tinha um deadline também para filmar e tinha que ser muito rápido – a gente reescreveu esse roteiro em três meses. Foi um desafio, porque tinha uma história que não fazia mais sentido, mas a gente queria manter os personagens. Foi uma loucura, uma tensão e uma pressão de falar: “Meu Deus, depois de oito anos com esse roteiro e agora a gente tem que reescrever ele correndo”. E, ao mesmo tempo, a gente tirou todas as questões. Tudo [o que eu fazia em] “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho” e “Café com Leite”, com a questão gay, que era não falar sobre ser gay, a gente conseguiu fazer (com a questão trans). Por conta desse tempo todo que passou, a gente conseguiu fazer um filme que não fala das questões trans. É um filme sobre um casal se separando e pelo fato deles serem um casal trans tem algumas questões que são específicas a eles, mas não é a questão principal, como era no roteiro anterior, que tinha que enfrentar a transfobia, a questão do nome social, não tem mais nada daquilo. É um casal se separando como qualquer outro.
Como é dividir o roteiro e criação com a cantora e multi artista Alice Marconi?
- Foi incrível. E para fazer esse roteiro, nessa velocidade que a gente fez, foi muito bom estar em parceria. Ela trazia muitas coisas do universo T. Ela trouxe essa representatividade, e isso é essencial. Mas a gente tinha muito a ver também. As nossas piadas, o nosso tom, o nosso humor era muito igual. Na verdade, escrevendo versões anteriores entre 2016 e agora, teve uma vez que a gente parou para escrever uma versão e foi muito legal, porque eu senti uma conexão de tom ali, o que é muito difícil. Você escrever roteiro é uma coisa muito pessoal, e se tem uma pessoa que não combina com você ali, é muito difícil. E teve uma, duas semanas que a gente estava para escrever, e eu escrevia uma versão, mandava para ela. No dia seguinte, ela revisava, escrevia os comentários, me mandava e eu reescrevia no dia seguinte. Tinha versões novas todos os dias, porque a gente estava nessa troca. Acho que a questão trans hoje, por mais que tenha tido uma evolução gigantesca na sociedade, de visibilidade, por outro lado, ainda enfrenta muitas questões. O universo gay tem uma aceitação infinitamente maior. Mesmo com tudo o que aconteceu nos últimos anos, ainda sim, a questão gay está em um outro lugar que não volta mais [ao que era antes, até] porque tem muito gay conservador, gays que votam no Bolsonaro. Então está inserido na sociedade, a homossexualidade, e a gente sempre lutou para isso, para que tivesse gay em tudo quanto é lugar. Eu acredito que [apesar dessa evolução] tudo pode voltar atrás sim, e essas pessoas gays conservadoras vão se arrepender. Mas a gente tendo pilares gays em todos os lugares, é mais difícil de você derrubar esse lugar. E para pessoas trans, ainda tem muita luta, tem que enfrentar muito conservadorismo.
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