Reflexões profundas e inspiradoras com o publicitário e ativista social Jeff Ares, 38, foram abordadas em um episódio recente do podcast do Gay Blog BR. Conhecido por seu trabalho em grandes revistas como Vogue Brasil e Harper’s Bazaar Brasil, Jeff compartilhou sua trajetória de vida e carreira, destacando a importância da representatividade LGBTQIA+ na moda e na mídia.

O publicitário carioca, que atualmente possui milhares de seguidores nas redes sociais, discutiu os desafios enfrentados pelos profissionais LGBTQIA+ no mercado de moda, a necessidade de práticas sustentáveis na indústria e a importância de uma representatividade autêntica e diversa. Jeff Ares também refletiu sobre como sua visibilidade ajudou a sensibilizar e educar as pessoas sobre inclusão e diversidade.
Na entrevista, mediada pelo gestor cultural Maurício Kino e com a presença do editor-chefe Vinícius Yamada, Jeff Ares relembrou sua trajetória profissional e os passos que o levaram a se tornar uma voz influente na moda sustentável. O influenciador enfatizou a relevância de projetos sociais e ambientais que utilizam a moda como ferramenta de transformação e conscientização.
Jeff Ares destacou o trabalho desenvolvido junto às mulheres Sateré-Mawé, no Amazonas, onde ele promoveu uma coleção de moda sustentável em parceria com a FIT, revertendo os lucros para a associação de mulheres indígenas. Este projeto é um exemplo claro de como a moda pode ser inclusiva e socialmente responsável, resgatando e valorizando a cultura brasileira.
Além de sua carreira na moda, Jeff Ares também falou sobre sua vida pessoal e o impacto de ser uma figura pública abertamente gay. Ele destacou a importância da visibilidade e da representatividade, afirmando que, ao compartilhar sua jornada, ele espera inspirar outras pessoas a viverem suas verdades e a enfrentarem o preconceito com coragem e dignidade.
Sobre novos trabalhos, o influenciador mencionou que está envolvido em um projeto de sustentabilidade e empreendedorismo social, que visa capacitar e empoderar comunidades vulneráveis através da moda. Ele também está desenvolvendo iniciativas que promovem a diversidade nas empresas de moda, desde a produção até as esferas de decisão.
Para encerrar a entrevista, Jeff deixou uma mensagem de esperança e um chamado à ação para a comunidade LGBTQIA+, destacando a necessidade de união e apoio mútuo, especialmente em tempos de adversidade. Ele enfatizou a importância de proteger e fortalecer as vidas trans, que são as mais vulneráveis dentro da comunidade.
Leia alguns trechos da entrevista:
Poderia nos falar sobre a sua formação e trajetória profissional?
- Eu fiz publicidade na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM). De lá para cá, eu me considero um outsider da publicidade, pois eu nunca consegui me integrar a esse universo. Talvez porque, quando eu me formei, a publicidade ainda era um lugar muito machista, misógino e homofóbico. Eu poderia dizer que ela ainda é, em alguma medida, mas entendo e valorizo um movimento inclusivo importante na publicidade. Enxergo isso, mas, naquele momento, não. Não fazia sentido para nenhuma das duas partes um casamento assim. A gente não se deu muito bem, então fui para outros caminhos. E foi muito bonito, sim. Primeiro fui trabalhar com Marketing Cultural no Itaú Cultural e foi um período lindo. Trabalhar numa instituição cultural era algo muito impactante para mim, que me preenchia de muitas maneiras. Foi um grande processo de aprendizado. Logo depois, fui trabalhar no Mercado Mundo Mix. Me lembro até hoje de estar na Galeria Ouro Fino, de terno e gravata, com meus currículos na mão. Bati na porta daquele lugar estranho, que tinha um plotter no vidro com o nome Mercado Mundo Mix. Pensei: ‘Puxa, eu já fui nesse lugar. Que legal! Eles têm um escritório aqui’. E lá estava eu, de terno e gravata, no Mercado Mundo Mix, pedindo emprego. Não tinha nada a ver, era totalmente um equívoco. No dia seguinte, eu estava contratado e começou uma incrível jornada de quatro anos dentro daquele grande universo de cultura alternativa, moda e cultura LGBTQIAP+ em um momento muito difícil para a comunidade e pessoalmente para mim, porque eu ainda não me entendia muito bem dentro desse universo também. Então, o Mercado Mundo Mix foi um movimento muito importante para muita gente que se encontrava ali e sentia-se pertencente a si próprio. Eu encontrei pertencimento e acolhimento a partir da experiência que tive ali, ao ver as pessoas vivendo suas verdades de maneira tão bonita, natural e potente. Devo muito ao Beto Lago, esse genial criador do Mercado Mundo Mix, que possibilitou tantas belezas para tanta gente. A Fabíola Kassin também, que foi minha chefe, com quem fiz uma jornada muito linda. Sou muito grato a tantas pessoas que conheci nessa jornada do Mundo Mix: a Gisa, Gabriel, Nelba Cardoso e muita gente incrível que está fazendo coisas espetaculares até hoje. Foi no Mundo Mix que comecei a achar a moda um lugar muito interessante. Lembro que a Lilian Pacce era editora da Revista do Mundo Mix – a gente fazia uma revista, e eu era responsável pelas assinaturas. Mas eu queria mais, queria escrever, falar sobre aquele universo. E a Lilian foi uma das primeiras pessoas que me deu oportunidade para fazer isso. Primeiro, colaborei com ela, que tinha uma coluna no Estadão. Fiz uma ou duas colaborações para ela. Depois, começamos a fazer a cobertura da semana de moda pelo Mundo Mix, e criei um site, que na época chamávamos de hotsite. Fiz esse site, que era uma cobertura totalmente ‘esculhambada’, ‘brincalhona’, divertida e bem outsider desse circuito da moda. Nessa época, conheci minha grande amiga Daniela Falcão, que precisava de alguém para implementar o primeiro site da Vogue no Brasil, a Vogue RG, um título semelhante à Vanity Fair. Ela me convidou e perguntou se eu sabia fazer. Respondi que sim, mesmo sem ter a menor ideia de como fazer. Fui lá e fiz. Fiquei dez anos na Vogue, primeiro implementando o site, aí coordenei o site da Vogue RG, depois fui para a revista. Mais para o final do meu período na Carta Editorial, com a grande Patrícia Carta, eu cuidava da marca, pois era um momento em que o branded content estava em ascensão e as editoras estavam desenvolvendo projetos de conteúdo para marcas. De alguma maneira, fiz as pazes com a publicidade que me formou lá atrás e comecei a trabalhar RG Vogue como uma marca, pensando em projetos para o mercado e organizando eventos. Fizemos alguns eventos com a Vogue RG, e foi um trabalho lindo, que me dá muita alegria. Antes disso, trabalhei na Alice Ferraz, um momento importantíssimo em que trabalhei na assessoria de imprensa de moda e conheci muitas pessoas incríveis. Fiz assessoria para Raya de Goeye, da Paula Raia e Fernanda de Goeye, e outras marcas muito legais. Foi um momento de conhecer o mercado de luxo e entender seus códigos. Não posso deixar de agradecer à Alice Ferraz. Sou muito grato a ela e a todos que me deram oportunidades na vida. Acho que devemos reconhecer a importância das pessoas em nossa vida, e tenho muita sorte de ter encontrado pessoas muito importantes pelo caminho.
Como a moda no coletivo pode contribuir para a vida das pessoas LGBTQIA+?
- A moda é um instrumento muito poderoso, pois transforma pela beleza, por um lugar muito rico e bonito. A moda tem muitos códigos, é cultura e possui uma função social muito importante. Muito além do que é fútil ou puro consumismo, a moda é também um reflexo da cultura e do seu tempo. Acho que por muito tempo a moda não compreendeu sua dimensão e sua possibilidade de transformação. De uns tempos para cá, sinto que tem muita coisa bonita acontecendo. Muitos projetos incríveis acontecendo. Eu mesmo, com a Pedra, meu escritório, tenho feito alguns projetos que unem moda e responsabilidade social. Recentemente, fiz um projeto lindo para a FIT, uma colaboração com as mulheres Sateré-Mawé, da Associação de Mulheres Sateré-Mawé, no Amazonas. Criamos uma coleção junto com elas, inspirada nas tramas dos trançados da luva de tucandeira, um instrumento de rito de passagem do povo Sateré-Mawé. Essas tramas se tornaram estampas e peças, e fizemos uma venda dessa coleção com todo o lucro revertido para a associação. Antes disso, a FIT fez uma doação inicial para ajudar a associação a se manter, pois ela estava se perdendo por questões burocráticas. Dessa maneira, conseguimos tornar a moda um lugar mais acolhedor, inclusivo e responsável, valorizando o que é genuinamente brasileiro, como a arte indígena, que é a raiz de quem somos, tanto no design de moda quanto no design em geral. Além disso, há muitos anos faço um projeto com a ONG Casa do Rio, da qual sou conselheiro, também no Amazonas. Realizamos um trabalho com mulheres ribeirinhas e artesanato em parceria com a Cris Barros. Há sete anos, trouxe a Cris Barros para perto desse projeto, e fazemos coleções anuais, cuja renda é revertida para a capacitação dessas mulheres indígenas e ribeirinhas. Há inúmeras possibilidades para tornar a moda mais inclusiva, especialmente ao olhar para suas cadeias produtivas e trabalhar com cadeias mais limpas, algo que a tecnologia hoje permite. O objetivo é causar o menor impacto possível no meio ambiente. A moda é uma das indústrias mais danosas do planeta, e temos hoje montanhas de lixo têxtil no deserto do Atacama. Você tem pessoas trabalhando em situações análogas à escravidão aqui no Bom Retiro e em muitos países asiáticos. A indústria do fast fashion é muito danosa, trazendo questões seríssimas, desde o lixo até o trabalho análogo à escravidão, que é muito sério. A moda pode ser um lugar muito perigoso para o mundo, mas também pode ser um grande aliado em muitas questões sociais, ambientais e de diversidade. É importante trazer pessoas diversas para a comunicação de moda, para a passarela e para as campanhas, mas de verdade. Minha luta é para que a moda traga diversidade para as mesas de decisão, empregue pessoas diversas em toda a sua cadeia, não só na comunicação final, mas também nos boards, nos lugares de criação, marketing e comunicação. A moda tem uma grande responsabilidade. Acho que, aos poucos, as coisas estão mudando, embora a passos lentos. Vejo isso com bons olhos e acredito que estamos em um caminho muito melhor do que há 20 anos, quando comecei a trabalhar com moda.
Você é um dos curadores artísticos responsáveis pelo Prêmio Empreendedor Social da Folha de São Paulo, junto com a jornalista Eliane Trindade. Como é o seu trabalho de encontro, busca e garimpo de pessoas e talentos neste setor?
- Esse é um trabalho que me dá muito orgulho: fazer a curadoria artística do Prêmio Empreendedor Social da Folha de São Paulo, um convite da Eliane Trindade, minha querida amiga, uma grande jornalista e uma grande voz do empreendedorismo social no Brasil. A gente se conheceu dentro desse nosso universo, e a Eliane foi muito generosa em me convidar para esse trabalho, pois, há muitos anos, tento trabalhar o marketing de influência e celebridades, trazendo essas pessoas com grande alcance para perto de causas sociais e ambientais, especialmente as sociais, que são mais a minha área de atuação. Sou aquele “pentelho” que está sempre pedindo por favor para que postem, ajudem a alcançar certos valores para campanhas que beneficiem comunidades ou organizações sociais. Historicamente, sou a pessoa que ‘pentelha’ celebridades e influenciadores para que nos ajudem, porque acredito que a arte e a cultura têm uma função social primordial, especialmente em um país como o nosso, com tanta carência. Eu digo que o Brasil tem uma abundância de nada, com as pessoas à deriva historicamente. Toda causa é importante, todo movimento é importante, e o engajamento dessas pessoas célebres causa um grande impacto. Minha função no prêmio é trazer essas pessoas para perto desse ecossistema, para que possam usar suas vozes e iluminar essas causas. O prêmio tem seus ganhadores, mas todos os finalistas são muito importantes, pois todos estão realizando trabalhos hercúleos e dificílimos. Eles estão na linha de frente, lutando para apoiar alguém, para ajudar a vida de alguém e para trabalhar por suas comunidades. Para mim, são tão célebres quanto as outras pessoas com as quais, com muita alegria, me relaciono e que, generosamente, ajudam a construir essas narrativas sociais e a do próprio prêmio. Tenho tido a sorte de contar com pessoas incríveis que ajudam a comunicar e apresentar o prêmio. Elas fazem isso pro bono, motivadas pela causa e pelo comprometimento social que possuem, entendendo que têm uma função social muito importante. Minha luta é para que mais influenciadores digitais e celebridades se aliem a nós, ajudando a comunicar e expandir essas causas e o trabalho das organizações sociais e do terceiro setor no Brasil. Não vou nomear ninguém para não esquecer de alguém, mas sou muito feliz por ter muita gente ao meu lado que confia nos projetos que trago e apoio. Nesta caminhada do prêmio, que é tão bonita, estamos nos preparando para a terceira edição. Este ano, celebramos 20 anos do prêmio, o que o torna ainda mais especial. Estamos preparando coisas muito bonitas e trazendo pessoas muito importantes para este momento.
Gostaria que você comentasse uma frase sua em um post, na qual você fala que o prêmio reconhece os esforços das lideranças sociais que lutam por dignidade, preservação, inclusão, respeito e mais amor nesse país tão agridoce.
- O Brasil é um país muito duro com os seus, a começar pelos povos originários. Tenho a oportunidade de trabalhar perto de algumas lideranças indígenas, que conheci através do Thiago Cavalli, meu ex-marido e fundador da ONG Casa do Rio, no Amazonas. O Thiago me apresentou a Vanda Witoto, uma liderança do Parque das Tribos, que é uma comunidade indígena em Manaus que reúne mais de 35 etnias. É uma favela de indígenas que estão ‘no asfalto’, longe de suas aldeias e comunidades originais. É um dos lugares mais tristes que já visitei, senão o mais. Você vê ali aquelas populações fora de seus lugares de origem, sem vivenciar plenamente suas culturas, histórias e vivências. Estão perdendo suas línguas, danças e alimentação original, subjugados à criminalidade e às mazelas da nossa sociedade. É um retrato de como o Brasil, historicamente desde a invasão, trata seus povos originários. Esse é um exemplo primordial de como o Brasil trata os seus. Ainda não conseguimos, como sociedade, vencer o grande desafio de cuidar e proteger os povos originários do Brasil. Acho que tudo começa por aí. Além disso, temos um país com tantos desafios, tanta corrupção e falta de amor pelos seus, especialmente pelas pessoas mais vulneráveis, que estão em necessidade. Quantos políticos desviam verbas de alimentação. Vivemos em um país muito complexo. Por isso, defendo e apoio tanto as organizações sociais que estão na linha de frente, fazendo o impossível com muito pouco recurso para dar um pouco de dignidade às pessoas. As pessoas precisam de um mínimo de dignidade e de muitas oportunidades. É disso que o país precisa, além de educação e acolhimento.
De todas as ONGs com as quais você trabalha está presente como a Casa do Rio, Casa Chama, Mulheres de Paraisópolis e G10Favelas. Qual futuro você vê desses contextos, a a periferia como fábrica de cultura?
- Uma potência imensa, né? O olhar que não é o do mainstream tem uma força gigantesca. Você tem artistas indígenas criando coisas inacreditáveis. Agora, na Bienal de Veneza, muitos artistas indígenas estão na curadoria de Adriano Pedrosa, realizando trabalhos incríveis. O Pavilhão do Brasil na Bienal de Veneza é totalmente indígena, inclusive curado por artistas indígenas. Tudo que não é eurocêntrico e que não vem do grande mercado, todo esse olhar mais periférico, hoje é muito mais valorizado pelo circuito cultural e das artes. É muito rico e interessante. Penso que é muito mais interessante e é o que hoje me atrai de verdade. Em Paraisópolis, por exemplo, tenho um trabalho junto à Elizandra e à Juliana, fundadoras da Associação de Mulheres de Paraisópolis. Elas criaram um circuito de artes dentro de Paraisópolis, e é muito interessante, pois você visita os ateliês de artistas periféricos locais, que fazem coisas incríveis. A arte é marginal por excelência, sempre foi. E por marginal, refiro-me ao que está às margens. Outro dia escrevi algo que gostei: ‘O que está à margem é também o que define’. Hoje, tudo que está à margem dessa sociedade excludente é o que define o que seremos daqui para frente. Nosso futuro está nesses lugares, no reencontro com o que é nosso, com o que é indígena, com o que é periférico. A partir do momento em que a gente realmente entende a importância de iluminar, dar oportunidade e trazer essas discussões, essas narrativas e discursos à tona, fortalecendo-os, começamos a construir um lugar mais bonito como sociedade. Então, podemos vislumbrar a possibilidade de refundar o Brasil.
Cultura, Moda, Sustentabilidade, Empreendedorismo, Criatividade. O que te define hoje?
- Eu costumo dizer que sou uma ponte. Sou uma ponte entre o mercado e as pessoas da minha rede de relacionamentos, com organizações sociais e pessoas que historicamente não estão dentro dos espaços de poder. Pessoas diversas, né? Acho que esse é meu papel: criar conexões e possibilidades e trazer todos para sentar em uma grande mesa. Em cada momento do meu trabalho, a premissa da diversidade e da responsabilidade social é o que me norteia. É entender de que maneira o meu trabalho e minha pessoa podem impactar positivamente a sociedade. Eu acho que é como hoje eu me defino. Sou uma ponte e um instrumento para pessoas que querem exercer sua potência e querem ajudar a tornar o planeta um lugar melhor, existindo de maneira mais digna.
- Eu queria terminar com um chamamento. Acho muito importante que a comunidade se una e, especialmente, proteja as pessoas trans. Temos uma grande obrigação: olhar, apoiar e fortalecer as vidas trans desse país.
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