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Durante quase duas décadas, o professor e ex-pastor evangélico Sergio Viula, 56, defendeu e praticou a chamada “cura gay” dentro da igreja. Ele acreditava que sua própria homossexualidade havia sido “transformada” após a conversão ao evangelismo, ainda na adolescência. Casou-se com uma mulher, teve dois filhos e passou a dar testemunhos sobre sua suposta mudança. As informações são do UOL.

Ex-pastor que pregava 'cura gay' vive casamento com outro homem
Ex-pastor que pregava ‘cura gay’ vive casamento com outro homem (Foto: reprodução)

Mudanças e defesa da cura gay

Filho de católicos praticantes, Sergio cresceu em um ambiente religioso. Batizado e com primeira comunhão feita, aprendeu desde cedo que relações entre homens eram pecado. “Fui criado com a ideia de que um homem jamais poderia ficar com outro homem, que isso não era correto, que era pecado”, afirmou. Aos 15 anos, influenciado por colegas evangélicos no trabalho, migrou para o meio neopentecostal, onde encontrou um discurso mais direto do que o da missa católica.

Na nova igreja, a homossexualidade era vista como algo a ser abandonado. Ali, Sergio passou a se dedicar inteiramente à vida religiosa, acreditando que a fé poderia suprir suas dúvidas. O discurso de culpa, medo e promessa de prosperidade guiava sua rotina e fortalecia sua convicção de que estava “curado”.

Sempre digo que o controle que a religião exerce sobre as pessoas é por meio da culpa, do medo e da ambição. Com a culpa é assim: você está errado, você tem de se consertar e nós temos aqui a solução para o seu problema. Aí vem o medo: se você não se consertar, será punido. Quando nada disso funciona, vem a ambição. Tem sempre alguém para dizer que você podia ser mais próspero, que Deus vai te dar muito se você entregar sua vida a Jesus”.

Já nos cultos, antes mesmo de ser pastor, começou a dar depoimentos sobre a mudança que dizia ter vivido. Participava de peças teatrais que reforçavam a narrativa de conversão de pessoas LGBTQIA+, e apresentava-se como prova de que a transformação era possível. “Na igreja, acabei me envolvendo com um grupo de arte que fazia peças sobre diversos assuntos sociais e também falava sobre homossexualidade. Tinha uma peça em que uma travesti se convertia, por exemplo”, contou.

Mais tarde, quando pastor, ouvia os dilemas de fiéis e reproduzia a mesma lógica. “Sabia dos dramas de cada um. E, quando tinha gay na igreja, era sempre a mesma coisa: aquela primeira euforia da conversão, ela te toma de tal maneira que parece que você não é nem mais desse planeta. Você quer romper com tudo o que fazia antes”, disse, em matéria do UOL.

Casamento e sonhos homoeróticos

Casou-se antes dos 20 anos e permaneceu 14 anos com a esposa. Nesse período, manteve-se firme na ideia de que sua vida era “nova”. “Como eu podia dizer que a palavra de Deus estava errada? Então, mesmo que houvesse qualquer sinal contrário, eu me agarrava ao que a palavra dizia, porque a palavra era real e o resto era ilusório. Você nega a si mesmo, nega seu corpo, sua psique, sua experiência, sua história, tudo em nome de um dogma”, contou.

Mesmo quando sonhava com relações com homens, interpretava como tentações diabólicas. Também buscava apoio nos testemunhos de outros que afirmavam ter passado pelo mesmo processo: “Não entendia por que essas coisas vinham na minha cabeça, já que eu tinha sido transformado. Aí interpretava isso como uma ação diabólica, querendo me levar de volta para o que eu era”.

Virada de chave

A virada ocorreu no início dos anos 2000, durante uma viagem a trabalho para Singapura. Lá, Sergio se envolveu com um homem e voltou com a sensação de que a “bolha” em que vivia havia sido rompida. Um ano depois, revelou o caso à esposa. A crise resultou em separação temporária, reconciliação e, por fim, na decisão definitiva de abandonar o casamento e a igreja.

Nesse meio tempo, fui descrendo das coisas igual a uma cascata. Não só na questão da sexualidade, mas na questão em geral da igreja, de tudo o que era pregado ali dentro. Contei para a minha mulher, ficamos um tempo separados e acabamos voltando. Até que chegou o momento em que não dava mais para continuar vivendo daquela forma

Em 2003, aceitou-se e declarou-se gay, deixou o ministério e iniciou um processo público de denúncia contra práticas de conversão sexual. Criou um blog e passou a escrever sobre o tema, alertando para os riscos da terapia de “cura gay”, que considera uma forma de violência contra pessoas vulneráveis: “Eu poderia ter ficado na minha, mas quis fazer dessa forma”.

Ex-pastor que pregava ‘cura gay’ vive casamento com outro homem (Foto: divulgação)

A ruptura também significou perder quase tudo. Sergio deixou bens com a ex-mulher e os filhos, rompeu a relação com os pais por quatro anos e teve de recomeçar do zero, sem condições financeiras básicas. Aos poucos, reconstruiu a vida pessoal e profissional.

Hoje, ele está casado há 10 anos com André Dias, 34, com quem afirma ter uma relação estável. O contato com os filhos é próximo, e o vínculo com os pais foi restabelecido. Segundo Sergio, a família acolheu André, que passou a integrar a rotina familiar.

Sergio insiste que não sente culpa por ter defendido a “cura gay” por tanto tempo: “Não sinto culpa porque estava reproduzindo uma coisa na qual eu acreditei veementemente. Fui uma vítima do sistema e reproduzi o sistema. Mas, se tem uma coisa que eu posso dizer, é a seguinte: a cura gay é mentira. E eu fui besta de acreditar e reproduzir”, complementa.




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