Quando Doechii sobe ao palco do Lollapalooza Brasil 2026 nesta sexta-feira, 20, ela não chega como mais um nome em ascensão no rap. Sua trajetória é marcada por um movimento menos linear, em que música, identidade e experiência pessoal se misturam desde o início.
Nascida em Tampa, na Flórida, Jaylah Hickmon desenvolveu desde cedo uma relação sistemática com a performance. A formação em uma escola de artes performáticas não funciona como dado periférico, mas como base de uma presença cênica que articula corpo, voz e narrativa. Antes de se fixar no rap, transitou por coral, dança e teatro, elementos que ainda estruturam suas apresentações.

A entrada na música autoral se deu fora das engrenagens da indústria. Em 2016, ao publicar “Girls” no SoundCloud, ainda sob o nome Iamdoechii, inaugurou uma produção que se manteria autônoma nos anos seguintes. O EP “Oh the Places You’ll Go”, lançado em 2020, sintetiza esse período ao concentrar, em um mesmo projeto, decisões criativas e operacionais.
O ponto de inflexão ocorre em 2021, com a circulação de “Yucky Blucky Fruitcake” nas redes. A visibilidade repentina não altera o eixo de sua produção, mas amplia seu alcance. A assinatura com a Top Dawg Entertainment e a Capitol Records, em 2022, insere Doechii em um circuito mais amplo sem diluir sua abordagem.
Em trabalhos como “She / Her / Black Bitch”, a artista desenvolve uma investigação contínua sobre imagem, linguagem e identidade. A sexualidade, nesse contexto, não aparece como elemento episódico, mas como dado constitutivo. Em entrevista à Gay Times, afirmou: “Acho que sempre fui gay […] Estou com uma mulher agora e sempre soube que amava mulheres. Tenho essa consciência desde muito cedo.”
A posterior adoção do termo “lesbian” em sua autoidentificação pública não altera essa linha, mas a torna mais precisa. O que se observa é um processo de nomeação progressiva, que acompanha a própria maturação artística.
Essa dimensão se infiltra na obra de maneira constante. Em “Denial Is a River”, a artista desloca o foco para relações atravessadas por ocultação e negação. Em outras faixas, relações entre mulheres aparecem integradas à narrativa sem marcação explícita, o que sugere menos uma tentativa de afirmação e mais uma recusa em operar dentro de parâmetros heteronormativos.
Em entrevista à Cosmopolitan, sintetizou essa posição: “A minha própria existência como uma mulher negra queer já é uma contribuição importante para o hip-hop. Eu falo com honestidade a partir da perspectiva de uma mulher negra queer.”
A circulação em espaços ligados à cultura LGBTQIA+ reforça essa inserção. Em 2025, foi um dos nomes centrais do WorldPride DC 2025 e participou como jurada convidada de RuPaul’s Drag Race. Em entrevistas, menciona a cultura ballroom como espaço de identificação, o que insere sua trajetória em uma linhagem que antecede o próprio mainstream.
Outro eixo recorrente é a relação com vulnerabilidade e saúde mental. Ao relembrar episódios de bullying, declarou: “Eu sofria tanto bullying que comecei a pensar em me matar. […] Eu percebi que, se fizesse isso, seria a única pessoa morta.” A partir desse ponto, constrói uma ética de centralidade: “Eu sou a personagem mais importante deste filme.”
A adoção da sobriedade em 2024 se insere nesse movimento de reorganização, refletindo diretamente na produção recente, especialmente em “Anxiety”. O reconhecimento institucional veio com “Alligator Bites Never Heal”, que lhe rendeu o Grammy Awards 2025 de Melhor Álbum de Rap.
Um set possível no Lollapalooza Brasil
Em apresentações recentes em festivais internacionais, incluindo datas do circuito norte-americano e europeu em 2024 e 2025, Doechii tem operado com um set compacto, performático e centrado em faixas de maior circulação, com inserções pontuais de músicas mais narrativas. A estrutura tende a evitar pausas longas, privilegiando fluxo contínuo e presença de palco.
A abertura costuma ser breve e direta, com introdução instrumental ou trechos de “Swamp Bitch”, estabelecendo imediatamente o tom corporal do show. A partir daí, o repertório se organiza em blocos de energia e reconhecimento.
Com base nesses padrões, uma ordem provável para o Lollapalooza Brasil 2026 seria:
Abertura
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Intro / “Swamp Bitch”
Bloco inicial, impacto e ritmo
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“Persuasive”
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“Spookie Coochie”
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“Crazy”
Primeiro pico de reconhecimento
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“What It Is (Block Boy)”
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“Yucky Blucky Fruitcake”
Transição para eixo narrativo
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“Denial Is a River”
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“Black Girl Memoir”
Bloco intermediário, variação de intensidade
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“This Bitch Matters”
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“Nosebleeds”
Momento de contenção
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“Anxiety”
Reta final, retomada de energia
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Medley de faixas de “Alligator Bites Never Heal”
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“Persuasive (Remix)” (trechos, sem participação de SZA ao vivo)
Encerramento
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“Nissan Altima”
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ou reprise de “What It Is (Block Boy)”
Leitura do repertório
O desenho do set indica uma preocupação menos com progressão narrativa tradicional e mais com dinâmica de presença. Doechii alterna blocos de alta intensidade com momentos de desaceleração controlada, criando variações que mantêm a atenção do público mesmo em um tempo reduzido, típico de festivais.
Outro traço recorrente em shows recentes é a centralidade do corpo como extensão da música. Coreografias, deslocamentos no palco e interação direta com o público funcionam como elementos estruturais, não acessórios. Em festivais, esse aspecto tende a ser ainda mais enfatizado.
A inclusão de “Anxiety” como ponto de inflexão e de faixas como “Denial Is a River” no miolo do show sugere que, mesmo em sets condensados, a artista preserva espaços para camadas mais introspectivas, sem abrir mão da coerência com o restante do repertório.
No Lollapalooza Brasil, a expectativa é de um show direto, sem grandes intervalos, em que a construção se dá mais pela continuidade do que por divisões explícitas, mantendo o padrão que Doechii vem apresentando em seus compromissos recentes no circuito de festivais.

Serviço
Lollapalooza Brasil 2026
Data: sexta-feira, 20 de março de 2026
Local: Autódromo de Interlagos, São Paulo, SP
Abertura dos portões: 11h
Palco Budweiser
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12h45, Stefanie
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14h45, Negra Li
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16h55, Blood Orange
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21h30, Sabrina Carpenter
Palco Samsung Galaxy
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12h00, 89 FM
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13h40, Terraplana
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15h50, Viagra Boys
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18h00, Interpol
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20h10, Deftones
Palco Flying Fish
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12h45, WØRST
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14h45, Scalene
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16h55, Ruel
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19h05, Men I Trust
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21h30, Edson Gomes
Palco Perry’s by Fiat
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12h00, Camila Jun
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13h00, Bruna Strait
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14h15, ATKÖ
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15h30, Aline Rocha
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16h45, Horsegiirl
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18h00, DJ Diesel
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19h15, BUNT.
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20h30, Ben Böhmer
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22h15, Kygo
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