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O cinema de Aly Muritiba nunca se esquivou do confronto. Desde os primeiros trabalhos inspirados por sua experiência como agente penitenciário até os dramas contemporâneos que atravessam masculinidade, desejo, imigração e pertencimento, o diretor construiu uma filmografia marcada pelo olhar social e pela empatia com personagens que vivem fora do centro do poder.

Aly Muritiba (arquivo pessoal)
Aly Muritiba (arquivo pessoal)

Nascido no interior da Bahia, Aly Muritiba chegou ao audiovisual por um caminho pouco convencional. Antes de se dedicar ao cinema, trabalhou como servidor da administração penitenciária no Paraná, experiência que se tornaria base temática para seus primeiros projetos. Seus curtas iniciais, conhecidos como a “trilogia do cárcere”, chamaram atenção em festivais e abriram portas para o circuito internacional.

A inserção de Muritiba no circuito internacional se deu já nos estágios iniciais de sua carreira. A Fábrica” venceu prêmios em Clermont-Ferrand, um dos mais importantes festivais de curtas do circuito internacional, e “Pátio” foi selecionado para a Semana da Crítica de Cannes. Já no longa-metragem, Muritiba estreou com Para Minha Amada Morta” (2015), premiado no Festival de Brasília.

Em 2018, Ferrugem” levou para o Festival de Sundance uma reflexão sobre exposição, juventude e violência digital, ampliando seu alcance internacional. Essa trajetória ganhou novo fôlego com Deserto Particular” (2021), vencedor do Prêmio do Público no Festival de Veneza e escolhido pelo Brasil como submissão oficial ao Oscar 2022 na categoria de Melhor Filme Internacional. No filme, o diretor atinge um novo patamar de visibilidade ao narrar a jornada de um policial militar que cruza o país em busca de um amor virtual e acaba confrontando seus próprios preconceitos, articulando intimidade, identidade e tensão social em uma mesma travessia.

Agora em 2026, com “América”, Muritiba amplia esse campo de investigação para além das fronteiras brasileiras. Rodado nos Estados Unidos e falado em inglês, o curta-metragem acompanha Tom (Luca Castellani), um imigrante brasileiro em situação vulnerável, e Josh (Cheyenne Jackson), um escritor norte-americano, em um romance atravessado por medo, vigilância e hostilidade institucional. A história se passa em um contexto de endurecimento das políticas migratórias e de aumento da pressão sobre grupos minorizados, transformando a intimidade do casal em um gesto de resistência.

Aly Muritiba nos bastidores de "América" (arquivo pessoal)
Aly Muritiba nos bastidores de “América” (arquivo pessoal)

A urgência política do afeto

América” foi concebido desde o início como um curta-metragem. A escolha pelo formato responde à intenção de criar um retrato direto e concentrado de um momento histórico específico. A concisão funciona como linguagem: não há espaço para subtramas ou desvios, apenas para a tensão entre afeto e sobrevivência.

O elenco reúne o brasileiro Luca Castellani, em seu primeiro papel de grande visibilidade, e o norte-americano Cheyenne Jackson, ator conhecido por trabalhos na televisão e no teatro musical. A dinâmica entre os dois personagens é central para o filme, que constrói um contraste entre vulnerabilidade e proteção, ingenuidade e experiência, medo e tentativa de acolhimento.

A produção também marca a primeira obra de Muritiba realizada integralmente fora do Brasil, em parceria com produtoras internacionais. O curta passou por exibições especiais em Los Angeles e eventos voltados ao mercado e à crítica, ampliando sua presença no circuito internacional e sendo apontado como uma das apostas brasileiras na temporada de premiações de curtas.

Luca Castellan e Aly Muritiba nos bastidores de "América" (arquivo pessoal)
Luca CastellanI e Aly Muritiba nos bastidores de “América” (arquivo pessoal)

Favelas e pós-abolição

Mesmo com América” ainda em circulação, Muritiba já projeta seus próximos trabalhos. Entre eles está Funk”, filme ambientado nas favelas, que pretende abordar liberdade, sexualidade, desejo e potência a partir da cultura periférica e da música. Na sequência, o diretor prepara “Nova Éden”, projeto que volta o olhar para um período pouco explorado no cinema nacional: os anos imediatamente posteriores à abolição da escravidão no Brasil.

Os dois projetos reforçam a linha que atravessa toda a sua filmografia: contar histórias de personagens deslocados, situados à margem dos discursos oficiais e das narrativas hegemônicas.

É nesse ponto de encontro entre criação, política e experiência pessoal que Muritiba se aprofunda na entrevista a seguir, concedida com exclusividade ao GAY BLOG BR, refletindo sobre vigilância, afeto, descoberta de atores e o lugar do cinema brasileiro no mundo.

Bastidores de "América" (arquivo pessoal)
Bastidores de “América” (arquivo pessoal)

Confira, abaixo, a entrevista completa:

– O filme mostra um personagem que vive sob vigilância constante. Você diria que o medo, hoje, se tornou uma linguagem compartilhada entre pessoas LGBTQIA+ em diferentes países?

É muito triste. Em pleno 2025, 2026, ainda temos que fazer filmes que mostram personagens LGBTQIA+ sob o signo da vigilância, sob o signo do julgamento, sob o signo da perseguição. Infelizmente, isso segue acontecendo, inclusive em países ocidentais que são pretensamente mais civilizados, mais progressistas ou mais liberais. E isso acontece, infelizmente, muito no Brasil, onde ainda se mata pessoas LGBTQIA+. E segue acontecendo muito fortemente nos Estados Unidos. No caso do “América”, o personagem além de ser um homem gay, ele é um imigrante latino, né? E a política atual do governo norte-americano é de perseguição total a esses grupos. Então, de certa maneira, “América” é um pequeno, curto e contundente retrato desse momento histórico.

– Em “América”, o amor surge como algo quase clandestino. Você acredita que estamos vivendo um retrocesso global no direito ao afeto público?

Bom, o amor, ele aparece no filme quase como algo clandestino, mas também aparece como uma esperança, como uma via possível para que pessoas tão diferentes ou supostamente diferentes como um norte-americano branco vindo do Oeste se apaixone por um imigrante brasileiro. E esse amor vivido por esses dois homens figura no filme como uma ponta de esperança em meio a essa coisa tão dura que está acontecendo nos Estados Unidos agora, em que pessoas diferentes se tornam alvo, pessoas diferentes passam a ser perseguidas.

– Houve alguma versão inicial de “América” mais extensa ou a concisão sempre fez parte da proposta?

“América” foi escrito desde sempre para ser um curta-metragem. Acho que é uma história que, com certeza, se quiséssemos, poderia ser extensa, poderia virar uma história de amor em tempos de política, de perseguição. Mas ele foi pensado e escrito para ser essa esse retrato muito urgente do momento contemporâneo ali dos Estados Unidos. Então, para que ele desse conta dessa urgência, ele precisava muito ser curto como ele é. E acho que ele funciona muito bem como curta-metragem.

– Como diretor, o que mais te interessa descobrir em um ator durante o processo de ensaio: a técnica ou as fragilidades pessoais que ele traz para o personagem? Como você chegou a descobrir Luca Castellani para o papel como protagonista?

Eu sou um diretor muito interessado pelos atores, completamente apaixonado pelos atores, pelo processo de transmutação que acontece quando os atores entram no trabalho. Essa transmutação maravilhosa de pegar a palavra escrita e transformar em emoções, gestos, atos, falas, lágrimas, suor, saliva. É muito bonito ver isso, é quase mágico. E sou muito interessado em trabalhar com atores e atrizes experientes, mas também em descobrir gente nova em revelar gente nova. E o Luca é um desses jovens atores brasileiros, muito talentoso, muito estudioso, mas que ainda não tinha sido revelado. E a descoberta do Luca se deu muito através de uma amiga em comum que nós temos, Talize Sayegh, que faz o Festival Bravo, lá nos Estados Unidos. Ela nos apresentou e ouvindo a história de Luca, que é um imigrante brasileiro que vive nos Estados Unidos e ouvindo muito sobre seu desejo de trabalhar como ator, de mostrar o que tem estudado nos últimos anos, é que eu escrevi a história. Na verdade, eu escrevi a história para Luca fazer. Escrevi a história pensando nele para fazer o Tom.

Luca Castellan e Aly Muritiba nos bastidores de "América" (arquivo pessoal)
Luca CastellanI e Aly Muritiba nos bastidores de “América” (arquivo pessoal)

Cheyenne Jackson é conhecido do grande público, mas aqui está em um registro mais contido e dramático. O que ele trouxe de inesperado ao personagem Josh?

Eu tinha um ator que ainda não era muito experimentado para viver um dos protagonistas, o Luca Castellani, e eu imaginei que era muito importante ter um ator mais experiente para poder jogar, contracenar com o Luca, para poder colocá-lo nessa zona de desafio e desconforto. E o Cheyenne veio com muita paixão e muita gana para contar essa história. Chayene, além de ser um grande ator, um ator muito reconhecido por todo seu trabalho, é também um militante da causa LGBTQIA+ nos Estados Unidos, e quando leu a história se apaixonou profundamente por aquilo que a gente estava contando. E ele trouxe uma doçura para o personagem do Josh, que é muito bonita, uma doçura bastante acolhedora, que era aquilo que o personagem do Luca Castellani precisava, que o Tom precisava, essa figura quase protetora, paternal e capaz de acolher, abraçar e oferecer alguma proteção, mesmo que, ao fim e ao cabo, a proteção não tenha sido efetivada, não tenha sido suficiente. O Cheyenne foi um ator muito generoso na troca comigo e com o Luca.

– Em que momento da sua trajetória percebeu que o cinema seria, para você, uma forma de confronto direto com sistemas de poder?

Eu venho de uma formação bastante ligada à luta social. Venho de uma classe social que frequenta pouco o cinema e quase não vê como perspectiva fazer cinema. Sou filho de caminhoneiro do Sertão da Bahia e minha formação se deu na adolescência, muito ligada às pastorais da Igreja Católica. Isso depois acabou me levando a estudar História na Universidade de São Paulo. Depois, por circunstâncias materiais da vida, acabei me tornando agente penitenciário. Então, sempre trabalhei, de certa, maneira à margem ou com aqueles que estavam à margem. E, para mim, era muito natural que o meu cinema falasse sobre essas pessoas com as quais eu me identifico muito. Então, eu não consigo muito pensar o meu cinema, pensar as minhas histórias, os meus filmes, que não sejam de alguma maneira um cinema social. Acho que eu faço um cinema social porque é a única forma que eu sei me expressar. Eu aprendi a me expressar dessa maneira e sinto que falo com muita verdade e autenticidade quando faço dessa maneira, então não consigo enxergar o meu filme, o meu cinema, de outra forma.

– O Brasil vive um momento de forte presença em festivais internacionais, com filmes circulando em Cannes, Veneza e na corrida pelo Oscar. Você sente que existe hoje um “olhar estrangeiro” esperando algo específico do cinema brasileiro?

Sinto que existe uma curiosidade muito grande hoje pela cultura brasileira. A música brasileira tem estourado no mundo inteiro. O funk tem sido escutado no mundo inteiro, é um dos gêneros musicais mais tocados e mais copiados hoje pelo mundo. E os nossos filmes têm alcançado uma visibilidade, um espaço e um reconhecimento muito bonito. Isso tem a ver com política pública que fomentou e fomenta a nossa cultura. Tem a ver com aquilo que nós estamos produzindo, contando histórias locais, mas que falam de questões universais. E acho que tem o fato de que aquilo que nós estamos produzindo hoje, principalmente no nosso cinema, é bastante inventivo. E acho que de certa maneira o mundo está interessado na invenção. O mundo está interessado em formas diferentes de se contar histórias, de se emocionar. Acho que vem daí esse momento tão bonito de atenção internacional para o nosso cinema.

– Depois de trabalhar com prisões, masculinidade, desejo, imigração e pertencimento, qual é a pergunta que ainda te persegue como cineasta — aquela que você sente que ainda não conseguiu filmar?

Acho que de certa maneira eu estou sempre falando, contando a mesma história, que é a história dos deslocados, a história daqueles que não aparentemente não pertencem à história. Daqueles que estão à margem. Então tem muitas histórias para serem contadas ainda relativas a esses temas. E em breve eu lanço “Funk”, que é um filme sobre liberdade, sexualidade, desejo e potência nas favelas. Logo depois lançarei “Nova Éden”, que é um filme sobre um período sobre o qual se fala muito pouco no Brasil, o período logo pós-abolição da escravidão aqui no nosso país. Então tem sempre coisas novas para falar, mas essas coisas novas são muito sobre temas que me interessam, que são as histórias dos marginais, no sentido de à margem.




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