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Em entrevista ao podcast do Gay Blog BR, a escritora, professora e ativista Amara Moira compartilhou suas experiências e reflexões sobre a literatura, a Academia e a representatividade trans no Brasil. Doutora em teoria literária pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Amara se destacou ao se tornar a primeira mulher trans a defender uma tese na universidade usando seu então nome social. Sua tese abordou as indeterminações de sentido na obra “Ulysses” de James Joyce.

Amara também é autora de livros como E se eu fosse puta? (Editora N-1) e “Neca“, cuja nova edição sairá este ano pela Companhia das Letras, além de colaborar com o capítulo “Destino Amargo” no livro Vidas Trans: A Coragem de Existir. Atualmente, ela coordena o Museu da Diversidade Sexual em São Paulo e escreve colunas de futebol no portal UOL, integrando a torcida organizada LGBTQIA+ do Palmeiras.

Amara Moira - Foto: Cinthia Antunes
Amara Moira – Foto: Cinthia Antunes

Ao longo da conversa, Amara falou sobre a importância da literatura na transformação social, ressaltando que, embora a literatura possa reproduzir discursos discriminatórios, ela também pode ser uma ferramenta de ruptura e empatia. “A literatura pode nos ajudar a perceber o outro por um olhar mais empático“, afirmou. Ela destacou a necessidade de visibilizar novas figuras literárias sem abandonar as obras canônicas que moldaram a cultura literária.

Amara discutiu a relação entre literatura e preconceito, mencionando como a literatura brasileira muitas vezes perpetua racismo, sexismo e outras formas de discriminação. No entanto, ela também vê na literatura um espaço para questionar as normatividades. “A literatura pode ser o que rompe com isso. O que nos permite vislumbrar um outro mundo“, explicou.

A escritora também abordou temas como trabalho sexual, ressaltando a importância de incluir esse debate no Museu da Diversidade Sexual. Amara destacou que o trabalho sexual está intrinsecamente ligado à história das travestis no Brasil e que é fundamental abordar essa questão de forma aberta e inclusiva.

Ainda nesse assunto, Amara Moira enfatizou a importância de criar uma nova memória e história do Brasil a partir da perspectiva LGBTQIA+, incluindo figuras históricas como Tibira do Maranhão, Xica Manicongo e Felipa de Sousa. Ela acredita que é possível construir uma narrativa alternativa que valorize e reconheça a diversidade da população brasileira.

Ouça na íntegra:

Confira trechos da entrevista:

O que é e como é ser uma escritora travesti feminista no Brasil hoje?

  • Este é um momento de grande visibilidade para essa produção. Se você me perguntasse dez anos atrás, eu diria que ninguém ia querer ler o que eu estava escrevendo. E dez anos atrás, quando comecei minha transição, não imaginava que chegaríamos nesse ponto. Hoje, sinto que há uma predisposição para ler essas produções, essas obras. Às vezes, uma predisposição até injustificável. Eu estava vindo para cá, parei numa lojinha e um rapaz me reconheceu e ficou falando para as vendedoras: “Essa é uma das maiores escritoras brasileiras”. Eu falei: “Calma, porque eu acabei de chegar aqui no parquinho, tenho poucos anos de casa, poucos livros publicados”. Porque a gente não pode se acomodar. Eu acho que esse momento a gente tá [dizendo]: “Leiam autoras trans, autores trans, leiam pessoas negras, leiam mulheres, leiam LGBTs” – e temos que ler mesmo -, mas sinto que há uma pressa em querer dizer que toda a literatura que não foi escrita por essas figuras, por esses grupos minorizados, marginalizados, oprimidos, é uma literatura ruim. Vejo, muitas vezes, alunos querendo descartar Fernando Pessoa porque ele era machista e querendo abrir mão de muita gente por não reproduzirem o padrão de comportamento que hoje consideramos ideal. Acho que essa pessoa tem que ser discutida, seus posicionamentos políticos, sobretudo quando se refletem na obra, mas a obra é mais do que isso. A gente tem muito a aprender com Fernando Pessoa. E às vezes sinto que: “Não quero ler mais nenhum homem europeu, quero ler só mulheres”. E aí tipo, caramba, a gente vai deixar de fora muita coisa importante, sabe? Queira ou não queira, a gente foi construída com base nessa literatura, né? E parece que a gente está abrindo mão dessas obras. Acho que a gente tem que visibilizar a produção de autoras dissidentes, de autoras que rompem com a norma, mas a gente não pode abrir mão dessa literatura hegemônica. A gente tem que pautar como essa literatura vai significar, como vai ser lida, como vai circular. E para isso a gente tem que ler e produzir leituras sobre essas obras. A gente tem que ler [Luís de] Camões, a gente tem que ler Dante, a gente tem que ler Euclides da Cunha e produzir saberes sobre essas obras. A gente tem que, de alguma forma, ser protagonista na construção do sentido que essas obras emanam hoje em dia, para o nosso tempo. Eu sinto que é um erro a gente simplesmente querer visibilizar novas figuras e abrir mão de todo esse passado que foi construído. A gente pode ir atrás de figuras que foram apagadas no passado, figuras trans, figuras negras, figuras LGBTs, mulheres, figuras fora do eixo Rio-São Paulo. Mas a gente não pode abrir mão dessa literatura hegemônica que nos formou e que está aí.

Você acha que a Academia Brasileira de Letras está preparada para a primeira mulher travesti autora? Não que isso represente, mas pelo simbolismo de ocupação do território. Você acha que os imortais, as vozes imortais estão preparadas ou ainda não?

  • Eu não tenho nenhuma vontade de ser imortal da Academia Brasileira de Letras. Eu tenho vontade de ser da Academia Campineira de Letras, mas só pela ‘zoeira’ mesmo. Tem duas em Campinas, a Campineira de Letras e a Campinense de Letras e Artes e uma delas tem uma coluna grega, tipo um prédio super brega. Isso é um negócio terrível. Eu sempre passava na frente e falava: “Um dia eu vou ser uma imortal dessa academia”. Eu falava só de ‘zoeira’. Mas por que eu quero ser uma imortal de Campinas? Porque é uma cidade que tem uma fama LGBT. Você conhece essa fama? Pelotas e Campinas rivalizavam como as cidades que tem a fama LGBT mais forte do país. Atualmente, Pelotas é mais forte. Campinas, por outro lado, teve uma revista pornográfica, no final dos anos 80, que tinha uma seção de piadas. Uma dessas piadas dizia: “Qual é a forma mais fácil de cometer suicídio? Fazendo uma transfusão de sangue com campineiros”. Houve um momento em que a fama era muito forte e foi se perdendo um pouco. Mas tem essa fama [e] que acha que todo o Brasil sabe disso. Atualmente, não é bem assim, nem todos lembram e [aqueles que lembram] têm vergonha dessa fama. Então, eu quero reforçar essa fama sendo a maior escritora dessa cidade. Não tenho nenhuma pretensão de ser imortal da Brasileira [Academia Brasileira de Letras], mas de Campinas, eu quero que tenha uma estátua minha lá e reforçar a ideia de que essa é uma terra de travestis, é uma terra de LGBTs.

O psicanalista Pedro Ambra, que foi entrevistado recentemente no podcast do Gay Blog BR, deixou uma pergunta para você. “Amara, qual é o papel da literatura na transformação social? Essa pergunta me persegue. Eu tenho questões com a literatura. Não gosto, mas ao mesmo tempo, gosto. Acho que às vezes ela é super libertadora, mas às vezes, eu acho ela completamente inútil. Então, eu queria ouvir, Amara, me diz. Dá para a gente usar a literatura para transformar o mundo? E como?

  • A gente tem, às vezes, uma noção bonitinha de que ler é bom e que todo mundo tem que ler o máximo possível. [Mas] a gente perde de vista que a literatura tem suas perversidades também. A literatura, ao mesmo tempo que pode ser uma ferramenta poderosa de ruptura com preconceitos, com práticas discriminatórias, ela pode nos ajudar a perceber o outro por um olhar mais empático. Ela também é um dos carros-chefes de reprodução dos discursos discriminatórios, discursos de ódio na literatura brasileira, uma literatura eminentemente branca; e por branca quero dizer racista. É uma literatura que faz muita questão de visibilizar a pessoa negra e chamá-la por “negro”, “negra”, “preto”, “preta”. Eu nem estou pensando em Monteiro [Lobato], estou pensando em Guimarães Rosa. [Ele] tem um conto muito estranho “A Hora e Vez de Augusto Matraga”, que é um dos contos famosinhos dele, do “Sagarana”. E esse conto é muito estranho, porque a gente vai ter um narrador, o Augusto Matraga, uma figura perversa, terrível, odienta. Todo mundo odeia esse imbecil. Ele é um jagunço poderoso, autoritário [e] um dia ele acaba se lascando, abandonado por todo mundo, deixado quase morto, cai de um barranco, quase morre e é resgatado por um casal que o pega, ajuda ele a se recuperar e ele fica grato a esse casal e começa a trabalhar para bancá-los. Vira um trabalhador, muda da água para o vinho. Só que aí, qual que é a questão? Toda vez que o narrador vai se referir a esse casal, fala o “preto”, a “preta”. Eles não têm nome. Quando o personagem, o Augusto Matraga, vai se referir a eles, vai chamá-los pelos seus nomes, sempre pelos seus nomes. Então, existe um descompasso muito grande entre o personagem que tem uma relação afetuosa com eles e vai chamá-los pelos seus nomes. E vai ter esse narrador que parece racista. Eu não sei exatamente qual é o “rolê” do Guimarães… Não sei se é proposital isso. Porque é tão escancarado, escrachado. E eu estou falando de Guimarães Rosa, mas o Jorge Amado e outros bilhões autores, [como] Érico Veríssimo… Os grandes escritores brasileiros fazem questão de, o tempo inteiro, se vai falar de um homem branco, vai falar o “homem”, o “moço”, o “rapaz”. Vai falar de um homem negro é o “negro”, a “negra”. Ou seja, a literatura brasileira é uma literatura que reproduz racismo nos mínimos detalhes ao longo de toda ela. É uma literatura que tem pouca consciência disso. Torna-se um elemento de reprodução dessa lógica racista, de naturalização dessas práticas, assim como do sexismo, os corpos “padrão”, a gordofobia, a LGBTfobia. A gente vai ter a literatura como um espaço de exercício, de reafirmação desses discursos discriminatórios. Mas a literatura pode ser também o que rompe com isso. O que nos permite vislumbrar um outro mundo. E aí, às vezes, a gente vai, inclusive, utilizar uma linguagem discriminatória para deixar que esse outro mundo seja entrevisto. Um caso, por exemplo, é o “Bom-Crioulo” de Adolfo Caminha, 1895. Esse é considerado um dos primeiros livros no Ocidente a ter um protagonista homossexual. Esse livro é muito fora da casinha, fora do esperado. E aí, o que a gente vai ter nesse livro? A gente vai ter um narrador que vai dizer: “Não, eles cometeram um pecado, um crime contra a natureza. Fizeram a pior coisa que se pode fazer. É uma perversão, uma doença. Cederam ao vício”. Mas ele vai descrever, nos mínimos detalhes, como um homem se apaixona por outro homem do nada, sem ter nenhum tipo de vício, predisposição, hereditariedade que justifique isso. Simplesmente ele estava de boa na vida dele. Não tinha interesse em mulheres, ou interesse em homens, não tinha interesse em ninguém. Só vivia a vida dele, o Amaro. E de repente, ele se depara com Aleixo, esse jovenzinho, seus olhos claros e fica apaixonado por ele e do nada faz de tudo para conquistar esse rapaz. A gente vai ter a relação de um adolescente branco com esse adulto negro. Uma relação atravessada de questões de poder, de questões de racismo, de questões de LGBTfobia. Parece-me que tem essa aparência de um romance patologizante na superfície, mas usa a linguagem da patologia para permitir que a gente veja um outro mundo. Tanto que esse livro vai ficar abandonado. Por mais que ele tenha essa linguagem patologizante, vai ser entendido como uma afronta e vai ser escondido até que a tradução para o inglês faça com que a gente se dê conta do papel fundamental que esse livro tem na história do Ocidente. A literatura nos permite isso. Onde meu corpo travesti não consegue chegar, meu livro consegue. E esse livro consegue abrindo portas, abrandando preconceitos, deixando as pessoas mais predispostas ao diálogo, atiçando curiosidades a respeito dessa cultura que eu carrego, dessa comunidade da qual eu faço parte. Acho que o livro tem um papel sim, essencial. Existem papéis essenciais na nossa sociedade. O futebol tem um papel; a gente não pode abandonar o futebol. A política institucional, a gente pode [pensar]: “Ah, político é tudo corrupto”. Se a gente abrir mão da política institucional, a gente está perdido.

Amara, depois de toda sua trajetória, livros, palestras e entrevistas, você se vê e assume esse papel de representatividade trans travesti no campo cultural?

  • Eu assumi, recentemente, como coordenadora de exposições e programação cultural no Museu da Diversidade Sexual e era um sonho poder trabalhar nessa instituição, que era pequenininha e eu vi nascer. Eu passava pelo metrô República, entrava e dava uma olhada nas exposições… Mas era uma coisa que “pequititica”. E agora, esse museu cresceu, foi expandido e está cinco vezes maior do que antes, às vésperas da reabertura. Era um sonho antigo trabalhar um dia nessa instituição, mas eu imaginava que seria um sonho para o final da vida, assim que tivesse as coisas mais organizadas. E aí veio a possibilidade de antecipar e tentar viver agora. Então, vamos lá descobrir qual é que é. Mas estou muito empolgada neste começo. A gente está enfrentando dificuldades, cortes de orçamento. Com o museu fechado é difícil até de negociar. Como é que a gente aumenta o orçamento e tudo mais? Mas a grande questão é que estou muito empolgada com a possibilidade de visibilizar debates novos, trazer esse nome do Museu da Diversidade Sexual. Quero que ele realmente implique uma diversidade, sabe? Tem alguns debates que esse museu ainda não soube fazer muito bem; ainda tem um pouco de receio de fazer o debate do trabalho sexual, por exemplo. Trabalho sexual tem que estar ali na ordem do dia do Museu da Diversidade Sexual. E para além da questão LGBT, inclusive. Acho que é isso, mas sobretudo pela questão LGBT, porque o trabalho sexual é algo que atravessa a nossa história nesse país, nessa sociedade. Os primeiros registros de travestis que a gente vai ter estão muito atrelados ao trabalho sexual aqui em São Paulo, por exemplo, no Rio de Janeiro; coisas de 100, 150 anos atrás. Foi através desse trabalho que a gente foi conseguindo construir o nosso direito de existir, foi viabilizando nossa existência. Com esse dinheiro, a gente foi viabilizando nossa existência diante de um Estado que queria a gente morta, que queria que a gente desaparecesse, que criou leis discriminatórias que permitiam a nossa prisão arbitrária, inconstitucional, e que tratava isso com naturalidade num contexto em que ninguém se compadecia das nossas dores. Então, de alguma forma, essas violências cometidas contra nós eram recebidas com indiferença por outros grupos, mesmo LGBs.

Na sua opinião, o que falta na esfera pública para que se desenvolvam mais e mais oportunidades para pessoas trans e LGBTQIAP+ e nossas interseccionalidades no campo da cultura?

  • Um dos motivos de eu gostar muito de estar no museu é justamente poder ser uma articuladora nesse processo de criação de uma nova memória, de uma outra história do Brasil, a partir da perspectiva LGBTI+. Esse é um dos nossos papéis, dos nossos desafios também. A gente pode criar uma outra história para o Brasil, com outros referenciais, com outros nomes, com outros símbolos. E aí a gente pode ter Tibira, pode ter Xica Manicongo, Felipa de Sousa, que foram as primeiras figuras atacadas, as primeiras grandes figuras notórias atacadas pela moralidade cristã europeia através da Inquisição, através da colonização. Felipa de Sousa foi a primeira lésbica condenada em Salvador, em 1592. Ela passou o rodo na mulherada em Salvador. Foi denunciada pela Santa Inquisição e foi punida. A Xica Manicongo foi denunciada por vestir roupas consideradas femininas em Angola e Congo. Nem eram roupas que aqui percebiam que eram femininas, eram roupas que lá eram tidas como femininas e dos “quimbandas”, que era uma palavra, na época, traduzida como “sodomita paciente” (passivo nosso). A Xica Manicongo está sendo denunciada por vestir essas roupas. Olha só a roupa como a questão é importantíssima. Mas uma roupa que só quem era do meio catava, só quem “era do rolê”, sabe?! Então tinha um código já de vestimenta para identificar. E aí ela entra para a história como a primeira travestida de que a gente tem registro. Então, uma pessoa escravizada, que vivia em Salvador e vai ser denunciada nessa primeira vinda da Inquisição, [em] 1591. E aí se torna então um símbolo de uma cultura. E Tibira é uma história muito louca. Tibira é uma palavra do Tupi antigo, que era também traduzida por “sodomita paciente” pela Inquisição. E aí tem uma figura no Maranhão, de ocupação francesa, que vai ser amarrada na boca de um canhão e vão dar um disparo fatal e despedaçar esse corpo ao meio para purgar na terra dos crimes de sodomia cometidos por esse indivíduo que não tem nome. E aí, um pesquisador contemporâneo, Luiz Mott, resgata essa história e propõe o nome de Tibira para [essa pessoa], um nome que marcava justamente a dissidência dentro da cultura Tupinambá. Então propõe Tibira como o nome desse indivíduo e aí esse indivíduo passa a ser conhecido como Tibira do Maranhão. [Isso] Mostra como foi esse processo de implementação da LGBTfobia nesse território. E para a gente pode falar sobre isso, pode ter uma noção clara de quem foram essas figuras, [para] poder elencar quais são essas figuras que a gente quer colocar como mártires, símbolo da luta pelo nosso direito de existir e contar a história desse país por um outro prisma, visibilizando o fato de que estava na raiz do projeto colonial a erradicação da sodomia. A LGBTfobia, então, fez parte desde o começo do processo colonizador.

Da poesia concreta, como te fisgaram? Como os irmãos Campos fisgaram Amara Moira na poesia visual, poesia concreta, intersemiótica?

  • Nossa! Eu amo. Foi a minha porta de entrada. Poesia concreta é a porta de entrada para drogas mais pesadas. Eu lembro que estava no começo da minha graduação de Letras e já tinha lido o “ABC da Literatura” do Ezra Pound. [Ele] fala inclusive que, para desenvolver a capacidade como escritor, traduzir pode ser importante. Então, pega um poema grande em outro idioma e tenta mantê-lo grande no seu idioma. Isso é um exercício poderoso. Comecei a brincar de traduzir desde o começo da graduação. Mesmo dominando precariamente outros idiomas, traduzi uns epigramas do Marcial, traduzi uns trechos da “Divina Comédia”, poemas do Lord Byron. Ia brincando de traduzir poemas que me interessavam, que me encantavam. Tentava trazer esse encantamento para dentro do português. Hoje eu olho para essas coisas e parecem meio bestas. Mas na época, eu achava que era demais e muito interessantes. Alguns até que ficaram interessantes, mas boa parte desses exercícios deixaram a desejar. Um que eu gosto muito é o começo do “Macbeth”, que comecei a traduzir, que espero um dia traduzir, porque não acho que “Macbeth” foi devidamente traduzido em português. Bandeira traduziu e não levou a sério. Parece que ele quis se preocupar mais com a questão do enredo, da historinha, mas deixou a complexidade da poesia do [William] Shakespeare de lado. E eu quero muito poder resgatar isso, produzir um Shakespeare. E tem a ver com os Campos. Os campos vão propor que a poesia concreta se divida em três linhas de frente, linhas de ação. A poesia original, que eles propunham verbivocovisual que eu amava também, muito divertido [e] hoje gosto menos. A poesia traduzida, a tradução como um campo de inventividade e de experimentação. Se você trazer para o seu idioma experimentos que foram pensados para outros idiomas, isso como um dos pontos centrais dessa produção. A partir de uma proposta de tradução que não deixa a desejar à poesia original. Ela é tão radical quanto a poesia dita original. É tão radical a ponto de muitas vezes ameaçar o original, de parecer uma tradução da tradução. Eu amo isso; eles eram um tanto narcisistas, egocêntricos, mas é muito divertido. E [por fim] a questão da crítica. O poeta também tem que saber ser crítico tanto no que ele seleciona como influências, mas também na hora de escrever sobre literatura, inventar novos olhares sobre literatura. Exercitar essas três esferas da vida: a produção autoral, a produção como tradutor e a produção como crítico; me encantou desde o começo da graduação. Tentei exercitar esses três campos, mas parece que eu estava sempre treinando, afiando a minha escrita. Só com a minha transição encontrei o meu tema e o meu propósito maior na literatura. Eu quero trazer a questão trans travesti para o centro da minha produção literária e espero que chegue num ponto em que as pessoas não sintam que: “Ah, a Amara só escreve de travesti”. Não, é todo um universo que é criado a partir da travestilidade. Assim como as pessoas não olham para o James Joyce, para o “Ulisses”, e pensam: “Nossa, o Joyce só escreve de dublinense, de Dublin, da Irlanda, que coisa monótona!” Não, não há monotonia ali porque é um universo à parte. É um multiverso ali. Para que a travesti também tenha esse reconhecimento, eu preciso ainda avançar um pouquinho. Esse é um dos meus propósitos e eu me baseio muito, tanto nos irmãos Campos quanto no Joyce, o Pound do “ABC da Literatura”. São obras que são centrais para pensar a escritora que eu quero ser e que eu tenho tentado ser.

E como as pessoas fazem para te encontrar, Amara? Você tem algum livro em vista? Como é que as pessoas podem te seguir e saber sobre as suas novidades?

  • Vai sair um livro novo agora pela Companhia das Letras, o “Neca”, que é esse meu monólogo em Bajubá, 150 páginas de Bajubá. Sem glossário, sem explicação, sem prefácio, posfácio. Se virem, vão ter que se virar. Eu quero deixar vocês com prazer em não entender tudo, com o prazer de se perder nessa mata, nessa selva de palavras esquisitas que a cultura travesti foi criando. Quero que vocês se permitam esse mergulho profundo nessa cultura a partir desse texto. Espero que gostem. Vai sair agora no segundo semestre, então vocês vão encontrar por ali. Dá para encontrar o “E se eu fosse puta” nas grandes livrarias do país. Antigamente, ele tinha uma dificuldade para circular por conta do nome no momento mais conservador brasileiro, mas atualmente parece que estão superando isso e estão permitindo que esse livro esteja presente nas livrarias. Podem me escrever por redes sociais também. Amara Moira não é um nome muito, muito fácil de ter dois, então vocês vão reconhecer ali a minha carinha com Twitter, Facebook, Instagram. São as redes que eu utilizo. Eu não tenho maturidade para cuidar de mais de três redes, por enquanto; espero ficar só nessas três. Mas vai ser fácil de me encontrar por lá e nas estantes das livrarias.

Ouça na íntegra:




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