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Aos 52 anos, o ator Renato Chocair experimenta uma nova visibilidade que embaralha as classificações fáceis e desconcerta expectativas apressadas sobre o lugar do homem maduro na cultura brasileira.

Conhecido do grande público como Eugênio em “Chocolate com Pimenta” (TV Globo) e por sua presença em produções bíblicas da Record TV, como “Reis” e “Paulo, o Apóstolo”, o paulistano se percebe no fulcro de um fenômeno contemporâneo em que admiradores gays o elevam à figura “Daddy” e revelam um ponto onde maturidade, erotismo e acolhimento já não aceitam fronteiras.

Renato Chocair - Reprodução/@renato_chocairator
Renato Chocair – Reprodução/@renato_chocairator

A viralização recente de suas fotos criou um terreno híbrido entre memória afetiva, flerte digital e resistência cultural. No meio desse movimento, aparecem questões que atravessam a vida brasileira: o apagamento de atores veteranos, a disputa pelo audiovisual, o impacto do desmonte cultural dos últimos anos, a retomada de políticas públicas e a maneira como corpos masculinos amadurecidos são percebidos na mídia.

Chocair ocupa esse lugar inesperado, onde erotismo vira discurso, onde humor vira gesto político e onde um ator de trajetória sólida encontra, de repente, um novo público que o deseja e o defende.

Renato Chocair - Reprodução/@renato_chocairator
Renato Chocair – Reprodução/@renato_chocairator

Nesta entrevista exclusiva ao GAY BLOG BR, o ator de formação teatral rigorosa fala sobre conservadorismo, masculinidades, apetite pela vida, OnlyFans, memória cultural e o impacto de ser quem é. É uma conversa aberta, direta e marcada por afeto, crítica e uma sensualidade dita sem pudor nem caricatura.

A seguir, a entrevista na íntegra:

Renato Chocair - Reprodução/@renato_chocairator
Renato Chocair – Reprodução/@renato_chocairator
  • Entre novidades e repetições, onde você enxerga potência real na dramaturgia brasileira e onde percebe que ainda caminhamos em círculos?

Quando eu estive no CPT do Antunes Filho, o Antunes frisava bastante a nossa identidade como poeta criador. Ele fazia a gente escrever, sempre falava que se precisava de novos dramaturgos. E sempre falava do Nelson Rodrigues. O mundo mudou muito, né? A internet veio para ficar. Então nós temos coisas boas e coisas muito ruins aí. Temos novas oportunidades, novos autores nascendo, mas, teatralmente falando, isso precisa ser incentivado: a escrita, a dramaturgia mesmo, para reforçar sempre o poder do teatro no cenário cultural brasileiro.

O bonito de ver são os teatros lotados e a força que existe na palavra. O poder de uma mensagem teatral, da magia, da catarse que existe quando você encontra um espetáculo que muda a sua vida. O teatro nunca vai morrer, e novos autores são muito bem-vindos.

Eu acredito que o que anda em círculo é o desrespeito com os atores que fizeram história na televisão, no cinema, no teatro. Brasileiros sendo esquecidos por muitos influencers que estão aí, e muita gente que pega um DRT numa padaria e acha que pode falar um texto.

E são os grandes atores — os atores mais velhos — que mostram o quanto o etarismo e o esquecimento precisam ser combatidos, e por quem devemos ter profunda gratidão. É uma grande honra reconhecer que foram eles que construíram essa história. O ator é um bicho muito interessante: quanto mais velho, melhor fica.

E aí, na minha trajetória, fiz teatro com dois grandes atores — um está vivo, o outro já se foi, infelizmente — o Raul Cortez. Fizemos uma peça juntos no Teatro da FAAP, chamada “Fica Frio”, um texto do Mário Bortolotto. Foi um sucesso, uma alegria ter feito. E com o Renato Borghi fizemos “Sonho de Núpcias”, que foi um dos fundadores do Teatro Oficina, junto com Zé Celso Martinez Corrêa. Então o teatro sempre permeou a minha vida. Pessoas de mente aberta, a fim mesmo de colocar o dedo na ferida, sempre estiveram ao meu redor. E eu sou muito feliz e grato por isso. Eu estou exercendo a minha função. Estou me sentindo útil.

Você viu essa matéria que saiu quando eu fiz a novela “Chocolate com Pimenta”? O Eugênio agora viralizou. Eu estou com 50 anos e quero trabalhar. Não deixei de trabalhar. Fiz duas novelas na Record TV“Reis”, com o Joiada, um personagem de muito sucesso, e “Paulo, O Apóstolo”, como Onésimo. Então a gente está sempre provocando e instigando as pessoas a olharem para a gente e respeitarem nossa história na cultura brasileira.

Renato Chocair - Reprodução/@renato_chocairator
Renato Chocair – Reprodução/@renato_chocairator
  • Qual é o maior desafio do cinema brasileiro hoje: distribuição, políticas públicas ou conservadorismo?

O cinema brasileiro enfrenta um grande problema, que é a distribuição, salas de cinema… o mundo mudou. As pessoas estão mais conscientes de que não existe mais espaço para preconceito. O que tem que ser feito é uma profunda investigação no sentido de criação e de aceitação: educação, cultura, do veículo de cinema, que é a sétima arte, a arte das artes.

Você vê muitos filmes fazendo sucesso hoje em dia, como “Baby” (de Marcelo Caetano), “O Agente Secreto”, “Ainda Estou Aqui”, “Central do Brasil”, “Cidade de Deus”. São grandes filmes que vêm na hora certa para colocar o dedo na ferida e falar de tabus que ainda existem — e que não poderiam mais existir no mundo atual. O mundo é aberto, o mundo é colorido. A alma do brasileiro é potente. O povo brasileiro é maravilhoso. A gente precisa de uma produção mais frequente para ter todo esse pluralismo envolvido e engajado.

Eu acredito muito na cultura brasileira. Acredito muito no povo brasileiro. Acredito que essas leis precisam ser revistas para que a gente tenha um repertório maior e mais constante. Grandes sucessos como “Baby”… que maravilha, né? Que filme estrondoso, maravilhoso. “Ainda Estou Aqui”, “O Agente Secreto”… são sinais de que nosso cinema é espetacular.

O conservadorismo, infelizmente, ainda existe muito. Até pouco tempo atrás a gente vivia num caos e numa tirania, numa ditadura, que graças a Deus foi embora. Mas ainda existem espectros rondando. A gente precisa abrir a consciência, abrir a mente, acreditar no povo brasileiro, acreditar no nosso cinema. Essa identidade precisa ser cada vez mais incentivada para a gente voar definitivamente. Já melhorou muito, mas precisa melhorar mais.

Estamos nos recuperando do desmanche que foi feito na cultura brasileira no período Bolsonaro. E, graças a Deus, coisas boas estão vindo — e eu tenho certeza de que vêm para ficar. É só ver o sucesso das campanhas, dos longas, dos diretores, produtores, atores e do fomento atual à cultura.

Renato Chocair - Reprodução/@renato_chocairator
Renato Chocair – Reprodução/@renato_chocairator
  • Já houve personagens que despertaram questionamentos internos sobre masculinidade, afeto ou sexualidade?

Eu sou um pisciano com leão, então eu tenho uma… enfim. Já passamos por todos os signos nessas encarnações todas. Então eu tenho uma profunda humanidade, um entendimento da vida do ser humano. E isso é maravilhoso, porque você dialoga com todo mundo.

Fiz um personagem no teatro com o Antunes, uma vez, um trans — o João — um trans brasileiro. Eu fui estudar a vida dele. E é maravilhoso. Essa é a nossa função: dialogar com todos os públicos.

Renato Chocair - Reprodução/@renato_chocairator
Renato Chocair – Reprodução/@renato_chocairator
  • Falando de vida íntima: como você se define em relação à sua orientação sexual? Está solteiro?

Olha… eu tenho um apetite muito grande, viu? Eu estou sempre com fome. “Fome de viver”, tem até aquele filme maravilhoso (de 1983)… eu tenho fome de viver, meu amigo. Meu apetite pela vida, por conhecer pessoas de todos os gêneros e, através da minha arte, ser útil de alguma forma. Eu me defino assim, sabia?

  • Você costuma interagir de forma carinhosa com fãs LGBTQIA+. Já recebeu investidas inesperadas de fãs? Como reagiu?

Inúmeras, inúmeras. Eu tenho um profundo amor e respeito à comunidade LGBTQIA+, e eu sinto que estou cada vez mais sendo amado por eles. E eu acho que isso é o bonito: as relações humanas. Para mim interessa sempre a humanidade por trás de tudo. Fico envaidecido, feliz de poder ajudar, de poder conversar. Por exemplo, eu estou com 50 anos, também estou ficando mais velho, e posso ajudar com meu estilo de vida. Eu não vou deixar de ter 50 anos, mas posso ser um senhor de apetite. E posso, através da minha arte, dialogar com todos os públicos.

Eu reajo com carinho. Procuro responder a todos com muito carinho. Às vezes o assédio é muito grande e eu não tenho tempo. Mas eu sinto uma profunda gratidão, porque a função do artista é justamente essa: dialogar com seu público de maneira amorosa, carinhosa, respeitosa, sem barreiras, sem preconceito algum.

  • Muitos fãs no X, antigo Twitter, estão torcendo para que você abra um perfil 18+, um OnlyFans. Isso faz parte dos seus planos?

Com relação ao OnlyFans… aguardem as cenas dos próximos capítulos, hein? Vamos deixar um mistério no ar, né?

Renato Chocair - Reprodução/@renato_chocairator
Renato Chocair – Reprodução/@renato_chocairator
  • Está trabalhando em algum projeto? O que podemos esperar de você em 2026?

Eu acabei de fechar um contrato com um escritório para artistas que eu sempre sonhei entrar: o Montenegro Talents, do Marcos Montenegro. Lá você encontra grandes atores e atrizes — Irene Ravache, enfim, monstros sagrados da cultura — e eu estou lá dentro.

Para mim é um presente, uma forma de reconhecimento da minha luta durante esses anos todos, que é brincar de ser outra pessoa. O ator é um grande brincalhão: ele brinca de contar a história, de ser outra pessoa, sempre dialogando, sempre procurando entender a alma humana e fazer desse mundo um mundo melhor. Essa é a função. É isso que eu procuro na minha vida.

Esse reconhecimento grandioso que está vindo agora, e esse encontro com você, está sendo uma grande celebração para mim. Muito obrigado pelo seu carinho, pela pessoa que você é, que me deu essa oportunidade de falar um pouco da minha carreira, da minha vida. Eu me sinto muito honrado, muito feliz. É um momento glorioso. 

Coisas boas vão vir aí. Muitos projetos estão chegando… é só aguardar.

Eu queria deixar um agradecimento aqui: um depoimento de profunda gratidão, de amor ao público LGBTQIA+ que tem me abraçado com tanto carinho e me chamado de Daddy. Isso é muito gostoso. Está sendo muito bom para mim. E a gente vai junto levantar essa causa, cada vez mais forte, contra qualquer tipo de preconceito. Isso, para mim, é o maior presente.

SERVIÇO

Onde acompanhar Renato Chocair
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Chocair News: @chocair.news




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