Neste ano, as eleições municipais bateram recorde de pré-candidatos LGBT+, são cerca de 435 nomes, segundo levantamento da Aliança Nacional LGBTI+. O partidos que mais somam pré-candidatos LGBTs são, em ordem de quantidade, PT (66), PSOL (65) e PDT (62).

Em São Paulo, Todd Tomorrow é um dos fortes nomes ao cargo de vereador. Com experiência de duas eleições pelo PSOL, Todd agora lança a candidatura pelo PDT e conversa com exclusividade com o GAY BLOG BR.

Todd Tomorrow
Todd Tomorrow lança candidatura pelo PDT – Divulgação

Antes de se candidatar, você atuava com o quê? 

Eu tenho formação em Publicidade e Propaganda, que eu nunca exerci e detestava (risos). Demorou pra eu me encontrar – antes, eu fui recepcionista de hotel e corretor de imóveis. Aí já com quase 30 anos fui estudar Relações Internacionais, área que é a minha atual e que sou apaixonado. Depois que entrei de cabeça na política, assessorei o deputado Ivan Valente, e depois a então vereadora Sâmia Bomfim, ambos do PSOL. Agora estou estudado Programação – tenho um interesse crescente nisso, e me concentro nessa nova descoberta também pra me distrair um pouco em tempos de pandemia. Além disso, é uma área promissora e a crise econômica me atingiu em cheio. E, acho que mais relevante pra nossa conversa, tenho um diploma superior em Diversidade Sexual e Direitos Humanos na Clacso, o Centro Latinoamericano de Ciências Sociales de Buenos Aires.

É a sua 3ª candidatura? Você avalia que houve alguns erros nas anteriores ou existe algo que não pretende repetir nesta campanha?

Certamente cometi erros. Eles nos custaram a eleição, já que fomos muito bem votados e não entramos por pouco. Faltou rua, por exemplo. Numa eleição, recebi uma séria ameaça de morte por telefone e não soube lidar com aquilo. Acabei reduzindo consideravelmente os compromissos de campanha. Na outra, sofri uma agressão física em plena Avenida Paulista. Novamente me recolhi. Hoje estou mais descolado em questões de segurança. Faltou também me organizar melhor dentro do partido. Eu estava no PSOL e me mantive independente. Isso tem um preço. Você acaba preterido na hora em que esses grupos decidem quem terá acesso a recursos e espaços. Hoje, no meu atual partido, estou bem organizado, dentro do PDT Diversidade. E também faltou um pouco de malícia, sabe? Enquanto eu me digladiava com o candidato da Igreja Universal, o Sr. Celso Russomanno, por exemplo, gente do campo progressista me desconstruía pelas costas e até criava candidaturas artificiais pra rachar meus votos. Aprendi bastante nesse processo e os erros foram fundamentais nisso. Por isso valorizo cada um deles.

Suas propostas de projetos são os mesmos? Quais são as desta campanha?

A pandemia e o governo Bolsonaro nos impuseram uma nova realidade. Ainda que não tenha abandonado nenhuma das nossas lutas, outras se tornaram verdadeiras emergências. Eu defendi e continuo sendo um cara dos direitos humanos, que pensa em cultura e que tem um apego às questões ambientais e de juventude. Mas a atual crise
faz com que pautas como trabalho, saúde e educação ganhem protagonismo. Os paulistanos perderam renda, enfrentam uma emergência sanitária e está aumentando a distância do ensino entre a escola pública e a privada. Esses temas são prioritários.

E alguma pauta exclusivamente LGBT?

Vamos dar grande atenção às LGBTs em situação de maior vulnerabilidade. A atual crise não é brincadeira e precisa ser enfrentada. A pobreza relativa da nossa população é maior que a de heterossexuais e pessoas cis. E essa distância está aumentando no contexto da pandemia. Temos a obrigação de pensar em soluções que criem oportunidades. Mas sabemos que no meio do caminho existe a Câmara Municipal, que é um ambiente majoritariamente hostil pras LGBTs. O problema vem de cima pra baixo, a começar pelo atual presidente da Casa, um corrupto que usa a igreja evangélica e temas morais para abafar as sacanagens que promove. A primeiríssima coisa a ser feita após o primeiro turno das eleições é identificar o vereador – ou vereadora – que não se oponha à cidadania das LGBTs para ajudar a colocar essa pessoa na presidência da Casa. Sem isso, as coisas dificilmente avançarão para nossa população.

Nas vezes que você se candidatou, a política não era tão polarizada assim para a massa. Você acredita que essa polarização possa te favorecer?

As pessoas me identificam desde sempre no polo oposto ao reacionarismo, oposto ao que é representado pelo Bolsonaro. São Paulo costuma nacionalizar sua eleição municipal. Contudo, os pré-candidatos a prefeito que estão à frente nas pesquisas não são do campo reacionário. No meu entendimento, Bruno Covas (PSDB) e Márcio França (PSB) estão, pelo menos nesse instante, posicionados na centro-direita e na centro-esquerda. Então não é possível dizer, pelo menos ainda, qual será o impacto da polarização nacional aqui na cidade. Ao mesmo tempo, é esperado que o gabinete do ódio de Bolsonaro e seus filhos atuem no subterrâneo da eleição, com mamadeiras de piroca, QAnon e afins.

O principal quadro do seu partido é o Ciro Gomes. Há muita animosidade entre ciristas e lulistas desde 2018. Como você encara esse conflito? 

Há muito recalque na política. Traições, complôs. À esquerda e à direita. É um verdadeiro ninho de cobras. Posso contar numa mão as figuras que trocaram algo comigo e que não tinham intenções subterrâneas. Sei que não estou na política pra fazer amigos, mas é um ambiente bastante tóxico. Agora, estamos no pior ano da história brasileira. Não dá pra ficar jogando gasolina no fogo. Tenho proximidade com o programa econômico do Ciro e o social do Lula. Criticas pontuais aqui e ali, mas são lideranças que respeito. Esses dois já trabalharam juntos e alcançaram resultados memoráveis. O melhor pro campo progressista seria se essa briga terminasse. Não precisam ser amigos, não. Mas o patético mesmo é como as redes sociais traduzem tudo isso. Muitas vezes não deixam nada a dever pros bolsominions. Não participo. Meu inimigo é o reacionarismo.

Você tem recebido ataques ou ameças atualmente?

Desde aquele rebuliço em Atibaia por conta do caso Queiroz, os ataques cibernéticos pioraram muito, com tentativas de roubo de e-mail e redes sociais. Mas o que me preocupa é a vigilância que detectei semanas atrás. Alguns carros, pelo menos quatro, têm se revezado pra me vigiar. Por conta da pandemia, minha presença na rua é próxima de zero. Então, eles ficam estacionados perto da minha casa. Eu chamei a polícia três vezes. Em todas as vezes os suspeitos foram embora quase que imediatamente. Tomei coragem e consegui algumas das placas. Estamos checando. Espero que seja a Polícia Federal ou a ABIN, e não outra coisa.

Você tem uma boa coleção de adversários…

Se as pessoas me avaliarem pelos inimigos que fiz já me dou por satisfeito. Tenho orgulho de ser a pedra no sapato dessa gente. Ninguém jamais me viu ou verá fazendo concessões dos meus princípios ou traindo os meus em nome de interesses obscuros.

Sua visibilidade também trouxe um lado positivo, que é popularidade e engajamento, mesmo fora do período eleitoral. Em 2018, inclusive, você ficou em 2º lugar pelo voto popular na categoria “Boy Magia” no Poc Awards. Você é solteiro, recebe muitas cantadas?

Recebo algumas. Estamos hiperconectados e isso facilitou, inclusive o flerte. Eu gosto. Uma boa conversa, mesmo quando não leve a nada depois, sempre me animou. Só não gosto que me mandem foto pelado. Perco o interesse na hora. Eu gosto de descobrir as coisas, sabe? E solteiro desde… Ah, desde sempre.

Se você estivesse nem um precipício segurando o Bolsonaro com uma mão e o Silas Malafaia em outra. Quem você soltaria primeiro?

Tentaria salvar os dois. Eles teriam de viver com o fato de dever a vida pra um veado. Não tenho vocação pra tirar uma vida.

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