A cicloativista e apresentadora Talita Noguchi compartilhou suas experiências e insights em uma entrevista ao podcast do Gay Blog BR, na qual abordou questões de mobilidade urbana, ciclismo e desafios enfrentados por mulheres no esporte. Talita é conhecida por seu ativismo em prol do uso da bicicleta como meio de transporte e por sua defesa de um espaço urbano mais inclusivo e seguro para todos.

Talita contou, na entrevista, que iniciou seu envolvimento com o ciclismo como uma solução para problemas de mobilidade e saúde mental. Em São Paulo, onde o trânsito é caótico, ela encontrou na bicicleta uma forma de escapar dos engarrafamentos e melhorar seu bem-estar.
A cicloativista também discutiu a gentrificação e as mudanças urbanas. Ela observou que, enquanto as megalópoles enfrentam a valorização exagerada dos territórios, as populações mais vulneráveis são frequentemente deslocadas. Talita reconhece que, de certa forma, sua presença e de outros ciclistas em determinados bairros podem contribuir para esse processo, mesmo que não sejam a causa principal.
Sobre a participação feminina no ciclismo, Talita destacou a importância de criar cidades mais seguras e inclusivas. Ela mencionou que a presença de mulheres pedalando é um indicador de uma cidade ciclo viável. Segundo ela, a insegurança no trânsito e outras formas de violência nos espaços públicos são também barreiras para a participação feminina.
Em relação à mobilidade urbana em São Paulo, Talita foi questionada sobre o Plano de Mobilidade Urbana de 2015 e as mudanças desde então. Ela criticou a falta de políticas públicas eficazes e a necessidade de uma abordagem mais organizada para o transporte coletivo e o uso de bicicletas. Talita enfatizou que a sociedade civil precisa estar envolvida e demandar soluções dos administradores públicos para que as mudanças ocorram.
Finalmente, Talita abordou os desafios de ser uma cicloativista, empreendedora lésbica e mulher amarela. Ela mencionou as dificuldades específicas enfrentadas, mas também celebrou as conquistas de sua loja “Las Magrelas“, que completou 11 anos e conta com uma equipe de mulheres racializadas.
Confira trechos da entrevista
Como a bike e a causa da mobilidade urbana entraram na sua vida?
- Ela entrou para resolver questão de mobilidade. Para mim, também era uma questão de saúde mental, na época. Porque a gente já viveu muito trânsito aqui em São Paulo, a gente vive o trânsito até hoje. Foram momentos melhores ou piores. Mas assim, é bastante enlouquecedor ficar no trânsito, preso no carro, no dia a dia, só para tarefas básicas.
Eu lembro muito bem que você, aqui em São Paulo, tinha uma loja que tinha um letreiro escrito “Bikes e Lanches”. Qual era o conceito e o que você buscava com aquele espaço?
- É legal lembrar isso, porque a gente tinha essa placa, e [o local] era para ser não só uma bicicletaria, mas também um espaço de convivência. E, com certeza, a gente cumpriu bem esse papel num lugar de convivência bacana entre pessoas que tinham algumas convergências de pensamentos e de formas de lidar com a cidade.
Eu fiz essa pergunta justamente para falar sobre gentrificação, territórios e mudanças. Nos seus negócios, você que viveu e vive essa dinâmica da cidade, o que você acha desse contexto atual?
- A gente vive bastante isso. Eu acho que, globalmente, todas as megalópoles estão passando por esse momento onde todo território fica muito caro. E a gente se encaixa; não que nós sejamos a causa, porque também não temos esse poder, mas a gente também é um pouco desse agente gentrificador. Porque a gente chega num bairro já querendo uma qualidade de vida, uma iluminação, algumas coisas. E conforme vai acontecendo, toda a estrutura básica do lugar onde a gente está vai melhorando, ela vai sendo gentrificada, e é um plano muito claro. Assim que segue uma linha em São Paulo, e a gente está dentro dessas linhas. Só que a gente vai sendo expulso de outra forma. Não diria que é tão violenta como para a população que nesse momento está mais precarizada, mas a gente acaba seguindo esse movimento também. Hoje em dia, depois de passar por algumas mudanças de loja e de casa, entendendo como funciona, eu acabo até não me apegando tanto ao local, porque eu entendo que ele está numa linha onde isso está acontecendo.
Porque há menos mulheres do que homens praticando ciclismo, na sua opinião, e como fazer para mudar esse contexto?
- É muito interessante porque existe um estudo muito antigo, que agora já deve ter uns 15 anos, que mostra que uma das métricas que você tem para uma cidade ciclo viável é a quantidade de mulheres pedalando. É muita coincidência falar isso hoje, porque ontem eu estava lendo um outro texto, já mais recente, muito moderno, sobre os acessos da mulher na cidade, não só como ciclista, mas também como pedestre. E como existe um recorte claro. A cidade é mais ciclo viável se tiver mais mulheres pedalando porque a gente precisa ou procura mais segurança em muitos aspectos. O trânsito aqui, por exemplo, em uma megalópole como São Paulo, já não é um piquenique, mas a gente não vive só o trânsito de São Paulo, a gente não vive só a violência do trânsito; os nossos corpos estão em disputas o tempo todo em espaços públicos. Então a gente tem muitas outras questões além da violência do trânsito quando a gente pensa nos nossos corpos na rua, entendeu? Eu acho que é uma questão muito séria, é uma métrica a ser levada muito em consideração, é um índice que tem que ser levado em consideração. E questões estruturais, desde a educação básica, porque a gente está vivendo um momento de depredação da educação, por exemplo, e várias outras coisas que a gente precisa defender, porque é daí que vem a base para a gente fazer outras mudanças. É óbvio que leis, mudanças viárias fazem muito sentido e ajudam também a gente a ocupar a rua. Mas não é só isso. A gente precisa de uma mudança estrutural, da sociedade mesmo e de educação para entender a gente enquanto ser humano, sem estar sempre nesse lado que a corda está estourando, sem estar sempre dentro desse massacre que a gente vive.
Você falou sobre corpos, territórios e ocupação de espaços. Como praticante do ciclismo, como esse meio esportivo enxerga e trata corpos dissidentes?
- Corpos dissidentes ou costumam ser violentados ou tokenizados. Não existe meio termo, assim como vejo hoje em dia e já há muito tempo que estou usando a bicicleta na rua. Enquanto mulher lésbica, lembro-me dos primeiros momentos em que fiz isso e procurei grupos para poder pedalar e entender como era pedalar na cidade. Eu me lembro muito de ser, junto com minha companheira da época, talvez o único casal lésbico de um grupo bastante grande. Não dá para saber de todo mundo, porque nem todos falam sobre isso ‘em voz alta’. Mas hoje em dia vejo que mudou bastante, porque era muito solitário. Eu me vi em muitos momentos muito solitários dentro desses espaços e ambientes. Mas hoje vejo muitos outros grupos que estão por aí, que já nasceram com outras propostas que envolvem mulheres e outras expressões identitárias, o que acho muito legal. Para quem vem de 13 anos atrás e para quem viu a trajetória de outras mulheres, ainda mais no passado, como era complicada nossa situação nesses espaços. Vejo com bons olhos tudo o que aconteceu na última década. Eu me sinto muito feliz ao ver esses grupos hoje em dia. Ainda assim, todos esses corpos permanecem, ou violentados ou tokenizados, porque vejo isso acontecer ainda. Então, avançamos bastante na última década, mas precisamos avançar ainda mais, porque ainda não está bom.
Você acha que São Paulo, em termos de mobilidade e qualidade de vida tem solução?
- Poxa, essa é uma pergunta absolutamente subjetiva. Tem solução? Solução para quê, né? Se a gente for pensar, São Paulo é uma megalópole que deve estar no top 5, top 10 globais. Muita desgraça acontece aqui, mas não só isso. Eu acho que, pelo tamanho que ela tem, eu esperava um caos maior. Eu entendo que existem outras cidades no mundo com caos maiores que os nossos, sendo uma megalópole parecida em quantidade de pessoas e território. E se tem solução? Cara, eu não sei se a cidade tem solução. Acho que a gente volta para as pessoas, para a sociedade civil. A sociedade civil está disposta a encontrar soluções? Ela está disposta a pegar as questões e tentar resolvê-las? Óbvio que é chato, né? Mas e aí? O que a gente vai fazer enquanto sociedade civil? Porque a cidade em si depende muito dos nossos administradores públicos. Só depender que eles façam as coisas sem as nossas demandas eu acho um tiro no pé.
Desde 2015 a gente tem o Plano de Mobilidade Urbana de São Paulo, que era uma proposta super ambiciosa, com centenas de milhares de quilômetros de ciclovia, construção de terminais, pontes, passarelas… Eu queria saber de você o que acha que mudou desde então, seja nas políticas públicas, seja no comportamento das pessoas?
- Eu enxergo que as políticas públicas são muito atrasadas. Elas vêm sempre à reboque da necessidade da sociedade civil. O trânsito de São Paulo é uma questão; não tem como em uma cidade desse tamanho, a logística de produtos e pessoas não ser uma questão. Colocar tudo na conta de automóveis, com certeza, vai dar B.O. Existem vários outros meios que precisam ser utilizados, e quando a gente fala disso, a gente fala de bicicletas e de transporte coletivo. Teve uma época [em que havia] aqueles patinetes, que era para microdeslocamentos. Eu não sei se você lembra, isso foi antes da pandemia. Uma cidade como São Paulo precisa de todas as possibilidades de transporte possíveis, desde que seja feito de forma organizada. Nada será ruim para uma metrópole desse tamanho. Eu me lembro bem de 2015 porque eu achei que foram ganhos muito preciosos para nós as ciclovias, mas elas também foram vitórias amargas. Porque é como se partes precarizadas da sociedade fossem usadas umas contra as outras, entende? Ontem mesmo eu estava vendo a prefeitura falando sobre o recolhimento de barracas do pessoal em situação de rua, porque isso impedia o ir e vir das pessoas. Eu entendo que a cidade precisa ter esse fluxo e precisa ser analisada objetivamente. Mas não é só isso; não são apenas esses elementos que causam transtorno. Nós ganhamos uma malha cicloviária muito bacana, mas ainda ficou aquém da necessidade. Claro, todo lugar onde você coloca uma ciclovia tem uma quantidade absurda de pessoas usando-a. Isso, de certa forma, sim, ajuda as mulheres a pedalar, porque quanto mais seguro o espaço, mais esses corpos também estarão no espaço público. Já vi ciclovias em bairros nobres serem feitas em dois dias. O que está acontecendo? E porque estamos priorizando novamente algumas decisões que não são necessariamente as melhores para a estrutura de São Paulo.
O médico infectologista Dr. Dyemison Pinheiro, que foi entrevistado recentemente no podcast do Gay Blog BR, deixou uma pergunta para você. “Oi Talita, tudo bem? É bem comum eu recomendar o uso da bicicleta para os meus pacientes, [bem] como a prática de atividade física, de exercícios físicos diário. Muitos deles me respondem que é muito caro, para eles, manter esse hábito ou iniciar essa atividade ou esse hobby que seja. O que você recomendaria para as pessoas que tem interesse em iniciar essa prática e não tem dinheiro livre ou tão grande assim para investir nisso? Valeu! Muito obrigado“
- Eu acho que essa é uma pergunta super importante e fica um pouco na minha mente porque, sim, é um esporte caro e o acesso a ele não é tão simples assim. A gente não está falando nem de coisas acessíveis, de 500 a mil reais; [estamos falando de coisas] muitas vezes acima desse valor. Eu acho que as pessoas têm que procurar algo que caiba no bolso delas, tanto em relação à bike que ela vai comprar quanto à manutenção. O que eu acho que a pessoa tem que focar é, se você não tem muito dinheiro para destinar para isso, a primeira coisa é ser uma bike do tamanho dela, porque se for uma bike fora do tamanho dela, vai ser uma experiência muito ruim pedalar, e talvez isso desestimule ela; e ser o mais simples possível, porque, se você investe pouco dinheiro, não dá para você querer uma bicicleta cheia de suspensão, porque eles economizaram dinheiro em algum lugar para te apresentar uma bicicleta tão cheia de tudo. Então, eu tentaria ir para bikes mais simples e do tamanho correto. E também a gente fica de olho nessas nessas outras ações que existem, que elas têm a ver com saúde pública. Tipo, você botar uma pessoa para pedalar realmente é um investimento em saúde pública. Qualquer atividade física é um investimento em saúde pública.
A seguidora Célia fala que lembra muito do seu primeiro empreendimento, que você teve um apoio coletivo para financiar a sua loja; financiamento de ciclistas através de uma rede muito ativa de vocês. Hoje a gente vê o marketing e a necessidade de estar presente nas redes sociais cada vez mais. Para você, o que vem primeiro: ser bike e empreendedora ou influenciadora e apresentadora?
- Putz! No primeiro plano, tem o “eu” enquanto lojista, comerciante, empreendedora e bike, porque as coisas meio que se misturam. O meu ofício é também o meu estilo de vida. Eu tenho o meu canal no YouTube, onde falo sobre mecânica de bicicletas, eu tenho o “Chave Quinze“, e acessar muitas pessoas também me retorna em outras coisas. Todas essas partes da minha vida estão muito interligadas. Tipo, esse canal do YouTube que eu tenho é sobre mecânica de bicicleta, é sobre manutenção. O meu comércio é sobre bicicleta, é mecânica, é vender bicicleta. Meu meio de transporte, muitas vezes, é a bicicleta; então meu lazer era a bicicleta, quase que uma pessoa monotemática. Mas eu sei falar sobre outras coisas. Mas assim, o [eu] empreendedora, já faz um tempo, tomou um lugar muito maior na minha vida. São muitos desafios. Tem um comércio varejista em São Paulo na última década.
Talita, quais são os desafios de ser uma cicloativista empreendedora lésbica amarela?
- São inúmeros, Maurício. Enquanto mulher cis lésbica é muito desafiador. Esses últimos 11 anos com essa loja não foram exatamente um piquenique, mas me trouxeram muitas alegrias. Mas eu sei quais são os obstáculos que se puseram na minha frente, que eu sei que outras pessoas que têm outro recorte não passam, sabe? Mas, ao mesmo tempo, eu também não gosto de ficar me apegando a isso. Gosto de falar: “Olha que ‘da hora!’ O ‘Las Magrelas’ tem 11 anos, já tem uma equipe muito boa só de mulheres também racializadas” Então assim, obstáculos têm muito e têm algumas conquistas. Eu gosto mais de falar das conquistas, sabe?
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