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Quando falamos de sociedade, raramente falamos de uma coisa só. Os inúmeros aspectos interligados que formam os nossos costumes, o que é bom ou ruim, os nossos gostos. Uma mistura de coisas visíveis e invisíveis. No meio disso tudo, temos… “nós”. Em se tratando de Brasil, o futebol é um produto cultural de destaque, talvez o maior de todos. Como microcosmos da sociedade, ele reproduz comportamentos. Mas e se ele não apenas representar, mas também “apresentar”? E se o futebol for tratado não apenas como um refletor de ações, mas como uma ferramenta de transformar e ressignificar o nosso meio?

Pensando nisso, o Gay Blog Br decidiu estabelecer diálogo com algumas das mais importantes mentes do mundo esportivo no Brasil, em uma série de seis entrevistas semanais que têm por objetivo desvendar temas considerados tabus nos bastidores do futebol brasileiro e como isso se relaciona com o momento político que travessamos. Futebol e política caminham juntos. Não por acaso, foi um brasileiro, João Havelgange, que transformou a FIFA em uma das maiores instituições políticas do mundo. O assunto é a bola, mas vai muito além do futebol.

A primeira das entrevistas foi concedida pelo jornalista, escritor, comentarista, blogueiro e corinthiano – nas horas vagas: Juca Kfouri.

Juca Kfouri
Reprodução/Rede Brasil Atual

Mais uma vez, muito grato pelo seu tempo, Juca. Boa tarde, com os melhores votos para 2021. Vamos começar pelo começo. Em algumas entrevistas suas, como a concedida ao Roda Viva, em 2014, você contou sobre sua formação em Ciências Sociais, pela USP, e a vontade de estudar o futebol como agente transformador da sociedade. É inegável que as novelas e o futebol ocupam um espaço de identificação no imaginário coletivo brasileiro superior a qualquer outro produto cultural. Em que instâncias você diria que o futebol brasileiro, da década de 60 para a de 20 do atual século, contribuiu para conquistas sociais que você julga importantes?

Juca: Acho que muito menos do que seria desejável. A superestrutura do futebol é mais que conservadora, é profundamente reacionária, corrupta e corruptora, razão pela qual movimentos saudáveis como a Democracia Corinthiana ou o Bom Senso FC tiveram vida curta e deixaram pouco legado.

O grande pensador, mestre, político (e tantas outras coisas) brasileiro Darcy Ribeiro, também numa sabatina do Roda Viva, afirmou que a pátria do brasileiro médio é o futebol. Ele, conhecedor do Brasil como poucos, afirmou ser flamenguista no Rio e corinthiano em SP. Gênio. Você classificaria o brasileiro da pátria futebol, dada organização do nosso futebol em federações e confederação autofágicas, como um cidadão de uma terra sem lei?

Juca: De uma terra de ninguém que o leva a ser muito mais exigente com seu time do que com os cartolas que controlam o futebol.

Você é um corinthiano expresso e “sem vergonha” de ser, embora a torcida do Timão goste de duvidar disso (risos). Você viveu, como profissional e como torcedor, o longo jejum de títulos do seu time, encerrado em 1977. Hoje, 43 anos depois, você vê a equipe feminina jogando um futebol de altíssima qualidade e conquistando quase tudo que se pode imaginar na América do Sul. Você tem esperanças de ver um título feminino valendo tanto quanto o de uma equipe masculina de futebol profissional? Por que temos a impressão de que isto ainda está muito longe de acontecer? Quem são os maiores responsáveis por essa diferença e o que pode ser feito para diminuir essa distância?

Juca: Eu não verei e a razão é simples: se o futebol masculino tem tantos problemas apesar de implantado há mais de um século no país, imagine o feminino, tão recente.

No seu livro autobiográfio, “Confesso que Perdi”, título com ideia “emprestada” por Neruda, você mostra com ora sutileza e ora acidez alguns diversos causos da sua vida de jornalista, com nomes como Pelé e FHC – inclusive grandes decepções vividas em histórias relacionadas a estas personagens. Futebol e política são indissociáveis. Aquele, como microcélula social, reproduz diversas das mazelas vistas nesta. É uma relação nuclear, onde qualquer erro pode causar uma catástrofe irremediável para os clubes – como com o Cruzeiro?

Juca: Sem dúvida. E o pior é que o Cruzeiro nem sequer é exceção, ao contrário. Basta dizer que apenas Flamengo, São Paulo e Santos não experimentaram ainda tal situação, embora já tenham vivido situações próximas.

Ainda tendo por alvo as políticas internas e externas dos clubes e, principalmente, a relação das federações e CBF com os interesses das elites brancas, masculinas e heterossexuais. Há poucos dias, vivemos o caso absurdo, lamentável e revoltante de racismo contra o volante Gérson, da equipe do Flamengo. Podemos lembrar de tantos outros, aqui e em outros países, com jogadores brasileiros, como o Taison, o Daniel Alves e o goleiro Aranha (que teve a carreira degolada por não “deixar pra lá”). Quando procurados, as vítimas de racismo quase sempre dizem que ouvem conselhos como “deixa isso pra lá. Vai acabar com tua carreira.” Os tiros vêm de todos os cantos. Arquibancadas, colegas de profissão, dirigentes, etc. Por outro lado, parece que a tolerância está cada vez menor. Quão importante é que o futebol mande o recado para a sociedade: “não daremos espaço para feminicidas, agressores, racistas, homofóbicos, sexistas e toda a sorte de preconceitos”? Qual o peso de uma ação efetiva de um ídolo do esporte na cabeça de uma criança?

Juca: Cada vez mais veremos tal repulsa e as novas gerações, felizmente, assim exigem. Não é por outra razão que Sócrates é tão exaltado e Neymar tão criticado.

Você sempre falou com orgulho da posição que ocupam os seus filhos na sociedade, como profissionais e como militantes. Que papel têm as arquibancadas na constituição do caráter deles e num olhar mais compassivo e compreensivo diante das ambiguidades do nosso país?

Juca: A arquibancada é uma aula de socialização como são as escolas públicas.

Podemos esperar um outro Sócrates se levantando do futebol (por mais incomparável que tenha sido o “Magrão”)? Ou você acha que as ferramentas de silenciamento são maiores hoje em dia, uma vez que o Bom Senso FC foi tão “facilmente” calado, mesmo com cabeças como o Alex por trás?

Juca: É um processo. Se não acreditasse nisso já teria desistido. De repente, acontecerá uma NBA no futebol.

Quanto ao da tema homossexualidade no futebol, fiz uma breve pesquisa no Google e encontrei dados que indicavam mais de 10% dos brasileiros como autodeclarados pertencentes à comunidade LGBTQIA+. Nenhum dos cerca de 12 mil atletas profissionais brasileiros é autodeclarado gay ou bissexual. Eu acho dificílimo que seja uma coincidência. Mesmo que não seja um privilégio do Brasil, mas uma realidade do mundo da bola, por que é tão difícil naturalizar a pluralidade da sexualidade dentro do futebol?

Juca: Porque o preconceito é tão forte e extemporâneo que não há como exigir que todos se assumam. Exigir heroísmo com o pescoço alheio é tão fácil como covarde. A sociedade ainda está longe de encarar a orientação sexual como deve. É outro processo em marcha, hoje menos difícil que ontem porque as novas gerações têm a cabeça muito mais aberta.

Um funcionário das mídias sociais do Corinthians foi demitido, dias atrás, por uma piada homofóbica no Twitter direcionada ao SPFC (chamando o estádio de panetone: “cheio de frutinhas dentro”). Quando o brasileiro vai superar a sua masculinidade frágil, o seu fundamentalismo religioso e o seu moralismo de garganta? É possível imaginar isso acontecendo?

Juca: Mais que imaginar é preciso lutar para que aconteça. É tão óbvio que a homofobia é característica dos que já se olharam para dentro e não gostaram do que viram que Freud ainda terá muito trabalho. A questão religiosa não é diferente. As pessoas têm de se agarrar à ideia da vida depois da morte para não se desesperar com o aqui e agora.

Você já ouviu falar da LIGAY (Liga Nacional de Futebol LGBTQIA+)? Temos mais de 50 times espalhados por todas as regiões do país. Temos as copas regionais (Copa Sul, Copa Sudeste, Copa Nordeste) que é torneio classificatório para o torneio nacional, e alguns estaduais. Temos vaga para um jogador heterossexual por time, para provar que somos inclusivos (risos) O que você pensa sobre a necessidade de se organizar com seus pares LGBTs para poder jogar futebol com tranquilidade, espaço e sem receios?

Juca: Acho uma saída compreensível, embora transitória. Desnecessário dizer que o ideal é a mistura.

Para encerrar, uma curiosidade fora do tema. Paulo Evaristo Arns, Pelé e Chico Buarque são alguns dos brasileiros pra quem você não diria não. Pra quem você jamais diria “sim”? Não vale o Bolsonaro (risos).

Juca: A lista é enorme. Ficarei em três nomes pelo que simbolizam: Sergio Moro, João Doria e Deltan Dellagnol. Já que o genocida você excluiu…

*

Na próxima semana, o entrevistado será o jornalista, blogueiro, comentarista e popularmente conhecido como “âncora”: Eduardo Tironi. A pauta da entrevista será a relação dos indivíduos com o seu clube do coração e como essa relação influencia na formação da coletividade.

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Catarinense, 25 anos e professor de Literatura e Língua Inglesa. Homem gay, apaixonado por música e que respira futebol e cultura latino-americana.