“Nasci em uma família simples, em Curitiba. Vivíamos eu, minha mãe, meus avós maternos e uma irmã, dois anos mais nova. Eu sou fruto de um rápido relacionamento dela e minha irmã de outro. Quando criança, comecei a perceber que não fazia parte de uma família digamos ‘normal’. 

Willian (esquerda) com o companheiro

Fui vítima de abuso sexual de um primo da minha mãe que morava ao lado de nossa casa. Não foram uma ou duas vezes, foram muitas. Eu devia ter uns 5/6 anos de idade e ele uns 17. Mas por medo, nunca contei a ninguém, mantive o abuso em silêncio.

Algum tempo depois, outro episódio me marcou profundamente. Meus avós maternos criaram eu e minha irmã como filhos e, por convivermos mais com eles do que com nossa mãe (que trabalhava fora), tínhamos uma ligação maior com eles. Numa das discussões com minha avó, minha mãe deu um tapa no rosto dela – sim – ela bateu na própria mãe, aquilo doeu tão fundo em mim, pois eu não podia ou não tinha a coragem de interferir.

Ela nunca foi próxima dos filhos, então nossa relação era superficial. Eu, minha irmã e avós frequentávamos uma igreja evangélica e pela doutrina aprendemos que minha mãe por não ser convertida iria para o inferno, então sempre pedíamos a Deus por ela. Até que em um dia, ela sofreu um assalto e resolveu se ‘converter’, naquela época eu tinha uns 12 anos. 

Escândalo na Igreja

Durante esse período, eu comecei a notar mais claramente que o comportamento dela não era condizente com o de uma mãe normal. Naquela época, minha mãe estava com 32 anos e eu descobri que ela estava se relacionando com um amigo meu da igreja – pasmem, de apenas 14 anos. Aquilo foi um escândalo quando veio à tona, e uma imensa vergonha pra mim, ter que chegar no pastor e contar o absurdo. O relacionamento terminou, e o comportamento dela se mostrava cada vez mais abusivo. 

Willian Colle

Aos 13, comecei a fumar cigarros, ela ‘apenas’ me deu um tapa na cara e disse pra eu sustentar o meu vício (eu era pensionista até os 18). Aos poucos fui desanimando da religião e parei de frequentar a igreja. Chorava constantemente, sem saber o motivo, muita dor emocional, ela me levou numa psicóloga, mas não cheguei a ir uma segunda vez. Foi dito que eu era jovem e não tinha motivos pra tanta tristeza.

Ainda nessa idade, experimentei droga pela primeira vez, já estava viciado em cigarros, saía todas as noites aos sábados e matinês aos domingos. E bebia álcool. Um ano depois, não sei porque razão, ela quis que eu conhecesse o meu pai, eu não o conhecia, pois ela havia entrado com um processo de reconhecimento de paternidade e pedido de pensão alimentícia quando eu tinha 6 anos, processo este que só foi concedido quando eu estava com 11 anos. 

No jantar com ele, me pareceu ser uma pessoa legal. Me aproximei dele e dos meus outros irmãos, mas não durou muito esse reencontro, isso foi em setembro de 2000; fui passar um fim de ano na praia com ele e a família dele. Ele se afastou de mim após descobrir que eu era gay, quando contei para a esposa dele acreditando que ela fosse minha mais ‘nova amiga’. Em seguida, contei pra minha mãe, na esperança que ela me apoiasse mas foi o oposto, ouvi coisas horríveis dela como: 

‘Eu preferia que sua irmã fosse prostituta, preferia que você fosse um usuário de drogas que eu te ajudaria o seu vício – mas gay? Isso é uma vergonha para qualquer família. Só não vá usar roupa de mulher’.

Não ter o apoio de quem mais eu esperava receber foi horrível. Em junho de 2001, minha mãe e ele (meu pai ausente) me internaram em uma casa evangélica de recuperação para adictos, na esperança de que os cultos e o trabalho braçal mudasse a minha orientação sexual. Foram 26 dias de mais dores emocionais, sofrimentos físicos e privações incabíveis. Obviamente fiquei menos tempo do que a casa propunha, era pra ser 9 meses, mas eu não era o perfil do local, ainda bem. 

Se a intenção deles era me ajudar, aquilo só me prejudicou mais ainda, aos 15 anos morei durante três meses com mais oito pessoas em um apartamento alugado de três quartos. Já havia abandonado os estudos, só vivia em bares e baladas. Na ocasião, soube que quando alguém perguntava sobre mim para a minha mãe, ela apenas respondia ‘ele é homem, e homens são livres’. 

Willian

Retornei pra casa um tempo depois, ela já estava em um novo relacionamento e logo engravidou. Tenho certeza que ela engravidou com o propósito de gerar um filho ‘normal’, isto é, hétero.

Eu e minha irmã não éramos tratados por ela da mesma forma quando crianças. Eu tirava notas excelentes, ganhava tudo o que pedia, já minha irmã, sempre apanhava mais, ganhava menos presentes e sempre os mais baratos. Era sempre humilhada e vestida como um menino para jamais apresentar uma ‘ameaça’ a minha mãe. Tudo se inverteu quando saí do armário. Eu não tinha mais valor e era tratado como a vergonha da casa, o filho problemático.

Minha depressão só piorava à medida que o tempo ia passando. Tentei suicídio pela primeira vez aos 16 anos, já não suportava mais as brigas dentro de casa. Peguei todos os remédios que minha mãe havia deixado em casa: antidepressivos, sedativos cerca de uns 100 comprimidos. Me tranquei no quarto a tarde e deitei. Minha avó achou estranho e foi me chamar, como eu não respondia, pediu para meu avô arrombar a porta e lá estava eu convulsionando, passei a noite no hospital fazendo lavagem e sendo maltratado pelas enfermeiras que diziam que eu não prestava nem pra me matar, que estava ocupando o lugar de pessoas que realmente precisavam.

Minha mãe já não morava mais conosco, mas tentava o tempo inteiro colocar meus avós contra mim. Busquei com muito custo um curso de cabeleireiro nessa época. Precisava buscar a minha independência.

Poucos meses antes de completar 17 anos, meu namorado se matou, não sei exatamente o motivo, ele havia saído de uma relacionamento hétero e meses depois nos envolvemos. Ele havia assumido o nosso namoro para alguns amigos após três meses em segredo e logo depois cometeu suicídio. Mergulhei numa depressão, não conseguia mais me envolver com ninguém. Nessa idade, eu já estava trabalhando, mas a vida não dava sinais de melhora. Meus avós com a responsabilidade de serem pais dos netos, minha mãe me odiando pelo simples fato de ser gay e não corresponder com as expectativas dela e eu me afundado em drogas mais pesadas, como o crack.

Minha depressão estava a mil, várias saídas e voltas de casa, tentei suicídio pela segunda vez (overdose de remédios), minha avó sempre me encontrava e era ela que sempre me levava para o hospital. Minha mãe se separou do pai do meu irmão mais novo, voltou pra nossa casa e tratou de trazer junto com ela, as brigas também. Com a maioridade, não demorou muito para as nossas discussões piorarem e eu tentei o suicídio pela terceira e última vez. 

Willian

Naquele dia, por recomendações médicas, ela me internou em um manicômio, dizendo coisas acerca da minha sanidade mental. Foi horrível, mais que dá primeira vez, eu ficava amarrado, dopado, olhando pessoas que mal se levantavam da cama para comer ou fazer suas necessidades fisiológicas. Com muito custo, consegui sair daquele lugar, ela me internou mais uma vez, mas dessa vez eu fugi. 

Arrimo de família

Eu tinha uma amiga, aquela que podemos chamar de ‘a melhor’ sabe? Foi ela e a família dela que me abriram os olhos em relação às atitudes da minha mãe. Mas por ser criado ouvindo aquela velha história que ‘mãe é sagrada’, ‘que mesmo errando elas estão certas’, eu sempre sucumbi aos abusos dela. 

Segui a minha vida trabalhando, diminuindo as saídas e querendo viver longe dela. Por sua vez, ela começou um novo relacionamento com um homem 12 anos mais novo, se casou e foi morar num apartamento. A depressão que eu sofro tem picos e no passado eram fortíssimos. E na tentativa de me ‘ajudar’, ela me levou para o apartamento onde ela, o marido e meu irmãozinho moravam. Mas um mês depois, eles me deixaram com as contas integrais do imóvel, alimentação etc. O lado bom disso foi que após essa situação, eu consegui alçar voo. 

Quanto às drogas, consegui me afastar ‘definitivamente’ (porque por alguns anos ainda tive recaídas). Quando me mudei de bairro, abri mão das velhas amizades e velhos costumes, como beber exageradamente e ir dormir na casa dela. Eu reprogramei a minha mente, minha vida e minha postura perante a todos.

O recomeço…

Após esse eventos, conheci meu companheiro, não demorou muito e nos casamos. Ficamos um ano separados e, durante esse período, voltei para casa da minha avó, onde na frente morava minha mãe – e obviamente as brigas e abusos voltaram a acontecer. 

Willian (esq) com o companheiro

Reconciliei com ele e fomos embora para São Paulo. Quase um ano depois ela iniciou uma chantagem emocional dizendo que precisava de ajuda para cuidar da minha avó; eu acabei cedendo e fui para Curitiba. As brigas e todo aquele ciclo nocivo voltaram ocorrer, então voltei pra São Paulo e, após um ano, novamente as chantagens; aos prantos pedindo ajuda com a minha avó. Retornei, aluguei uma casa e duas semanas depois ela armou um barraco na minha casa, em que me colocou na justiça querendo a curatela da minha avó, até porque descobrimos que ela usava a aposentadoria da minha avó para gastos pessoais (fúteis) dela. Ficamos um ano sem nós vermos ou falarmos, exceto judicialmente. 

Nesse meio tempo, tive que abrir mão da minha vida profissional para cuidar de quem sempre me cuidou, mas que era pra ser cuidada pela minha mãe. Eu não tinha noção até dois anos atrás que muitos dos meus problemas estavam relacionados a ela, é incrível, mas quanto mais forte você fica, mais forte serão as próximas ‘ondas’.

Percebi que distante dela, por mais difícil que pareça, a vida flui, me obrigo a ser forte e resistir por saber que não tenho uma base familiar funcional que posso contar. Hoje ao menos sei que para ser feliz, não posso estar muito próximo a ela. Na verdade, não nos falamos mais, foi uma decisão minha.

Willian Colle

Não é fácil para quem é filho de mãe ou pai assim. A sociedade ainda vê pai e mãe como pessoas incapazes de cometer erros e atrocidades. É nisso onde mora o problema, o abuso é velado, sem consentimento e tratado como algo normal. São muitas as feridas dentro de mim, mas hoje me dedico em tentar ser feliz e fazer feliz as pessoas que sobraram dessa guerra.

Há quem pergunte se eu a amo, óbvio que a amo. Mas, hoje aprendi, que se afastar, em certos casos, também é uma prova de amor pelo outro e por mim mesmo.”

Willian Colle, 34 anos.
Atualmente mora em Curitiba com o companheiro e a avó materna.

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