Largar tudo e cair na estrada é o sonho de muita gente, mas poucos têm essa chance ou coragem. Coragem esta, que o casal Jordy Alexander (26) e João Otávio (46) tiveram motivados pelo desejo de desbravar o mundo, começando pelo Brasil e com planos de terminar a aventura no Alasca.

GAY BLOG BR by SCRUFF
Casal gay cai na estrada com a intenção de desbravar o Brasil e o mundo
Arquivo Pessoal

A dupla de desbravadores apelidou a jornada ousada de Expedição Kombita, pois fazendo algumas adaptações, transformaram uma kombi em uma casa e deram início ao percurso na companhia da fiel escudeira Martina, uma cadela da raça yorkshire.

Em entrevista exclusiva para o GAY BLOG BR, o uruguaio Jordy conta como tem sido essa aventura ao lado do marido brasileiro, que ainda está longe de terminar: os perrengues, as amizades pelo caminho e o lado bom de viver um estilo de vida nômade, sem deixar de lado suas profissões, sendo ele turismólogo e maquiador e João fotógrafo e publicitário.

Jordy (esq) e João Otávio

Como vocês se conheceram? 

A gente se conheceu no ano de 2014, João morava em Curitiba e anunciou no Facebook que iria para a cidade natal dele (Jaguarão, Rio Grande do Sul) para fazer uns books para quem tivesse interesse. E foi aí que eu entrei em contato para consultar valores e datas. No final, depois que ele passou as informações, não perdeu tempo e deu uma cantada. Logo depois a gente começou a trocar ideias e telefone. Depois de quatro meses ele foi para Jaguarão, a gente se conheceu pessoalmente e, uma semana depois, exatamente no dia 14 de novembro de 2014, começamos a namorar.

Foi amor à primeira vista?

Não necessariamente amor à primeira vista, mas, convenhamos que a sintonia bateu desde o primeiro contato.

Vocês largaram seus respectivos trabalhos para dar uma volta ao mundo a bordo de uma kombi 88. De quem foi a ideia de viver como nômades?

A ideia quem teve foi o João, por causa do estresse do trabalho e, como estávamos trabalhando juntos, tínhamos um estúdio fotográfico, isso foi nos desgastando muito. E eu, Jordy, comecei a comprar a ideia e levei até o final (risos).

yorkshire
Reprodução

O Expedição Kombita teve início em 2018, quantos estados do Brasil vocês já percorreram?

Iniciamos nosso trajeto no dia 27 de janeiro de 2018 e fizemos um total de 14 estados brasileiros.

E o próximo destino qual será? 

Por causa da pandemia e pela saudade da família, será o Uruguai, onde mora minha família.

casal gay
Reprodução

Como foi o processo de transformar a kombi numa “kombihome”? 

O processo, no todo, foi um desafio muito grande para nós, já que jamais tínhamos feito nada nós mesmos. No início, procuramos por um profissional para a construção dos móveis, mas os valores foram muito altos e fugia do nosso orçamento. Foi aí que decidimos encarar o desafio e meu pai, como sua antiga profissão era marceneiro, topou e nos ajudou a construir nossa “casa”. Levamos aproximadamente umas duas semanas para concluir os móveis e poder passar para a parte da finalização. Tal parte, que minha mãe participou criando as cortinas da nossa futura casa.

Como é viver um estilo de vida sem patrão, minimalista e menos consumista?

É simplesmente libertador, a gente tem a nossa casa em qualquer lugar do mundo, nosso escritório têm diferentes ambientes. Podemos dizer que nós consideramos umas pessoas libres y felizes com o nosso estilo de vida.

Li que o objetivo de vocês é seguir para a Argentina, fazendo o extremo sul até o extremo norte no Alasca.

Sim, assim que as fronteiras abrirem, iremos partir para Ushuaia, Argentina, e depois subir as Américas para fazer do extremo sul, ao extremo norte, o Alasca. Mas, podem vir mudanças no roteiro.

Reprodução

Vocês já estão há 2 anos na estrada, as vezes não dá uma saudade de casa, no sentido casa física mesmo? Não enjoa passar tanto tempo viajando?

Por incrível que pareça, não sentimos saudades de uma casa física, gostamos muito da nossa casinha, do conforto que ela nos proporciona, e sobre viajar, somos literalmente viciados, amamos a estrada.

Qual foi a cidade mais gostaram e a que menos gostaram?

A cidade pela qual ficamos apaixonados foi João Pessoa, na Paraíba, uma capital com o jeitinho de cidade pequena, além de segura e perto de tudo. Difícil dizer qual cidade que não gostamos, mas podemos citar a que menos nos chamou a atenção – mas não menos bela – que é Itacaré, na Bahia.

yorkshire
Arquivo Pessoal

Alguma regiões do Brasil são bastante conservadoras, já vivenciaram alguma situação de homofobia por serem um casal gay?

Sim, foi logo no início do projeto e no nosso próprio estado, o Rio Grande do Sul, na cidade de Cambará do Sul, na Serra Gaúcha. Foi em uma mecânica, a única maior da cidade. Fomos arrumar os freios e no primeiro contato foi tudo muito bem, trocamos ideia e deixamos nosso cartão para acessarem as nossas redes sociais. Como levaria o dia todo para arrumar, fomos almoçar e, na volta, quando fomos retirar a kombi, reparamos que o tratamento com a gente tinha mudado,e estavam totalmente diferentes na forma de nos tratar. Tinham nos deixado sem freio para continuar viagem descendo a serra sentido Praia Grande, onde quase morremos e tivemos a sorte da kombi parar em uns arbustos e não chegar a ser algo pior.

Quanto tempo em média vocês ficam em cada cidade?

Varia muito da cidade, e da infraestrutura, normalmente uns 15 dias.

VAliás, vocês viajam com uma cadela, eka se adaptou bem ao lifestyle de viajante?

Sim, temos nossa filha Martina, uma yorkshire de um ano e sete meses que veio pra nós depois de um ano viajando. Viajar com ela mudou totalmente a nossa viagem pra melhor, além de ser nossa filha, é nossa companheira. Não nos imaginamos mais sem ela. E ela é super tranquila, se acostumou super fácil ao espaço da nossa casinha e a viajar muito.

João Otávio (esq) e Jordy

Qual foi o maior perrengue que vocês já vivenciaram na estrada?

O maior perrengue esse quando ficamos sempre freio na Serra Gaúcha. Não tínhamos muita experiência e tudo era assustador. Além do susto de quase termos batido, foi o medo da noite chegar e a gente não conseguir resolver o problema. Mas, como sempre, a estrada te dá tudo que você precisa e logo aparece alguém pra te dar uma mão e trazer a solução.

E como as pessoas, de modo geral, reagem em cada cidade?

Por incrível que pareça, as pessoas não ficam tão impressionadas por sermos um casal gay. Recebemos carinho de muitas famílias. Lógico que temos nossos cuidados, principalmente quando ficamos em postos de gasolinas, onde encontramos muitos caminhoneiros e não nos apresentamos como casal, apenas deixamos eles acharem o que quiser, não tocamos no assunto. E até hoje, sempre foi muito tranquilo ficar em postos de gasolina (adoramos) e os caminhoneiros nos ajudam muito nas escolhas de rotas e alguns problemas mecânicos.

Vocês tem uma lojinha virtual e também um link para apoiadores, é dessa forma que vocês conseguem gerenciar os gastos da viagem?

Não só da loja online, como através do link de apoiadores que conseguimos gerenciar os gastos. A gente vive se reinventando. Hoje, além desses meios, contamos com empresas (sempre dentro do mesmo nicho nosso) que nos pagam mensalmente para divulgação, assim também iniciamos o método de afiliados (sistema de afiliações a determinados sites ou produtos online), que é mais uma modalidade no mundo dos viajantes e que ajuda mensalmente. Já saímos para vender brigadeiros “gourmet” que a gente mesmo faz e é uma forma certa de ganhar dinheiro.

Reprodução

De que forma a pandemia afetou a Expedição Kombita?

Infelizmente, o mundo todo parou por causa da pandemia e o turismo é uma das principais áreas afetadas. Para o projeto, embora a essência não seja só fazer turismo e sim mostrar como é morar na estrada e com menos, lógico que afetou por não poder viajar livremente. Tínhamos planejado entrar na Bolívia e ir descendo para o Uruguai, onde já estava planejado ir para rever a família e fazer uns documentos necessários. Agora os planos mudaram e estamos aproveitando para alternativas que já estavam programadas pra fazer, só que não tão de repente.

Acontece das pessoas de uma cidade oferecerem a casa delas pra vocês ficarem, impressionadas com o estilo de vida de vocês?

Sim, isso é um fato que acontece direto na nossa vida. É impressionante como pessoas que muitas vezes, nem seguidores são, nos convidam para as suas casas como se fôssemos da família. Até as chaves da casa já nos deixaram, como aconteceu de um casal que nos deu as chaves da casa da praia pra gente ficar o tempo que quisermos – e mal nos conheciam. Assim como essa, tem muitas histórias de pessoas que nos abriram as portas da casa com todo carinho e, sem dúvida, ao final fica uma bela amizade e que mantemos contato até hoje.

O que a vida nas estradas tem ensinado para vocês?

O que mais essa mudança de vida nos ensinou é que devemos aproveitar cada instante, nos arriscar, curtir novas experiências, saber aproveitar cada detalhe. Porque o amanhã a gente não sabe, então devemos seguir os nossos sonhos e correr atrás deles.

Reprodução

O destino final, a princípio o Alasca, tem alguma ideia de quando ocorrerá?

O destino final da segunda parte do projeto, a princípio sim, será o Alasca. Calculamos em torno de três anos pra realizar essa meta, mas já pensamos em futuras mudanças nesse roteiro. A gente gosta de mudanças. O nosso propósito é não parar e morar na estrada por muitos anos.

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