O ator Matheus Nachtergaele (53) concedeu uma entrevista à Folha de São Paulo no último dia 18 de julho e explicou que sua família foi contra sua caracterização como a travesti Cintura Fina na minissérie Hilda Furacão de 1998. Para os parentes, ele poderia ficar rotulado como “bicha da TV”.
“Eles tinham medo dessa exposição, de ficar marcado na TV aberta. E eu sabia que era uma grande estreia. Para nosso espanto, o Cintura Fina criou uma legião de fãs adolescentes e crianças”, conta Matheus Nachtergaele, acrescentando que suas características físicas unidas à coragem de interpretar uma travesti em uma história que se passa na década de 1960 em Belo Horizonte, acabou tornando uma espécie de símbolo para a juventude.

O personagem foi baseado numa pessoa de mesmo nome da vida real. Segundo o Projeto Colabora, Cintura Fina nasceu no Ceará em 1933 e chegou à Belo Horizonte aos 20 anos. Em uma época em que identidade de gênero não entrava em debate, a travesti era alvo de perseguições da polícia, sempre tinha uma navalha afiada e chegou a dar aulas para outras pessoas marginalizadas em como a pessoa podia se defender utilizando o instrumento.
Segundo o livro “Enverga, Mas Não Quebra: Cintura Fina em Belo Horizonte”, escrito por Luiz Morando, ela era uma mulher transgênero e não admitia que questionassem sua feminilidade, chegando a afirmar para um delegado em 1964: “Eu sou mulher e nasci mesmo foi para os homens”.
Ainda na década de 1950, ela foi levada para a delegacia de Belo Horizonte vestida com trajes tipicamente femininos, maquiada, com sobrancelhas pinçadas, unhas esmaltadas e cabelos cortados ao modo feminino. “Era ousadia suficiente aos olhos da população e da imprensa, que viam isso como excentricidade e rompimento das regras sociais”, diz Morando em seu livro.
Em 1980, Cintura Fina deixou Belo Horizonte para viver em Uberaba, no Triângulo Mineiro, permanecendo por 15 anos até sua morte, em 1995, aos 62 anos.

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