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Arthur Ramos (PCB), candidato a deputado federal de Goiás, é um dos entrevistados da semana no especial “Eleições 2022“, do Gay Blog BR. Estudante de História no Instituto Federal de Goiás (IFG), ele é morador de Goiânia (GO), é gay e tem 21 anos.

O jovem iniciou sua atuação política quando ainda estava no ensino médio e tentou criar um grêmio estudantil na escola em que estudava. “Com a eleição do Bolsonaro, me engajei na luta organizada e participei da construção de todos os atos ‘Fora Bolsonaro’ de Goiânia. Atualmente sou diretor de assistência estudantil da União Estadual dos Estudantes de Goiás e Coordenador Municipal da Aliança Nacional LGBTI+”, conta Arthur.

Arthur Ramos, candidato a deputado federal pelo PCB de Goiás (Foto: Reprodução/ Instagram)

De acordo com o candidato, Goiás é 12º estado brasileiro que mais mata LGBTQIA+, o que gera alguns desafios sendo um candidato abertamente gay. “Fazer campanha, em especial a de rua, é sempre um medo que tenho frente ao avanço do discurso de ódio e o armamento da direita”, pontua ele.

Suas propostas são em defesa de garantia de um futuro para a juventude. Além disso, ele defende a criação de um programa nacional de moradia LGBTQIA+, a fim de atender essa população expulsa de casa; a criação de cotas para pessoas trans em universidades e concursos públicos; e o fortalecimento do SUS para o combate às IST.

O candidato ainda salienta que “é preciso a criação de um Programa Nacional de enfrentamento às ISTs que parta desde a prevenção dessas, e a importância da necessidade de se ampliar e desburocratizar o uso da PrEP e PEP e outros métodos de prevenção, até a humanização do SUS e preparo dos funcionários para saber lidar com aqueles que tenham o diagnóstico positivo, em especial as LGBTs que são violentadas nesses espaços”.

Arthur Ramos (Foto: Reprodução/ Twitter)

GAY BLOG BR: Qual a sua formação e trajetória profissional?

Arthur Ramos: Me formei no ensino médio em 2018 quando decidi fazer o curso de história e, atualmente, curso ele pelo Instituto Federal de Goiás, estando no quinto período. Comecei a trabalhar em sala de aula fazendo estágio no ano de 2021 e neste ano assumi a sala de aula como professor de história e inglês. No que diz a atuação política, comecei ainda no ensino médio tentando criar um grêmio estudantil na minha escola. Com a eleição do Bolsonaro, me engajei na luta organizada e participei da construção de todos os atos ‘Fora Bolsonaro’ de Goiânia (GO). Atualmente sou diretor de assistência estudantil da União Estadual dos Estudantes de Goiás e Coordenador Municipal da Aliança Nacional LGBTI+, além de participar da Frente LGBTI+ de Goiás.

GB: O que motivou a se candidatar?

Arthur: Construo um partido do qual as candidaturas não se dão de forma individualizada, mas é fruto de uma decisão coletiva. Assim, meu nome foi apontado como uma das candidaturas para o pleito 2022 por representar um nome que traz com si uma série de lutas que toco nos últimos anos dentro do movimento estudantil e do movimento LGBT.

GB: Quais os desafios enfrentados ao ser um candidato abertamente LGBTQ+?

Arthur: Goiás hoje é o 12º estado do Brasil que mais mata LGBT. Assim, fazer campanha, em especial a de rua, é sempre um medo que tenho frente ao avanço do discurso de ódio e o armamento da direita. Da mesma forma, não se é cedido espaço dentro da grande mídia, como em rádios e sabatinas, para que seja possível fazer o debate sobre o programa que defendo e apresentar as propostas para o conjunto da sociedade.

GB: Quais são as suas principais propostas? Há pautas exclusivamente para LGBTQ+?

Arthur: Minhas propostas são, acima de tudo, da defesa de garantia de um futuro para a juventude. Com o avanço do neoliberalismo no Brasil, em especial pós-golpe de 2016, estamos vivendo um processo intenso de retirada de possibilidades para os jovens. A reforma do Ensino Médio nos tira o acesso à educação e ao senso crítico, a reforma trabalhista nos tira direitos trabalhistas, a reforma da previdência não nos deixa aposentar com menos de 65 anos e a reforma administrativa tira a possibilidade de empregos estáveis com o fim do serviço público no Brasil. Tudo isso com um objetivo claro de precarizar as relações de trabalho e nos colocar em empregos cada vez mais precarizados e informais, não à toa atualmente 40% dos postos de trabalho no Brasil são informais. Na prática, quem mais sofre com isso são aqueles grupos mais oprimidos pela sociedade, em especial as mulheres, que são colocadas em jornadas triplas de trabalho, e as LGBTs, de maneira não hegemônica, visto que para a população T [trans] pouco sobra para além da prostituição, o que faz serem colocadas frente a morte como no caso – quase 80% das mortes de trans e travestis estão ligadas a profissionais do sexo. Assim, defendo a redução da jornada semanal de trabalho para 30h, como uma política de criação de emprego. Em relação às necessidades específicas das LGBTs, é preciso a criação de um programa nacional de moradia LGBT, para atender, principalmente, aquelas expulsas de casa, que haja um investimento para que se tenha pesquisas e dados para compreender as reais necessidades da comunidade, criação de cotas T em universidades e concursos públicos, além do fortalecimento do SUS para o combate às IST. Assim, podemos resumir as propostas em: comida, emprego, trabalho e casa.

GB: Quais medidas você acredita serem necessárias para combater a LGBTfobia?

Arthur: O fascismo voltou a estar no centro da política internacional nos últimos anos. Esse processo é preciso ser entendido como fruto de uma crise do capital internacional, no qual é preciso que se exclua as liberdades democráticas e se estabeleça um Estado cada vez mais fechado, para que se garanta os lucros do capital. Assim, além da precarização do trabalho, é colocado em pauta também o conservadorismo, de forma a se extinguir tudo aquilo que seja antissistémico, onde vemos o aprofundamento da LGBTfobia, por exemplo. A defesa da família nuclear hétero, cis e branco é fundamental para a garantia da continuidade da exploração dos trabalhadores, pois junto a ela, há uma continuidade da produção de mão de obra, com os filhos, mas ao mesmo tempo ela trás com si uma hierarquização das relação sociais, colocando o padrão homem masculino no topo da sociedade, daí, as LGBTs são postas como inimigas centrais do sistema, por representarem o fim da família nuclear. Assim, apenas a criminalização da homofobia não nos basta, embora seja impossível negar que é uma mediação importante para os dias atuais. É preciso que seja feita, por exemplo, a defesa dos debates de gêneros dentro das escolas, construindo uma cultura contra hegemônica para que haja a superação destes problemas. Mas, mais que isso, é preciso caminhar na organização de forma autônoma e independente do Movimento LGBT em nível nacional, organizando as LGBTs trabalhadoras com um programa revolucionário e anticapitalista pois, assim como Stonewall , só a comunidade em ação direta será capaz de superar as contradições do capitalismo.

GB: O que você pensa sobre o uso e políticas da PrEP?

Arthur: O contato com as ISTs é um problema sério em toda a sociedade. Se utilizam dela para criminalizar as relações homoafetivas, mas na real elas apenas demonstram que não há um enfrentamento sério por parte do Governo Federal a elas. Assim, é preciso que em primeiro lugar seja derrubada a Emenda Constitucional 95/2016 que congela os investimentos no SUS por mais de 20 anos. Em seguida é preciso a criação de um Programa Nacional de enfrentamento às ISTs que parta desde a prevenção dessas, e a importância da necessidade de se ampliar e desburocratizar o uso da PrEP e PEP e outros métodos de prevenção, até a humanização do SUS e preparo dos funcionários para saber lidar com aqueles que tenham o diagnóstico positivo, em especial as LGBTs que são violentadas nesses espaços.  

GB: Como você avalia o governo de Bolsonaro?

Arthur: O Governo Bolsonaro é um governo antidemocrático, antipovo, antinacional e ilegítimo. Ilegítimo, pois representa a continuidade do governo golpista de Temer. Antinacional. pois entrega o país para os capitais internacionais e reconduz o país para uma posição de agroexportação e desindustrialização, logo, uma política de desemprego e fome para os trabalhadores brasileiros. Antipovo, pois inflama o discurso de ódio contra as mulheres, negros e LGBTs. A gestão genocida da pandemia demonstrou que seu lema é a nossa morte em nome do lucro dos grandes empresários. Antidemocrático, pois todo dia ataca as liberdades democráticas e avança em sua escalada autoritária que quase diariamente “puxa a corda” para ver até onde consegue ir com seu projeto fascista e inúmeras tentativas de dar golpes. Assim, o governo Bolsonaro é um governo da morte para a classe trabalhadora do Brasil, que tem como objetivo garantir os grandes lucros para os empresários que o ajudaram a se eleger impulsionando Fake News

GB: O que fazer para avançar nas políticas de redesignação sexual na rede pública de saúde?

Arthur: O atual estado das políticas de identidade de gênero no Sistema Único de Saúde é preocupante. Os poucos hospitais que oferecem o serviço estão com uma alta demanda reprimida. Nós temos hoje pessoas trans que aguardam em média 10 anos para serem atendidas. Lembrando que o processo começa com dois anos de acompanhamento, antes que efetivamente ocorra a cirurgia. Portanto, é uma demora insuportável, que provoca uma série de transtornos na saúde física e mental. Somente a partir de 2008 o SUS passou a ofertar o programa transexualizador no seu rol de atividades. Algo muito recente que foi obstaculizado pela onda de desinvestimento na saúde pública, que tem seu cume na Emenda Constitucional 95, e também o processo de avanço privatista nas Instituições Públicas de Ensino Superior, que até então eram referências nesses procedimentos.

Em Goiás, por exemplo, nós temos um cenário no qual efetivamente apenas um Hospital, que é da rede estadual, está oferecendo o serviço. Enquanto isso, o Projeto TX do HC UFG, o segundo a oferecer a redesignação, desde sua cessão para a EBSERH – Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares – está engatinhando. Assim, defender um SUS público, gratuito, qualidade e sem privatizações é acima de tudo defender o atendimento para essas pessoas em nível nacional.

Confira a lista de candidaturas LGBTQIA+ de 2022 neste link.

Lista de candidatos LGBTQ+ nas eleições 2022 | Deputados, Senadores, Governadores




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Jornalista gaúcho formado na Universidade Franciscana (UFN) e Especialista em Estudos de Gênero pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM)