GAY BLOG BR by SCRUFF

Aos 24 anos, Guilherme Cortez (PSOL) é candidato a deputado estadual em São Paulo. Advogado e professor de cursinho, ele é bissexual e morador de Franca (SP). O jovem é um dos entrevistados no especial “Eleições 2022“, do Gay Blog BR.

Guilherme Cortez, candidato a deputado estadual de SP
Guilherme Cortez, candidato a deputado estadual pelo PSOL de SP (Foto: Divulgação)

Formado em Direito na Universidade Estadual Paulista (UNESP), Guilherme nasceu em São Paulo (SP), mas mudou-se para Franca para fazer faculdade. “Durante a graduação, me apaixonei muito mais pela sala de aula do que pelos espaços jurídicos, por isso comecei a dar aula em cursinhos. Hoje sou advogado trabalhista e continuo dando aula“, conta o candidato.

Em 2020, ele disputou as eleições municipais de Franca, onde foi o quarto vereador mais votado. No entanto, não foi eleito, devido a baixa votação do partido. “Isso deu um respaldo para continuarmos atuando ainda mais e de forma mais efetiva”, afirma o candidato. “[…] Não podia ficar de fora da eleição mais importante da minha geração. Precisamos derrotar Bolsonaro esse ano, mas também eleger pessoas radicalmente diferentes do que ele representa para cada espaço político desse país”, acrescenta Guilherme.

Entre suas propostas, ele aborda a saúde, educação, assistência social, meio ambiente e funcionalismo público. “Tem aquela ideia de que as pessoas LGBTI+ só falam sobre suas pautas específicas, mas isso não é verdade. O fato é que, se a gente não falar sobre o que a gente vive e tratar com a seriedade que merece, ninguém vai fazer isso pela gente“, comenta o jovem.

Guilherme Cortez, candidato a deputado estadual de SP - Divulgação
Guilherme Cortez, candidato a deputado estadual de SP – Divulgação

Confira a entrevista

GAY BLOG BR: Qual a sua formação e trajetória profissional?

Guilherme Cortez: Sou formado em Direito na UNESP. Nasci em São Paulo, mas me mudei para Franca para fazer faculdade. Durante a graduação, me apaixonei muito mais pela sala de aula do que pelos espaços jurídicos, por isso comecei a dar aula em cursinhos. Hoje sou advogado trabalhista e continuo dando aula.

GB: O que motivou a se candidatar?

Guilherme: Já tinha sido candidato, em 2020, a vereador em Franca (SP). Mesmo sendo uma cidade muito conservadora, fui o 4º mais votado da cidade. Infelizmente, não nos elegemos por conta da votação do partido, mas isso deu um respaldo para continuarmos atuando ainda mais e de forma mais efetiva. E foi isso que eu fiz: fundei um cursinho popular, denunciei irregularidades e cobrei medidas da Prefeitura, organizei uma campanha de solidariedade na pandemia, apoiei ações de reflorestamento… Mas não podia ficar de fora da eleição mais importante da minha geração. Precisamos derrotar Bolsonaro esse ano, mas também eleger pessoas radicalmente diferentes do que ele representa para cada espaço político desse país.

GB: Quais os desafios enfrentados ao ser um candidato abertamente LGBTQ+?

Guilherme: Em primeiro lugar, a violência. Desde que o bolsonarismo ganhou força, a violência política (que sempre existiu no Brasil) aumentou muito. E nós, LGBTI+, assim como mulheres e pessoas negras, somos as principais vítimas. Não aceitam que os nossos corpos ocupem espaços de autoridade. Em 2020, fui ameaçado por neonazistas durante a campanha para vereador. De lá para cá, a violência só aumentou. Minhas caixas de mensagens são cheias de mensagem de ódio e ameaças, felizmente em quantidade muito menor do que as de apoio e carinho. A gente tem que tomar um cuidado redobrado para panfletar na rua, frequentar determinados ambientes. Não é qualquer bar em que eu fico seguro de que não vou ser agredido por alguém que discorda de mim. A gente não pode naturalizar essas coisas.

GB: Quais são as suas principais propostas? Há pautas exclusivamente para LGBTQ+?

Guilherme: A gente fala sobre tudo: saúde, educação, assistência social, meio ambiente, funcionalismo público. Tem aquela ideia de que as pessoas LGBTI+ só falam sobre suas pautas específicas, mas isso não é verdade. O fato é que, se a gente não falar sobre o que a gente vive e tratar com a seriedade que merece, ninguém vai fazer isso pela gente.

Quero propor que São Paulo decrete estado de emergência climática como forma de reconhecer a crise ambiental que estamos vivendo, incentive a agricultura familiar e a agroecologia, institua uma política de qualidade do ar para controlar as nossas emissões de poluentes e um plano estadual de ciclismo para incentivar o uso de bicicletas, investindo em ciclovias e segurança para os ciclistas.

Quero que as casas de teatro e cinema sejam obrigadas a exibir sessões adaptadas para pessoas com transtorno de espectro autista e que as sirenes de intervalo das escolas, que são terríveis para quem tem hipersensibilidade sensorial, sejam substituídas por outros avisos. Parecem medidas secundárias? Mas não, são para quem enfrenta e sofre com a inacessibilidade todos os dias.

São Paulo é o estado que mais registra casos de violência contra pessoas LGBTI+ no Brasil. A primeira coisa a se fazer é elaborar um plano estadual de combate ao crime de ódio, para proteger os grupos que sofrem com a intolerância. Garantindo segurança, precisamos garantir que nós tenhamos os mesmos direitos que todo mundo: moradia, atendimento de saúde integral, condições para acessar e manter os estudos (através de cotas para pessoas trans e políticas de permanência estudantil), inserção no mercado de trabalho formal etc.

GB: Quais medidas você acredita serem necessárias para combater a LGBTfobia?

Guilherme: Combater a LGBTfobia começa por reprimir os casos de violência. As pessoas precisam saber que elas não podem xingar ou agredir uma pessoa na rua ou no trabalho por conta da sua orientação sexual ou identidade de gênero e ficar tudo normal. Se não, a gente naturaliza a LGBTfobia. Então, o primeiro passo é fazer cumprir a lei e punir quem pratica essa violência. Um plano estadual para combater o crime de ódio ajudaria nisso.

Mas a LGBTfobia não se expressa só quando alguém é agredido ou xingado. Também acontece quando uma pessoa não tem acesso à saúde, a uma universidade ou é expulsa de casa e fica em situação de rua por conta da sua sexualidade ou identidade de gênero. Isso tudo também precisa ser combatido. Começando por amparar quem está em situação mais vulnerável. Por isso, quero instituir casas de acolhimento para pessoas LGBTI+ em situação de vulnerabilidade em todas as regiões do estado, como já existem na capital.

GB: O que você pensa sobre o uso de PrEP?

Guilherme: A PrEP e a PEP são muito importantes para avançar na prevenção ao HIV. Infelizmente, o número de casos de AIDS tem crescido muito nos últimos anos, principalmente entre os mais jovens. Precisamos lidar com essa realidade sem tabus, estigmatização ou preconceito, mas investindo em conscientização e prevenção. Muita gente não conhece a PrEP e a PEP e em muitos lugares elas não são oferecidas. Na contramão do mundo, o Brasil sob Bolsonaro e seu governo de negacionistas tem desmontando as políticas de combate ao HIV. Isso tem tudo a ver com a LGBTfobia. Para essa turma, HIV é coisa de “viado”, de gente “impura”, que não merece ser protegido. Um baita retrocesso.

GB: Como você avalia o governo de Bolsonaro?

Guilherme: Péssimo, pior impossível. Nós já sabíamos que seria uma catástrofe e por isso fizemos de tudo em 2018 para impedir que esse sujeito fosse eleito, mas eles conseguiram se superar. Ninguém imaginava que poderíamos passar por uma pandemia justo quando a pior pessoa possível estava governando o país. As LGBTs conhecem Bolsonaro desde muito antes dele ser presidente. Quando ele ainda era um deputado fracassado no Congresso, ele escolheu o movimento LGBT para criar factoides e difundir seu discurso de ódio. Bolsonaro odeia as LGBTs e é recíproco. Por isso pesquisas mostram que Lula é o favorito entre a nossa comunidade. Eu vou votar no Lula, mas só vamos derrotar o bolsonarismo, de fato, ocupando os espaços políticos com quem eles mais odeiam: as LGBTs e toda a diversidade do nosso povo.

GB: Como foi seu embate com o ex-ministro Ricardo Salles? 

Guilherme: Esse episódio teve uma repercussão que eu não imaginava. No primeiro fim de semana de campanha, estava no Centro de Franca quando cruzei com o Ricardo Salles. O que você faz quando encontra uma pessoa dessa? Fala o que tá engasgado na garganta. Salles foi o pior ministro do Meio Ambiente da história do Brasil, talvez do mundo. Uma pessoa que é rejeitada no mundo inteiro pelo prejuízo que causou não só para o Brasil, mas para a Terra. Que destruiu a Amazônia, o Pantanal, o Cerrado, que é investigada por tráfico de madeira… Todo mundo tem direito de se candidatar e defender suas ideias, mas as pessoas que são responsáveis por tantos crimes e retrocessos não podem achar que não vão ser responsabilizadas pelo que fizeram. O povo não é bobo e eles não merecem sossego.

Confira a lista de candidaturas LGBTQIA+ de 2022 neste link.

Lista de candidatos LGBTQ+ nas eleições 2022 | Deputados, Senadores, Governadores




Junte-se à nossa comunidade

Mais de 20 milhões de homens gays e bissexuais no mundo inteiro usam o aplicativo SCRUFF para fazer amizades e marcar encontros. Saiba quais são melhores festas, festivais eventos e paradas LGBTQIA+ na aba "Explorar" do app. Seja um embaixador do SCRUFF Venture e ajude com dicas os visitantes da sua cidade. E sim, desfrute de mais de 30 recursos extras com o SCRUFF Pro. Faça download gratuito do SCRUFF aqui.

Jornalista gaúcho formado na Universidade Franciscana (UFN) e Especialista em Estudos de Gênero pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM)