48 horas com Wanrley

São 48 horas seguidas em que o esperado e o inesperado vão sendo registrados

O 48 horas é um projeto que surgiu com a proposta de registrar os momentos que passam despercebidos da intimidade de homens. Através de imagem, o projeto conta, minuciosamente, realidades construídas durante vivências de 48 horas com cada rapaz.

A primeira edição está prevista para maio deste ano e conta a história de nove caras diferentes. Um deles é o Wanrley Cardoso, capixaba que vive em São Paulo. O moço, que é ator, já trabalhou nos eventos de terror do Playcenter e do Hopi Hari e se orgulha do sucesso de sua personagem Megan Necan, drag queen que abriu shows por todo Brasil de artistas do RuPaul’s Drag Race.

Wanrley Cardoso para 48 Horas. Foto: Marcus Pesavento
Wanrley Cardoso para 48 Horas. Foto: Marcus Pesavento

Como surgiu o convite para abrir os shows de Rupaul no Brasil?

Um amigo, Maycon Vasconcelos, me chamou para integrar o elenco da festa que ele criou na Bubu Lounge, a Katwalk. Eu nunca tinha feito nada relacionado a drag queen até então, foi uma experiência maravilhosa e libertadora, uma desconstrução pessoal. Logo em seguida, Maycon estava trabalhando na festa Podero$a, que iria as trazer drags do programa de RuPaul para o Brasil. Trixie Mattel, Katya, Laganja, Gia Gunn… E tive a honra de abrir os shows delas em São Paulo e no Rio de Janeiro, foi uma experiência maravilhosa.

Wanrley Cardoso para 48 Horas. Foto: Marcus Pesavento
Wanrley Cardoso para 48 Horas. Foto: Marcus Pesavento

Há um curso para desenvolver perucas? Como rolou você se profissionalizar e entrar no mercado? E o Brasil tem um bom mercado, é um nicho que dá grande retorno financeiro?

Meu primeiro trabalho na vida foi como cabeleireiro e, assim adquiri bagagem para trabalhar com perucas, elas estão na minha vida desde o teatro. Como já tinha experiência, sempre era contratado por agências para cuidar desse departamento. Foi uma demanda natural. Não só no brasil como no mundo, o mercado está muito grande. Com as lace wigs bombando nas celebridades, até quem não faz parte da classe artística está nessa onda. E como todo trabalho, é necessário se esmerar e fazer o diferencial para ter o reconhecimento financeiro que se deseja; esse mercado não se diferencia.

E trabalhar em ambientes de lazer, como as noites do Playcenter e Hopi Hari, dá pra aproveitar? Qual a situação mais legal/estranha que já aconteceu nesses trabalhos?

Foram experiências transformadoras e dá pra aproveitar sim! A interpretação é muito dinâmica e diferenciada dos palcos, fora amizades que construí para vida toda. Ficávamos o dia todo para a preparação de maquiagem, figurinos… Foi única a experiência no camarim com tantos artistas, muitas situações engraçadas e estranhas. Uma divertida, é que comemorávamos quando o susto dava certo e a pessoa até caia ou desmaiava com a situação (claro, depois do visitante levantar). Fora histórias de bastidores…

Ser observado por 48h foi uma experiência que trouxe quais aprendizados?

Eu nunca fui tímido, então não sou preso a pudores. Esse trabalho foi transformador pelo prisma da naturalidade. Eu só tinha que ser eu mesmo. Com o profissionalismo do fotógrafo e idealizador do projeto, Marcus Pesavento, tudo fluiu naturalmente. Eu sempre estive em frente às câmeras interpretando outra persona e, neste caso, era eu mesmo. Meu maior aprendizado é que eu também sou interessante e não necessariamente preciso de um personagem para mostrar algo.

E pra você, qual é o melhor e o pior da comunidade/cultura gay no Brasil?

São inúmeros pontos positivos e inúmeros negativos, como tudo nesta vida. Porém, o ponto que acho pertinente ressaltar, é a luta que artistas, ativistas, políticos, blogs LGBTQI+ estão encabeçando, nos representando e nos dando voz onde nunca tivemos. Isso é louvável, essa inclusão. E o fato de nos fazer pertencente à sociedade me emociona. Já em contrapartida, algo que me deixa muito triste é o próprio preconceito entra a comunidade, principalmente com transexuais e gays afeminados. A falta de união e respeito internamente só potencializa os danos que a sociedade nos causa, devemos entender que todos somos um dentro da comunidade para assim lutarmos com mais força e deixar de ser o país que mais mata LGBTs no mundo.

Através da ajuda de um financiamento coletivo, o projeto 48 horas vai ganhar vida em edição impressa – nela nada será censurado! É possível conferir mais no Instagram @48zine.