GAY BLOG BR by SCRUFF

Em 9 de abril de 1476, Leonardo da Vinci, prestes a completar 24 anos de idade, foi formalmente acusado de sodomia em Florença, na Itália. Uma denúncia anônima foi depositada em um tamburo (uma caixa de coleta de denúncias) no Palazzo della Signoria, a sede do governo florentino, implicando Leonardo e outros três jovens em atos sexuais com um rapaz chamado Jacopo Saltarelli, o Jalaì.

O texto da denúncia acusava Saltarelli, aprendiz de um ourives local, de participar de “muitas ações vis” e de “agradar àqueles que lhe pedem tais perversidades”, linguagem cifrada referindo-se à prostituição homossexual. Em seguida, o denunciante listou quatro supostos clientes que teriam “praticado tal maldade” com o jovem: Leonardo di Ser Piero da Vinci (identificado como residente na casa de Andrea Verrocchio), Bartolomeo di Pasquino (ourives), Baccino (um alfaiate) e Leonardo Tornabuoni (membro de uma influente família aristocrática ligada aos Medici). Saltarelli já era conhecido pelas autoridades – no início daquele ano, um outro homem fora condenado por sodomia com ele, indicando que o jovem atuava como prostituto e estava sob vigilância dos oficiais de moralidade.

As consequências legais imediatas dessa denúncia foram limitadas. Em um primeiro momento, Leonardo e os demais acusados foram detidos para averiguação (há registros indicando que Leonardo permaneceu preso por pelo menos alguns dias). No entanto, nenhuma prova testemunhal foi apresentada, e o caso acabou arquivado semanas depois, em troca de uma condição: os acusados seriam liberados desde que não surgissem novas acusações contra eles no futuro próximo. Essa condição quase foi rompida: em 7 de junho de 1476, uma segunda denúncia anônima – reiterando a acusação contra o mesmo grupo, desta vez redigida em latim – foi lançada na caixa postal pública. Ainda assim, por se tratar novamente de uma queixa sem assinatura ou testemunhas, o tribunal encerrou o caso mais uma vez sem indiciamentos formais, reiterando a mesma advertência de que não toleraria novas denúncias semelhantes. Em termos jurídicos, portanto, Leonardo da Vinci não chegou a ser condenado por esse incidente.

Os registros florentinos indicam que o arquivamento ocorreu principalmente por uma questão técnica-legal: embora denúncias de “atos contra a moral” pudessem ser feitas de modo sigiloso, a legislação local exigia que toda acusação de sodomia fosse identificada por um autor (ou seja, não totalmente anônima) para que se iniciasse um processo.

Autorretrato de Leonardo da Vinci, 1512
Autorretrato de Leonardo da Vinci, 1512

No caso de Leonardo, as duas denúncias careciam de responsáveis identificados, o que impediu legalmente a abertura de um julgamento. Fontes posteriores também sugerem um possível componente político na decisão de arquivar as acusações: Leonardo Tornabuoni era parente de Lorenzo de’ Medici (governante de fato de Florença), de modo que a influência da poderosa família Tornabuoni/Medici pode ter contribuído para silenciar o caso e evitar escândalos públicos.

Em suma, apesar da gravidade potencial da acusação (sodomia era oficialmente um crime capital na época), o processo de 1476 contra Leonardo terminou sem punições – um episódio registrado em documentos judiciais redescobertos apenas no final do século XIX.

Sodomia na Florença Renascentista

A Florença do século XV possuía leis rígidas contra a sodomia, reflexo da moral sexual ditada pela Igreja Católica. Sodomia, na definição da época, englobava qualquer ato sexual “não natural” ou não voltado à procriação – o que incluía fundamentalmente as relações homossexuais masculinas. Teoricamente, era um delito gravíssimo: a legislação previa multas altíssimas, humilhação pública, exílio e até a pena de morte na fogueira para os condenados reincidentes.

Em 1432, as autoridades florentinas criaram até um órgão especial, os Ufficiali di Notte (Oficiais da Noite), dedicado a reprimir a sodomia e outros “crimes contra a moral”. Esses oficiais recebiam denúncias anônimas depositadas em caixas de madeira (tamburi) espalhadas pela cidade. Na prática, porém, o alvo principal do ofício eram as práticas homossexuais – um comportamento que a própria existência do tribunal indica ser bastante comum na sociedade local.

De fato, a homossexualidade masculina era notoriamente difundida em Florença durante o Renascimento. Historiadores estimam que, nas décadas de 1430–1480, uma média de cerca de 400 homens por ano eram denunciados por sodomia perante os Oficiais da Noite. A cidade tinha aproximadamente 40 mil habitantes no período, o que significa que um percentual significativo da população masculina jovem esteve envolvido em casos do tipo.

Documentos pesquisados pelo historiador Michael Rocke revelam que quase 17.000 homens foram oficialmente incriminados por sodomia nos últimos 40 anos de atividade do tribunal (c. 1462–1502). Contudo, as punições efetivas eram bem mais seletivas do que as leis faziam crer. A imensa maioria dos acusados sofria penas relativamente brandas (geralmente multas ou pequenas detenções na primeira ofensa), e apenas os reincidentes contumazes – aqueles pegos múltiplas vezes – recebiam castigos severos.

Nos registros florentinos, apenas cerca de 60 homens em quatro décadas foram sentenciados ao exílio ou à execução por sodomia, quase todos eles por terem acumulado cinco ou mais condenações no currículo. Ou seja, menos de 1% dos acusados tiveram o destino trágico que a lei previa. Essa disparidade entre letra da lei e aplicação prática indica que, embora a sodomia fosse oficialmente crime, havia uma certa tolerância social e jurídica sob a superfície – uma acomodação tácita ao fato de que tais relações aconteciam com frequência na cidade.

Viajantes estrangeiros da época ficavam chocados (ou fascinados) com a reputação libertina de Florença. Tamanha era a fama das aventuras entre homens que a palavra “florenzer” (florentino) entrou no calão alemão para designar “homossexual”. De noite, as ruas florentinas tornavam-se um espaço predominantemente masculino: grupos de rapazes circulavam pelas tavernas e praças escuras em busca de prazeres proibidos, enquanto as mulheres respeitáveis permaneciam reclusas em casa.

Várias cidades italianas toleravam ou até regulamentavam a prostituição feminina, mas em Florença muitos jovens preferiam outras formas de satisfação sexual. Crônicas da época e pesquisas históricas indicam que era comum homens mais velhos envolvem-se com adolescentes do sexo masculino, frequentemente de modo temporário até que os mais jovens alcançassem a idade de se casarem com uma mulher. Essa espécie de pederastia difusa era vista quase como um “rito de passagem informal” em alguns círculos – uma prática generalizada, embora oficialmente condenada.

Diversos fatores contribuíam para essa realidade. No ambiente cultural do Renascimento, florescia entre humanistas florentinos um culto neoplatônico que celebrava o amor entre homens, inspirado nos escritos da Grécia Antiga. Poemas exaltando a beleza masculina e canções joviais sobre o amor homoerótico circulavam na cidade, refletindo uma atmosfera relativamente permissiva dentro de certos limites. A própria ausência do conceito moderno de “homossexualidade” (como identidade pessoal) fazia com que muitos não encarassem essas relações como algo permanente – mas sim como atos isolados, censuráveis pela Igreja porém tolerados enquanto fase passageira da juventude. As autoridades florentinas, por sua vez, adotavam uma postura pragmática: puniam exemplarmente alguns casos para satisfazer as exigências morais públicas, mas fechavam os olhos para a maioria, a menos que houvesse escândalo ou repetição insistente.

Nesse contexto, a acusação contra Leonardo da Vinci em 1476, embora grave, não foi um fenômeno isolado. Outros artistas renomados de sua geração enfrentaram problemas semelhantes. Andrea del Verrocchio, mestre de Leonardo, nunca se casou e vivia cercado de aprendizes – o que gerou suspeitas (embora sem registros de acusação formal). Sandro Botticelli, colega de ateliê de Leonardo, foi denunciado por sodomia alguns anos depois (em 1478) e também escapou sem condenação séria. Donatello (falecido em 1466) e Michelangelo (nascido em 1475) foram apontados por seus contemporâneos como preferindo “o amor masculino”, e Benvenuto Cellini – artista da geração seguinte – chegou a ser condenado duas vezes por sodomia no século XVI.

A lista de grandes artistas ligados à homoafetividade na Renascença é longa. Florença produzia gênios e, ao que tudo indica, muitos deles não seguiam as convenções sexuais da época. Ainda assim, quando essas questões vinham à tona em forma de denúncias oficiais, envolviam risco real: a absolvição de Leonardo pode ter sido comum em termos estatísticos, mas isso não diminuía o estigma social de ser publicamente acusado de “sodomia” nem o medo das penas extremas previstas em lei.

Se reinventando em Milão

Embora Leonardo da Vinci não tenha sido condenado pelo tribunal florentino, o episódio de 1476 não deixou de ter consequências em sua vida pessoal e profissional. Nos dias imediatamente após a acusação, Leonardo muito provavelmente amargou uma breve prisão preventiva – há pouca dúvida de que ele foi detido durante a investigação inicial, ainda que por curto período. Esse contato, ainda que efêmero, com as masmorras da cidade deve tê-lo aterrorizado. Como ele próprio sabia, caso testemunhas ou novas evidências surgissem, ele poderia enfrentar punições draconianas: grandes multas que arruinariam suas finanças, exposição pública infamante, perda do direito de trabalhar nas guildas, banimento de Florença e até a execução na fogueira, pena máxima para sodomitas reincidentes. Todos esses cenários passaram a rondar a mente de Leonardo enquanto aguardava o desfecho do processo. Não é surpresa que biógrafos modernos vejam aqui um momento formativo em sua vida – um trauma que ele carregaria adiante.

De fato, assim que foi liberado das acusações, Leonardo aparentemente afastou-se de Florença por um tempo. Registros indicam que ele deixou a cidade por cerca de um ano, aceitando trabalho em outra localidade.

Sabe-se que em 1476-77 Leonardo esteve envolvido em um projeto artístico na cidade de Pistoia, nas proximidades de Florença. Essa saída temporária pode ter sido uma estratégia para baixar a poeira do escândalo.

Longe dos boatos florentinos, Leonardo pôde continuar trabalhando sem a sombra imediata da recente acusação. Alguns autores especulam que esse afastamento também coincidiu com um período de relações tensas com seu pai, Ser Piero da Vinci.

Na mesma época, Ser Piero (que era um notário de prestígio) tivera o primeiro filho legítimo de seu novo casamento – um meio-irmão de Leonardo que passou a ser seu herdeiro direto. É possível que, diante do nascimento de seus filhos “legítimos” e do rumor de sodomia envolvendo o filho mais velho ilegítimo, Ser Piero tenha se distanciado de Leonardo por motivos de reputação. Não há prova documental de um rompimento, mas essa hipótese é levantada por alguns biógrafos modernos.

Outra consequência sugerida diz respeito ao prestígio de Leonardo em Florença. Apesar de já ser reconhecido como um talento promissor (por volta de 1475, ele pintara um belíssimo retrato de Ginevra de’ Benci que o estabelecera como artista original), Leonardo pode ter caído em relativo desfavor junto aos principais patronos da cidade após 1476.

Lorenzo de’ Medici, o líder de fato de Florença, era famoso por apadrinhar artistas e encomendar obras grandiosas. Contudo, em 1481, quando o Papa Sisto IV solicitou a Lorenzo que indicasse os melhores pintores florentinos para decorar as paredes da nova Capela Sistina em Roma, Leonardo da Vinci ficou de fora da lista enviada pelo mecenas.  Em vez dele, foram recomendados Botticelli, Domenico Ghirlandaio, Pietro Perugino e Cosimo Rosselli, que de fato foram contratados para o projeto. Essa omissão é notável.

Naquele momento, Leonardo já tinha cerca de 30 anos e mantinha um ateliê próprio em Florença, porém possuía a fama (não inteiramente imerecida) de deixar obras inacabadas e protelar prazos. Além disso, nunca havia executado afrescos em larga escala – diferentemente dos colegas selecionados. Tais fatores técnicos podem explicar por que Lorenzo não o indicou ao Papa.

Entretanto, alguns autores veem aí um indício de que Leonardo não desfrutava da plena confiança ou preferência do círculo Médici após o escândalo de sodomia. Considerando que um dos coacusados, Leonardo Tornabuoni, era parente próximo de Lorenzo, é possível que o Magnífico tenha preferido manter certa distância do assunto. Em outras palavras, a acusação de 1476 talvez tenha prejudicado as perspectivas de Leonardo conseguir grandes encomendas públicas em Florença nos anos seguintes.

Frustrado em suas ambições ou simplesmente buscando novos ares, Leonardo acabou saindo de Florença de forma mais definitiva poucos anos depois. Em 1482, ele partiu rumo a Milão, oferecendo seus serviços ao duque Ludovico Sforza. Essa mudança marcou o início de uma nova fase: longe da sua cidade natal (onde enfrentara o episódio constrangedor), Leonardo floresceu na corte milanesa, dedicando-se a projetos de engenharia militar, cenografia, escultura monumental e pinturas para nobres – em um ambiente que lhe proporcionou mais liberdade e prestígio.

Pode-se dizer que a experiência de outsider vivida por Leonardo em Florença – como um gênio talvez não inteiramente compreendido e um homem com vida pessoal à margem das normas – o impulsionou a buscar reconhecimento fora dali. Em Milão, ele se reinventou e passou os anos mais produtivos de sua carreira, aparentando não carregar qualquer mancha pública relacionada ao caso de 1476.

Traumas

No plano pessoal e psicológico, os impactos do episódio de sodomia são mais difíceis de medir, mas alguns indícios intrigantes aparecem nos escritos de Leonardo. Décadas mais tarde, Leonardo faria em seus cadernos menções possivelmente relacionadas a esse assunto.

Em uma de suas anotações (datada de cerca de 30 anos após o fato), ele escreveu uma frase enigmática: “Quando eu fiz o Menino Deus, vocês me puseram na prisão; agora, se eu o fizer grande, vocês vão me tratar pior”. Acredita-se que Leonardo estivesse rememorando o incidente de 1476: ele usou a imagem do “Menino Deus” (um bebê Jesus) como metáfora.

Uma teoria sugere que Jacopo Saltarelli pode ter posado de modelo para algum anjo ou menino Jesus em um estudo de Leonardo – ou seja, “quando pintei o Cristo criança, fui preso”. E “se o fizer adulto, farão pior” poderia indicar que, aos olhos da sociedade, apresentar abertamente um Jesus adulto personificado pelo mesmo jovem (ou assumir plenamente seu amor por homens adultos) seria ainda mais escandaloso. Seja qual for a interpretação exata, trata-se de um raro vislumbre do ressentimento e ironia com que Leonardo provavelmente lembrava sua prisão por sodomia.

Além das palavras, seus desenhos também ecoam possíveis efeitos desse trauma. Logo nos anos após 1476, Leonardo esboçou projetos de máquinas engenhosas para escapar do cárcere – incluindo um mecanismo capaz de “abrir uma prisão de dentro para fora” e outro para serrar as grades de uma janela. Tais invenções, ainda que fantasiosas, sugerem que a experiência do enclausuramento ficou marcada em sua imaginação, levando-o a conceber artifícios de libertação.

Outro hábito pessoal de Leonardo frequentemente citado é que ele comprava pássaros engaiolados nos mercados apenas para soltá-los em seguida, devolvendo-os à liberdade. Não é absurdo conjecturar que esse gesto compassivo – quase um ritual de empatia com seres aprisionados – tenha ganhado significado especial após Leonardo ter sentido na pele, mesmo que brevemente, a perda da própria liberdade por conta das convenções sociais.

Vale ressaltar que, apesar do susto de 1476, Leonardo não alterou radicalmente seu modo de vida em conformidade com as expectativas sociais da época. Ele nunca se casou com uma mulher nem deixou descendentes. Pelo contrário, manteve por perto jovens aprendizes e colaboradores do sexo masculino pelos quais nutria grande afeto.

Dois deles, em especial, seriam seus companheiros até o fim da vida: Gian Giacomo Caprotti, apelidado Salaì, que ingressou em seu ateliê em 1490 aos 10 anos de idade; e Francesco Melzi, jovem nobre milanês que tornou-se discípulo de Leonardo aos 15 anos, em 1506.

Gian Giacomo Caprotti da Oreno, mais conhecido como Salaì
Gian Giacomo Caprotti da Oreno, o Jalaì – Reprodução

Salaì, descrito como um adolescente de “extraordinária beleza” (segundo Vasari) e de comportamento travesso, permaneceu ao lado de Leonardo por 28 anos. Melzi foi o dedicado aluno-secretário que esteve com Leonardo até os últimos dias na França, sendo nomeado seu herdeiro principal.

A forte ligação de Leonardo com esses rapazes – bem como sua notória fascinação pelo corpo masculino expressa em inúmeros desenhos anatômicos e estudos de nus – indica que ele não renegou sua identidade após a acusação de sodomia.

Como afirma um de seus biógrafos, Leonardo parece ter convivido pacificamente com sua orientação: “era atraído por homens e, ao contrário de Michelangelo, parecia lidar bem com isso; não fez esforço para esconder, nem para alardear”, mantendo-se apenas à margem das convenções familiares de seu tempo.

Em resumo, embora o processo de 1476 possa tê-lo tornado mais cauteloso em evitar escândalos, não o fez abjurar de quem ele era. Leonardo continuou a viver de acordo com suas próprias regras – um gênio solitário, independente e, tudo indica, homossexual.

Francesco Melzi
Francesco Melzi – Reprodução

Freud analisa

O tratamento dado pelos biógrafos de Leonardo da Vinci à acusação de sodomia de 1476 evoluiu muito conforme as mudanças dos valores sociais ao longo dos séculos. Nas primeiras biografias, escritas ainda na era da Contrarreforma, o tema era totalmente silenciado.

“Le Vite” (1550/1568) de Giorgio Vasari – principal fonte sobre os artistas renascentistas – não faz qualquer menção ao incidente ou à vida sexual de Leonardo. Para Vasari e seus leitores, exaltar o gênio artístico de Leonardo bastava; aspectos íntimos “escandalosos” eram omitidos, seja por decoro moral, seja por não se considerarem relevantes à narrativa do grande homem.

Nos séculos seguintes, essa postura discreta predominou. Mesmo no século XIX e início do XX, quando biografias de Leonardo proliferaram, seus autores em geral evitavam especular sobre sua sexualidade. Uma mudança significativa ocorreu em 1910, quando o pai da psicanálise, Sigmund Freud, publicou um ensaio intitulado “Leonardo da Vinci e uma lembrança de sua infância”. Nesse estudo, Freud analisou a psicologia de Leonardo a partir de pistas em seus escritos e obras, concluindo que Leonardo teria tido uma orientação homossexual – porém recalcada e não exercida fisicamente. Freud baseou-se, entre outras coisas, em uma memória de infância em que Leonardo relatava que um pássaro abrira sua boca com a cauda (interpretação de conotação sexual).

Embora atualmente as teorias freudianas sobre Leonardo sejam vistas com ceticismo (até porque Freud usou uma tradução equivocada do texto de Leonardo, confundindo uma pipa com um abutre mítico), aquele ensaio foi pioneiro ao quebrar o tabu e sugerir explicitamente que Leonardo sentia desejo por homens. Freud argumentou que, traumatizado por circunstâncias familiares, Leonardo sublimou toda a sua libido em energia criativa – tornando-se assim um “gênio assexual” que amava a ciência e a arte em vez de pessoas. Essa visão de Leonardo como celibatário casto ganhou eco em parte da literatura do século XX. Muitos biógrafos passaram a admitir, ainda que entrelinhas, a “provável homossexualidade” de Leonardo, mas frequentemente acompanhada da conclusão de que ele não teria consumado tais inclinações e vivido em castidade pela maior parte da vida.

Exemplo dessa interpretação é a historiadora Elizabeth Abbott, que em A History of Celibacy” (2001) defende que, embora Leonardo provavelmente fosse homossexual por natureza, o trauma da acusação de sodomia o teria levado a abraçar a castidade daí em diante. Essa linha de raciocínio imagina que a vergonha e o medo teriam feito Leonardo renunciar ao sexo para sempre, dedicando-se integralmente a atividades intelectuais. Trata-se, em última análise, de uma tentativa de conciliar a genialidade de Leonardo com a sensibilidade da era pré-moderna: para muitos era mais “confortável” retratá-lo como um sábio abstinente do que como um homem vivendo fora da moral sexual tradicional.

Por outro lado, pesquisadores mais recentes contestam a ideia de que Leonardo tenha vivido celibatário ou reprimido após 1476. O biógrafo francês Serge Bramly, por exemplo, aponta que as condenações morais de Leonardo contra a “luxúria desordenada” em seus escritos não significam que ele próprio fosse isento de desejo – apenas refletem um ideal de moderação renascentista. De fato, Leonardo também escreveu frases irônicas exaltando a beleza física e chegou a desenhar figuras eroticamente explícitas em seus cadernos (sinal de que o tema sexual nunca lhe foi indiferente).

O historiador da arte Kenneth Clark, autor de um famoso estudo sobre Leonardo (1939), já notava que, apesar de toda a espiritualidade de seus interesses, “Leonardo nunca se tornou totalmente sem sexo”. Em outras palavras, Clark reconhecia que Leonardo manteve alguma forma de vida erótica ou, no mínimo, um forte apreço estético pelo corpo humano.

Análises dos cadernos de Leonardo confirmam que sua atenção ao corpo masculino – do ponto de vista científico e artístico – permaneceu intensa antes e depois do episódio de 1476, sem indícios de um “vazio” puritano. O historiador David Friedman observou que não há nenhuma ruptura temática nos manuscritos de Leonardo que indique uma mudança de atitude quanto à sexualidade após o julgamento – ele continuou a dissertar sobre anatomia sexual, reprodução e relações humanas com naturalidade, sugerindo que o processo não o tornou abstinente.

Um nome de destaque nessa revisão é Michael White, biógrafo que emLeonardo: The First Scientist” (2000) dedica atenção especial à sexualidade do mestre. White argumenta que o resultado do julgamento de 1476 foi tornar Leonardo mais reservado e cauteloso sobre sua vida privada, mas não casto. Segundo ele, Leonardo aprendeu a ser discreto para evitar futuros escândalos, porém “há pouca dúvida de que ele continuou sendo um homossexual praticante” durante a vida adulta. Essa conclusão – apresentada assim sem rodeios – representa a tendência contemporânea: os estudiosos hoje, de modo geral, aceitam que Leonardo da Vinci manteve relações afetivo-sexuais com homens e não veem isso como incompatível com sua genialidade. Pelo contrário, alguns sugerem que sua condição de “forasteiro” (por ser ilegítimo, gay, vegetariano, canhoto – características que o próprio Leonardo notava em si) pode ter contribuído para sua perspectiva única e criatividade incomparável.

Aliás, em biografias populares recentes, voltadas ao grande público, essa franca abordagem tornou-se comum. O exemplo mais notório é o de Walter Isaacson, biógrafo bestseller que lançou “Leonardo da Vinci” em 2017. Isaacson não apenas menciona o caso de sodomia de 1476 em detalhes, como insere já na caracterização inicial de Leonardo o adjetivo “gay”, ao lado de outros traços marcantes de sua persona (ilegítimo, herético, vegetariano etc.). O autor destaca que, ao contrário do que se afirmava outrora, Leonardo não demonstrava vergonha alguma de suas inclinações – apenas não as trombeteava, vivendo-as de forma relativamente natural para seu meio. Isaacson chega a afirmar que “não há razão para acreditar que ele permaneceu celibatário… ao contrário, há muita evidência de que ele não se envergonhava de seus desejos”, citando tanto desenhos de nus masculinos feitos com evidente apreço erótico quanto registros de piadas e comentários maliciosos que circularam sobre ele. Essa biografia também realça o contexto: lembra que vários dos colegas de Leonardo eram homossexuais e que a própria cidade de Florença, como vimos, tinha uma reputação tolerante nesse aspecto. Ao narrar a acusação de 1476, Isaacson enfatiza a sorte de Leonardo em ter contado com a proteção indireta dos Medici e especula sobre o impacto psicológico do evento – incluindo a possibilidade de ter inspirado referências simbólicas em sua arte (como aquele comentário sobre o “Menino Deus” preso). No balanço final, Isaacson pinta Leonardo da Vinci como “um homem gay, ilegítimo, acusado duas vezes de sodomia, que sabia como era ser visto – e ver a si mesmo – como diferente; mas que, como muitos artistas, transformou essa condição mais em um trunfo do que em um obstáculo”. Esse tipo de leitura, hoje amplamente divulgado, demonstra como a imagem de Leonardo foi ressignificada: de um “gênio celibatário” dos livros antigos para um gênio abertamente queer nas obras atuais.

Em síntese, a acusação de sodomia de 1476, outrora um detalhe obscuro e pouco mencionado, tornou-se, nas biografias contemporâneas, um elemento-chave para entender a vida e a personalidade de Leonardo da Vinci. Autores acadêmicos e populares agora contextualizam abertamente esse episódio, contrastando a opressão legal que ele enfrentou com a rica cultura homoerótica de sua cidade e com a contínua expressão de sua sexualidade ao longo da vida. A forma de narrar esse fato evoluiu de silêncio constrangido para discussão franca, refletindo a mudança de atitude da sociedade em relação à homossexualidade e a importância de reconhecer figuras históricas LGBTQIA+ em toda sua complexidade.

Da Vinci - Ilustração
Da Vinci – Ilustração

GAY

Hoje, Leonardo da Vinci é frequentemente incluído no panteão de grandes personagens historicamente associados à diversidade sexual, e sua vivência é objeto de análise por historiadores da comunidade LGBTQIA+. Estudos especializados em história da homossexualidade dedicam atenção ao caso de Leonardo, não apenas pelo fascínio de sua figura, mas por ele ilustrar dinâmicas sociais importantes da Renascença.

O pesquisador Louis Crompton, em seu livro Homosexuality and Civilization” (2006), relembra minuciosamente o processo de 1476 e enfatiza que Leonardo, sendo um homem sensível, provavelmente ficou profundamente envergonhado e humilhado por ter sido preso naquela ocasião. Ao mesmo tempo, Crompton sugere que Leonardo teria consciência de não estar sozinho: Florença via dezenas de casos similares todos os anos, e só quatro anos antes (1472) a cidade tivera um recorde de 161 condenações por sodomia – um ambiente em que muitos compartilhavam do mesmo “pecado” e infortúnio. Essa observação coloca Leonardo dentro de uma comunidade oculta de iguais, cujos membros sofriam riscos parecidos. Ou seja, a própria frequência de episódios assim talvez tenha aliviado um pouco sua vergonha, por mostrar que o desejo que ele carregava era, em certo nível, parte de uma realidade coletiva de seu tempo.

Pesquisadores como Michael Rocke e James Saslow ampliam essa contextualização, explorando a subcultura homossocial florentina e as expressões artísticas ligadas a ela. Rocke, em Forbidden Friendships” (1996), pinta um quadro de camaradagem masculina na Florença do Quattrocento, em que laços afetivos e eróticos entre homens jovens eram simultaneamente comuns e marginais. Leonardo, como jovem aprendiz em Florença, teria navegado esse meio termo – integrado a uma tradição oficiosa de amor masculino e, ao mesmo tempo, vulnerável à punição caso ultrapassasse limites de discrição. Saslow, estudando manifestações do homoerotismo na arte renascentista, destaca que vários trabalhos de Leonardo (e de seus contemporâneos) trazem códigos de sensualidade homoerótica. No caso de Leonardo, frequentemente menciona-se sua pintura tardia São João Batista (c.1513-16) como uma obra de subtexto homoerótico: o santo é retratado jovem, belo, de longos cabelos e com um sorriso ambíguo, apontando para o alto – uma figura andrógina que alguns interpretam como celebração velada da beleza masculina e da ambiguidade do desejo.

São João Batista é uma pintura a óleo em madeira de nogueira de Leonardo da Vinci - reprodução
São João Batista é uma pintura a óleo em madeira de nogueira de Leonardo da Vinci – reprodução

Mais explícito ainda é um desenho redescoberto em 1991, atribuído a Leonardo, conhecido como “Anjo Encarnado” (Angelo Incarnato): ele mostra um anjo jovial (identificado por estudiosos como possivelmente retratando Salaì) exibindo um falo ereto – numa mescla de espiritual e profano que quase certamente era uma brincadeira privada do mestre. O Angelo Incarnato e desenhos associados indicam que Leonardo não só viveu sua sexualidade, mas a registrou de forma artística, ainda que cifrada, em papéis que ficaram escondidos por séculos.

Angelo Incarnato - Reprodução
Angelo Incarnato – Reprodução

Ademais, páginas do Codex Atlanticus contendo rabiscos de outro punho (provavelmente de algum ajudante brincalhão) incluem uma caricatura obscena: um ânus anotado como il culo di Salaì (“o traseiro de Salaì”) sendo perseguido por pênis com pernas e rabos. Esta imagem cômica – certamente feita no círculo íntimo do ateliê – sugere que a sexualidade de Leonardo era conhecida e até alvo de piadas privadas entre seus assistentes, denotando um grau de abertura dentro de sua oficina.

Tais evidências, quando analisadas por pesquisadores LGBTQIA+, ajudam a reivindicar Leonardo da Vinci como parte da história queer. Elas mostram um indivíduo que, apesar de viver antes da existência de identidades sexuais modernas, claramente fugia à norma heterossexual e deixou rastros disso em documentos e obras.

Em 2019, durante as comemorações dos 500 anos da morte de Leonardo, chegou-se a destacar que o artista era já reconhecido como “diferente” por alguns contemporâneos: um pequeno poema satírico composto em 1495 pelo humanista Gaspare Visconti – acompanhado de um desenho humorístico – aparentemente zombava de Leonardo por sua suposta sodomia, retratando-o de forma caricatural como um advogado efeminado apaixonado por um aluno. É uma raríssima peça de “cultura pop” quinhentista sugerindo que, na corte de Milão, as preferências do artista eram matéria de fofoca e riso velado.

Hoje, analisar a sexualidade de Leonardo ganhou espaço não apenas na academia mas também na mídia e no imaginário popular. Diversos artigos, documentários e até obras de ficção recentes abordam abertamente a ideia de que Leonardo da Vinci era gay. Por exemplo, uma série dramática de TV lançada em 2021 (estreando o ator Aidan Turner no papel principal) apresentou Leonardo explicitamente como um homem que amava outros homens, o que foi celebrado por críticos como uma correção histórica há muito devida.

É importante notar, claro, que aplicar rótulos modernos como “gay” a uma pessoa do século XV requer certa cautela acadêmica. Leonardo provavelmente não pensava em si mesmo nesses termos identitários – à época falava-se apenas dos atos (sodomia) e não de orientações. No entanto, ao examinar sua biografia com as lentes atuais, há um consenso de que, se utilizarmos a terminologia contemporânea, Leonardo da Vinci se enquadra no espectro das relações homoafetivas. Quase todos os indícios de sua vida íntima apontam para uma preferência por homens, desde a juventude até a velhice. Ele viveu numa sociedade que reprimia oficialmente tais inclinações, mas conseguiu, à sua maneira, expressá-las e coexistir com elas sem permitir que anulassem seu brilhantismo.

As reflexões modernas sobre sua sexualidade, portanto, não servem para rotulá-lo anacronicamente de forma reducionista, e sim para humanizá-lo e compreendê-lo por completo – como um ser humano complexo, à frente de seu tempo em tantos aspectos, e que também fez parte da longa história da diversidade sexual.

Para o público LGBTQIA+, revisitar a vida de Leonardo sob esse prisma é resgatar uma herança escondida: a confirmação de que mesmo um dos maiores gênios do Renascimento teve que lidar com preconceitos e perigos por amar de modo diferente, e ainda assim deixou um legado imortal. Isso inspira não apenas orgulho, mas também uma reflexão sobre o quanto avançamos (ou não) em termos de aceitação desde então.

Roteiro de visitas às obras de Leonardo da Vinci na Itália

1. Milão – Lombardia

Santa Maria delle Grazie – “A Última Ceia” (Il Cenacolo)
📍 Piazza di Santa Maria delle Grazie, 2, 20123 Milano MI
🎨 O famoso afresco de A Última Ceia, pintado entre 1495 e 1498.
🌐 https://cenacolovinciano.org

Pinacoteca Ambrosiana – Codex Atlanticus
📍 Piazza Pio XI, 2, 20123 Milano MI
📚 Manuscritos e desenhos originais de Leonardo (Codex Atlanticus).
🌐 https://ambrosiana.it

Museo Nazionale Scienza e Tecnologia “Leonardo da Vinci”
📍 Via San Vittore, 21, 20123 Milano MI
🔧 Maquetes das invenções e exposições interativas sobre ciência e arte.
🌐 https://museoscienza.org


2. Vinci – Toscana (cidade natal de Leonardo)

Museo Leonardiano
📍 Piazza Guido Masi, 50059 Vinci FI
🛠️ Máquinas, esboços, modelos e estudos de engenharia.
🌐 https://www.museoleonardiano.it

Casa Natale di Leonardo
📍 Via di Anchiano, 50059 Vinci FI (3 km do centro de Vinci)
🏡 Casa onde Leonardo nasceu, com exposições audiovisuais e vista panorâmica.
🌐 https://www.museoleonardiano.it


3. Florença – Toscana

Galleria degli Uffizi
📍 Piazzale degli Uffizi, 6, 50122 Firenze FI
🖼️ A Anunciação e O Batismo de Cristo (com Verrocchio).
🌐 https://www.uffizi.it

Palazzo Vecchio – Sala dei Gigli
📍 Piazza della Signoria, 50122 Firenze FI
🎨 Resquícios e referências ao mural perdido Batalha de Anghiari.
🌐 https://museicivicifiorentini.comune.fi.it

Museo Galileo
📍 Piazza dei Giudici, 1, 50122 Firenze FI
🔬 Instrumentos científicos e contexto da obra de Leonardo.
🌐 https://www.museogalileo.it


4. Veneza – Vêneto

Gallerie dell’Accademia – “Homem Vitruviano” (raramente exposto)
📍 Campo della Carità, Dorsoduro 1050, 30123 Venezia VE
📏 Desenho icônico de Leonardo, exibido apenas em ocasiões especiais.
🌐 https://www.gallerieaccademia.it

Da Vinci pode ter se inspirado em seu amante para pintar a ‘Mona Lisa’




Junte-se à nossa comunidade

Mais de 20 milhões de homens gays e bissexuais no mundo inteiro usam o aplicativo SCRUFF para fazer amizades e marcar encontros. Saiba quais são melhores festas, festivais, eventos e paradas LGBTQIA+ na aba "Explorar" do app. Seja um embaixador do SCRUFF Venture e ajude com dicas os visitantes da sua cidade. E sim, desfrute de mais de 30 recursos extras com o SCRUFF Pro. Faça download gratuito do SCRUFF aqui.

Comente