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Michelangelo Buonarroti (1475–1564), além de escultor e pintor, foi autor de cerca de 300 poemas, entre sonetos, madrigais e epigramas. Desses, aproximadamente 30 poemas de amor – em sua maioria sonetos – foram explicitamente dedicados a um jovem nobre romano chamado Tommaso dei Cavalieri (1509 – 1587).

Cavalieri tinha cerca de 23 anos quando conheceu Michelangelo, então com 57, em 1532, e tornou-se o grande inspirador das mais ardentes expressões líricas do artista. Os versos revelam admiração profunda pela beleza masculina de Tommaso, descrito pelo artista como “luz do século, paragon de todo o mundo”.

Em um de seus sonetos mais famosos, conhecido como “O Bicho-da-seda” (Il baco da seta), Michelangelo expressa o “desejo de ser as roupas que tocam o corpo” do amado. Os referidos poemas celebram o amor quase místico que o artista sentia, marcado por influências do amor neoplatônico – espiritual e idealizado – e também por conflitos internos, dado o peso moral da homoafetividade naquela época.

Miguel Ángel, por Daniele da Volterra (Reprodução)
Miguel Ángel, por Daniele da Volterra (Reprodução)

Outra série notável de poemas de Michelangelo com temática homoerótica são os epitáfios para Cecchino Bracci, um jovem de 15 anos por quem o artista teve grande afeição. Quando Cecchino faleceu em 1544, Michelangelo atendeu ao pedido de Luigi del Riccio, tio de Cecchino e amigo próximo do artista, e compôs cerca de 50 epigramas funerários exaltando a beleza e lamentando a perda do adolescente.

Nesses versos de tom elegíaco, o artista chega a expressar arrependimento de não ter dado um beijo no jovem em vida e esperança de reencontrá-lo no além. Uma variante de um dos epitáfios sugere inclusive que Michelangelo e Cecchino podem ter tido relações físicas íntimas – algo excepcionalmente audacioso em se tratando de registro poético do século XVI.

Sabendo do conteúdo potencialmente escandaloso, o próprio Michelangelo relutou em publicar esses poemas. Ele chegou a escrever um soneto condenando a ideia de divulgá-los, temendo que a “cortesia” de homenagear o falecido ocultasse, na verdade, uma armadilha para sua desonra.

Devoção amorosa e abnegação

Além de Cavalieri e Cecchino, historiadores identificam outros jovens ligados ao círculo afetivo do artista. Antes de conhecer Tommaso, Michelangelo teria se frustrado em paixões por belos assistentes e modelos, como Gherardo Perini e Febo di Poggio.

Cartas e poemas sugerem que esses envolvimentos trouxeram turbulência emocional e desgosto ao artista, talvez por amores não correspondidos ou “prosaicos” demais, levando-o a sublimar seus desejos na esfera espiritual.

Tais decepções anteriores teriam preparado o terreno para que a ligação com Tommaso fosse vivida principalmente no plano idealizado – “um amor casto, uma paixão paterna”, como o próprio Michelangelo versificou.

De fato, em um soneto ele declara: “Se um casto amor, se uma paixão paterna, / se um só destino a dois amantes liga… / se amar ao outro, e a si mesmo não… / só o pode romper fúria medonha” – versos que combinam devoção amorosa e abnegação, refletindo a tensão entre desejo e virtude cristã.

Homoerotismo na obra de Michelangelo

A atração de Michelangelo pela beleza masculina não ficou restrita às palavras – transparece também em sua produção artística visual. Em pleno Renascimento, o artista exaltou o nu masculino como poucos, imprimindo erotismo e espiritualidade em igual medida.

Suas esculturas em mármore frequentemente apresentam homens jovens, nus e idealizados, com atenção incomum às formas do corpo. Obras primas como Davi”, “Baco”, “Apolo” e os escravos “Atlante” e “Morrente” exibem figuras viris “como vieram ao mundo”, sem pudor em relação à nudez. Michelangelo evita poses que ocultem o órgão genital – pelo contrário, valoriza a anatomia com naturalidade artística.

No “Baco”, esculpido aos 21 anos, vemos um rapaz de traços delicados porém corporalmente vigoroso, em pose lânguida de embriaguez, acompanhado por um sátiro. A estátua impressiona pela mistura de sensualidade e androginia, sugerindo já na juventude do escultor uma exploração da ambiguidade entre o sagrado e o profano, o masculino e o efeminado.

Escultura “Baco” (1496-97) de Michelangelo, exposta no Museu Bargello em Florença - Foto: Museo Nazionale del Bargello/Divulgação
Escultura “Baco” (1496-97) de Michelangelo, exposta no Museu Bargello em Florença – Foto: Museo Nazionale del Bargello/Divulgação

Já o “Davi” (1504), nu heroico de 5 metros hoje símbolo de Florença, consagrou a perfeição do corpo jovem masculino na arte ocidental – e tornou-se também um ícone homoerótico moderno, admirado por muitos da comunidade LGBTQIA+ como epítome da beleza masculina.

Escultura de Davi, de Michelangelo - Foto: GuidoCozzi/Divulgação
Escultura de Davi, de Michelangelo – Foto: GuidoCozzi/Divulgação

Arte ‘pintada’

Nas pinturas de Michelangelo, a tônica se repete. O teto da Capela Sistina (1508–1512) está povoado de figuras atléticas – inclusive os célebres jovens nus (ignudi) que rodeiam as cenas bíblicas – todas com musculatura e proporções idealizadas que celebram o corpo do homem.

No afresco do Juízo Final (1536–1541), atrás do altar da mesma capela, dezenas de nus masculinos em variadas poses compõem uma visão apocalíptica que chocou alguns contemporâneos pelo atrevimento. Críticos como Pietro Aretino acusaram Michelangelo de “imoralidade” e insinuaram que o artista estaria projetando naqueles corpos seu próprio deleite carnal.

Juízo Final (Michelangelo) - Reprodução/Google
Juízo Final (Michelangelo) – Reprodução/Google

De fato, Aretino escreveu ao artista em 1545 condenando a exposição de “vergonhas” na igreja e, nas entrelinhas, sugeriu que Michelangelo praticaria “atos de pederastia” – uma grave acusação na época. Embora a virulência de Aretino tivesse motivação pessoal (ele frequentevemente buscava atacar a fama de Michelangelo), o episódio ilustra como a homoeroticidade na arte era percebida então: se não podia ser expressa abertamente, acabava emergindo “codificada” em alegorias e belos nus, sujeita à reprovação moral.

Uma expressão artística direta do amor homoafetivo de Michelangelo se encontra em uma série de desenhos apresentados como presentes ao jovem Tommaso Cavalieri. Entre 1532 e 1533, tomado pela paixão, Michelangelo produziu quatro complexos desenhos inspirados na mitologia clássica para ofertar a Tommaso – obras de arte acabadas, não simples esboços. Essas cenas incluem “O Rapto de Ganimedes”, “O Castigo de Títio” e “A Queda de Fáeton”. Todas são alegorias com forte carga simbólica e estética, nas quais o artista pôde dar vazão, de forma velada, aos sentimentos pelo amigo.

Em “Ganimedes”, por exemplo, o belo jovem da mitologia é arrebatado por Júpiter em forma de águia – metáfora do desejo divino pelo rapaz mortal.

Já em “Títio”, um condenado tem seu fígado devorado eternamente por uma águia. Nas mãos de Michelangelo, a cena de suplício torna-se estranhamente erótica: o homem nu jaz em pose que evidencia seus genitais, enquanto a águia, símbolo de Zeus, pousa sobre ele mais como amante do que algoz, num contato quase voluptuoso.

The Punishent of Tityus, Charcoal drawing, a gift to Tommaso de' Cavalieri - Reprodução/Wiki
The Punishent of Tityus, Charcoal drawing, a gift to Tommaso de’ Cavalieri – Reprodução/Wiki

O historiador Jonathan Jones observa que Michelangelo “encontra prazer nessa dor”, transformando o martírio em um encontro sensual – um recado íntimo ao espectador privilegiado, Tommaso. Esses desenhos profanos e sofisticados – chamados de “desenhos de apresentação” – não raramente são descritos como as mais sublimes declarações de amor gay na história da arte, e evidenciam a fusão entre criação artística e afeto pessoal na vida do mestre.

Por Peter Paul Rubens - Domínio público
Por Peter Paul Rubens – Domínio público

Vale notar que Michelangelo tinha consciência do valor íntimo desses presentes. Ele destruiu muitos de seus esboços antes de morrer, mas os desenhos dados a Cavalieri sobreviveram, guardados como tesouros pelo destinatário.

Em 1562, já idoso, Michelangelo permitiu relutantemente que Tommaso cedesse o desenho da “Cleópatra” (um quinto presente, alegoria da rainha egípcia) ao duque Cosimo I de Médici, mas Cavalieri escreveu ao duque dizendo que abrir mão daquela obra lhe causava a dor de “perder um filho”. Hoje, a “Cleópatra” original pertence à Casa Buonarroti em Florença, com direito até a um esboço oculto no verso da folha revelado por restauração.

Já os desenhos mitológicos ofertados a Tommaso estão em coleções fora da Itália (British Museum, Royal Collection, entre outros), mas reproduções podem ser vistas em museus italianos em contextos especiais.

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Por Michelangelo – Corel Professional Photos CD-ROM, Domínio público

Silêncio, Interpretações e Censura

No ambiente do Renascimento italiano, o amor entre pessoas do mesmo sexo vivia nas sombras do “não dito”. A Igreja Católica condenava duramente a sodomia, enquanto a cultura clássica greco-romana, então redescoberta, oferecia exemplos de amores homoeróticos celebrados, como Zeus e Ganimedes, ou as musas de Platão.

Michelangelo, homem de profunda fé religiosa e educação humanista, refletiu esse paradoxo. Ele nutria sentimentos por homens e os registrou em poemas e arte, porém raramente de forma explícita, sempre envoltos em linguagem espiritualizada ou mitológica. Seus contemporâneos percebiam esses subtextos e reagiam conforme os valores da época. “Homossexualidade” enquanto identidade é um conceito moderno: no século XVI falava-se em sodomia (ato condenado) ou, no máximo, em amizades platônicas intensas.

Michelangelo nunca se casou e não lhe são conhecidas amantes mulheres, fato que intrigou seus biógrafos. O primeiro deles, Ascanio Condivi, conviveu com o artista e publicou em 1553 uma biografia autorizada. Condivi tratou Michelangelo como homem de vida austera e sugeriu que ele se mantinha casto, sem envolvimentos amorosos. Essa imagem de celibato virtuoso era conveniente para a reputação do gênio, alinhando-o aos ideais cristãos (e possivelmente acobertando quaisquer rumores).

Ainda assim, sinais da verdade ecoavam nas conversas eruditas: o humanista Benedetto Varchi, amigo de Michelangelo, chegou a comentar publicamente sobre a paixão do artista pelo “belo jovem Tommaso Cavalieri”, nomeando-o durante uma leitura acadêmica em Florença. Ou seja, entre alguns círculos, reconhecia-se que Michelangelo “caira de amores” por Cavalieri em 1532.

Também cartas privadas revelam que Michelangelo sofria de ciúmes quando longe de Tommaso e era tomado por angústias típicas de um amante apaixonado – evidências que, guardadas nos arquivos familiares, permaneceram ocultas do grande público por séculos.

O controle familiar e institucional sobre a memória do artista de fato abafou qualquer menção direta à homoafetividade. Após a morte de Michelangelo em 1564, seu sobrinho-neto, Michelangelo Buonarroti, o Jovem, tratou de publicar os poemas do tio de forma “corrigida”. Na edição póstuma de 1623 das Rime (poesias) de Michelangelo, Buonarroti Jr. substituiu todos os pronomes masculinos por femininos, transformando amores que nos manuscritos eram “ele” em aparentes paixões por “ela”. Esse ato de censura homofóbica visava ocultar que muitos versos eram dedicados a Tommaso Cavalieri. Mais que isso, o sobrinho-neto simplesmente suprimiu 45 poemas inteiros – sobretudo os mais explícitos, como os escritos para Cecchino Bracci – antes de imprimir a coletânea. Em suma, durante a Contrarreforma e nos séculos seguintes, a estratégia foi apagar ou reverter qualquer indício de homoerotismo na vida de Michelangelo.

Essa deturpação permaneceu influente por gerações. Até o século XIX, poucos ousaram questionar a versão expurgada. Só em 1863 uma edição crítica italiana recuperou os textos originais baseando-se nos autógrafos de Michelangelo. E foi um poeta inglês, John Addington Symonds, pioneiro dos estudos sobre homossexualidade, quem deu um passo decisivo: em 1893, Symonds publicou uma biografia em dois volumes do artista, traduzindo os sonetos para o inglês com os pronomes corretos restaurados. Essa republicação fiel, aliada à crescente discussão sobre sexualidade no final do século XIX, revelou ao mundo o verdadeiro teor dos versos de Michelangelo. Não sem resistência: críticos vitorianos ainda preferiram ler aquelas declarações de amor como “amizade platônica” ou negar qualquer implicação sexual, num eco do caso similar dos sonetos de Shakespeare, cujos conteúdos homoafetivos foram negados até meados do século XX.

Contudo, a partir do século XX, com a evolução da historiografia e da psicologia, a homoafetividade de Michelangelo passou a ser paulatinamente reconhecida e normalizada em sua biografia.

Redescoberta e Legado Contemporâneo

Atualmente, Michelangelo é amplamente citado como um dos grandes artistas gays da história – ainda que os rótulos modernos não caibam perfeitamente em personagens do Renascimento. A evidência de sua orientação para o mesmo sexo é forte e significativa.

Pesquisadores e historiadores da arte atuais abordam essa dimensão de forma aberta e diversa. Há debates, por exemplo, sobre se Michelangelo teria permanecido casto por conflito religioso ou se viveu relações físicas ocasionais (como sugerem as referências a Gherardo Perini ou Cecchino).

Em qualquer caso, a homoerotização de sua obra é vista não como “curiosidade marginal”, mas como parte integrante de seu gênio criativo. Críticos modernos apontam que a preferência de Michelangelo pela figura masculina influenciou até aspectos formais de sua arte, como a musculatura quase masculina de algumas figuras femininas que pintou, o que dizem ser um indicativo de desinteresse pelo corpo feminino.

A recuperação completa dos poemas na forma original só ocorreu em meados do século XX, refletindo as mudanças culturais. Desde então, inúmeras traduções e estudos exploraram o tema. Obras acadêmicas dedicadas à sexualidade na arte renascentista destacam Michelangelo ao lado de contemporâneos como Leonardo da Vinci e Caravaggio, cujas obras também trazem elementos homoeróticos.

Atualmente, em mostras de arte e museus, é cada vez mais comum ver mencionadas as relações de Michelangelo com Tommaso Cavalieri ou sua “obsessão pela forma masculina” como contexto interpretativo. Por exemplo, em 2023-2024 o British Museum de Londres organizou uma exposição sobre os últimos desenhos de Michelangelo, posicionando os “desenhos de amor” para Cavalieri como peças-centro da mostra, celebradas como testemunhos do sentimento homoafetivo do artista.

Da mesma forma, publicações de cultura popular e portais de história LGBTQIA+ celebram Michelangelo como um ícone queer pioneiro, enfatizando que ele expressou seu amor por outros homens de forma sublime em plena era da Inquisição. Essa revalorização tem impacto não apenas na academia, mas também no turismo cultural e na memória coletiva.

É importante ressaltar que reconhecer Michelangelo como parte da história LGBTQIA+ o humaniza e aproxima de novas gerações. Seu legado afetivo-artístico hoje inspira pessoas que veem na arte dele uma afirmação de que a beleza e o amor não conhecem gênero.

Pesquisadores contemporâneos analisam seus sonetos como documentos emocionais riquíssimos, onde o conflito entre desejo terreno e ideal divino ganha voz. Tais análises mostram um Michelangelo “por inteiro”: genial mas também vulnerável, sujeito às mesmas paixões e angústias que qualquer pessoa amante. Nesse sentido, a vida e obra do mestre renascentista tornaram-se objeto de orgulho e reflexão no mundo LGBT+, evidenciando que a diversidade sexual e de gênero tem seus heróis e narrativas mesmo nos períodos mais remotos da História.

Por Michelangelo - Web Gallery of Art[, Domínio público
Por Michelangelo – Web Gallery of Art, Domínio público

Roteiro na Itália: Lugares para Vivenciar Michelangelo

Para quem deseja seguir os passos de Michelangelo e compreender in loco sua dimensão afetiva homoerótica, a Itália oferece diversos locais carregados de história. Seja observando obras de arte que refletiram sua admiração pelo corpo masculino, seja visitando museus e arquivos que guardam suas cartas e poemas, é possível montar um roteiro único.

A seguir, destacamos alguns pontos essenciais em Florença e Roma, cidades onde o artista viveu, que estão ligados tanto à produção artística quanto à vida pessoal de Michelangelo.

Florença: berço e legado de Michelangelo

  • Casa Buonarroti (Museu e Arquivo) – Localizada no centro florentino, esta casa pertencente à família de Michelangelo hoje é um museu que preserva muitos de seus objetos pessoais, esculturas juvenis e, crucialmente, documentos. Ali pode-se ver, por exemplo, o desenho original da “Cleópatra” que Michelangelo deu de presente a Cavalieri, recuperado pelo duque Cosimo I e enviado à Casa Buonarroti em 1614. O desenho – de notável simbolismo sensual – encontra-se exposto junto com outros esboços. A Casa abriga ainda um arquivo com centenas de cartas autógrafas de Michelangelo (recentemente restauradas), permitindo a pesquisadores consultarem correspondência onde transparecem seus afetos e preocupações íntimas. Visitar a Casa Buonarroti é mergulhar na intimidade do artista: das salas com pinturas celebrando sua glória às vitrines com poemas manuscritos, sente-se ali a presença humana por trás do gênio. A Casa Buonarroti pode ser visitada pelo site oficial www.casabuonarroti.it, funciona das 10h às 16h30 e fica na Via Ghibellina, 70, 50122, Florença, Itália.

  • Galleria dell’Accademia (Galeria da Academia) – Famosa por abrigar o monumental Davi, esta galeria em Florença oferece um encontro impactante com a celebração do corpo masculino na obra de Michelangelo. A escultura “Davi”, esculpida em 1501-04, retrata o herói bíblico nu em mármore branco em escala heroica. Para além de sua importância artística universal, o Davi tornou-se um símbolo da beleza jovem masculina – não surpreende que réplicas suas protagonizem eventos do orgulho LGBTQ mundo afora. Nos salões da Accademia encontram-se também “Os Prisioneiros” (Prigioni), quatro esculturas inacabadas de homens nus musculosos originalmente feitas para o túmulo do Papa Júlio II. Suas poses contorcidas e inacabadas parecem emergir da pedra, evocando forte carga dramática e, em certa leitura, até erótica. Admirar essas obras no mesmo espaço permite compreender o fascínio quase exclusivo de Michelangelo pela estética masculina, algo que os guias locais frequentemente mencionam. A Galleria dell’Accademia de Florença pode ser visitada pelo site oficial www.galleriaaccademiafirenze.it, funciona das 8h15 às 18h50 (último ingresso às 18h20) e fica na Via Ricasoli, 58/60, 50122, Florença, Itália.

  • Museo Nazionale del Bargello (Museu do Bargello) – Instalado em um antigo palácio medieval, o Bargello guarda preciosidades da escultura renascentista, incluindo várias obras de Michelangelo que dialogam com sua vida pessoal. Destaca-se o “Baco” (1496-97), única obra de tema pagão esculpida pelo mestre: o deus do vinho aparece como um jovem embriagado, corpo esguio e pose sensual, acompanhado por um sátiro que lhe belisca um cacho de uvas. Esta escultura, recusada inicialmente por ser “pagã” e hoje aclamada, pode ser vista como manifestação da veia hedonista de Michelangelo – talvez refletindo a liberdade que sentiu em Roma ao conviver com círculos artísticos mais liberais. No Bargello estão ainda o “Apolo-David” (estatueta inacabada de um nu masculino, cujo título incerto já sugere ambiguidade entre divino e humano) e o “Brutus” (busto de um romano, possivelmente um aceno alegórico à política florentina, mas cuja feição alguns ligam ao círculo de amigos do artista). Embora menos famosos, esses trabalhos no Bargello compõem um mosaico da relação de Michelangelo com a beleza ideal e a antiguidade clássica – fundamentais também para entender sua atração por jovens que encarnavam esses ideais físicos. O Museo Nazionale del Bargello pode ser acessado pelo site oficial www.bargellomusei.it, está localizado na Via del Proconsolo, 4, 50122, Florença, Itália

  • Basílica de Santa Croce (Túmulo de Michelangelo) – A majestosidade silenciosa da Igreja de Santa Croce, em Florença, acolhe o túmulo de Michelangelo. Após sua morte em Roma, o artista foi trazido para repousar em sua cidade natal (cumprindo desejo expresso em vida). Sua sepultura, adornada com alegorias esculpidas por Vasari, exalta a Pintura, Escultura e Arquitetura chorando a perda do mestre. Embora não haja referência direta ali à sua vida afetiva, o local é simbólico: Santa Croce é conhecida como o “panteão dos italianos ilustres” e hoje recebe visitantes do mundo inteiro, incluindo muitos turistas LGBTQIA+ que prestam homenagem à memória de Michelangelo. A atmosfera convida à reflexão sobre como um homem cujo amor por outros homens precisou ser velado em vida acabou celebrado pela posteridade em plena igreja – local onde outrora a natureza de seus afetos seria incompreendida. Aproveite para visitar, no complexo anexo, a Biblioteca e Museu dell’Opera di Santa Croce, onde documentos históricos contextualizam a época do artista. A Basílica e Complexo Monumental de Santa Croce pode ser visitada pelo site oficial www.santacroceopera.it, fica na Piazza di Santa Croce, 16, 50122, Florença, Itália

  • Capelas Mediceias (Basílica de San Lorenzo) – Na Nova Sacristia de San Lorenzo, capela funerária dos Médici projetada por Michelangelo, o visitante encontra algumas das esculturas de nu masculino mais vigorosas do artista, integradas a um contexto simbólico. Nos túmulos dos duques Médici, Michelangelo esculpiu as alegorias do Dia (figura masculina jovem, atlética, em repouso inquieto) e do Crepúsculo (ou Entardecer, outro nu masculino em pose pensativa) – contrastando com as alegorias femininas da Noite e da Aurora nos túmulos opostos. Esses nus idealizados representam as fases do dia e o inexorável tempo, mas por sua beleza anatômica também fascinam o público moderno pelo aspecto sensual. A Capela dos Príncipes, anexa, guarda relíquias da família Médici e reforça o ambiente artístico que Michelangelo frequentou em Florença, onde debates sobre amor platônico (incentivados por patronos como Lorenzo de Médici e seu círculo) certamente influenciaram a forma como o escultor-poeta concebeu o amor (inclusive o homoerótico) como algo elevado e atrelado à beleza ideal. O Museo Nazionale del Bargello pode ser conhecido pelo site www.bargellomusei.it e está localizado na Piazza di Madonna degli Aldobrandini, 6, 50123, Florença, Itália

Roma: cenário das paixões e glória artística

  • Santa Maria in Aracoeli (Túmulo de Cecchino Bracci) – No alto do monte Capitolino, ao lado da famosa Piazza del Campidoglio (redesenhada por Michelangelo), ergue-se a basílica de Aracoeli. Nela está um pequeno tesouro oculto: o túmulo de Cecchino de’ Bracci, o jovem amado cujo falecimento inspirou os epigramas apaixonados de Michelangelo. O artista esboçou o projeto do túmulo e chegou a fornecer desenhos para sua execução. Embora a obra tenha sido realizada por assistentes, a lápide de mármore traz um relevo e inscrição que Michelangelo influenciou, homenageando o adolescente. Visitar Aracoeli e localizar esse túmulo (próximo à entrada lateral esquerda da nave) é uma experiência tocante – ali jaz o rapaz florentino que, por um breve período em 1543-44, iluminou o coração do velho mestre. Além disso, Aracoeli abriga capelas de famílias nobres romanas, incluindo a de Tommaso Cavalieri (que casou e teve filhos com Lavínia della Valle). Registros indicam que Cavalieri e sua esposa estão sepultados em Aracoeli. Ou seja, esta igreja conecta as memórias dos dois jovens que mais marcaram a vida afetiva de Michelangelo. A alguns passos dali, na praça do Capitolino, imagine Michelangelo supervisionando as obras arquitetônicas nos anos 1540 enquanto trocava cartas ansiosas com Cavalieri ou consolava Luigi del Riccio pela perda de Cecchino – cenas invisíveis que esses locais sagrados e cívicos testemunharam. A Basílica de Santa Maria em Aracoeli está localizada na Scala dell’Arce Capitolina, 12, 00186, Roma, Itália, com entrada alternativa pela Piazza del Campidoglio.

  • Capitólio (Piazza del Campidoglio) – O amplo terraço do Capitólio, com seu elegante desenho de pavimento oval e palácios simétricos, foi concebido por Michelangelo a pedido do Papa Paulo III. Aqui não há uma referência direta à vida amorosa do artista, mas o local é simbólico pois Roma foi o palco onde Michelangelo viveu seus últimos 30 anos – e onde nutria seu convívio com Tommaso Cavalieri. Diz a tradição que Cavalieri esteve ao lado de Michelangelo em seus momentos finais de vida, quando o artista faleceu em sua casa romana (em 1564, próximo ao fórum, na região do Macel de’ Corvi). Embora a casa tenha se perdido na história e a Piazza del Campidoglio seja hoje mais associada à estátua equestre de Marco Aurélio e aos Museus Capitolinos, vale a pena percorrê-la relembrando que Michelangelo caminhou por ali muitas vezes, provavelmente de braço dado com Tommaso em discussões sobre arte e filosofia. Os Museus Capitolinos ao redor exibem obras clássicas que o próprio Michelangelo admirava. Para o visitante LGBTQIA+, é um bom ponto para refletir como até mesmo em ambientes públicos Michelangelo precisava codificar sua afeição – nas cartas ele chamava Tommaso de “Senhor” e mantinha tom respeitoso – mas a profundidade de sua ligação escapava à censura dos curiosos. Os Musei Capitolini podem ser visitados pelo site oficial www.museicapitolini.org, ficam na Piazza del Campidoglio, 1, 00186, Roma, Itália, no topo do Monte Capitolino, com acesso pela Cordonata Capitolina e transporte próximo pela estação Colosseo (Linha B) ou ônibus na Piazza Venezia.

  • Vaticano: Capela Sistina e Basílica de São Pedro – Qualquer itinerário de Michelangelo em Roma culmina inevitavelmente no Vaticano, onde sua grandiosa arte sacra está preservada. A Capela Sistina, com o teto e o Juízo Final pintados por ele, já foi mencionada pela exuberância de nus. Uma curiosidade histórica: logo após a morte de Michelangelo, em 1564, a Igreja instaurou a cobertura das genitálias nas figuras do Juízo Final – obra executada por Daniele da Volterra (apelidado “Il Braghettone”, o “pintor de calças”). Essa censura moralista, embora dirigida ao pudor geral, pode ser lida também como reflexo de desconforto com o erotismo implícito na visão michelangelesca do sagrado. Hoje, porém, a Sistina é apreciada integralmente e o visitante pode identificar, por exemplo, na cena da criação de Adão ou nas Sibilas e Profetas, corpos idealizados que expressam a espiritualidade através da beleza física – uma filosofia muito cara a Michelangelo. Já na Basílica de São Pedro, onde Michelangelo foi arquiteto-chefe nos últimos anos de vida, destaque para a estátua do Cristo Ressuscitado de Michelangelo (em Santa Maria sopra Minerva, igreja próxima ao Panteão). Essa escultura de Cristo nu, esculpida em 1521, foi considerada tão realista que acabaram adicionando um panejamento de metal para cobrir sua nudez. É mais um exemplo de como a visão artística de Michelangelo sobre o corpo – mesmo o de Cristo – chocava a moral da época, possivelmente porque trazia consigo uma sinceridade corporal que desafiava tabus (no caso, não homoerótico, mas indicativo da franqueza com que ele tratava o nu). Os Museus do Vaticano têm como único site oficial para ingressos e informações o www.museivaticani.va e estão localizados no Viale Vaticano, 00165, Roma, Itália.

  • Museus Vaticanos (Coleção de Desenhos) – Pouco conhecido do grande público, o acervo do Vaticano inclui cartas e esboços de Michelangelo, ainda que raramente expostos. Em algumas ocasiões, exposições temporárias trazem à tona correspondências originais entre Michelangelo e seus contemporâneos. Por exemplo, cartas dele para jovens assistentes, poemas em próprio punho, etc. Embora não seja garantido encontrar tais itens em exibição regular, vale se informar se há alguma mostra especial. Afinal, segurar o olhar sobre a caligrafia do artista – quem sabe um bilhete para Cavalieri – é uma experiência emocionante para quem acompanhou sua história de amor. Mesmo sem isso, estar no Vaticano, onde Michelangelo conviveu com papas e poderosos, instiga pensar nos dilemas que ele enfrentava: um servo devoto da fé católica que ao mesmo tempo carregava dentro de si uma natureza homoafetiva considerada “pecaminosa” por aquela mesma instituição. Essa dialética reflete-se nas feições contrastantes de suas obras: anjos de beleza ambígua, santos musculosos, o próprio Deus Pai no teto da Sistina pintado como um homem maduro e vigoroso. Os Museus do Vaticano têm como único site oficial para ingressos e informações o www.museivaticani.va e estão localizados no Viale Vaticano, 00165, Roma, Itália.

Tours guiados com temática LGBTQIA+

Por fim, para os viajantes interessados, tours guiados com temática LGBTQIA+ já começam a surgir na Itália, iluminando figuras como Michelangelo sob essa ótica.

Tours LGBTQIA+ em Florença

1. Queer Tuscany Tours
Tour premium com foco na história queer, arte, cultura e experiências locais.
🌐 Site: https://queertuscanytours.com

2. Rome Gay Tours / Rome Gay Friendly Walking Tours
Experiências guiadas explorando a história, cultura e vida LGBTQIA+ na capital italiana.
🌐 Site: https://romegaytours.com (site geral, tours específicos sob demanda)

3. Context Travel
Tours privados com guias acadêmicos, muitos dos quais podem enfocar a história da homoafetividade na arte renascentista.
🌐 https://www.contexttravel.com

4. Gay City Tours (Europa) / Local Guides
Alguns guias e empresas europeias oferecem tours LGBTQIA+ pela Itália como parte de circuitos maiores. Busque por “Gay City Tours + Florença / Roma” ou em sites como:
🌐 https://www.gayscitytours.com (tours regulares em diversas cidades europeias)

5. Airbnb Experiences
🌐 https://www.airbnb.com/experiences
Procure por termos como:
🔹 LGBTQ+ history tour Florence
🔹 Gay friendly Rome walking tour

6. GetYourGuide
🌐 https://www.getyourguide.com
Filtros úteis:
🔹 Arte e cultura
🔹 Tours privados
🔹 Temas especiais (ainda que não haja etiqueta LGBTQIA+, guias podem adaptar)

Obra de Michelangelo com beijo gay na Capela Sistina volta a ser assunto após 500 anos
“Beijo gay” na Capela Sistina volta a ser assunto após 500 anos – Reprodução

Buonarroti

Michelangelo carregava no próprio nome um legado simbólico. O sobrenome Buonarroti, de origem italiana, remete à ideia de “bom” ou “bem-feito”, derivado de buono e de variações ligadas a arrotare, termo associado ao aperfeiçoamento e ao polimento. Ao longo dos séculos, esse nome passou a ser associado a linhagens ligadas à excelência artística e cultural. Seu nome completo, Michelangelo di Lodovico Buonarroti Simoni, reforça essa herança familiar e o insere em uma tradição social e intelectual que marcou sua formação e sua projeção no cenário do Renascimento italiano.

Nascido em 6 de março de 1475, na pequena cidade de Caprese, na região da Toscana, Michelangelo passou a infância entre a paisagem rural e o ambiente urbano de Florença, onde desenvolveu desde cedo uma relação intensa com o desenho e a escultura. Filho de Lodovico di Leonardo Buonarroti Simoni, funcionário público de origem nobre empobrecida, cresceu em uma família que inicialmente via a arte como um ofício manual pouco prestigioso. Ainda assim, aos 13 anos, ingressou como aprendiz no ateliê do pintor Domenico Ghirlandaio, um dos mais requisitados da cidade, onde teve contato direto com as técnicas do afresco e com o ambiente intelectual do Renascimento florentino.

Pouco depois, foi acolhido na corte de Lorenzo de’ Medici, o Magnífico, passando a viver no palácio da família e a conviver com humanistas, poetas e filósofos que moldaram sua formação cultural e espiritual. Nesse período, teve acesso às coleções de esculturas clássicas dos Medici, o que consolidou sua admiração pela anatomia humana e pela estética da Antiguidade greco-romana. Foi ali que Michelangelo começou a desenvolver a visão do corpo como expressão de beleza, tensão e transcendência, um elemento que se tornaria central tanto em sua obra visual quanto em sua produção poética.

A partir do final da década de 1490, sua carreira ganhou projeção em Roma, onde recebeu encomendas de grande prestígio, como a Pietà da Basílica de São Pedro, obra que o consagrou ainda jovem como um dos principais artistas de sua geração. De volta a Florença, esculpiu o monumental Davi, símbolo cívico da cidade e marco definitivo de sua reputação. Ao longo das décadas seguintes, alternou-se entre Florença e Roma, trabalhando para papas, príncipes e mecenas, enquanto construía uma trajetória marcada por intensa dedicação ao trabalho, conflitos com patronos e uma produção artística que atravessou escultura, pintura, arquitetura e literatura.

Nos últimos anos de vida, estabeleceu-se definitivamente em Roma, onde assumiu a função de arquiteto-chefe da Basílica de São Pedro, redesenhando sua cúpula e deixando uma das marcas mais duradouras na paisagem da cidade. Michelangelo morreu em 18 de fevereiro de 1564, aos 88 anos, deixando um legado que ultrapassa a dimensão artística e se estende ao campo da literatura, da filosofia e da história cultural, consolidando-se como uma das figuras centrais do Renascimento e como um nome que continua a ser reinterpretado à luz de novas leituras sobre identidade, afeto e expressão humana.

Obra de Michelangelo com beijo gay na Capela Sistina volta a ser assunto após 500 anos




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