GAY BLOG BR by SCRUFF

Aos 26 anos, Miriam Algarra (PT) disputa uma vaga como deputada estadual em São Paulo. Bissexual e moradora de Sorocaba (SP), a candidata é pesquisadora e analista de dados. Formada em Políticas Públicas e em Ciências e Humanidades, desde os 15 anos ela atua em movimentos sociais em sua cidade natal.

Miriam Algarra, candidata a deputada estadual pelo PT de SP (Foto: Divulgação)

Essa não é a primeira eleição que Miriam disputa. Em 2020, a jovem foi candidata a vereadora de Sorocaba. “Tive um ótimo resultado nas urnas alcançando uma suplência na Câmara Municipal de Sorocaba, mesmo na pandemia. Atualmente, estou Secretária Estadual de Mulheres da Juventude do PT e atuo na formação de jovens lideranças que desejam trabalhar no governo”, conta.

Em 2022, ela aceitou o desafio de se candidatar a deputada estadual pelo Partido dos Trabalhadores, pois acredita que, “com a ampla participação popular, a política é o caminho para combater as desigualdades, recuperar direitos e sanar a crise política e institucional de representação que vivemos no Brasil’. “Defendo a participação popular para fortalecer a democracia em todos os espaços de decisão e assim tem sido a nossa candidatura: popular e participativa”, pontua Miriam.

Para a elaboração de suas propostas, durante a pré-campanha, a candidata fez uma série de laboratórios populares para discutir temas, problemas e soluções para São Paulo. “Foram contribuições muito importantes para formatar nossas primeiras propostas, dentro de sete eixos principais: trabalho decente, educação pública, cultura, saúde, direito à vida segura, meio ambiente e transporte“, afirma Miriam, que é uma das entrevistadas no especial “Eleições 2022” do Gay Blog BR.

Miriam Algarra (Foto: Divulgação)

Confira na íntegra a entrevista com Miriam Algarra

 GAY BLOG BR: Qual a sua formação e trajetória profissional? 

Miriam Algarra: Sou formada em Políticas Públicas e em Ciências e Humanidades pela Universidade Federal do ABC (UFABC). Nasci e cresci em Sorocaba, no bairro Inhayba. Aos 15 anos, em 2011, assumi o papel de protagonista em movimentos pelos direitos das mulheres na cidade, especialmente entre mulheres jovens. E, em 2013, fui uma das articuladoras da frente ampla ContraCatraca, uma luta contra os aumentos das passagens de ônibus e pelo direito à cidade em Sorocaba. 

Por seis anos, morei no ABC Paulista para me dedicar aos estudos, enquanto trabalhava em São Paulo, capital. Em 2020, voltei para a minha cidade e retomei o trabalho de mobilização da juventude progressista, por uma Sorocaba mais transparente, participativa e inclusiva. Trabalhei com educação, ajudando a implementar a plataforma “Foco Aprendizagem” nas escolas públicas de São Paulo, Paraíba, Pernambuco e Pará. Também atuei como pesquisadora sobre Segurança Pública no “Instituto Sou da Paz”, produzindo e analisando dados sobre a criminalidade violenta no estado, feminicídio e sistema prisional. Na Universidade, pesquisei as perspectivas de trabalho e futuro para as juventudes urbanas e periféricas.

Em 2020, fui candidata a vereadora em Sorocaba, ampliando a voz dos jovens no debate político para que o capital intelectual, artístico e cultural das juventudes fosse aproveitado na construção de uma Sorocaba com oportunidades e esperança. Tive um ótimo resultado nas urnas alcançando uma suplência na Câmara Municipal de Sorocaba, mesmo na pandemia. Atualmente, estou Secretária Estadual de Mulheres da Juventude do PT e atuo na formação de jovens lideranças que desejam trabalhar no governo.

GB: O que motivou a se candidatar?

Miriam: Sou militante, feminista, pesquisadora e analista de dados. Aceitei o desafio de me candidatar a Deputada Estadual pelo Partido dos Trabalhadores porque acredito que, com ampla participação popular, a política é o caminho para combater as desigualdades, recuperar direitos e sanar a crise política e institucional de representação que vivemos no Brasil. Defendo a participação popular para fortalecer a democracia em todos os espaços de decisão e assim tem sido a nossa candidatura: popular e participativa.

GB: Quais os desafios enfrentados ao ser uma candidatura abertamente LGBT+?

Miriam: Mais do que ter que enfrentar preconceitos em todas as esferas e áreas da vida e da política, as candidaturas abertamente LGBTQIA+ são necessárias, especialmente nesse momento em que vivemos. É importante enfrentar todo esse ódio para que nossos direitos sejam ouvidos pela sociedade. É imprescindível que um candidato abertamente LGBTQIA+ possa se candidatar, falar sobre as questões da comunidade e não ser considerado um político marginalizado. Acredito que uma candidatura aberta nos dá força para isso.

Mais do que um resultado eleitoral, a grande vitória quando me candidatei a vereadora em Sorocaba foi voltar a enxergar esperança nos olhos e corações de todas as pessoas que participaram da construção desse projeto popular. Hoje, acredito que nós temos condições de ocupar todo o estado e trazer nossas ideias, visões, corpos, cores, música, arte, cultura e tradições para o centro do debate político de São Paulo

GB: Quais são as suas principais propostas? Há pautas exclusivamente para LGBT+?

Miriam: Nosso rolê na política é diferente, é participativo e colaborativo. Durante a pré-campanha fizemos uma série de laboratórios populares para discutir temas, problemas e soluções para o nosso estado. Foram contribuições muito importantes para formatar nossas primeiras propostas, dentro de sete eixos principais: trabalho decente, educação pública, cultura, saúde, direito à vida segura, meio ambiente e transporte. O que defendemos:

Trabalho decente: defender os direitos trabalhistas, incentivar o primeiro emprego, apoiar trabalhadores autônomos, informais e pequenos empreendedores; Educação Pública: proteger o orçamento das Universidades e escolas; valorizar a carreira dos professores; fortalecer a ciência, tecnologia, inovação, extensão e pesquisa; Cultura: aumentar o orçamento da cultura; apoiar iniciativas independentes, periféricas e diversas; valorizar a cultura do rap, hip hop e funk; Saúde: fortalecer o SUS; promover saúde com políticas integradas de soberania alimentar, esporte, lazer, cultura e saúde mental; Direito à vida segura: profissionalizar o uso da força policial para combater o abuso de poder e a repressão; ampliar o orçamento em investigação para reduzir a impunidade; valorizar a carreira dos policiais e a atenção com a saúde mental desses trabalhadores; Meio Ambiente: criar comitês participativos regionais para engajar os cidadãos na criação e avaliação dos projetos de enfrentamento da crise climática e desastres; Transporte: defender o transporte público de qualidade, com tarifa justa e integração regional com bilhete único.

Acredito que a pauta LGBTQ+ perpasse todos esses sete eixos, pois a pessoa LGBTQ+ ela é cidadã como todas as outras, que consome, que trabalha, que respira cultura, que precisa de saúde, de educação de qualidade, do direito à uma vida segura etc. A nossa luta é integrar todas as pautas, sempre incluindo os supostos grupos marginalizados, como a comunidade LGBTQ+, não deixando ninguém para trás.

GB: Quais medidas você acredita serem necessárias para combater a LGBTfobia?

Miriam: A gente quer educação sexual e de gênero nas escolas, casas de acolhimento para pessoas LGBTQIA+ vítimas de violência, uma rede de atenção psicossocial estruturada para cuidar e atender a saúde mental da comunidade LGBTQIA+, e tantos outros direitos que nos são negados simplesmente por amar. Nosso país é feito de diversidade. Trabalhadores, negras e negros, pessoas com deficiência, LGBTQIA+, mulheres, mães, jovens, idosos e tantas outras identidades e condições que precisam ser respeitadas e apoiadas para que ninguém fique para trás

GB: O que você pensa sobre o uso e políticas da PrEP?

Miriam: Eu acredito que o PrEP é um ótimo método para prevenir a infecção pelo retrovírus e promover uma vida sexual mais saudável e segura. Eu aprovo o uso de PrEP para populações em situação de maior vulnerabilidade e que tenham práticas de maior risco para infecção pelo HIV, conforme especificado pelos dados da Organização Mundial da Saúde. É importante levar em consideração que uma ampla cobertura da PrEP depende de fatores como as políticas públicas, estruturais e individuais. Isso porque estigma, desigualdades, desfavorecimentos sociais e violência de gênero afastam muitas pessoas do tratamento. 

Além da cobertura, é imprescindível a vinculação, retenção e persistência no uso dos medicamentos, que auxiliam no aumento do resultado do tratamento de forma coletiva. Também acredito que a forma como a divulgação do tratamento da PrEP deve mudar. Não adianta mais fazer campanhas em praças públicas, precisamos estar presentes em aplicativos de encontro de parceiros, por exemplo, além do uso de outras tecnologias para promover o tratamento com a informação correta. 

GB: Como você avalia o governo de Bolsonaro?

Miriam: Os últimos anos foram difíceis. Um governo corrupto e assassino colocou em prática um projeto perverso para enriquecer alguns poucos às custas de todo o povo brasileiro, e eu fui vendo o povo perder a fé em um mundo melhor, mais justo e livre de desigualdades. Em 2020, decidi que não poderia ficar parada e fiz da minha missão de vida ampliar a minha atuação na política e buscar alcançar espaços que sempre foram negados para as mulheres e para os trabalhadores. Isso se traduziu em uma candidatura à vereadora em Sorocaba, com o objetivo de abrir um espaço dentro da política para que as vozes das juventudes fossem ouvidas e levadas em conta na construção da nossa cidade.

Hoje, a gente vai para a rua porque tem gente passando fome e frio, sem comida, sem teto e sem trabalho. A gente vai pra rua porque os jovens não tem motivos pra levantar da cama: não tem perspectiva, não tem trabalho. É com esse movimento popular que vamos tirar Bolsonaro do poder, pelas ruas ou pelas urnas, e reconstruir o Brasil onde a gente pode ser feliz de novo. É por esperança que eu vou para rua.

No entanto, essa não é uma missão que eu assumo sozinha: nossa pré-candidatura é participativa porque acredito que a participação popular é o caminho para fortalecer a democracia e combater as desigualdades, recuperar direitos e sanar a crise política e social do Brasil. A participação é nossa maior ferramenta para restaurar a confiança das pessoas no sistema político e encontrar alternativas para a crise política, econômica e social que estamos vivendo.

GB: Como você avalia representatividade política atual de pessoas LGBT+ e quais são as suas expectativas?

Miriam: É fundamental para a democracia brasileira o surgimento amplo de lideranças LGBTQIA+. A falta da representatividade é um desafio na política brasileira atual. O Brasil é um dos países que mais mata essa população no mundo. Principalmente por isso, é imprescindível termos cada vez mais presença em cargos representativos não só na esfera legislativa, mas nos demais espaços de poder. A existência de representantes LGBTQIA+ nesses espaços fortalece o sentimento de orgulho dos membros da comunidade, e é uma ferramenta essencial de combate e criminalização à LGBTQIA+fobia. 

Nas últimas eleições, houve um aumento significativo do número de candidaturas LGBTQIA+. Eu acredito que essa participação irá se consolidar cada vez mais. É mais que urgente normalizar a diversidade social e, para isso, precisamos de um governo com mais políticas de igualdade. Chegou a hora de ocupar os espaços, de sentar-se à mesa e tomar as decisões, de fazermos políticas públicas e não somente sermos beneficiários. A hora é agora!

Confira a lista de candidaturas LGBTQIA+ de 2022 neste link.

Lista de candidatos LGBTQ+ nas eleições 2022 | Deputados, Senadores, Governadores




Junte-se à nossa comunidade

Mais de 20 milhões de homens gays e bissexuais no mundo inteiro usam o aplicativo SCRUFF para fazer amizades e marcar encontros. Saiba quais são melhores festas, festivais eventos e paradas LGBTQIA+ na aba "Explorar" do app. Seja um embaixador do SCRUFF Venture e ajude com dicas os visitantes da sua cidade. E sim, desfrute de mais de 30 recursos extras com o SCRUFF Pro. Faça download gratuito do SCRUFF aqui.

Jornalista gaúcho formado na Universidade Franciscana (UFN) e Especialista em Estudos de Gênero pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM)