GAY BLOG BR by SCRUFF

Há anos o sertanejo é um dos ritmos musicais mais ouvidos no Brasil. Ao longo da sua história, muitos artistas se consagraram nesse segmento e marcaram gerações. Com o passar dos anos, o ritmo também ganhou novas vertentes, como o “sertanejo universitário”, o “feminejo” e o mais recente, o queernejo. Gali Galó, que se identifica como não binárie, integra esse movimento feito por artistas LGBTQIA+ e canta sobre a liberdade, a fim de romper barreiras.

Gali Galó (Foto: Ethan Braga)

Natural de Ribeirão Preto, interior de São Paulo, Gali cresceu sob influência da música sertaneja. Em meio a um ambiente machista e LGBTQfóbico, decidiu cortar relações com o estilo após se mudar para São Paulo. “Quando cheguei na adolescência, percebi que não tinha ninguém do meu interesse nos lugares que tocava sertanejo”, conta.

Uma década depois, Gali resolve reviver suas raízes e incorporar de vez o estilo em sua vida, agora sendo pioneire de um movimento: o queernejo. “Todo mundo achava “brega” cantar sertanejo e, apenas dez anos depois, mudaríamos completamente nosso conceito sobre como ser brega é positivo”, pontua.

Em entrevista ao GAY BLOG BR, Gali fala sobre o cenário musical queernejo, as relações com a música tradicional sertaneja e os projetos para o futuro. No ano passado, venceu o troféu Poc Awards 2021, na categoria “Música Poc Brasileira – MPB”, pelo voto do júri, composto por integrantes do Scruff.

gali
Gali Galó venceu o Poc Awards na categoria musical pela escolha do júri – Reprodução/Instagram

GAY BLOG BR: Quando surgiu o seu interesse pela música sertaneja e em que momento você percebeu que não se sentia representade nesse cenário musical culturalmente cis-heteronomativo?

Gali Galó: Desde sempre a música sertaneja esteve impressa na minha vida. Como sou de Ribeirão Preto, interior de São Paulo, cresci sendo influenciade pelas festas de Reis das cidades vizinhas, por rodas de viola, pela cultura das festas no interior. Quando cheguei na adolescência, percebi que não tinha ninguém do meu interesse nos lugares que tocava sertanejo. Além de machista, era homofóbico e absolutamente cisnormativo.

Nesse momento, tive que me afastar do sertanejo e logo em seguida, com minha mudança para São Paulo, cortei de vez relações com o estilo. Todo mundo achava ‘brega’ cantar sertanejo e, apenas dez anos depois, mudaríamos completamente nosso conceito sobre como ser brega é positivo. 

GB: Em 2019, você e Gabeu fundaram um projeto LGBTQIA+ chamado “Fivela Fest”, onde surge o queernejo. De lá pra cá, já vimos outros nomes aparecendo nesse segmento. Como você avalia esse aumento?

Gali Galó: Quando vi o Gabeu pela primeira vez na internet, entendi que não estava só. Quando nos conhecemos pessoalmente durante a ‘Semana Internacional da Música’ (SIM São Paulo) em 2018, eu já cheguei propondo sermos sócios (risos). Cheguei com adesivo do ‘Fivela Fest’ com a intenção de já panfletar na feira e lancei para ele: ‘Bora lançar o primeiro festival Queernejo do Brasil juntos?’. Ele disse imediatamente “bora!”. 

Os outros artistas já existiam, com exceção da dupla Mel & Kaleb, que surgiu inclusive POR CAUSA do festival. Tem um monte de gente espalhada por esse Brasil fazendo Queernejo, só precisamos identificá-las.

GB: Como é a aceitação do queernejo por parte da comunidade LGBTQIA+? Há alguma resistência, já que, historicamente, o sertanejo é ligado a uma cultura machista e preconceituosa?

Gali Galó: Acredito que depois do Feminejo muita coisa mudou na percepção das pessoas sobre o sertanejo. Ali, naquele começo, alguns padrões já vinham sendo quebrados através daquela nova narrativa.

A meu ver, o conceito de ‘música boa’ também mudou. É como eu disse, antes todo mundo achava ‘brega’ e agora descobrimos que ser brega é cool! Fora que no Queernejo acrescentamos elementos do Pop e de qualquer outro gênero musical sugerido. Por esses motivos, vejo o mercado LGBTIQA+ aberto para nós...

Gali Galó (Foto: Mah Matias)

GB:  E como é aceitação dos artistas sertanejos tradicionais? O queernejo foi bem recebido?

Gali Galó: Pois é, aí é outra história. Afinal, qual seria o interesse deles nos abraçarem já que somos artistas da cena independente, não é mesmo? O Feminejo já nasceu no mainstream. Nós estamos aqui lutando pra chegar primeiro no Midstream. Não há nem 1% da grana que eles investem no próprio produto. Ou seja, na cabeça deles, eles teriam mais a oferecer do que receber com essa parceria. E como estamos falando de capitalismo… vocês já sabem… Fora que somos LGBTQIA+, é claro.
 
GB:  Já houve alguma tentativa de deslegitimação do queernejo por parte do movimento sertanejo tradicional?

Acho que o fato de não termos estrutura para chegar nem no Midstream diz muita coisa...
 
GB: Você se identifica como uma pessoa não binárie e utiliza pronomes neutros. Já pensou em trabalhar com essa linguagem em alguma música?

Gali Galó: Sou uma pessoa não binárie transmasculina e prefiro os pronomes masculinos e neutros. Lembrando que nem toda pessoa não binárie vai sempre preferir pronomes neutros. Dito isso, sim! Vivo pensando nisso e exercitando nas letras da forma mais natural possível. No meu primeiro disco que vem aí, eu evito o uso de pronomes, por exemplo. A neutralidade da língua também está nesse entendimento.

O engraçado que no disco tem todos os pronomes: masculino, neutro e até mesmo o feminino, como é o caso da faixa ‘Caminhoneira’, onde canto minha vivência sapatônica. É aquela história, a língua é viva!


GB: Apesar de ser um segmento muito novo, quais são as duas referências dentro do queernejo? E fora dele?

Gali Galó: No queernejo, Gabeu e Alice Marcone. Ambos são muito consistentes e coerentes em suas obras. Fora dele, Sydney Magal e Johnny Cash, porque os dois juntos são exatamente a mistura que busco na performance e no mood de Gali Galó.

GB:  Quais são os seus projetos para 2022? Podemos esperar mais músicas de Gali Galó?

Gali Galó: Vem aí um novo single/clipe de trabalho do disco e, logo em seguida, o próprio disco de estreia! Também tem projeto novo do Fivela (PRESENCIAL!), eventos com formatos inusitados e muito pé na estrada!

GB: Este ano temos eleições e atualmente vivemos um dos governos mais LGBTfóbicos que existiu no Brasil. Como você avalia a gestão Bolsonaro, principalmente em relação a comunidade LGBTQIA+?

Gali Galó: Bolsonaro? Um grande dum fiasco, pra não dizer catastrófico. Quem é LGBTQIA+ no Brasil e tem discernimento, é Lula 2022!

Gali Galó (Foto: Reprodução/ Facebook)



Junte-se à nossa comunidade

Mais de 20 milhões de homens gays e bissexuais no mundo inteiro usam o aplicativo SCRUFF para fazer amizades e marcar encontros. Saiba quais são melhores festas, festivais eventos e paradas LGBTQIA+ na aba "Explorar" do app. Seja um embaixador do SCRUFF Venture e ajude com dicas os visitantes da sua cidade. E sim, desfrute de mais de 30 recursos extras com o SCRUFF Pro. Faça download gratuito do SCRUFF aqui.

Jornalista gaúcho formado na Universidade Franciscana (UFN) e Especialista em Estudos de Gênero pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM)