GAY BLOG BR by SCRUFF

Zeca Prudente nasceu no interior de São Paulo e se mudou para a capital em 1984, aos 19 anos, com desejo era seguir a carreira de ator. Estudou em um grupo de teatro amador onde, através de um amigo, conheceu a boate NostroMondo e decidiu que queria trabalhar lá. No início, trabalhou como barman, depois foi camareiro das estrelas da boate. Tempos depois, quando decidiu deixar a casa noturna, a Condessa Mônica (proprietária) ofereceu-lhe uma vaga de auxiliar de DJ, que na época se chamava maestro ou sonoplasta.

Meses depois, Prudente se tornou o DJ principal da casa, atuando exclusivamente durante 11 anos na Nostro. Na década de noventa, trabalhou também nas boates Sky e Studio 720, encerrando sua carreira nas pick-ups já nos anos 2000. Atualmente, Zeca Prudente se dedica como ator, produtor, diretor, e preparador de elenco, além de ser dono da ZP Atores em São Paulo.

foto Zeca Prudente - crédito: acervo pessoal
Zeca Prudente – crédito: acervo pessoal

Nos anos 1980, você foi DJ exclusivo da boate Nostro Mondo, como era a boate na época?

Comecei como dj principal no começo de 1985. Nunca tive a intenção de ser DJ, mas aconteceu, o público começou a gostar do meu trabalho, tinha um diferencial dos outros DJs da época, não tocava apenas o que eu gostava, tocava muita música que eu detestava, mas que o povo curtia. Foi assim que comecei a ficar conhecido e comecei a ganhar troféus, que foram 11 durante a minha carreira. Na época, o Hugo Lima que era gerente viu o sucesso que fazia e pediu para eu ser exclusivo. Como tinha muita inflação na época, ele me pagava em dólar. A boate abria de quarta a domingo, e o público era de jovens gays que estavam começando. Aos domingos tinha a matinê, que começava às 16h e ia até à meia-noite. Era um sucesso, o público chegava a mil pessoas por domingo e de todas as classes sociais.

E como era ser DJ numa época sem pendrive?

Nós tínhamos que saber tocar e mixar as músicas, tudo era vinil. E para editar uma música usávamos o cassete de rolo, que ninguém sabe o que é hoje em dia, onde usávamos um estilete em uma base de metal que custava uma fortuna na época, e que se chamava editor, onde cortávamos as músicas no cassete de rolo em diagonal para depois emenda-las, você tinha que ser bom, nós conseguíamos fazer um remix com isso (risos).

Histórias da NostroMondo e das boates LGBTs dos anos 80 serão contadas em livro Zeca Prudente - crédito: acervo pessoal
Zeca Prudente – crédito: acervo pessoal

Quais as músicas que bombavam?

Em 1982, havia acabado a fase da discoteca, começaram a surgir grupos que na época eram modernos, como B52, DEVO, Fred Schneider na fase New wave. Depois Madonna, Tina Turner, Cyndi Lauper e outros. Tinha também o rock pop nacional que fazia muito sucesso: RPM, Metrô, Paralamas do sucesso etc. Depois a fase dark com The Smiths, Siouxsie and The Banshee… E os eletrônicos da época, New Order, Erasure e Pet Shop Boys. Em 1986, a Whitney Houston explodiu com o primeiro single e chegou o house music, sempre com cantoras maravilhosas. Apareceu também o estilo Miami, com Company B, Noel, um pouco depois Rick Astley, Kylie Minogue e muitos outros. E vinha da Europa o Italian Style. Foi uma miscelânea de estilos, que foi maravilhosa, músicas que tocam até hoje e que os jovens conhecem.

Curiosidade: Quando estava na Alemanha nos anos 1980, Prudente foi em uma loja de música, e descobriu por acaso o grupo Technotronic  (Pump Up The Jam), e trouxe o single para o Brasil que fez um grande sucesso na noite e nas rádios.

Histórias da NostroMondo e das boates LGBTs dos anos 80 serão contadas em livro
Histórias da NostroMondo e das boates LGBTs dos anos 80 serão contadas em livro – Acervo Pessoal

Você se recorda de alguma história curiosa que tenha ocorrido na Nostro Mondo?

São tantas (risos). Todos os anos, em maio tinha a festa do preto e branco, onde os artistas da TV iam receber o troféu Charles Chaplin. Era um acontecimento e, uma certa vez, foi a Wanderleia receber. Eles ficavam em uma sala reservada, na parte de baixo da boate. Ela tinha lançado um LP de remixes e eu falei para o Darby Daniel, que era o produtor da festa e também levava os artistas, que queria conhecê-la e pedi para ela autografar o disco. Desci com o disco na mão e ela estava sentada em um sofá junto à Patrícia Travassos. Quando comecei a falar que era fã desde criança, o Darby me empurrou e eu cai em cima dela e da Patrícia. Ela ficou p. da vida e eu morrendo de vergonha. Hoje eu acho engraçado (risos).

Além da Nostro Mondo, em quais outras casas noturnas LGBT+ você trabalhou? E quais eram as suas preferidas?

Depois que saí do Nostro, fui para a Boate Skay, que era uma boate de meninas, para ganhar o dobro. Por isso que fui. Era para eu ter inaugurado o Corintho, não quis ir. E também a Gents, recusei. Tirando o Nostromondo, gostava demais da boate Homo sapiens (HS), que eu ia sempre. Ia muito na Prohibidu’s, a Andréa de Mayo gostava muito de mim e ficamos muito amigos. Fui à inauguração do Madame Satã. Foi uma loucura, me lembro até hoje que estava dançando e alguém deixou cair uma garrafa de cerveja e ela quebrou, tinha um cara do meu lado muito louco dançando e se rastejando pelo chão, ele passava por cima dos cacos de vidro e estava com as costas cheias de sangue e nem estava preocupado, fiquei horrorizado! Era muita loucura esses anos 1980 (risos).

Histórias da NostroMondo e das boates LGBTs dos anos 80 serão contadas em livro
Histórias da NostroMondo e das boates LGBTs dos anos 80 serão contadas em livro – Acervo pessoal
foto Zeca Prudente - crédito: acervo pessoal
Zeca Prudente em abril de 1986 – crédito: acervo pessoal

Acha que a geração Millennial curte a noite tanto quanto a galera dos anos 80/90 curtiu? Como você avalia a noite, de modo geral, da atualidade?

A cena LGBTQI+ de São Paulo já não é a mesma. Hoje são poucas boates, que nos anos 80/90 eram umas 10 ou 12, que empregavam artistas, bailarinos, DJs, cenógrafos, diretores… todas tinham uma equipe grande, não faltava trabalho. Hoje, temos mais bares e poucas boates espalhados pela cidade, e também a Vieira de Carvalho, que é um lugar lindo do centro, mas infestada de gangues de assaltantes. Essa geração de hoje tem tudo o que nós não tivemos, poderiam aproveitar as oportunidades melhor, gosto muito dos jovens, porque também fui um dia. E não ficar apenas atrás de uma tela de computador e ver que nós que envelhecemos e estamos vivos. Fomos nós que começamos a trilhar o caminho para essa geração que não suporta velho. Eu já fui xingado várias vezes em rede sociais, envelhecer é uma dádiva, poucos vão saber o que é. Tenho um filho de 30 anos que é o meu melhor amigo e os amigos dele adoram quando saio junto para conversar e tomar umas, muito bom essa troca.

Como era ser gay nos anos 1980?

Os anos 80 foram muito importantes para a comunidade LGBTQI+, pois foi o fim da ditadura e começou um sentimento de libertação. As boates se multiplicaram, bares, saunas, teatro com temática gay, tudo era novo e maravilhoso, as roupas, as músicas, era muita alegria. Mas apareceu a AIDS e o preconceito contra os gays só aumentou. A polícia continuava a bater em qualquer gay, lésbica ou travesti. Achava no direito de espancar e, às vezes, até a morte. Nós não tínhamos ninguém e nem leis para nos defender. Se você fosse a uma delegacia para prestar queixa, era preso e jogado na cela com os presos para apanhar e ser estuprado. Mas sobrevivemos com as nossas conquistas, alegria e cultura.

foto
Zeca Prudente – crédito: acervo pessoal

Atualmente você trabalha preparando jovens que tem a intenção de seguir a carreira artística.

Sou formado em artes cênicas há 25 anos, fiz muita coisa em teatro, séries e publicidade. Comecei a dar aulas de teatro há 17 anos, sempre gostei de ensinar, mas como o mercado de TV a cabo cresceu muito aqui no Brasil e faltavam atores de todas as faixas etárias para trabalhar, comecei a ministrar aulas para cinema e TV, mais uma preparação para quem quiser realmente entrar nesse mercado. Hoje as aulas são online, mas é o único curso de São Paulo que é individual, são 40 minutos aula por aluno. Graças a Deus está dando certo e, mesmo com a pandemia, os alunos estão pegando trabalhos.

foto
Zeca Prudente – crédito: acervo pessoal

E você está escrevendo um livro sobre a cena LGBT+ paulistana do passado.

O livro, por enquanto, vai se chamar: “MostroMondo, a Verdadeira História”, onde vou contar tudo o que vivi nesses anos, não apenas da boate NostroMondo e, sim de toda a cena LGBTQI+, dos artistas que faziam acontecer, da Condessa Mônica que foi a primeira Travesti empresária do Brasil, das boates e de tudo que nos aconteceu. E também é uma grande homenagem a todos os artistas que fizeram a noite de São Paulo ser uma das maiores do mundo. Provável lançamento, em janeiro de 2022, ainda estou terminado as entrevistas que são muitas, e também fazendo pesquisas dos artistas que se foram. Se tudo der certo, farei um documentário com as artistas que estão no livro.

Para acompanhar Zeca Prudente nas redes sociais:

https://www.instagram.com/zecaprudente/
https://www.facebook.com/zpatores/

Junte-se à nossa comunidade

O app SCRUFF está disponibilizando gratuitamente a assinatura PRO no Brasil, com todas as funcionalidades premium. Seja Embaixador SCRUFF Venture para ajudar os LGBTs que estão visitando sua cidade. Tenha uma agenda atualizada das melhores festas, paradas, festivais e eventos. São mais de 15 milhões de usuários no mundo todo; baixe o app SCRUFF diretamente deste link.