GAY BLOG BR by SCRUFF

Referência no mundo da moda masculina, Kadu Dantas foi pioneiro na América Latina com um blog de “look do dia”, criado em 2012, que trazia dicas de roupas, marcas e novidades do mercado. Passados 10 anos do “Blog do Kadu”, a maneira de se produzir conteúdo na internet, principalmente relacionado a moda, mudou bastante. Hoje ele é o único brasileiro a entrar na lista “Top 25 Men’s Style Instagram Accounts”, onde possui mais de 300 mil seguidores.

(Foto: Reprodução)

Formado em jornalismo, Kadu acompanhou toda a evolução da moda nesse período e os modos de consumo do homem moderno. Presença confirmada em todos os desfiles de moda internacional, ele é considerado um dos principais influenciadores do segmento pela Women ‘s Wear Daily.

Mas quando se trata de moda masculina no Brasil, o jornalista diz que é uma conversa difícil com os homens brasileiros. “[…] Não temos cultura de moda masculina. […] Isso impede que a moda masculina seja vista amplamente e valorizada, pois mesmo que as marcas tentem, ousadia não se vende por aqui com facilidade”, pontua.

(Foto: Reprodução/ Instagram)

O jornalista e empresário entende e acompanha os movimentos da moda no Brasil e mundo afora, assim como a evolução que marcas de grife têm passado nos últimos anos. Com o faro apurado para as tendências de consumo, Kadu lançou recentemente uma collab unissex, desenvolvendo estampas e modelagens sem gênero.

Em entrevista do GAY BLOG BR, o influenciador digital fala sobre suas percepções da moda masculina no Brasil, os desafios da produção de conteúdo, moda sem gênero, moda sustentável e preconceito.

Kadu Dantas para a Jean Paul Gaultier (Foto: Reprodução/ Instagram)

GB: Você começou em 2012 e de lá pra cá surgiram vários outros influencers. Como se destacar em um meio tão grande e competitivo como esse dos influencers digitais de moda? Quais você admira hoje em dia?

Kadu Dantas: Esse ano completo 10 anos de moda masculina. Quando comecei, fui pioneiro na América Latina com um blog de look do dia voltado para o público masculino. Acabei virando uma referência no assunto e fico feliz em ouvir as pessoas me falarem que eu tenho inspirado essa nova geração na produção de conteúdo, sobretudo também no olhar do mercado de moda. Acho que esse é o motivo pelo qual eu continuo tendo esse reconhecimento. Meu trabalho é coerente, possui bastante personalidade e muito compromisso. A consequência é o respeito do mercado e feedback maneira positiva. Tem muitos que gosto bastante, como o João Guilherme, Juan Guedes, João Freire, Felipe Escudero, Matthew Zorpas e por aí vai…

GB: Qual a principal diferença da moda no Brasil para o resto do mundo? O brasileiro, de modo geral, se veste bem?

Kadu Dantas: A principal diferença é que no Brasil não temos cultura de moda masculina. Além disso, é um país muito machista e patriarcal. Isso impede que a moda masculina seja vista amplamente e valorizada, pois mesmo que as marcas tentem, ousadia não se vende por aqui com facilidade. Na minha experiência trabalhando com moda, sinto que as pessoas ficam com receio de ousar e apostar em peças ou looks que sejam diferentes por medo do que o tradicionalismo vai dizer, seja na esfera dos amigos, trabalho ou família. Falar com o homem no Brasil sobre moda é uma das tarefas mais difíceis que existe.

(Foto: Reprodução/ Instagram)

GB: Já sofreu preconceito no Brasil por ser um homem gay trabalhando com moda?

Kadu Dantas: Preconceito dentro do universo da moda, como um homem gay exercendo o meu ofício, nunca sofri, porque, inclusive, a moda acolhe bem a comunidade LGBTQIA+. Óbvio que pode sempre melhorar, mas eu sinto que é esse ambiente acolhedor. Mas em outras experiências que tive com marcas automobilísticas, por exemplo, não senti que a abertura foi tão grande. No início, lá em 2012, era difícil conseguir trabalhar com este segmento, já que eles não queriam se associar ao universo LGBTQIA+. Mas hoje percebo que este cenário já mudou bastante.

GB: Você lançou uma coleção de peças sem gênero com a estilista Patricia Bonaldi e esse é um estilo que muitos famosos também começaram a aderir, como forma de romper barreiras. Pretende continuar nesse ramo da criação e criar mais coleções desse tipo?

Kadu Dantas: Nossa coleção foi um sucesso. De todas as collabs da PatBo, a minha foi a mais bem vendida num curto espaço de tempo. A ideia era justamente mostrar que a roupa não tem gênero, quem cria isso são as pessoas. Eu adoro fazer esse tipo de trabalho com as marcas, e espero que mais collabs venham por aí.

Kadu Dantas e Patricia Bonaldi lançaram coleção sem gênero para a marca PatBO (Foto: Leo Faria/ Divulgação) 

GB: Muitas pessoas também passaram a aderir a moda sustentável, que questiona processos de produção, ligado a um consumo consciente. Qual a sua opinião? Também adere a esse pensamento?

Kadu Dantas: É fundamental pensar na moda sustentável e no consumo consciente. Alternativas como upcycling, moda circular e uso de matérias primas que respeitem o meio ambiente são urgentes. Porém, penso que ainda devemos encontrar uma solução para uma moda que consiga ser reabsorvida pelo planeta.

GB: Seu primeiro casamento foi amplamente divulgado nas mídias, isso em tempos difíceis. Para você isso foi também uma espécie de ativismo, diante da atual conjuntura?

Kadu Dantas: Bom, já sou casado pela segunda vez. Mas meu primeiro casamento foi, de fato, um dos eventos com grande visibilidade e proporção no Brasil, até mesmo para a época, onde não era como hoje, onde vemos com muito mais frequência pessoas da comunidade LGBTQIA+ se casando. final de semana num hotel no interior de São Paulo para 550 convidados. Como você disse, ele foi amplamente divulgado e, quando pensamos em casar, eu não tinha ideia da responsabilidade que viria junto com o casamento. No processo de organização, criei uma web série no YouTube chamada “Putz, Casei”, onde mostro como foi essa aventura. Ali, comecei a entender que o meu casamento era um ato de amor, resistência, política e ativismo. Me dei conta de como esse momento estava inspirando – e ainda inspira, pessoas LGBTQIA+ que vivem, por exemplo, no interior do Brasil e que sonham em ter essa liberdade de poder casar com quem realmente ama, de se assumir, de ser feliz de fato. Recebia inúmeras mensagens de pessoas de todo o país emocionadas.

Atualmente Kadu é casado com Peter Zawel, com quem mantém um marca própria de pasta de amendoim, a Nutty Friends, disponível em mais de 100 lojas para quem busca um produto saudável e nutritivo (Foto: Reprodução/ Instagram)

GB: Como você avalia o Brasil sob Bolsonaro?

Kadu Dantas: Péssimo! Eu realmente sou completamente contra esse desgoverno caótico e tão prejudicial para o Brasil. É um presidente que prega um discurso de ódio contra a comunidade LGBTQIA+, promove o desmonte e desvalorização da cultura, bem como a desvalorização das pautas que envolvem o universo de gênero e sexualidade. Ter esse assunto reverberando proporciona uma desconstrução de posturas opressivas e o resultado pode ser uma sociedade mais justa e igualitária. Esse ano tem eleições e estou muito confiante que iremos virar esse jogo.

(Foto: Reprodução/ Instagram)



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Jornalista gaúcho formado na Universidade Franciscana (UFN) e Especialista em Estudos de Gênero pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM)