A portuguesa Valéria Vanini é uma artista de renome, afinal, ela é a transformista mais antiga de Portugal ainda na ativa. Esbanjando trajes luxuosos e cantando em diversos lugares do mundo, Vanini é uma daquelas pessoas que a vida daria um livro; neste caso, um documentário. 

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São 50 anos de carreira de uma extensa trajetória que abrange toda a Europa, África e, claro, o Brasil, onde ela conheceu e trabalhou com a saudosa Rogéria. Nascida há 69 anos, quando o preconceito em Portugal era muito maior, ela teve que lidar ainda na infância com a homofobia do pai, muitas vezes alvo de agressões da figura paterna. Vanini também presenciou de perto o regime de Salazar, um período ditatorial tenso que durou décadas, sendo presa em diversas ocasiões simplesmente por estar com roupas femininas.

Reprodução: Valéria Vanini (esq)

De Portugal, ela ganhou o mundo, seguiu com as tropas militares para Moçambique, na África mas como Tony, em que ostentava uma beleza viril. Em Nampula (Moçambique) fez amizades e contatos que só impulsionaram a sua carreira artística nos palcos do mundo afora, vindo para o Brasil e conhecendo melhor a arte transformista carioca. 

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Atualmente, Tony Valério/Valéria Vanini vive no litoral da costa da Caparica, em um lugar belíssimo com várias praias pertinho de Lisboa e vive há dez anos seu casamento com um brasileiro. Diante de uma longa carreira nos palcos do mundo inteiro, agora o público terá a chance de conhecer um pouco mais de sua vida pessoal e profissional: Vanini será tema de um documentário que vai estrear ainda este ano e, entre tantos assuntos abordados, está a sua candidatura à presidência em Portugal em 2004, quando atraiu os holofotes da mídia europeia para a iniciativa inédita, cujo o objetivo era dar voz a causa LGBT+ no país.

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Você nasceu em Portugal em uma época em que o preconceito deveria ser muito grande, como você lidou com isso, principalmente em relação aos seus pais?

Apesar do preconceito ser enorme naquela época, eu fui conquistando aos poucos o respeito da sociedade, mostrando que ao me vestir de mulher estava a praticar uma arte. Em casa minha mãe aceitava perante minha orientação sexual e por isso apanhava quase todos os dias do meu pai por me defender. 

Quantos anos você tinha quando percebeu que era diferente dos outros meninos?

Com oito anos eu na escola já me sentia diferente dos meninos, adorava pentear os cabelos das bonecas e vestir as roupas da minha mãe.

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Você se recorda como foi a primeira vez que você se apresentou como transformista? 

Sim, foi no carnaval em 1969 num clube chamado Fófó. Foi aí que comecei a tomar gosto e todos me achavam uma miúda (menina/garota) engraçadinha.

E como eram esses shows? Pois naquela época Portugal vivia a ditadura de Salazar…

Os shows eram feitos com muito secretismo e mesmo assim fui preso várias vezes. E para que não tornasse visto como travesti na sociedade, tive que assinar (um termo) que estava sendo presa como prostituta.

Acervo pessoal

Durante ainda na ditadura Salazarista, você foi para Moçambique, na África. O que você foi fazer lá?

Na época do Salazar, éramos obrigados a ir pra guerra e fui para África. Lá eu era organizador de eventos das tropas e fui cantando nos mesmos eventos; e pelo sucesso fui chamado para outras festas, teatros e cabarés e conheci o balé brasileiro de Antuane Sarafim, que era famosíssimo na África. E desde então fiz parte dos espetáculos e conheci a mais famosa do balé, a travesti Belinda.

É verdade que em Moçambique você teve que fugir para o Brasil?

Sim, tivemos que fugir pois Moçambique estava em guerra pela independência e não pensei duas vezes e fui para o Brasil com o balé Antuane Sarafim.

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No Brasil, você teve uma vida bastante intensa e glamourosa no Rio de Janeiro, frequentou os bailes do Copacabana Palace, conheceu o carnavalesco Joãozinho Trinta e Rogéria. Como eram os shows de transformistas naquela época? Aliás, o seu nome artístico surgiu aqui no Brasil, não foi?

Sim, fui apresentado a muitos artistas famosos da época, mas trabalhar foi com a Rogéria. Eu passei a ser chamada de Valéria Vanini quando fui para o balé Antuane Sarafim e aí, no Brasil, que dei o meu nome. Era conhecida como “Valéria Vanini, uma trava portuguesa com certeza”

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Você fez shows com a Rogéria e Jane di Castro na Bélgica, Luxemburgo, Holanda e Portugal. Como era a vida noturna LGBT naquela época pré-AIDS?

Eu era já conhecido em Portugal por fazer shows na África e, quando cá cheguei do Brasil, tive que adaptar dois nomes: Tony Valério e Valéria Vanini, como cantor e transformista. E na Europa, as noites gay eram discretas e muitos tinham curiosidades para ver as atuações e a liberdade sexual foi aberta.

Nas décadas de 1980 e 1990, você trabalhou bastante no seu país e na Europa, inclusive como diretora artística da maior discoteca gay de Portugal, além de ter montado espetáculos musicais e ter gravado um CD. Mas você tinha interesse em política?

Eu queria chegar sempre ao topo para defender nossa causa e, na política, naquele momento, seria mais ainda possível abrir o assunto e abranger os direitos LGBT+. Cheguei a gravar 3 CDs e uma canção q se tornou o hino gay em Portugal, “Quero ser como sou”.

Como foi a repercussão no país? Afinal, uma drag queen como candidata à presidência em um país com uma forte raiz religiosa, não deve ter sido fácil.

Em 2004 já era mais aceito na sociedade e a ideia foi para chamar atenção dos políticos e assegurar nossos direitos. E com isso, já era possível fazermos protestos e pedir mais para comunidade LGBT+.

Acervo pessoal

Quantos votos você recebeu na época? E qual era a sua principal proposta como candidata a presidência?

Eu tive muito apoio de vários setores jornais, TVs, revistas e muitas assinaturas para concorrer, mas como o nome Valéria Vanini não tinha identidade, não foi possível e tive que desistir. E foi uma bomba de comentários e divulgações que fez chegar a muitos países da Europa.

Acervo pessoal

Você foi tema de um documentário, quando ele será lançado?

Este documentário será fabuloso para que todos possam conhecer a minha trajetória profissional, que foi sempre lutando e tentando dar voz para o mundo a comunidade LGBT+ e para que os direitos atuais fossem adquiridos. Este mês de setembro é mês de celebração, porque faço 69 anos de idade e 50 anos de carreira profissional. O documentário será lançado dia 15 de setembro.

Para acompanhar nas redes sociais:

Instagram: @valeriavaninidrag
Facebook: divavaleriavanini

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