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Aos 13 anos, disposto a “vencer na vida”, Júnior Barbosa (47) deixou a pequena cidade de Cedro (Ceará) rumo a São Paulo e, posteriormente, para o Rio de Janeiro. Dormiu na praia, em praças, passou fome, se prostituiu, foi camelô, vendeu de “quentinhas”, fez de tudo um pouco até se tornar um dos maiores empresários da noite gay carioca.

Há mais de 20 anos, Barbosa é proprietário de uma das saunas mais conhecidas do Rio de Janeiro – e única em Copacabana –, mas o caminho foi árduo. Sua casa de três andares é reduto de rapazes e visitantes de todas as partes do mundo, incluindo famosos.

Em um bate-papo com a redação do GAY BLOG BR, Barbosa relatou as dificuldades do passado e sua trajetória até se tornar um empresário de sucesso em seu segmento no Rio.

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Júnior Barbosa – crédito: Instagram
Você saiu do Ceará ainda adolescente para tentar a vida em São Paulo, como foi esse início?

Aos 13 anos, fui com uma tia para São Paulo em uma viagem que durou quase um mês, já que o ônibus quebrou “umas vinte vezes” no caminho, e não tínhamos dinheiro para comer. Minha mãe tinha feito uma lata de leite ‘Ninho’ com frango e farofa, que acabou azedando, mas devido à fome, eu acabei “criando coragem” e comi. Quando chegamos no Estado de MG, eu tive que ir para o hospital por conta de uma infecção intestinal. Aos 16 anos, eu fui para o RJ, tentei a vida de todas as formas, exceto “fazer mal a alguém”. Nunca trafiquei e nem nunca roubei, mas de resto fiz de tudo: fui camelô, vendia imóveis, alugava telefone.

A vida no Ceará era muito difícil…

Era, pois vim de uma família humilde, e éramos em seis irmãos. O sonho de todo nordestino é morar em São Paulo, só que quando cheguei, passei perrengue pior do que no Ceará. Quando cheguei, morei na casa de uma tia. Sofri humilhação e descaso. E comecei a trabalhar com tudo que aparecia: fui balconista, faxineiro, passei roupa nas confecções do Brás etc.

E chegando ao Rio de Janeiro, como foi?

Eu acabei me envolvendo com a prostituição na Avenida São Luís e um agenciador perguntou se eu não queria ir para casa de uma amiga dele, travesti, no Rio de Janeiro. Na época eu não sabia o que era uma travesti. E vim para o Rio, morando no Baratão 200 [edifício na rua Barata Ribeiro com 507 apartamentos onde, no passado, ficou famoso por aparecer na televisão em programas de investigações policiais]. Acabei sendo explorado por ela também, e eu era quase um “escravo”. Comecei a trabalhar para pagar o aluguel dela e todos os seus gastos. Além disso, ela quase não me deixava sair do apartamento e eu ainda dormia no chão. Foram só três meses, mas de intenso sofrimento.

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Júnior Barbosa – crédito: Instagram

E como você conseguiu fugir dessa situação que você estava sendo submetido?

Eu conheci um homem na boate “Incontru’s” (extinta casa noturna gay em Copacabana) e decidi viver com ele. Esse rapaz foi ao apartamento com um policial pegar minhas coisas comigo. Só que a travesti, revoltada,  jogou uma garrafa que acabou quebrando na parede e foi uma grande confusão, mas acabamos conseguindo sair de lá com as poucas coisas que eu tinha. O problema é que esse homem também era problemático e tinha transtornos psíquicos, algo que vim saber posteriormente quando soube que ele tinha uma carteirinha do [hospital psiquiátrico] Pinel. Então, comecei a ajudar os camelôs de Copacabana, montando barracas, carregando mercadoria, barracas de praia e, depois, fui vender as mercadorias deles. Nessa época eu dormia na rua com uma mochila de colégio. Eu não tinha opção, já que eu não ia voltar para o Ceará, então decidi que tinha que enfrentar essa vida. Isso foi uma “cruz” que Deus me deu para eu me reerguer.

E quando a vida começou a melhorar para você de fato?

Foi quando comecei a vender “quentinha”, roupas e outras coisas que me davam um dinheiro o suficiente para me sustentar. Nesta época, conheci um homem que foi ótimo para mim, me deu bastante força, e chegou a alugar um apartamento pra mim. Eu acordava as 4h30 todos os dias, sem hora para terminar, mas foi um ótimo período de ascensão.

E como você se tornou um empresário da noite gay carioca?

Aos 19 anos, eu já estava mais estabilizado e tinha conquistado um bar em Copacabana. Nessa época, havia uma sauna chamada “Roger’s”, mas para trabalhar lá, eles exigiram o “teste do sofá”, algo que recusei, mas fiquei com a ideia de abrir uma sauna própria. Resolvi vender o bar e abrir uma sauna, mas tinha mais um desafio: tecnicamente eu não poderia abrir sauna em Copacabana por conta da máfia. Mesmo assim eu abri, e se iniciaram as ameaças. Chegou uma época que eu andava com quatro seguranças e o carro blindado.

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Point 202 – crédito: Instagram
Como lidou com as ameaças?

Tive medo, mas nunca desisti. Vinha bilhetes e telefonemas constantemente. Uma vez puseram um despacho [oferenda ritualística religiosa] na porta da sauna. Eu não desejo o mal nem para quem deseja para mim. Deus está vendo tudo e existe a lei do retorno. Você é aquilo que você planta, vive e mentaliza.

E com o sucesso, você abriu uma segunda sauna…

Rompi a “bolha” em Copa, e ainda sou o único no bairro neste segmento. Em 2002, abri outra sauna (Point 202) e fiquei com duas, e depois fechei a primeira, porque elas eram próximas. O sucesso foi imediato. Tinha fila para entrar e, em poucos dias, as pessoas estavam precisando ligar para reservar armário. Eu vi o potencial da sauna de boys que talvez uma sauna comum não tivesse, e foi por isso que eu quis ir para esse lado. Como já tinha sido acompanhante, eu tinha noção do que era melhor.

Você foi um dos primeiros a levar drag queens para fazer shows em saunas?

Fui eu quem trouxe os shows de drag das boates para a sauna. Eu tinha ido a uma boate em Copacababa e vi um monte de clientes da sauna lá vendo os shows, sendo a hora que eu percebi que levar as drags para as saunas também seria um sucesso. As outras [saunas] começaram a fazer isso também. O que é bom é copiado né? E aumentou o campo de trabalho para elas.

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Júnior Barbosa – Crédito: Instagram
E famosos também frequentam a sauna?

Muitos famosos do mundo inteiro vêm aqui. Rogéria , por exemplo, era minha amiga e ia muito. Foi particularmente triste “sua partida”, pois era uma pessoa muito querida e sábia.

Como é a sua relação com os acompanhantes que frequentam a sua sauna?

Uma mescla de amigo e conselheiro, mas a minha postura é sempre de respeito. Primeiro vem o lado profissional e depois o conselheiro, sou muito conselheiro. São jovens que não tem “visão de nada”, e procuro ser sensato e dar razão para quem estiver certo, podendo ser o acompanhante ou o cliente. Trato todos iguais.

Já se apaixonou por um acompanhante?

Já namorei um que durou 2 anos, e depois um outro que durou menos tempo.

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Júnior Barbosa e strippers- crédito: Instagram
Você foi casado com mulher e tem um filho…

Fui casado no passado. Tenho um filho de 21 anos e três netos. Fui pai cedo e foi um casamento duradouro. Hoje, minha ex-esposa é minha melhor amiga.

Você é tem o corpo atlético (100 kg e 1,79m) e tem aparência jovial, já foi confundido com acompanhante?

Sempre sou confundido com boy, é normal. Eu digo: “Estou aqui pra tudo, menos pra isso” (risos). Eu adoro treinar na academia.

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Júnior Barbosa – Crédito: Instagram
Olhando para trás, o que as dificuldades do passado te ensinaram?

As dificuldades me ensinaram a valorizar a vida e, principalmente, ter caráter. Continuo sendo uma pessoa muito simples, e por dentro, sou o mesmo homem que dormia na rua e que passou fome. Hoje sou um homem realizado em todos os sentidos que você possa imaginar.




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