No passado, o cearense João Vital era uma pessoa amargurada, vivia de mau humor, sempre na defensiva. Na verdade, Vital estava cansado de ser atacado pelas pessoas, cansado do bullying que partia não somente das crianças mas também dos adultos.

Aos 14 anos, começou os primeiros sinais do vitiligo, que logo se espalharam pelo corpo do estudante. Em uma idade em que tentamos fazer parte de algum grupo sob a pressão de um padrão de beleza imposto pela sociedade e mídia, Vital se sentia como um estranho no ninho.

O ápice desse conflito veio quando ele quebrou todos os espelhos que havia em casa, insatisfeito com a sua imagem. Passado essa fase conturbada, hoje, aos 25 anos, João Vital vive em harmonia com o seu próprio “eu”, sem sem preocupar em seguir nenhum padrão estético, está em paz com a sua aparência, mais do que se aceitar, ele aprendeu a se amar.

Como é viver no interior do Ceará sendo gay? O preconceito ainda é muito grande? 

Aqui em Orós é tranquilo, tenho bastante liberdade para expressar minha sexualidade tranquilamente. É claro que muita coisa ainda é um tabu, mas não enfrentamos os mesmos problemas de uma cidade grande. 

Em Orós não existe muito preconceito, a gente é socialmente bem aceito e não rola muita dessa exclusão que as pessoas vivenciam em lugares maiores. Atualmente surgiu um problema com um pastor bolsonarista que insiste em buscar motivos para nos atacar, mas já estamos tomando as providências e ele também não tem essa influência que pensa. No mais, eu diria que o preconceito aqui é mínimo. Prova disso é que a cidade para totalmente no dia do “bloco das virgens”. O bloco aqui acontece por causa da gente e para a gente!

O vitiligo surgiu quando você tinha 14 anos, você sabe qual foi a causa?  

Na época, em uma das consultas com um dermatologista ele atribuiu a causa do meu vitiligo a estresse emocional juntamente com o hipotiroidismo subclínico.

Por que você optou por recusar o tratamento quando te ofereceram? Você disse algo como “quero ser diferente”?

Na verdade o que me causa incômodo são as pessoas me oferecerem tratamentos sem terem a delicadeza de me perguntar se tenho interesse. No início eu até iniciei um tratamento, mas era muito caro e o progresso era lento. Preferi optar por não dar continuidade e acho que vem daí essa “ideia” de ser diferente, entende?

É verdade que houve um momento na sua vida que você quebrou todos os espelhos de casa porque não queria ver a sua imagem? O que de fato aconteceu que te motivou a esse ato? 

Sim, é verdade. Não era algo do tipo de eu me olhar e já quebrar o espelho. Eu me olhava, começava a buscar defeitos e no meio disso tudo me ocorria um ataque de raiva momentânea e eu acabava por quebrar o espelho. Eu não entendia muito bem de onde vinha essa raiva, na época, mas depois de algum tempo passei a perceber que era reflexo da raiva que eu sentia das pessoas não saberem lidar com isso e, consequentemente, eu absorvia essa raiva e criava certos problemas com meu corpo, minha imagem.

João Vital - Reprodução
João Vital – Reprodução

Você teve que encarar o vitiligo no ápice da adolescência, uma fase que costuma ser conturbada para qualquer jovem, com oscilações de autoestima inclusive. Como foi lidar com isso? 

Lidar com mudanças já é algo complicado e lidar com as coisas que eu estava lidando no meio da adolescência foi um processo enorme de desgaste mental. Já era muito difícil eu ir aceitando as mudanças no meu corpo devido ao vitiligo e ter que ouvir comentários, piadas sem graças e vários tipos e agressões verbais só contribuiu para que esse processo fosse mais difícil. 

Eu demorei anos para entender o que eu estava passando e compreender que aquilo fazia parte da minha vida. Em alguns momentos eu tive que buscar saídas ou distrações para que o foco na minha vida não fosse somente aquele. No final das contas, eu comecei a trabalhar melhor as questões com o meu corpo e tentar mudar o que dava para mudar, aceitar o que eu não podia mudar e no lugar de buscar por defeitos no meu corpo, passei a apreciar as qualidades que eu tenho. Enfim, é meio difícil pra mim colocar em palavras porque sempre soa meio confuso, mas espero que consiga entender o que estou querendo dizer.

E na escola como era? Ocorria o bullying? 

Ambiente escolar sempre é tóxico, sobretudo quando você está passando por mudanças estéticas tão marcantes como a minha. Parte da minha dificuldade de saber lidar com isso veio do meu ambiente escolar. As pessoas eram tóxicas, me apelidavam dos maiores absurdos possíveis com relação ao vitiligo porque sabiam que era algo que ainda me afetava. O bullying existia dentro e fora da escola, muitas vezes até por parte de adultos. Foi daí que eu me acostumei a viver com a raiva, a estar sempre armado, na defensiva. A verdade é que se você não sofria bullying, você era a pessoa que praticava. 

João Vital - Reprodução
João Vital – Reprodução

Houve um momento na sua vida que você buscou ajuda psicológica, você notou sinais de depressão? 

O maior motivo de eu ter buscado ajuda psicológica foi por não aguentar mais viver com raiva. Se tornou mentalmente insustentável ser sempre uma pessoa raivosa e descontar essa raiva no mundo. Eu estava perdendo meus amigos e afastando meus familiares por não conseguir mais lidar com a raiva e não encontrar um meio de externalizar aqueles sentimentos sem ferir as pessoas. Na época eu não fui diagnosticado com depressão, esse diagnóstico se tornou real muito tempo depois, mas por motivos que não possuem ligação com o vitiligo.  

Superado a adolescência e também qualquer neura em relação ao vitiligo, como é a sua vida social hoje? 

Eu diria que minha vida social é tranquila. Admito que tenho certa dificuldades de lidar com pessoas, não tenho muita paciências e tenho problemas de gostar de alguém logo de cara. Lido tranquilamente com a questão do vitiligo e do meu corpo. Claro, tento passar essa tranquilidade para que, de certa forma, outras pessoas consigam superar esses mesmos obstáculos. 

João Vital - Reprodução
João Vital – Reprodução

Você usa aplicativos de paquera? (Caso sim) O que acha deles? Como têm sido os seus encontros? 

Uso o Grindr e, às vezes, o Tinder. É um ambiente bem tóxico. Os padrões de beleza, estética e heteronormatividade dominam esses apps. Existe uma grande cobrança para performar masculinidade e qualquer um que fuja disso é ligeiramente excluído. Meus encontros são raríssimos. A maioria dos caras que entram em contato comigo é para sanar suas curiosidades sobre o vitiligo e os lugares que ele atinge, fora aqueles que estão focados em realizar o “fetiche” que possuem por pessoas com vitiligo.  

Vivemos numa sociedade que infelizmente ainda valoriza muito um determinado padrão de beleza. Em algum momento de sua vida você sentiu essa pressão em busca do padrão de beleza ideal vivido por gays e mulheres? 

Eu vivencio isso até hoje, confesso que por algum tempo eu até tentei me encaixar nesses padrões, mas hoje tento nadar contra essa corrente. O modo que nos forçam a seguir esses padrões é tóxico, cruel. É como se você só fosse humano, fosse real, se estiver vivenciando e alimentando esse padrão. Sou feliz por ter encontrado forças para não sucumbir a essa cobrança, e espero que as pessoas consigam fazer o mesmo.

João Vital - Reprodução
João Vital – Reprodução

E como você enxerga a comunidade LGBTQ+ em relação a esse padrão que falamos anteriormente? O culto ao corpo por exemplo.

Eu acho patético. Isso é muito intenso dentro da nossa comunidade. Você só é passível de ser desejado se for dotado, ter um corpo malhado aquele rosto típico do “modelo americano”. Se você é gordo, não presta. Negro, só se seguir o padrão Michael B. Jordan. 

É até engraçado porque esses dias estava conversando sobre “Legendary” com um amigo do Facebook e de algum modo começamos a falar sobre esses padrões de beleza. Ele é um homem gay, negro e completamente dentro desse padrão malhado. 

Um dos argumentos que ele usou para defender essa busca por esse tipo ideal de beleza foi que as bichas afeminadas estão se “infiltrando” no mundo padrão, estão conquistando e revolucionando esses espaços. Sinceramente, eu não vejo uma revolução nisso. Não faz sentido chamar de revolução a busca para se encaixar em um padrão que antes te rejeitava. As pessoas que buscam esses padrões o fazem por cobrança do meio e porque elas buscam uma facilidade na hora de se relacionar. Revolução pra mim é quebrar esse padrão, não se moldar. A gay que vai lá e se “padroniza” não tem interesse em implodir o padrão de beleza, faz isso porque está cansada de se sentir um corpo não desejável. 

O que você diria para um gay jovem que não tem se sentido a vontade com a própria aparência/corpo? 

É difícil para mim se colocar nessa posição. A gente lida com as mesmas questões de modos diferentes e não dá para refletir minha vivência na do outro. Como me foi pedido que diga alguma coisa, vou falar algo que vai soar meio clichê: 

João Vital - Reprodução
João Vital – Reprodução

TODO CORPO É PASSÍVEL DE SER AMADO E DESEJADO, MESMO QUE NOSSA SOCIALIZAÇÃO NOS FAÇA ACREDITAR QUE NÃO.

Eu sei que às vezes nos sentimos imensamente sozinhos, mas nós somos milhares, você é milhares. Não tenha medo de se sentir pequeno porque, depois, ser grande vai ser ainda maior. Lute e se agradeça por nunca fugir de você. Agradeça por ter se encontrado e confie que conquistar o mundo é ridículo perto da imensidão que você é. 

Para acompanhar João Vital no Facebook:
https://www.facebook.com/JoaoViital

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